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março 07, 2004
A.Campos -Aniversário...
Final do poema "Aniversário", iniciado na entrada anterior.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos, na loiça com mais copos,
O aparador com muitas coisas . doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado .
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Álvaro de Campos
Publicado por morfeu às março 7, 2004 10:21 AM
Comentários
Sempre gostei muito deste poema: o lamento , a raiva de não ter trazido um pedaço dessa infância na algibeira! Hoje...não faz anos...apenas "dura"...como um ogjecto; tal como nós dizemos de uns sapatos:" duraram -me 3 anos -, até que se gastaram"
Há tanto a dizer sobre este poema! No tempo em que eu fazia anos, também havia muitas pessoas que eu amava, e que estavam vivas: hoje já não existem ; apenas existem na minha memória!
Tenho pena, quando "dou" este poema, que os meus alunos não o saibam apreciar devidamente, Talvez um dia...mais tarde...
Publicado por: whiteball em março 7, 2004 01:08 PM
...os alunos seguramente ainda fazem anos...muitas vezes de tipo consumista...
...obviamente eu gosto de A.Campos: por vezes identifico-me, por vezes admiro-lhe o verbo, outras a hiper-sensibilidade, afinal o génio...
...não sei muitas vezes se valerá interpretar poesia...penso que sim, porque senti-la não chega para captar toda a sua pujança...cada frase deste e de muitos outros poemas dariam seguramente para tertúlias interpretativas...
Os nossos alunos, e muitos de nós, padecem da droga do imediato: ou se compreende - tipo letra pimba - imediatamente e se tem um gozinho ao de leve, ou dá muito trabalho...não sei como combater esta situação...
morfeu
Publicado por: em março 7, 2004 01:30 PM