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março 15, 2004
Que fizeste do teu irmão?...
...Seria bom lembrar G. E. Lessing, um filósofo da religião nascido em 1729. Na sua obra- prima, "Natan, o Sábio", um poema dramático sobre a tolerância, tem como protagonistas o muçulmano Saladino, o Templário cristão e o judeu Natan. Saladino, sultão de Jerusalém, quer acabar com a história de violência entre as três religiões. Sente que para conseguir a paz tem de esclarecer, previamente, uma questão teológica: como é que cada uma das três religiões monoteístas pretende ter a verdade em exclusivo? Saladino entende que tanto ele como o Templário cristão têm a religião dos seus antepassados e muito mais não se pode exigir de um político e de um militar que eles são. Mas se Natan é um sábio, deve ter alguma razão para saber que a sua religião é a verdadeira. E se a sua razão for boa, os outros poderão entendê-la. Daí a súplica do muçulmano ao judeu: "Dá-me a conhecer as razões da tua divina 'eleição'." Natan respondeu com uma célebre narrativa, a "parábola dos três anéis", que circulava entre os judeus medievais espanhóis e que já encerra as razões da tolerância moderna. Ei-las: antes de ser judeu, muçulmano ou cristão, somos homens e ninguém possui a verdade em exclusivo. O próprio do homem não é possuir a verdade, mas procurá-la e não há outro critério para conhecer a verdade em assuntos relativos à moral e à política senão mediante o reconhecimento que os outros nos concedem.
Natan tornou-se o protótipo do homem moderno, isto é, do homem ilustrado, aberto à fraternidade universal. Viu-se, depois, no internacionalismo de Natan e dos seus seguidores uma ameaça ao patriotismo, a virtude maior dos novos tempos. Um dos livros mais procurados pelos nazis foi, precisamente, "Natan, o Sábio". O ninho da intolerância já não era a religião, mas o nacionalismo.
3. Hoje, laicos e religiosos de todas as denominações estão confrontados com um problema que se arrasta: uma minoria de seres humanos está sentada à mesa farta, enquanto grande parte da população está à porta, doente e esfomeada. Os laicos dos países ricos entretêm-se com as ameaças das religiões, em vez de se preocuparem com a ameaça da pobreza. Os religiosos dos países capitalistas festejam o fracasso das ideologias ateias. Alguns dirigentes confessam-se muito cristãos e vivem em conivência com os governantes corruptos e os magnatas dos países prostrados na miséria. Tanto a laicidade como as religiões podem tornar-se figuras da alienação. Segundo a graça do Evangelho, não é pela laicidade ou pela religião que a história e Deus nos julgarão, mas pela resposta à pergunta: "Que fizeste do teu irmão"?
In público, 1/02/004
Frei Bento Domingues
Publicado por morfeu às março 15, 2004 08:55 PM
Comentários
Há alguma coisa de cruzada nalguns blogs. Uma cruzada de novo tipo, decerto. A arte sublime da partilha.
Passar, eu passo. Mas detenho-me sempre um pouco...
Um abraço.
Publicado por: OrCa em março 16, 2004 01:08 AM