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maio 11, 2004
A queda das estrelas...

Por que razão perscrutamos com uma curiosidade mórbida as ligações, rupturas, dores dos que chamamos stars? É que estes seres fora do comum a quem basta aparecer para serem e que reconhecemos mesmo não os conhecendo, estes seres que nenhum tabu, nenhum excesso afecta, só são venerados para de seguida serem reduzidos a um estatuto comum. Congregando neles a maior quantidade de desejo social, deveriam ter por função retirar-nos ao império da monotonia; mas isso não os preocupa a não ser para melhor o confirmar. E a imprensa do coração talvez não existisse a não ser para assegurar aos seus leitores, para lhes garantir a ideia que príncipes, vedetas de cinema e do espectáculo são as reincarnações ambivalentes da felicidade, de um ideal que se afadigam em realizar. Daí o nosso deleite amargo por os vermos atingidos pelos mesmos males que nos afligem.
Estes happy few destinados a sublimar o nosso destino, arrancar-nos às preocupações ridículas, às nossas infelicidade insignificantes, provam-nos que nenhuma casta ou classe superior conhece a bem-aventurança, apanágio dos deuses. (.)
Enfim, uma secretária pode ter a vida tumultuosa e agitada de uma princesa e esta levar a existência recatada e prosaica de uma dona de casa. Este é o processo democrático: as orgias e os excessos licenciosos dos antigos monarcas são portanto acessíveis a qualquer um. Através das indiscrições dos meios de comunicação, verificamos com espanto e tristeza que essas pessoas não têm uma essência diferente da nossa: no que esses mesmos meios constituem também máquinas de travar o desejo e preenchem apesar da sua futilidade um papel fundamental. Do seu panteão de falsos dourados, a star escapa possivelmente ao anonimato mas sucumbe tal como nós à confusão, à solidão, à idade (o desaparecer progressivo da beleza nas actrizes sumptuosas é uma figura de retórica obrigatória num certa imprensa que a impõe com um sadismo doloroso).
Elegemos as stars como os políticos e apagamo-las com a mesma indiferença e versatilidade. O nosso apetite pela bisbilhotice, pelos pormenores não tem a sua origem, como se diz, na alienação e no despojamento. O culto da celebridade pesa directa e contraditoriamente nos progressos da igualização democrática.
Lido em: .Euforia Perpétua., Pascal Brukner, ed.Público, colecção Xis
Publicado por morfeu às maio 11, 2004 07:11 PM
Comentários
O tema promete. Vou ler logo que puder. Depois de acabar as "Viagens da Parrachita" pela Ásia para descomprimir. Obrigado pela sugestão.
Dinkie
Publicado por: em maio 11, 2004 11:29 PM