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maio 12, 2004
Um terror delicioso...

O «medo», afirmava Edgar A. Poe, «é um sentimento que os homens gostam de provar quando estão certos de estar em segurança». A instauração da banalidade no Ocidente ter-nos-á gratificado com duas categorias literárias inéditas, o policial e o fantástico. Brotam quando termina a era dos milagres próprios da Idade Média, como força de ruptura num universo abandonado pela magia e pelos deuses e já submetido à disciplina do trabalho, à ciência e à técnica. É assim que livros e filmes de horror funcionam infectando o espaço: este era mágico nos contos de fadas, no futuro passa a estar envenenado. O banal torna-se horrendo, completamente animado por poderes ocultos, por ameaças reais.
Seria preciso ainda distinguir a narrativa policial clássica que relata a erupção da desordem numa sociedade policiada e o seu apagamento perante o romance negro que se une ao curso de um mundo integralmente caótico onde justiça e claridade deixaram de existir. A este respeito a cultura americana inventou dois géneros inéditos: o western que está para além da lei, o filme pessoal que se encontra fora da lei ou a sue lado. Por um lado, selvajaria de uma humanidade nas fronteiras da civilização; barbárie da selva urbana e dos meandros sociais, por outro.
Tanto no fantástico como no policial vibramos sem consequências nocivas, sem riscos. Bem sentados numa cadeira, sem preocupações, deleitamo-nos com as abominações que nos garantem: prazer do reconhecimento e de estar em terrenos familiar. Este culto do atroz é no entanto um culto de pantufeiros. Nós só aceitamos tremer porque sabemos estar a salvo, sucumbimos ao conforto do terror e esse terror controlado canaliza aqueles outros que habitualmente nos assaltam. Ter medo para aprisionar o medo, tal é a volúpia do romance negro, do filme de terror.
Estas ficções mórbidas têm pelo menos o seu quê de positivo ao contrário das nossas mitologias actuais, não dissimulam nem o mal nem a morte, pelo que com razão lhes podemos assinalar uma conotação religiosa. Temo necessidade, durante os períodos de calma, de olhar o horror de frente, de saber o que se trama por detrás do cenário demasiado ponderado das nossas vidas. (.)
Mas regressado à vida civil, o espectador, o leitor permanece assediado por todos estes medos que brotaram do ecrã ou de entre as páginas e que tinham sido provisoriamente exorcizados. Acompanham-no, puxam-lhe pela manga, sugerem-lhe que o poderiam talvez atirar na verdade para o mundo real. Pois a domesticação do horrível pela vida artística é frágil: é à plena luz do dia que germinam as maldições, que formigam os monstros e os assassinos. É preciso então retomar o caminho das salas obscuras, mergulhar numa outra intriga diabólica, injectar-se com outra dose de terror a horas certas, a fim de esconjurar todos os poderes maléficos que pululam nos interstícios do conforto e da passividade.
Lido em: .Euforia Perpétua., Pascal Brukner, ed.Público, colecção Xis
Publicado por morfeu às maio 12, 2004 11:28 PM