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maio 21, 2004
Leio até me doerem os olhos o livro de Cesário Verde

Foto de Morfeu
Ao entardecer, debruçado sobre a janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me doerem os olhos
O livro de Cesário Verde.
Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas pessoas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos.
Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem não anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros.
Alberto Caeiro (Pessoa: 1888-1935)
Publicado por morfeu às maio 21, 2004 05:33 PM
Comentários
muito bonito...ainda assi o meue stilo é mais perto de Alberto Caeiro! A Natureza...o andar pela mão das estações, o saber que a sárvores estão lá e que não têm metafísica nenhuma...Cesário sempre se dividiu entre o campo e a cidade!Faz críticas a essa mesma cidademas...prefiro Caeiro.
Mas foi uma boa escolha, esta: parabéns
Abraço, WB
Publicado por: whiteball em maio 22, 2004 12:04 AM
imaginem como seria se Cesário estivesse a passear nas nossas actuais cidades... talvez Fernando Pessoa o lesse da mesma maneira?
O poema é de uma lucidez estonteante, não pela beleza métrica, nem pelo aconchego imagético, mas sobretudo pela simplicidade ... da intuição do poeta.
No início, achei a fotografia um pouco deslocada do contexto, mas depois percebi que o por do sol poderia ser o remate do próprio poema. E a fotografia não me deixou triste...só um pouco as nuvens... en passant
Dinkie
Publicado por: em maio 22, 2004 12:16 AM