« Da incontornável cultura do Beijo... | Entrada | Por aqui passam os meus mundos, em troca inevitável »
maio 28, 2004
...e viram como os oito mastins esburgavam os ossos de...

Sugiro que se leia a entrada de 25/05, "Assar-lhe até a memória"
Nicolasa chorou um mês seguido antes de se convencer que a sorte dos amores é efémera. Manolo Cabra, garantira o Padre Mestre, andava a monte e planeava fugir para o Brasil.
Este Elias Padre Mestre, primo dos padeiros de Casdemundo, era funcionário menor na secretaria do tribunal de Ourense e aproximadamente o único de todos os Dorribos do município de Pereiro de Aguiar que sabia mais alguma coisa do que ler, escrever e contar, o que lhe valia uma aura inexpugnável de bacharel. A sua ciência formara-se em três anos de seminário, onde aprendera o castelhano da burocracia e a disciplina das putas ao fim-de-semana. Acabava de compor a figura jogando naipes como ninguém. (.)
Pejerto acordou-o a meio do sono com a história do andaluz. O Padeiro Velho pedia conselho.
(.)
O ex-seminarista vestiu-se e desceu à rua. Pejerto, um gigante de modos tímidos, torcia a boina, não atinando com a melhor maneira de relatar aquela estupenda vingança. Por fim experimentou:
«O primo havia de ver como foi.»
«Como foi o quê?»
«O Ruperto. Matou o Cabra.»
(.)
Era então assim: o andaluz, um Manolo Cabra ganhão e músico, metera-se com Nicolasa, e o irmão Ruperto levara tão a mal que lhe tinha feito uma espera, derrubando-o a golpes de foicinha.
«Onde o enterraram vocês?», perguntou Elias.
«Não enterrámos», disse Pejerto com a sua voz escura. «O Padeiro Velho ficou a assá-lo no forno.»
Dagoberto, o do meio, trinchara a cabeça do ganhão e lançara-a na nitreira depois de a esmigalhar à pazada. A ele, o mais novo, haviam-no despachado para o Pereiro a falar com o primo. Fazia-se luz no entendimento do homem dos tribunais: Ruperto Dorribo queria ganhar tempo à justiça ou mesmo impedi-la de se pôr em marcha.
O Padre Mestre devia tantos favores ao Padeiro Velho que não se lembrava de nenhum em particular, mas eram pesos de balança na sua consciência. Teve uma súbita inspiração:
«Vais contar que ele anda fugido. Dizes ao teu irmão Ruperto que é o que consta aqui no Pereiro: o tipo sonha escapar-se para o Brasil, onde tem parentes. Mais logo apareço em Casdemundo. Quando o bicho estiver na mesa.»
Pejerto carregou esta informação com o mesmo desvelo que empregaria em transportar um favo de colmeia. Ruperto e Dagoberto fizeram-no repetir as palavras do primo Elias, depois sentaram-se cada um no seu mocho e viram como os oito mastins esburgavam os restos dos ossos de Manolo Cabra, amante atrevido. Pejerto continuava a pensar que teria sido bonito capar o morto.
À tarde chegou o Padre Mestre, com a gola da jaqueta besuntada de suor e creme para o cabelo e um Farias aceso na boca. Dagoberto foi buscar as taças mais o pichel.
«Quer o primo dizer», disse Ruperto, «que o malvado se safou sem a gente lhe dar umas boas porradas.»
«Não tarda está a escrever de lá, só para se gabar que é esperto», confirmou o Padre Mestre.
Foi exactamente assim que o termo de Pereiro de Aguiar apagou da lembrança Manolo Cabra, fornicador de donzelas, e ágil tocador de concertina. Por altura do Advento, devidamente instruído pelo Padre Mestre, um paisano respondia da cidade da Bahia de Todos os Santos a dar novas do foragido: sob suspeita de ser o receptador de uma quadrilha crioula que começara a operar na Rua Chile e imediações, prejudicando a praça comercial, fora detido, interrogado e intimado com uns croques a exilar-se para as terras do cacau, onde faziam lei os jagunços do coronel Ramos Amado. O seu rasto perdera-se em Auricídia.
Nicolasa, que já secara a torrente das lágrimas, tomou-se de brios e no Entrudo desposou um vizinho afiador que seis semanas depois partia para Portugal, deixando-a grávida de Benito.
Fernando Assis Pacheco, "Trabalhos e Paixões de Benito Prada" - Asa Edições
Publicado por morfeu às maio 28, 2004 11:18 PM