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junho 26, 2004
Recordações da casa dos mortos...
Não me lembro como arranjámos o Branquinho.era um animal estranho. Uma carroça passara-lhe por cima e deformara-lhe de tal modo a espinha que, de longe, vendo-o correr, dir-se-ia dois animais, presos um ao outro. Além disso tinha sarna, olhos remelosos e rabo pelado constantemente pendente. Maltratado pelo destino, resignara-se ao silêncio. Nunca rosnava nem ladrava a ninguém, como se tivesse medo de ser ouvido.
Vivia sobretudo de pão, atrás das casernas, e mal via algum dos nossos, ao longe, apressava-se a demonstrar-lhe sua amizade e deitava-se de costas, como se dissesse: «Faz de mim o que quiseres! Vês? Não me defenderei!» E todos os forçados diante dos quais ele procedia assim se julgavam na obrigação de lhe aplicar um pontapé! «Oh, bicho imundo!» Mas o Branquinho não cometia a tolice de se queixar. Limitava-se a soltar um gemido lamentoso, logo abafado, se a dor era muito forte. O Branquinho dava as suas cambalhotas diante do Gorducho ou de qualquer outro canídeo que tentava a sorte atrás da fortaleza. Agachava-se humildemente, até mesmo quando algum grande mastim se atirava, rosnando, a ele. É de crer que os cães gostam da humildade e do respeito, entre os seus semelhantes, pois o mastim agressivo apaziguava-se logo, desconfiado, e parava diante do humilde animal estendido a seus pés, de patas para o ar. Depois, lentamente, curiosamente, começava a farejá-lo, por todos os lados. «Este matulão irá morder-me?», talvez pensasse, todo trémulo, o Branquinho. Mas, depois de o farejar com cuidado, o mastim abandonava-o, como se não tivesse encontrado nele nada que fosse digno da sua curiosidade. O Branquinho levantava-se logo e, manquejando como podia, lá ia com os outros cães atrás de uma cadela qualquer. Antecipadamente convencido de que jamais travaria conhecimento íntimo com ela, isso não o impedia de a seguir de longe, como se tal procedimento lhe servisse de consolação. Quanto à sua noção de honestidade, era muito vaga. Tendo renunciado a toda a esperança de futuro, contentava-se com encher a barriga e mais nada. Uma vez, tentei acariciá-lo. Foi para ele uma experiência tão nova, tão inesperada, que se estendeu no chão, com as quatro patas abertas ao mesmo tempo, e, todo trémulo, soltou um ladrido de satisfação. Compadeci-me e passei a fazer-lhe festa mais amiúde. Por isso, mal me via de muito longe, começava a soltar queixumes chorosos.
Fedor Dostoievski. .Recordações da casa dos mortos.. Edit. Europa-América
Publicado por morfeu às junho 26, 2004 12:16 AM
Comentários
Dostoievski conhecia muito bem e como poucos a natureza humana. Os cães por vezes são em regra mais simples mas muitas vezes os humanos não são deles muito diferentes. Um pouco de mimo pode ajudar a resolver a tragédia de uma vida... mesmo de cão.
Dinkie ( que é nome de cão, emprestado para efeitos de blogue)
Publicado por: em junho 27, 2004 10:16 AM