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junho 29, 2004

Da casa dos Mortos, Recordações...

O Cambaio possuía um temperamento muito diferente. Não sei porque o levei para o presídio, um tarde, ao regressar da oficina onde ele nascera.

Sentia prazer em alimentá-lo e criá-lo. O Gorducho tomou-o logo sob a sua protecção e passou a dormir com ele. Com o tempo, consentia, até, que lhe mordiscasse o pêlo e as orelhas e brincava com ele, como o cães grandes costumam brincar com os cachorrinhos. Coisa estranha, o Cambaio quase não crescia em altura, mas somente em comprimento e em largura. Tinha um abundante pêlo cinzento, uma das orelhas pendentes e a outra erecta. Parecia-se com todos os outros cães novos que, alegres por verem o dono, desatam a ganir, a saltar para lhe lamberem a cara, a alardear diante dele todo o seu ardor e entusiasmo: «Desde que a minha alegria não passe despercebida, as conveniências não contam!» Fosse onde fosse que me encontrasse, se chamasse o Cambaio, ele aparecia logo aos saltos, a ganir desalmadamente, e atirava-se a mim, como uma bola a saltar e a ressaltar no caminho. Tomei-me de grande afecto pelo monstrozinho, a quem a sorte parecia ter criado somente para a vida boa e a alegria. Mas um belo dia, por infelicidade sua, despertou a atenção especial do forçado Nieustruiev, que fazia sapatos de mulher com peles por ele curtidas. O nosso homem chamou o Cambaio, apalpou-lhe o pêlo e afagou-o a contrapelo.Sem desconfiar de nada, o Cambaio gania de prazer. Na manhã seguinte desaparecera! Procurei-o por toda a parte, sem o encontrar, e só soube a verdade passados quinze dias. A pele do Cambaio agradara muito a Nieustruiev, que o esfolara para forrar, com ela, uma botinas de veludo encomendadas pela mulher do auditor do conselho de guerra. Mostrou-mas, quando as acabou. O seu interior era uma maravilha. Pobre Cambaio!

Fedor Dostoievski. .Recordações da casa dos mortos.. Edit. Europa-América

Publicado por morfeu às junho 29, 2004 12:48 AM