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junho 30, 2004

Viva São Pedro!

O meu irmão Z. enviou-me, timoratamente uns contos que tem andado a esconder...tomo a liberdade de lhos roubar...
Aqui vai o primeiro...

VIVA SÃO PEDRO!

Hoje é dia de S. Pedro... e, já agora, também de S. Paulo, embora pareça que deste ninguém se lembra!

Mas o que é que isto tem de especial? Acho que nada, se pensarmos que todos os dias têm um Santo, ao qual podemos dedicar as nossas preces.

Mas, como há Santos que mais santos são do que outros, a verdade são que S. Pedro entra no rol dos que foram privilegiados pela memória popular.

Então, para mim, o S. Pedro supera todos, mesmo o S. António e o S. João, apesar dos festivais de sardinha assada e outras folias que estes últimos nos trazem, sem falar nuns feriaditos, pois claro!

Volto à carga: - para mim o Santo dos Santos é mesmo o S. Pedro e desta não abdico.

Porque me recorda tantas coisas e foi fonte de inspiração para algumas decisões, talvez controversas, mas que não houvera tomado se o santinho não me viesse à cabeça!

Miúdo de escola, do velho Vilar Formoso . o do Povo pois a Estação é outra coisa . era neste dia que todos os anos se fazia uma espécie de tourada, com .touros. especialmente vindos da planície adjacente, de terras de Castela, dos pastos de Ciudad Rodrigo ou coisa semelhante, de ali bem perto com certeza.

Então, nós os miúdos colaborávamos, com a nossa fraca força braçal, no transporte e colocação dos carros de bois que iam servir de delimitação da praça e era uma festa ir buscá-los aos currais e ver os mais graúdos dirigir as operações, de forma superiormente estratégica!

No dia da tourada e de S. Pedro, os mancebos montavam, de noite, os seus cavalos e ala que aí vão eles, transpondo a fronteira e .roubando., pela calada da noite, uns touritos distraídos nos pastos de Castela e que, mais tarde, iam devolver!

Destarte, de manhã já os animais ruminavam, no artesanal curro da praça, que raio de coisa estavam alí a fazer, pois nem lhes cheirava a existência de Manoletes por aquelas bandas!

Mas a festa fazia-se na mesma, com os amadores que às donzelas . naquele tempo havia, julgo eu . mostravam a sua viril coragem, enquanto estrelejavam foguetes e a banda tocava.

Entretanto, a miudagem metia-se debaixo dos palanques, formados por tábuas intervaladas, em ousadas tentativas de assim vislumbrar umas nesgas das pernas das raparigas.

A brincadeira às vezes saía cara, pois, no dia de escola seguinte, era sabido que nos esperavam umas palmatoadas, porque as visadas iam fazer queixinhas ao Sr. Professor, quando não também ao Sr. Abade... o que dava direito primeiro a uma lambada e depois a uma severa confissão, com ameaça de inferno e tudo!

Eu não era dos que mais prevaricava, não senhor, tanto mais que, nesse dia, sentia que tinha um encargo especial, que era o de .vigiar. as andanças do avô Jaime, .el guardita retirau. como ele bonacheirosamente gostava de se intitular.

Esse era o dia por ele escolhido para a bebedeira-mor do ano, ele, coitado, que tinha duas mulheres sempre a controlar todos os seus actos e todos os seus míseros tostões (A mulher e a filha, que Deus lhes perdoe e lhes dê eterno descanso).

Mas, nesse dia, não havia grilhetas que o impedissem de proclamar a sua liberdade e afundar as suas mágoas nos copos das tabernas, recordando-me que, ao tempo, existia uma logo abaixo do adro da Igreja.

Eu ficava apavorado, tentava demovê-lo, arrastá-lo até para casa, mas não havia força que o impedisse de assim comemorar o S. Pedro!

Daí que, com os copitos, revia-se nos tempos de garboso mancebo . e ele era garboso e são e meigo e jovial e melancólico, tudo ao mesmo tempo e especialmente de uma envolvente doçura . e ei-lo a entrar na praça, a tentar sortear o touro, enquanto eu o agarrava desesperadamente o melhor que podia!

Era uma festa, o S. Pedro e um dia de grande responsabilidade para mim, podem acreditar!

E que saudades sinto hoje desse .guardita retirau., que gostava de saber como ia o mundo e as suas guerras e que, por isso, tantos jornais enviei (mesmo muito atrasados), já nos meus tempos de jovem .lisboeta., que tanto prazer me dava quando me pedia, nas férias, um cigarro de .cu aberto.! E eu que já não consigo lembrar-me de que raio de cigarros se tratava!

Pois era assim o S. Pedro, em Vilar Formoso, com a banda a desfilar pelas ruas, com intervalos para molhar a palavra . recordo-me de o fazerem também na casa da tia Olinda, apesar de tão humilde . eu a correr atrás das canas... etc. etc. etc.

Sinto saudades, feitas de uma mistura de momentos felizes com outros que me recordam uma infância vivida um pouco ao Deus dará e por isso pouco alegre.

Muitos outros S. Pedros se seguiram, perdi o rasto aos festejos de Vilar Formoso, nem sei sequer se ainda é dia comemorado.

As touradas serão outras, provavelmente, com bimbalhadas à maneira ....

No entanto, o S. Pedro não deixou de ser motivo inspirador.

Daí que tenha estado na génese de uma .façanha., passe o termo, vivida há precisamente 37 anos em terras da Guiné (Vejam lá como já vai vetusta a minha idade

Z...

Publicado por morfeu às junho 30, 2004 06:51 PM

Comentários

comovente! gostva de ouvir mais algumas. Confesso que conheci o homem e do que melembro dele, além do que ouvi contar, era também um santo. Um dia conto-vos a história do "peido" mestre. Juro que é verdade. mas tenho de embelezar a história...ois era meu avô. E estas coisas podem gerar sensibilidades...
Dinkie

Publicado por: em julho 1, 2004 01:08 PM

As garraiadas de São Pedro podem não ser as mesmas, mas as festividades continuam vivas com novas tradições. Convido-o e ao seu irmão a restabelecer contacto com as tradições VilarFormosences e Visitar Vilar Formoso na semana de 9 a quinze de Agosto. E procurar o Clã Cepa Torta. Poderá obter mais informações das festas Vilar Formosences em http://www.clacepatorta.com
Abraços Beirões

Publicado por: Clã Cepa Torta em julho 26, 2004 10:28 AM

Enquanto membro do Clã Cepa Torta e natural desta Vila, reconheci através deste conto um sentimento de saudade que tb.a muitos de nós, que partimos, nos persegue.
Assim é a minha obrigação comunicar-vos e transmitir-vos que espirito de Vilar Formoso foi rejuvenecido,através das tradições das Festas De N. Sra. da Paz, que tb. na vossa altura eram comemoradas.
Só não percebo porque perderam o contacto com as vossas origens!?
Nunca é tarde e julgo que era importante voltarem cá e reviver essas tradições!
Estaremos ao V/ dispôr!
Saudações Barroquenhas!

Publicado por: pedro duarte em julho 26, 2004 10:53 AM

Eu e mais 8 amigos representamos o Povo, que está precisamente para servir toda a gesnte que nas Festas da Sr. da Paz em meados de Agosto nos Vesite, somos aficionados de longa data ou seja desde pequeninos, pois aqui no Povo o espiritou Taurino nunca saiu do nosso espirito aliás foi reforçado nos ultimos anos com a avalanche de gente ecom esta fulia toda recomendamos vivamente a virem recordar velhos tempos entre os dias 10 a 15 de Agosto, não se arrependirão. Abraços do Povo.

Publicado por: Luis Manuel Reinas Araújo em julho 30, 2004 11:25 AM

Foi com grande emoção que li e reli esta história. Passados tantos anos, revivi o sentimento adormecido de uma infância idêntica. Nada é como era, mesmo com as grandes festas de Agosto! Hoje são multidões, grandes espectáculos, muito trabalho e muito dinheiro envolvido. Antes eramos felizes com tão pouco...essa simplicidade...que saudades! Fui uma mordoma da NªSra.da Paz em meados dos anos noventa, e desde então que as festas progrediram no bom sentido, mais animação e mais companheirismo...só tenho que elogiar a todas as penhas que animam todos os anos estas festas e principalmente ao Clã Cepa Torta. Faz muitos anos que "saí" de Vilar Formoso, e ninguém pode imaginar a felicidade que é para mim, poder reviver "velhos" tempos através de histórias como a que acabei de ler. Os meus parabéns!!!
Uma arraiana desaparecida...

Publicado por: misterio em agosto 14, 2004 04:01 AM