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julho 02, 2004

Os gansos do presídio foram degolados...


Foto: normazaro

Os nossos gansos tinham-se instalado na fortaleza por acaso. Quem os criara? A quem pertenciam, na realidade? Não sei bem, mas durante algum tempo divertiram os forçados e deram que falar até na cidade. Nascido no presídio, tinham-nos deixado crescer numa das cozinhas. Já adultos, habituaram-se a acompanhar-nos, todos, à corveia. Mal o tambor rufava e os forçados formavam, os nossos gansos corriam para eles, a grasnar e a tufar as penas. Saltavam, uns atrás dos outros, a soleira alta da poterna e iam, açodados, colocar-se à frente da fila, onde aguardavam os preparativos da escolta. Partiam sempre com o contingente maior e, durante a corveia, debicavam nas imediações. Quando os forçados se preparavam para o regresso, juntavam-se-lhes de novo. Espalhara-se por toda a parte a notícia de que os forçados iam para o trabalho acompanhados de gansos, e os transeuntes, vendo o estranho grupo, diziam: «Olhem, os presos e os seus gansos! Como os conseguiram criar?» E outro acrescentava, estendendo-nos uma esmola: «Tomem, para os gansos.» Mas, apesar da sua dedicação, foram todos degolados sem piedade, no fim da Quaresma.

Fedor Dostoievski. .Recordações da casa dos mortos.. Edit. Europa-América

Publicado por morfeu às julho 2, 2004 11:43 AM