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julho 03, 2004
A águia aprisionada...

Durante algum tempo, também tivemos uma águia das estepes, de pequena envergadura. Fora levada para o presídio não sei por quem, ferida e em muito mau estado.
Todos os forçados a foram ver, porque já não podia voar. A sua asa direita pendia, inerte, e tinha uma das patas dilaceradas. Ainda me parece ver o ar furioso como olhou a turba reunida à sua volta. De bico adunco entreaberto, via-se que estava disposta a vender cara a vida. Depois de a termos examinado, afastou-se a manquejar, saltitando só com uma pata e agitando a asa válida, na direcção do extremo mais distante da fortaleza, onde se aninhou contra a paliçada. Passou aí três meses inteiros, sem se mexer do seu canto. Ao princípio os forçados iam vê-la com frequência e atiçavam-lhe o Gorducho. O cão atirava-se à águia com fúria, mas era evidente que receava aproximar-se demasiado, o que divertia muito os reclusos. «Que bicho!», exclamavam, cheios de admiração. «Não deixa levar a melhor sobre ela!» Mas o Gorducho foi vencendo o medo e começou a atormentá-la a valer, mordendo-lhe a asa partida. A águia defendia-se com todas as forças, com o bico e as garras, e, como um rei ferido, apoiada ao seu canto, fitava altivamente, ferozmente, os curiosos. Por fim os forçados cansaram-se do espectáculo, abandonaram-na, esqueceram-na. No entanto, todos os dias se via junto da águia um pedaço de carne fresca e uma gamela de água: alguém se preocupava, apesar de tudo, dela. Durante alguns dias recusou-se a comer, mas depois passou a aceitar a comida, embora nunca das mãos de ninguém ou na presença fosse de quem fosse. Observei-a de longe, mais de uma vez. Julgando-se só, decidia-se a sair do seu canto e a manquejar uma dezena de passos, ao longo da paliçada, e a voltar, como se se tratasse de um passeio higiénico. De me descobria, precipitava-se, a manquejar cada vez mais, para o seu canto e, de cabeça erecta, bico aberto e plumagem eriçada, preparava-se para se defender. As minhas carícias foram inúteis. Nunca consegui domesticá-la: picava, debatia-se, recusava tocar na carne que lhe estendia e não deixava de me fitar com os seus olhos ferozes e penetrantes. Rancorosa e solitária, aguardava a morte, mas continuava a desafiar toda a gente, mantinha-se irreconciliável. Por fim, passados dois longos meses de esquecimento, os forçados lembraram-se da sua existência e o seu interesse revelou-se de uma maneira inesperada: combinaram soltá-la.
- O pobre bicho parece-se connosco! . exclamou um deles.
- Caramba, descobriste isso sozinho! No entanto, ela é um pássaro, enquanto nós.nós somos pessoas!
- A águia, meus filhos, é a rainha das florestas. - começou Skuratov, mas daquela vez ninguém estava de maré para o ouvir.
Uma tarde, quando o tambor rufou a anunciar a partida para o trabalho, apoderaram-se da águia, fecharam-lhe o bico com a mão, pois parecia disposta a debater-se e a picar, e levaram-na para o parapeito da fortaleza. Os doze forçados do pelotão estavam muito interessados em ver para onde iria. Caso singular, rejubilavam como se fossem eles que tivessem sido libertados!
- Oh, a maldita, queremos-lhe bem e ela morde-nos! . exclamou o que a segurava, contemplando quase com amor a feroz ave.
- Larga-a, Mikitka!
- Nem o diabo a conseguiria segurar! Quer a liberdade, a bela liberdadezinha!
Atirou-se a águia do alto do parapeito, para a estepe. O Outono chegava ao fim e o dia estava frio e cinzento. O vento assobiava nua e gemia entre os fetos altos e a erva ressequida. A águia afastou-se a direito, batendo a asa doente, como se tivesse pressa de fugir para o mais longe possível. Os forçados seguiram curiosamente a direcção da sua cabeça, que emergia por cima da erva.
- Já viram aquilo, hem? . murmurou um deles, melancólico.
- Julgavas que retrocederia para te dizer obrigado, não? . troçou outro.
- Sente a liberdade, adivinha o espaço!
- Sim, a liberdade!
- Já não se vê.
- Eh, vocês aí, que esperam? A caminho! . gritaram os soldados, e os forçados dirigiram-se, em silêncio, para o trabalho.
Fedor Dostoievski. .Recordações da casa dos mortos.. Edit. Europa-América
Publicado por morfeu às julho 3, 2004 10:54 PM
Comentários
espanto-me com a serenidade do narrador. Embora preso na Sibéria, parece que está numa reserva natural, escondido algures a fazer parte da paisagem, meio escondido, a observar, observar, observar...o movimento dos homens, como se não fosse sequer um no meio deles.
Notável esta história da águia. Parece que é mais banal que as outras anteriores mas não acho. Diria que a águia se foi embora cmo se nunca acreditasse que no inferno também se pode amar. Há pessoas assim, sempre de asa ferida...
Publicado por: em julho 3, 2004 11:22 PM
Ler este texto deu-me vontade de ler de novo o livro. Há seres assim, que aspiram sempre À liberdade e que nem feridos perdem a sua dignidade. Beijos
Publicado por: Pink Lady em julho 4, 2004 09:23 AM
"Recordações da Casa dos Mortos", é de facto uma obra notável!Dostoievsky cria de facto um distanciamento, e faz-nos uma espécie de "filme", fortemente psicológico dos personagens...porque escolho as histórias de animais,entre outros textos possíveis?Essencialmente pelo humano e desumano que nelas aparecem...o cão maltratado...o cão que desaparece para a pele ser utilizada para sapatos, a águia indomesticável,sequiosa de liberdade,que os presos libertam como se fora possível a sua libertação...
Há uma sensação de intimidade quando leio este livro...como se estivesse lá dentro e fizesse parte dos acontecimentos...
Releio agora, os Irmãos Karamazov e sinto o mesmo...irei utilizar alguns extractos dessa obra para colocar no blogue...
Morfeu
Publicado por: morfeu em julho 4, 2004 12:05 PM
Sempre brilhante nas escolhas...
Publicado por: Valeria em julho 5, 2004 03:40 AM