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julho 05, 2004
Karamazov pai...

(.) A propósito, eminente starets, lembro-me de que há três anos prometi
a mim mesmo vir aqui informar-me e descobrir a verdade. (.) Trata-se do seguinte: algures, nos Mensários, relatam que um santo taumaturgo, mártir da fé, depois de ser decapitado ergueu a sua cabeça e, beijando-a ternamente, a segurou nos braços muito tempo. É verdade ou não?
-Não é verdade . respondeu o starets.
(.)
Os Irmãos Karamazov, F.Dostoievsky, Ed. Círculo de Leitores.
Em especial não minta a si mesmo. Quem mente a si mesmo e escuta a própria mentira acaba por não discernir a verdade, e perde o respeito por si e pelos outros. Não respeitando ninguém, deixa de amar. E para se ocupar e distrair, à falta de amor, abandona-se às paixões e aos prazeres grosseiros. Vai até à bestialidade nos vícios, e tudo originado pela mentira contínua. O que mente a si mesmo pode ser o primeiro a ultrajar-se. Às vezes sentimos certo deleite em nos ultrajarmos, não é assim? Um indivíduo sabe que ninguém o ofendeu, mas que ele próprio é que forjou uma ofensa, deturpando o sentido duma palavra, fazendo dum montículo uma montanha. Sabe-o, e no entanto é o primeiro a insultar-se até experimentar com isso grande satisfação; e por aí chega ao verdadeiro ódio.mas não esteja de joelhos, vá sentar-se. Também essa atitude é falsa.
- Bem-aventurado! Consinta que lhe beije a mão.
- Fiodor Pavlovich ergueu-se e pousou os lábios nos dedos descarnados do starets (.eremita, mestre de reconhecida idoneidade e personalidade religiosa.)
- Tem razão, insultar-se dá prazer. Nunca ouvira exprimir isso tão bem! Sim, toda a vida senti prazer com as ofensas, por estética, pois ser ofendido não só causa satisfação como chega a ser belo! Eis o que esqueceu, eminente starets: a beleza! (.) Quanto a mentir, toda a vida o tenho feito, todos os dias e a toda a hora. Na verdade, spu a mentira e pai da mentira.estou a confundir os textos.digamos, filho da mentira. (.) A propósito, eminente starets, lembro-me de que há três anos prometi a mim mesmo vir aqui informar-me e descobrir a verdade. (.) Trata-se do seguinte: algures, nos Mensários, relatam que um santo taumaturgo, mártir da fé, depois de ser decapitado ergueu a sua cabeça e, beijando-a ternamente, a segurou nos braços muito tempo. É verdade ou não?
-Não é verdade . respondeu o starets.
(.)
Os Irmãos Karamazov, F.Dostoievsky, Ed. Círculo de Leitores.
(vd.pgs, 50/1)
Publicado por morfeu às julho 5, 2004 11:10 PM
Comentários
Quem me dera ter tempo para reler. Era demasiadamente jovem quando li este livro. Gostei, mas... Hoje seria apreciado de outra maneira. Mas a lista é enorme e o tempo é... implacável. Já agora, tentando não me alongar, confesso aqui que, há dias, passei por aqui e "fugi" cheia de remorsos. Explico: Quando eu era muito menina e moça, numa festinha com troca de prendas, calhou-me "Recordações da casa dos Mortos". Fiquei superdesiludida, a pensar que um livro com tal titulo devia ser chatérrimo, nem o nome do Dostoievsky me comoveu, se é que, na altura, sabia quem era. O livro ficou num canto. Mais tarde, entrou na sempre crescente e cada vez mais interminável lista de livros a ler...
Bem, o post sobre o dito fez-me pegar nele. Pode ser que... agora, pelas "vacances" que já aí estão.
Publicado por: Ana em julho 6, 2004 01:59 AM