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julho 07, 2004
Retrato de um homem invisível, P.Auster
Um dia há vida. Um homem, por exemplo, de perfeita saúde, nem sequer velho, nenhuma história de doenças. Tudo está como sempre esteve, como sempre estará. Ele passa de um dia a outro, não se ocupa de outra coisa senão dos seus assuntos, sonha apenas com a vida que tem à sua frente. E então, de súbito, acontece que há morte
Um homem solta um pequeno suspiro, afunda-se na sua cadeira, e é a morte. O carácter súbito desse facto não deixa o menor espaço ao pensamento, não dá à mente a menor hipótese de procurar uma palavra capaz de a confortar. A única coisa com que ficamos é a morte, o irredutível facto da nossa própria mortalidade. A morte depois de uma longa doença, podemos aceitá-la com resignação. Mesmo a morte acidental, podemos imputá-la ao destino. Porém, o facto de um homem morrer sem nenhuma causa evidente, o facto de um homem morrer simplesmente porque é um homem, deixa-nos tão perto da invisível fronteira entre vida e morte que não sabemos de que lado estamos. A vida converte-se em morte e é como se esta morte sempre tivesse sido dona e senhora desta vida. Morte sem aviso. O que é mesmo que dizer: a vida pára. E pode parar a qualquer momento.
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Recebi a notícia da morte do meu pai há três semanas.
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Durante quinze anos vivera sozinho. Obstinadamente, opacamente, como se fosse imune ao mundo. Ele não parecia ser um homem ocupando espaço, mas sim um bloco de espaço impenetrável sob a forma de um homem. O mundo fazia ricochete nele, estilhaçava-se contra ele, por vezes colava-se a ele . mas nunca entrava nele. Durante quinze anos assombrou uma casa enorme, completamente só, e foi nessa casa que morreu.
Paul Auster
Inventar a Solidão, Asa literatura
(traduzido do inglês . ©1982 . por José Vieira Lima)
Publicado por morfeu às julho 7, 2004 11:17 PM