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julho 08, 2004
Retrato de um homem invisível, II, P. Auster
Sempre um homem de hábitos, saía cedo para o trabalho, trabalhava durante todo o dia e depois, quando voltava para casa (nos dias em que não fazia serão), dormia uma breve sesta antes do jantar. Durante a nossa primeira semana na casa nova, quando ainda não estávamos completamente instalados, o meu pai cometeu um curioso tipo de lapso.
Em vez de seguir para a casa nova depois do trabalho, foi directamente para a casa velha como fizera durante anos, parou o carro no caminho da casa, entrou pela porta das traseiras, subiu as escadas, entrou no quarto, deitou-se na cama e adormeceu. Dormiu cerca de uma hora. Desnecessário será dizer que a nova dona da casa ficou um tanto ou quanto surpreendida quando encontrou um desconhecido a dormir na sua cama. (.) A confusão acabou por ser esclarecida e toda a gente se riu a bom rir. Ainda hoje esta história me faz rir. E no entanto, apesar de tudo isso, não posso deixar de vê-la como uma história patética. Uma coisa é um homem meter-se no carro e ir para a sua antiga casa por engano, outra coisa, creio, é esse homem não reparar que alguma coisa mudou dentro dessa casa. Mesmo a mente mais cansada ou distraída possui algures um recanto de pura reacção animal e pode dar ao corpo uma noção do sítio onde se encontra. Uma pessoa terá de estar quase inconsciente para não ver, ou pelo menos para não sentir, que a casa já não era a mesma. «O hábito», como diz uma das personagens de Beckett, «é um grande anestésico». E se a mente é incapaz de reagir aos dados físicos, que fará quando confrontada com os dados emocionais?
Paul Auster
Inventar a Solidão, Asa literatura
(traduzido do inglês . ©1982 . por José Vieira Lima)
Publicado por morfeu às julho 8, 2004 07:43 PM