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outubro 27, 2004

QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS...


Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade


Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

Natália Correia
in "O Nosso Amargo Cancioneiro"

PS: Tentei arranjar a versão musicada por José Mário Branco...algém me pode ajudar?...

Morfeu

Publicado por morfeu às outubro 27, 2004 11:12 PM

Comentários

hombre,

o poema está mais que "musicado"....

cuidado é com a censura q anda por aí ;)

1 abraço

Publicado por: GolfinhU em outubro 28, 2004 12:28 AM

gosto muito de Natália, é sempre um prazer recordá la

Publicado por: Luna em outubro 28, 2004 09:55 PM

O poema que já cito e gosto de cantar há anos. Tem uma grande história para mim.
Naquele tempo, havia um programa na rádio feito pelo Manuel Tomás, pelo Carlos Albuquerque e pelo José Albino que passava às 00h00 na R.R., chamado " Limite". Raro era o dia em que a música não passava, juntamente com " O Charlatão", ambos divinamente interpretados pelo Zé Mário. Foi bom recordares isto, obrigado.

P.S.: Sobre a música o que é que pretendes?
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Um abração do
Zecatelhado

Publicado por: Zecatelhado em outubro 30, 2004 06:46 PM