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novembro 14, 2004
Ossos e cabeleira

(…) No terceiro nicho do altar-mor, do lado do Evangelho, (…) A lápide saltou em pedaços à primeira pancada do alvião e uma cabeleira viva, de uma intensa cor de cobre, espalhou-se para fora da cripta. O mestre-de-obras quis retirá-la completa com o auxílio dos seus operários, mas quanto mais puxavam, mais comprida e abundante ia surgindo, até saírem as últimas madeixas ainda presas a um crânio de criança. No nicho não ficaram senão uns ossitos pequenos e dispersos e na lápide de cantaria carcomida pelo salitre apenas era legível um sem apelidos: Sierva Maria de Todos los Angeles. Estendida no chão, a esplêndida cabeleira media vinte e dois metros e onze centímetros.
(…) O histórico convento das clarissas, transformado em hospital há já um século, ia ser vendido para construírem em seu lugar um hotel de cinco estrelas. A capela estava quase exposta às intempéries devido à progressiva queda do telhado, mas nas suas criptas continuavam enterradas três gerações de bispos, abadessas e outras pessoas importantes. A primeira coisa a fazer era desocupá-las, entregar os restos a quem os reclamasse e atirar o restante para a vala comum.
Surpreendeu-me o primitivismo do método. Os operários destapavam as sepulturas com alvião e enxada, tiravam os caixões apodrecidos, que se desfaziam mal se lhes tocava, e separavam os ossos da argamassa de pó com farrapos de pano e cabelos baços. Quanto mais ilustre era o morto mais difícil se tornava o trabalho, porque era preciso esgravatar nos restos dos corpos e peneirar finamente os resíduos para recuperar as pedras preciosas e as peças de ourivesaria.
O mestre-de-obras copiava os dados da lápide num caderno escolar, arrumava os ossos em montes separados e colocava a folha com o nome em cima de cada um para não se confundirem. A minha primeira visão ao entrar no templo foi uma longa fila de montículos de ossos, aquecidos pelo violento sol de Outubro que entrava a jorros pelos buracos do tecto e sem outra identificação para além do nome escrito a lápis num pedaço de papel. Quase meio século depois ainda sinto a perturbação que me causou aquele terrível testemunho da passagem arrasadora dos anos.
(…) No terceiro nicho do altar-mor, do lado do Evangelho, (…) A lápide saltou em pedaços à primeira pancada do alvião e uma cabeleira viva, de uma intensa cor de cobre, espalhou-se para fora da cripta. O mestre-de-obras quis retirá-la completa com o auxílio dos seus operários, mas quanto mais puxavam, mais comprida e abundante ia surgindo, até saírem as últimas madeixas ainda presas a um crânio de criança. No nicho não ficaram senão uns ossitos pequenos e dispersos e na lápide de cantaria carcomida pelo salitre apenas era legível um sem apelidos: Sierva Maria de Todos los Angeles. Estendida no chão, a esplêndida cabeleira media vinte e dois metros e onze centímetros.
O mestre-de-obras explicou-me sem espanto que o cabelo humano crescia um centímetro por mês mesmo depois da morte e vinte e dois metros pareciam-lhe uma medida correcta para duzentos anos. A mim, pelo contrário, não me pareceu assim tão trivial porque a minha avó, quando eu era criança, contava-me a lenda de uma marquesinha de doze anos cuja cabeleira se arrastava como a cauda de um véu de noiva, que morrera com raiva devido à dentada de um cão e que era venerada entre a população do Caribe…
Gabriel Garcia Marquez
(in int, a “Do Amor e outros Demónios”, ed.D.Quixote)
Publicado por morfeu às novembro 14, 2004 10:17 PM
Comentários
Fiquei com imensa vontade de ler o livro que, confesso , não tenho. Um beijo.
Publicado por: Pink Lady em novembro 14, 2004 11:34 PM
São introduções destas...verdadeiramente fílmicas que proporcionam uma obra de arte...este preâmbulo do livro é fascinante e quase me fez pele de galinha...
Morfeu
Publicado por: morfeu em novembro 15, 2004 10:38 AM