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novembro 24, 2004
Atropelamento mortal
Nalgum oásis do princípio ele fora
Um fugitivo brilho no olhar de Deus
- a vida havia de lho lembrar muitas vezes
Atravessou as nossas ruas entre gatos,
a chuva molhou-lhe as pobres botas cardadas.
Teve um banco de jardim, teve amigos, um deles o sol.
Sempre sem o saber procurou Deus.
Um dia, foi pelos campos fora atrás dele,
perdeu o emprego na Câmara Municipal. Teve mãe mas depois
nunca mais foi solução para ninguém.
Naquele dia a morte instalou-o
confortavelmente no céu. Lá se foi
com seus modos humanos, seus caprichos
e um notório acanhamento em público
(há-de a princípio faltar-lhe à vontade entre os anjos).
Tinha o nome no registo, agora habita
nas planícies ilimitadas de Deus.
Nas suas costas ainda se derrama
a tarde interrompida.
Manhãs e manhãs desfilarão sobre ele,
Caracóis cobrirão a memória daquele
que foi da sua infância como qualquer de nós.
Teve um nome de aqui, andou de boca em boca,
agora é Deus que o tem na voz.
Ruy Belo
Publicado por morfeu às novembro 24, 2004 08:00 PM
Comentários
Morfeu, este poema do Ruy Belo e que eu desconhecia é das coisas mais belas que eu tenho lido até hoje... Esta tua escolha revela-te uma alma imensa! Um beijo e obrigada!
Publicado por: Maria Branco em novembro 24, 2004 10:10 PM
Pois é... perante a grandeza das palavras, por vezes é essencial não se dizer mais nada.
Um abraço.
Publicado por: OrCa em novembro 28, 2004 11:53 PM