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dezembro 10, 2004
Este homem dá-me cabo do coração com as suas crónicas...sugiro
...Esta crónica de A.L.Antunes deve ser lida integralmente na ultima visão...fiz uma adaptação subjectiva de algumas passagens...mas para se captar bem o sentido sugiro que se leia a totalidade na revista escrita...
(…) O bairro é feio e modesto, uns metros quadrados de província no meio da cidade…No restaurantezinho todos nós torcemos a cabeça à uma, a remoer, para as imagens do tecto. Uma viúva com uma orquídea de pano no casaco vai pingando a sopa da colher, pasmada. Usa unhas cor de laranja fosforescentes. E eu vou pingando a sopa da colher, pasmado com as unhas: meu Deus, como as pessoas não cessam de espantar-me. Os dedos da viúva, gordos, tocam a orquídea num cuidado de antenas…mora ali perto, num rés-do-chão, de vez em quando benze-se. (…) A viúva sai devagar do restaurante e o perfume acompanha-a não na sua roupa, atrás de si, fiel como um cão invisível. A porção de perfume que não a acompanhou demora-se a flutuar entre nós, açucarada e densa. Com a partida da viúva o restaurante tornou-se vulgar, anónimo. Sinto a falta da orquídea.
Sinto a falta de imensas orquídeas ao longo da minha vida, de imensos perfumes. As amigas das minhas avós, por exemplo, rodeadas de nuvens cheirosas, pegando na xícara de chá numa pompa eucarística. As marcas encarnadas das bocas delas nos guardanapos, no filtro dos cigarros, nos lencinhos. Sinto a falta dos lencinhos com monograma, embora uma rapariga mulata, a tomar café ao balcão, me desarrume o passado: a harmonia secreta entre os gestos e as suas ancas enxota as amigas das minhas avós para a cave das recordações sem interesse, onde o professor de Desenho Geométrico insiste, numa fúria de que não entendo o motivo
- Vou reprovar-te, bandido
enquanto eu mastigo pastilhas elásticas desafiadoras. O professor dança nas perninhas curtíssimas
- Cospe isso, malandro
E continuo a mastigar, de olho nele, pronto a apunhala-lo com o tira linhas. (…)
A rapariga mulata acabou o café, foi-se embora. Quer dizer: continuou dentro de mim depois de se ir embora, abanando o pescoço a sacudir o cabelo. Um anel de fantasia, com uma pedra imensa, tornava-lhe os ademanes episcopais. Porque raio a Igreja católica não ordena as mulheres? Abençoai-me, senhora, visto que pequei. Mal ela sonha que daqui a uns anos se tornará igualzinha à viúva da orquídea, no seu passo difícil…
(…) A viúva da orquídea alcançou finalmente a porta e olhou para trás, com toda a tristeza do mundo na cara envelhecida: palavra de honra que deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito.
António Lobo Antunes, crónica in Visão de 9/12/04
Publicado por morfeu às dezembro 10, 2004 07:16 PM