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dezembro 16, 2004

Natal Cristão

Apesar de todas estas festividades pagãs em torno do solstício de Inverno, os cristãos dos primeiros séculos não festejavam ou sequer conheciam o Natal, pois davam maior importância à Páscoa da Ressurreição de Cristo, numa reminiscência do Judaísmo de onde derivava o Cristianismo. A Páscoa representava um momento capital na tradição judaico-cristã e dos textos bíblicos, com uma carga simbólica de sacrifício que tocava mais aos cristãos do que o nascimento de cristo, envolto em dúvidas e imprecisões, tanto que o culto a Maria só quatro séculos d. C. se começou a praticar e o de São José ainda mais tempo demorou a aparecer. Em 245, Orígenes, por exemplo, recusava a ideia de festejar o nascimento de Cristo, "como se fosse Ele um faraó".

Assim, em pleno século IV, já depois da viragem de Constantino (313), em que o Cristianismo deixou de ser perseguido e se impôs como religião maioritária no Império, os cristãos, sem o temor da intolerância ou da morte na arena, começaram a cristianizar as festas pagãs no Ocidente, entre os quais as de Dezembro. Num almanaque romano de 336, há já uma alusão a um festejo do nascimento de Cristo por alturas do solstício de Inverno.

Em 354, o papa Libério (17 de Maio de 352-24 de Setembro de 366) instituiu a Natividade a 25 de Dezembro, de forma a assimilar as festas pagãs e a cristianizá-las.

Esta data apareceu primeiro nas igrejas do Império Oriental (de tradição grega), que também marcaram o dia 6 como o dia da Epifania ("manifestação"), que no Ocidente corresponde à visita dos Reis Magos. A verdadeira data de nascimento de Cristo era uma incógnita total. Apesar da sua cristianização, as festas pagãs nunca desapareceram completamente do imaginário e do quotidiano das populações. Ainda que a celebração da Natividade a 25 de Dezembro fosse o momento mais importante, não se abandonaram as tradições antigas, que passaram a ter um carácter de fé. As prendas das Sigilárias foram substituídas pelas oferendas dos reis Magos, em termos simbólicos, a luz do Sol era a nova "Luz do Mundo" trazida pelo nascimento do Redentor. Na Bíblia existiam também alusões ao simbolismo de Cristo como "sol de justiça" (Ml 4,2) e "luz do mundo" (Jo 8,12), o que tornou mais fácil a cristianização das festas pagãs, para além de que foi na colina do Vaticano que se fizeram as primeiras festas do Natal: era nesse local também que tinham lugar os rituais e oferendas às divindades orientais (Mitra, outros cultos solares...). Cristo era também oriental, visto ter nascido na Palestina, o que facilitava a assimilação ordenada por Constantino.

In Diciopédia, Porto Editora, 2004

Publicado por morfeu às dezembro 16, 2004 03:14 PM