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dezembro 26, 2004
...a noite do oráculo...P.Auster

(…) Flitcraft é um indivíduo absolutamente convencional – um marido, um pai, um homem de negócios de sucesso, uma pessoa sem a menor razão de queixa. Certa tarde, sai para almoçar e uma viga cai de umas obras no décimo andar de um prédio e por pouco não aterra em cima da sua cabeça. Mais uns centímetros e Flitcraft teria sido esmagado, mas a verdade é que a viga não acerta nele, e, tirando um estilhaço do passeio que, sob o impacto, o atinge no rosto, Flitcraft sai do acidente perfeitamente ileso. Contudo, o facto de ter escapado à morte por um triz provoca nele um choque violento, de tal forma que não consegue deixar de pensar no caso. (…) ele sentia-se como se alguém tivesse tirado a tampa que oculta a vida e o tivesse deixado ver toda a engrenagem…dá-se conta de que o mundo não é o sítio equilibrado e ordenado que pensava que era, dá-se conta de que sempre vira o mundo completamente às avessas, de que nunca compreendera nada de nada. O mundo é governado pelo acaso. O aleatório ronda a presa que nós somos, todos os dias das nossas vidas, e essas vidas podem ser-nos roubadas a qualquer momento – por razão rigorosamente nenhuma. Quando acaba de almoçar, Flitcraft conclui que a submissão a esse poder destrutivo é inescapável, que não tem outra hipótese senão despedaçar a sua vida através de um acto sem sentido, um acto absolutamente arbitrário de autonegação. Combaterá o fogo com o fogo, por assim dizer, e, sem se dar ao trabalho de voltar a casa ou de se despedir da família, sem sequer se dar ao trabalho de retirar algum dinheiro do banco, levanta-se da mesa do restaurante, parte para outra cidade e recomeça a sua vida do zero. (…)
Paul Auster, “A noite do oráculo”, ed. Asa
Publicado por morfeu às dezembro 26, 2004 07:18 PM
Comentários
...prenda de Natal, fico feliz por desde cedo ter tido a possibilidade - não fácil há 50 anos - de me entusiasmar pelo prazer da leitura...e é assim que dos meus prazeres maiores está a leitura solitária de todos aqueles que sabem escrever, que são verdadeira e compulsivamente artistas do verbo...no caso Paul Auster...
Morfeu
Publicado por: morfeu em dezembro 26, 2004 07:27 PM
Não conhecia o autor ... acho que fiquei com vontade de ler a obra. Aguçaste-me o apetite! Também eu tenho esse gosto pela leitura de que falas! Um beijo.
Publicado por: Pink Lady em dezembro 27, 2004 10:44 PM