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fevereiro 07, 2005

Um beijo sem boca

E para terminar, é precisamente a boca que nos vai servir para falar do paraíso.
A boca que é um pólo de tensão nervosa – cerrar os dentes, morder a língua, cigarros – mas também de escape gratificante, indulgência com os prazeres sensuais. A boca que acolhe os alimentos da sobrevivência e resguarda os dentes, derradeiros despojos.
A boca. Lugar de três paraísos:
- O paraíso religioso da comunhão com o corpo de Deus, através da hóstia consagrada;
- O paraíso infantil da comunhão com o corpo da Mãe, através da amamentação; ou das delícias da descoberta dos primeiros sabores;
- O paraíso sexual da comunhão com o corpo de alguém, através do beijo, para dar só um exemplo.
O paraíso perdido é, então, bem feitas as contas, o da coincidência física e espiritual com o corpo, um corpo, mas que corpo de quem?
A resposta seria infância, religião, prazer, amor, família, memória, e todas as outra palavras que só a muito custo, ou talvez nem mesmo a muito custo, aqui se poderiam acrescentar.
Isso falta. Falta a resposta. O que há, então é a falta. Chama-se-lhe vida e disso se vive. Mais ou menos.

Alexandre Melo (1959)
Aventuras no mundo da arte

Publicado por morfeu às fevereiro 7, 2005 03:41 PM

Comentários

Fantástico este texto Morfeu...
e as tuas melhoras!

Publicado por: Luna em fevereiro 9, 2005 10:57 PM