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abril 04, 2005
Podereis roubar-me tudo: as ideias, as...
(Camões dirige-se aos seus contemporâneos)
Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
Jorge de Sena
(Antologia de poesia portuguesa- M.Meneres/E.M.Castro, Moraes editores)
Publicado por morfeu às abril 4, 2005 09:41 PM
Comentários
Sempre actual, interveniente, verdadeira...E bela! E que linda é a nossa língua, quando bem escrita!!!
Publicado por: valeria em abril 4, 2005 09:59 PM
Estupendo, é só o que posso dizer.
Um abraço de
Fú
Publicado por: Fú em abril 4, 2005 10:25 PM
passei para te dar um abraço, amigo Morfeu
Publicado por: Luna em abril 5, 2005 10:20 PM