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abril 08, 2005

"O sonho do escaravelho"

O meu exemplo refere-se a uma jovem paciente que, apesar dos esforços feitos e ambos os lados, provou ser psicologicamente inacessível. A dificuldade residia no facto de ela saber sempre mais sobre tudo. A sua educação excelente tinha-a equipado com uma arma feita à medida para o efeito, um racionalismo cartesiano primorosamente refinado com uma ideia da realidade impecavelmente “geométrica”. Depois de várias tentativas frustradas de lhe adoçar o racionalismo com uma compreensão algo mais humana, tive de me reduzir à esperança de que algo inesperado e irracional acontecesse, algo que rompesse a réplica intelectual a que se tinha remetido. Bem, um dia, estava sentado em frente dela, de costas para a janela, ouvindo o fluxo da sua retórica. Tinha tido um sonho impressionante na noite anterior, em que alguém lhe tinha dado um escaravelho de ouro – uma peça de joalharia cara. Enquanto ela me estava a contar o sonho, ouvi qualquer coisa a bater suavemente na janela.
beetle.jpg
Voltei-me e vi que era um insecto voador bastante grande que batia de encontro à vidraça, na tentativa de entrar na sala escura. Isso pareceu-me estranho. Abri a janela imediatamente e apanhei o insecto no ar quando ele entrou. Era um besouro da família dos Escarabídeos, que ataca as roseiras, cuja cor verde-dourada se parece muito com um escaravelho de ouro. Entreguei o besouro à minha paciente com as palavras, “Aqui tem o seu escaravelho.” A experiência abriu a brecha necessária no seu racionalismo e quebro-lhe o gelo da resistência intelectual. Agora podia continuar o tratamento com resultados satisfatórios.

(Lido em: “O Caminho menos percorrido”, M.Scott Peck, - Colecção Xis do Público)


Publicado por morfeu às abril 8, 2005 03:03 PM

Comentários

BEIJOS DOCES querido amigo.

Publicado por: ALUENA em abril 8, 2005 11:05 PM

Interessante o texto. Ficção? Realidade? Um beijo e bom fim de semana.

Publicado por: Pink Lady em abril 9, 2005 12:00 AM

O texto refere-se a um caso terapeutico, descrito por C.Jung...e no contexto do post, procura referir a oposição consciência /inconsciente coletivo...no caso a jovem revelava-se excessivamente cartesiana e só perante este "milagre" do escaravelho que surge na sessão mas que previamente tinha surgido num sonho que ela descrevia, é que a sua fortaleza intelectual pode ser abalada e entrar noutros domínios que não o controlável pela razão...assim o texto parte de uma situação real...
Uma abraço
Morfeu

Publicado por: morfeu em abril 9, 2005 02:52 PM

E o q há de errado com a fortaleza racional se é ela q nos protege das tempestades do espírito e da opacidade dos sentimentos...? bem haja a razão que nos serve de farol num mundo como este em pemanente descontrução.... Razão pura ou impura não interessa ... mas o sentimento deixado à solta sem o racional para o equilibrar e delinear os contornos da sua actuação é fonte de descontrole interior e representa a perda irremdiável da identidade individual... Céptico? Não! Realista!

Publicado por: piu em abril 14, 2005 05:18 PM