« Havia de ser comigo...sugiro | Entrada | Simplesmente manhã e poema. »
abril 09, 2005
Uma certa ida aos fados em tempos outros...

(Ilustração de Nuno Saraiva para coleção "Fado"do Público)
Na semana passada, certo inglês, de passagem por Lisboa, quase me implorou, farto do Idêntico em toda a parte:
- Mostre-me qualquer coisa que não exista noutro país. Há?
Meditei meio segundo e respondi, telegráfico:
- Há. «Cabarets».
O senhor estrangeiro encolheu os ombros em trejeito de desdém. Mas eu teimei:
- Sim. «Cabarets» …«Cabarets» estranhos, ao contrário, de pernas para o ar, sem «jazz» nem pretos de dentes brancos a soprarem gargalhadas nos saxofones. «Cabarets» … do avesso em que não se encontram mulheres de riso fatal a dançarem ao som macabro do estalar das rolhas das garrafas de champanhe. Autênticas Casas de Sofrer – onde se servem indigestões de mariscos e bebidas tristíssimas – construídas de propósito para pessoas, com fumos de luto nas mangas, que pretendem chorar em público sem medo do ridículo. «Cabarets» – válvulas-de-escape, em suma…Venha comigo e verá.
Tomámos um táxi, descemos uma viela sonâmbula, abrimos a porta de vidro em frente e pisámos com reverência o veludo do tapete de cascas de tremoços do Salão de Fados em que duas dezenas de seres, palidamente diluídos no rumor das vozes em surdina, se preparavam para sofrer em comum.
Ambiente de bicos de pés. Os criados deslizavam, irreais, com sapatos fantasmas, para não perturbarem a dor dos clientes que, de cabeça pesada entre as mãos, parafusavam neste tema de meditação irresolúvel: «A vida é uma chatice!» (…)
Ia começar a função. No estrado alinhavam-se duas cadeiras à espera do viola e do guitarrista que entraram pouco depois em ritmo de enterro. O cantor também não tardou a surgir no catafalco, mancha negra dos cabelos até aos sapatos, solenidade de telegrama de pêsames, lívido, suado, sinceramente infeliz, cara de serenata à meia-noite a noivas morta…
Houve um sussurro espectral. Os ouvintes ajeitaram-se o melhor possível nos assentos para sofrerem com comodidade.
(De “O Irreal Quotidiano”, José Gomes Ferreira - 2ª Ed. pp. 125/6. Lido em “Português contemporâneo, antologia e compêndio didáctico, Mendes Silva, Ed. M.E.C, 1986)
Publicado por morfeu às abril 9, 2005 07:20 PM
Comentários
Bom!Eu tenho outra consideração pelo fado...mas este texto do Gomes Ferreira não deixa de retratar em ironia, ambientes outros, de tempos outros...sentemo-mos e leamos em sofrimento...
Morfeu
Publicado por: morfeu em abril 9, 2005 07:31 PM
Olá amigo. O fado é diferente e certamente recomedaria a águêm que nos visita-se.
Um forte abraço
paulo
Publicado por: paulo em abril 10, 2005 10:00 AM
....gostei daqui, volto para ler vc mais...
Publicado por: £årånjå £imå em abril 10, 2005 11:48 AM
Esse faduncho choradinho de salões que o escritor trata, como dizem e nuti bem, retrata outras épocas. Também eu tenho uma concepção diferente do fado.
Um abração do
Zecatelhado
Publicado por: zecatelhado em abril 10, 2005 01:13 PM
Amigo e irmão lusitano, Morfeu:
Encontrei teu blogue pela rede e, definitivamente é muito interessante e riquíssimo tb.
Eu, cá no Brasil, tenho tb o meu espaço voltado para a cultura e o entretenimento (livros, filmes, boa música, poesia, viagens, etc)[link]http://spaces.msn.com/members/tettera[/link]
Quero saber se posso tomar a liberdade de usar algumas das tuas imagens que são das mais belas.
Com os devidos créditos, é óbvio.
Aguardo teu contato
Um forte abraço, amigo
Publicado por: Edu em abril 10, 2005 06:12 PM
Amigo Edu:benvindo à comunidade...claro que podes usar o meu material. Eu já te deixei uma mensagem no teu blogue...espero que o nosso conhecimento possa frutificar...
Aquele abraço
Publicado por: morfeu em abril 10, 2005 10:33 PM
Para a laranja lima...eu não percebi bem o teu blogue...fui inundado por publicidade...bom mas deu para ouvir uma musiquinha e espreitar os poemas...sê bemvinda ao anomalias e espero poder aprofundar o conhecimento recíproco...
Um abraço do Morfeu
Ps.Para o paulo e zeca, obviamente aquele abraço blogosferico...
Morfeu
Publicado por: morfeu em abril 10, 2005 10:38 PM
Que texto excelente!
Publicado por: Betty em abril 11, 2005 03:08 PM