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maio 07, 2005

A morte da Água

Um dos passeios que mais gosto de dar é ir a esposende ver desaguar o cávado. Existe lá um bar apropriado para isso. Um rio é a infância da água. As margens, o leito, tudo a protege. Na foz é que há a aventura do mar largo. Acabou-se qualquer possível árvore genealógica, visível no anel do dedo. Acabou-se mesmo qualquer passado. É o convívio com a distância, com o incomensurável. É o anonimato. E a todo o momento há água que se lança nessa aventura. Adeus margens verdejantes, adeus pontes, adeus peixes conhecidos. Agora é o mar salgado, a aventura sem retorno, nem mesmo na maré cheia. E é em esposende que eu gosto de assistir, durante horas, a troco de uma imperial, à morte de um rio que envelheceu a romper pedras e plantas, que lutou, que torneou obstáculos. Impossível voltar atrás. Agora é a morte. Ou a vida.

Ruy Belo (1933-1978)
Todos os poemas – In poemário, 2005, Assírio e Alvim

Nota: no texto que utilizei, os termos “Esposende”, e, “Cávado”, aparecem em letra minúscula.

Publicado por morfeu às maio 7, 2005 10:04 AM

Comentários

Interessante o texto e a perspectiva de assim "ver" um rio a chegar à foz ... ou á morte. Um beijo.

Publicado por: Pink em maio 7, 2005 11:20 PM

Escolheste um belas palavras escritas, o rio, dá sempre o que escrever e a imaginação pode afluir daí.
Uma braço de

Publicado por: paulo em maio 8, 2005 07:09 PM