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agosto 14, 2005

"Olha as famílias"...sugiro

...com a sua habitual bonomia, Luis Fernando Veríssimo, fala-nos de assuntos leves com profundidade e da profundidade destes com amável leveza...sugiro

Com a devida vénia ao jornal expresso de 13/8/05, onde o autor escreve no caderno Actual.

Quando ouviu da Flávia que precisavam conversar para botar tudo em pratos limpos, o Luís Carlos pensou:

- Iiiiih...

Pratos limpos. O que significava aquilo? Um recomeço, certo. Pratos novos. Pratos sem vestígios do que já tinha sido comido. Mas como era possível esquecer o que tinham comido? Esquecer o que acontecera entre eles? O que sujara seus pratos?

Luís Carlos não gostava da frase «pratos limpos». Perguntou:

- Você quer dizer recomeçar do zero?

Flávia hesitou.

- Não exactamente...

- Claro que não. Ninguém recomeça do zero. Pode-se tentar voltar atrás, mas nunca ao começo. Seria como recuperar a virgindade.

- O que eu quero dizer é... passar um apagador em tudo...

- Passar um apagador? Então uma vida, duas vidas, uma vida a dois como a nossa, pode ser apagada como um erro no quadro negro?

- Eu só acho que a gente deveria tentar falar claramente...

- Mas sem esquecer nada. Ao contrário: lembrar tudo. Botar os podres na mesa.

- Você está dizendo que a gente deve...

- Isso. Quebrar os pratos!

Arleci dizia coisas como «pouco se me dá». Um dia o Osni comentou:

- Arleci, você deve ser a única pessoa no Brasil que ainda diz «pouco se me dá».

- E daí?

- Daí que nada. Eu só acho engraçado.

- Porquê?

- Porque é uma coisa antiga.

E a Arleci encolheu e desencolheu os ombros várias vezes, justamente o gesto antigo correspondente à frase «pouco se me dá».

O Osni ficou pesando se não seria melhor acabar o namoro ali. E ainda por cima, havia aquela obsessão dela por espremer seus cravos.

A americana não entendia. «Pois sim» queria dizer não e «Pois não» queria dizer sim? Tentaram lhe explicar. «Pois sim» tinha o sentido de «imagine se alguém diria sim para isso», e «pois não» o sentido contrário. Então o que queria dizer a palavra «pois»? Era complicado. E a americana ficou ainda mais impaciente quando, em vez de lhe darem uma resposta, disseram «Pois é...» Até que também perderam a paciência com a americana e alguém sugeriu: «Perguntem a ela sobre a guerra no Iraque».

Antigamente, no futebol, certas frases se repetiam. Eram quase obrigatórias. Cada vez que um jogador dava um chutão para o alto, alguém na torcida gritava: «Viva São João!» Todos riam. Quando um time estava dominando a partida e o outro não conseguia sair da defesa, ouvia-se, inevitavelmente: «Aluga-se meio campo!» Todos riam. Quando um jogador entrava com violência num adversário, vinha o comentário: «Olha o recurso!» Desta ninguém ria. Era uma grave constatação de que faltava recursos ao jogador faltoso, uma condenação da feiura do futebol truculento e uma sugestão de que o jogador procurasse outra profissão. E embora já se xingasse a mãe do juiz, o palavrão em coro não era comum. Sempre havia os que, quando os palavrões - os «nomes feios» - começavam a voar, olhavam em volta e diziam «Olha as famílias...» Hoje, claro, as famílias lideram o coro.

Publicado por morfeu às agosto 14, 2005 12:26 PM

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