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agosto 15, 2005

Ah Pátria madrasta...sugiro

...sou do tempo aparentemente longínquo mas insistente,
em que o horizonte da sobrevivência se olhava de assalto
de salto...tempo de sofrimento caminhado,fugitivo, enganado, perdido em nenhures, pelos campos e desfiladeiros da necessidade de fuga a este país miserável...

Os emigrantes continuam a queixar-se da forma como são tratados.Daí a sugestão de lêr a reportagem do jornal público de hoje sobre o assunto...ah pátria madrasta...

Emigrantes acham que Portugal não os recebe bem
Ana Cristina Pereira


Conselheiros das comunidades portuguesas notam algum ostracismo

Portugal não sabe acolher os portugueses que o visitam no Verão. Talvez porque não tem noção da importância estratégica da diáspora, defendem conselheiros das comunidades ouvidos pelo PÚBLICO.
"Devíamos receber os políticos que nos visitam da mesma maneira que nos recebem aqui, talvez entendessem que algo está mal", considera, "frustrado", José João Morais conselheiro das comunidades portuguesas dos EUA. É como se houvesse "portugueses de primeira e de segunda".

O turismo é um sector importante para a economia portuguesa - pela receita que gera, pela mão-de-obra que ocupa e pelos efeitos que induz. "Era bom fazer um estudo", diz Morais: saber quanto turismo corresponde a estrangeiros que estão a descobrir o país e quando é um reflexo da saudade.
O Instituto Nacional de Estatística não filtra essa informação, a Secretaria de Estado das Comunidades também não, tão-pouco a do Turismo. A tarefa é complexa, implica cruzamentos de dados que nem sempre existem. Uns vêm de avião, outros de carro. Uns têm nacionalidade portuguesa, outros já não ou ainda não. A maior parte fica com familiares ou em casa própria.

Na altura em que milhares de emigrantes visitam Portugal, há serviços públicos que fecham ou enfrentam redução de pessoal. Famosas são as confusões nas repartições de finanças do nordeste transmontano (por causa das tributações de património numa zona marcada pelo minifúndio).

Críticas à diplomacia

A forte afluência a serviços como o registo civil é também um sintoma do que se passa no exterior. "Falta uma diplomacia ao serviço dos portugueses", acusa Fernando Pinhal, conselheiro eleito por Espanha. "A diplomacia olha para os emigrantes de forma altiva, temos de tirar o chapéu, falar baixinho, não incomodar, como se tivéssemos ao seu serviço", achega José Machado, presidente da Federação das Associações Portuguesas de França (FAPF).

A diáspora, estimada em perto de cinco milhões, não cessa de aumentar. "O anterior Governo fechou consulados, aumentou emolumentos consulares, liquidou delegações regionais", queixa-se Machado. Regulamentou um serviço de apoio nas câmaras, mas o efeito tarda. As pessoas sentem-se desorientadas no oceano burocrático nacional. "O Governo quer que a gente venha, deixe a poupança, faça o investimento e vá embora", diagnostica José Verdasca, actual presidente da Ordem Nacional dos Escritores do Brasil.

"Há um conjunto de estigmas conotados com a emigração, historicamente associada à pobreza", analisa Miguel Monteiro, coordenador do Museu da Emigração e das Comunidades. "Coloca-se o emigrante no lugar mais básico."

Persiste, no imaginário nacional, a ideia do inculto que vem de férias em Agosto e acelera num carro vistoso com música pimba aos altos berros. Não são portugueses residentes no estrangeiro. São "emigras", "avecs", "espanholitos", "miras".

Aproveitar a diáspora
"Há mais exemplos de sabedoria espalhados pelo mundo fora do que no continente português", sublinha Morais. Quem saiu, "teve de saber sobreviver". Ele saiu de Chaves aos 17 anos e possui uma empresa de construção civil "com mais de 400 empregados" nos EUA. Lamenta que esses não sejam os exemplos conhecidos e reconhecidos.
As comunidades mudaram muito nos últimos anos. Só em França há "160 mil reformados". Machado vê com tristeza o enfraquecimento do associativismo, mas há outras consequências. Segundo o Banco de Portugal, as remessas contabilizaram 2,4 mil milhões de euros o ano passado, representando 1,8 por cento do PIB; em 1996, eram 3,2 por cento.

O apego dos pais é "forte", quase irracional. "Talvez por Portugal ser tão velhinho" arrisca Machado. "Não podemos pensar que o bisneto vai continuar agarrado a Portugal, mas temos de apostar no ensino da língua e da cultura portuguesa", até por uma "questão estratégica".
A diáspora "é uma coisa que o país tem de graça e não tem sabido aproveitar", sentencia o conselheiro dos EUA. O Estado só há pouco começou a encarar as comunidades como um instrumento de cooperação e difusão da cultura portuguesa. É preciso ir mais longe.

"O Governo devia saber que quem come e bebe os produtos portugueses no estrangeiro são os portugueses."

Para Machado, há um factor determinante que leva a um certo ostracismo: "Os políticos tentam ocultar o fenómeno, a emigração é uma carga pesada, é uma prova da incapacidade que eles têm de gerir o país." A culpa, diz, também é da comunicação social, que "só quer saber dos emigrantes em Agosto".

Publicado por morfeu às agosto 15, 2005 09:29 AM

Comentários

Acredito que haja do ponto de vista de empenhamento político uma manifesta falta de atenção em manter
sobretudo em França onde o número de emigrantes portugueses é francamente expressivo, o ensino do português através da colocação de professores nas estabelecimentos de ensino franceses, isto obviamente numa conveniente articulação do o Governo Francês. Mas será que os próprios emigrantes quando em férias no seu País não são culpados em manterem o diálogo com os seus filhos em francês em vez de com eles falarem português. É certo que isso se deve de alguma forma ao seu exibicionismo bacôco, mas que eles também são coniventes em não manterem os seus filhos em termos linguísticos ligados à sua pátria isso é um facto. Daí achar que existe uma culpa partilhada.

Publicado por: congeminações em agosto 15, 2005 03:21 PM

Mas caro amigo, as queixas não se reduzem á questão da língua...vd os serviços de apoio no estrangeiro...
Um abraço do Morfeu

Publicado por: morfeu em agosto 15, 2005 11:32 PM

Viva, meu amigo.

Já regressado de (sempre) curtas férias, este ano ainda mais constrangidas pelos "desvelos socráticos", preços de petróleo e outras minudências, é com prazer - aliado a alguma angústia - que venho até aqui sentir o pulso do mundo.

A nossa diáspora vai de Jorge de Sena ou António Damásio ao emigra burgesso, o que é próprio da diversidade da natureza humana, claro. Alguns exibem saber, enquanto outros exibem bólides... Dir-se-ia que cada um exibe o que pode. O regresso deles, o dinheiro deles, o saber deles é sempre bem vindo.

Agora o que não se entende, como sugere o artigo, é esta indiferença bacoca com que nós (o estado que vamos tendo) trata esse imenso capital humano emigrado.

Porquê? Ora, os mistérios que envolvem tudo aquilo em que Portugal se mete são insondáveis. Sabias que os livros recolhidos para Timor ainda apodrecem dentro de contentores, em Dili?

O próprio Jorge Sampaio - quem diria?... - interrompendo férias para homenagear os U2, fez um discurso em inglês. Não saberá aquela alma a beleza de se fazer ouvir, em todo o mundo, em português? Vais ver, esqueceu-se!

Carneirada e cinzas, meu caro!

(Tenho a impressão de que estas férias não me fizeram nada bem ao sossego do espírito)

Um grande abraço.

Publicado por: OrCa em agosto 16, 2005 10:31 PM

Bom dia, Morfeu. Não te fazia já "ao serviço".
Cá vou actualizando então as leituras que indicas.

Um abraço.

Publicado por: eduardo em agosto 17, 2005 08:09 AM

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