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agosto 21, 2005

Crónicas de excelência II...sugiro

...sugiro a leitura paciente e lúdica desta divertida crónica de
João Benard da Costa...

(Público de 21 de Agosto)

O Deus dos acasos
João Benard da Costa


O que Maupassant desfaz, na prosa transparente que foi segredo dele, é que inimigos ou perdições possam coexistir com noites como aquela. E que no Belo se possa infiltrar algo de feio

1.Manoel de Oliveira contou-me um dia que, nos anos 40, a seguir ao Aniki-Bobó, propôs a Francisco Quintela, o homem da Lisboa Filme, que de 1946 a 1951 deu vida nos 50.000 metros quadrados da Quinta dos Ulmeiros ao que chegaram a chamar a "Cinelândia de Portugal", uma adaptação do conto de Maupassant Clair de Lune.
É a história de um padre com algumas semelhanças com o velho abade de O Melro de Guerra Junqueiro. Não que fosse malicioso, alegre ou prazenteiro, nem que andasse às lebres pelo monte a pé. A acreditar em Maupassant, era magro e fanático. E era um racionalista impenitente. Para ele não havia porquês, nem mais porquês. Cada coisa tinha uma função e obedecia "a uma lógica absoluta e admirável". Por exemplo (exemplo de Maupassant): "As auroras eram feitas para a alegria do despertar, os dias para dourar as searas, as chuvas para as regar, as tardes para preparar o sono, as noites sombrias para dormir."
Nada a ver com o padre de Junqueiro? Não, efectivamente não. Nem sequer nos ódios inconscientes ou nos desprezos intuitivos se pareciam. O cura de Junqueiro embirrava com melros. O de Maupassant com mulheres. Treslia até uma passagem do Evangelho quando dizia citar Cristo ao perguntar: "Mulher, que há de comum entre ti e mim?"
Mas ambas as histórias (a do poema e a do conto) acabam com uma revolução cultural que põe em causa os universos diversamente rígidos do padre que se pelava pelos cozinhados da Fortunata e do padre que não tolerava que a sobrinha - destinada ao convento - lhe viesse mostrar uma joaninha ou uma libélula, dizendo-lhe: "Olhe que bonita, meu tio. Apetece-me comê-la."
No caso de Junqueiro, é a morte heróica do melro, matando os quatro filhos que o padre lhe caçara, num gesto que o poeta não hesita em comparar à morte de Catão e até à de Cristo na Cruz.
No caso de Maupassant, a revelação chegou na noite do dia em que uma alcoviteira lhe foi contar que a dita sobrinha andava a namorar lá para as bandas do rio entre as dez e a meia-noite.
Armado com um imenso varapau, o padre saiu de casa decidido a ajustar boas contas com os namoradeiros.
Era uma noite de luar, dessas como se vê uma de dez em dez anos. Os rouxinóis cantavam. E, de repente, uma fenda se abriu nas suas inabaláveis certezas. "Porque é que Deus tinha criado aquilo? Se a noite foi feita para dormir, para descansar, para esquecer tudo, para não dar pelo tempo, porquê torná-la ainda mais bela do que o dia, mais doce do que as auroras e os crepúsculos? Porque é que aquele astro lento e sedutor, mais poético do que o sol e que só parecia destinado a iluminar coisas delicadas ou misteriosas demais para a grande luz, vinha dar uma tal transparência às trevas?"
Experimentava ele estas dúvidas - dúvidas iniciais na sua vida -, quando apareceram abraçados o rapaz e a rapariga.
Se Junqueiro acaba o seu poema com a apóstrofe à Bíblia, Maupassant, muito mais contido, termina assim o seu conto:
"Ficou de pé, o coração a bater muito, transtornado. Julgou ver algo de bíblico como os amores entre Ruth e Booz, o cumprimento da vontade do Senhor numa dessas vastas paisagens de que falam os livros santos. Vieram-lhe à cabeça, atordoando-o, versículos do Cântico dos Cânticos, clamores ardentes, chamamentos dos corpos, a cálida poesia desse poema incendiado de ternura.
E de si para si, disse: "Deus talvez tenha feito estas noites para nimbar de ideal os amores dos homens."
Começou a recuar perante o par abraçado que continuava a andar. Era a sobrinha dele. Mas não iria desobedecer a Deus, se a castigasse? Se Deus não quisesse o amor, não o rodeava visivelmente de um tamanho esplendor.
E fugiu, perdido, quase envergonhado, como se tivesse penetrado num templo onde não tinha o direito de entrar."

2. O filme nunca se fez, parece que por motivos censórios. Teria enorme curiosidade em ver como seria a lua de Oliveira para a noite da conversão do padre.
Falando apenas de Maupassant - pois só o conto existe -, vou directo ao cerne. Que se pode resumir na velhíssima fórmula que identifica o belo ao bem e que desde os pré-socráticos até hoje tanta tinta tem feito correr. Maupassant nada nos diz sobre os sentimentos mútuos ou pessoais do rapaz e da rapariga de quem nem sequer sabemos o nome. Sobre ele não diz uma palavra. A ela, descreve-a como "bonita, desmiolada e trocista". Se o rapaz fosse como ela, aquela noite teria muito para enraivecer ainda mais o velho padre. Mesmo que fosse "sério, firme e bom medidor de consequências", nunca se pode (ou deve) jurar nada, que o inimigo anda à solta.
Mas o que Maupassant desfaz, na prosa transparente que foi segredo dele, é que inimigos ou perdições possam coexistir com noites como aquela. E que no Belo se possa infiltrar algo de feio. Por isso "pareciam os dois um só ser, o ser para o qual fora destinada aquela noite calma e silenciosa. Eram a resposta viva à pergunta do Padre, eram a resposta do Senhor à interrogação dele. Ama et quod vis fac ("Ama e faz o que quiseres"), como disse Santo Agostinho, que o aprendeu com Orígenes e com Santo Ambrósio. A "luz incorpórea especial", o platonismo cristianizado.

3. Sucede que no mesmo livro (antologia da Guilde du Livre de Lausanne de que já vos prometi falar) em que figura este conto (publicado em 1882, tinha Maupassant 32 anos) segue-se-lhe um outro de que me recordava menos e se chama Ma Femme (também de 1882, mas dois meses posterior ao Clair de Lune).
"Jantar de homens, de homens casados, amigos de longa data, que, de vez em quando, se reuniam sem as mulheres, como rapazes, como antigamente" (hoje esse género de jantares parece que é mais costume feminino do que masculino, mas isso é outra conversa).
Nessa noite, a conversa foi parar ao casamento, e quase todos murmuraram lugubremente: "Se eu soubesse o que sei hoje", "Se voltasse atrás", etc. Até que houve um (Georges Duportin, chamava-se ele) que acrescentou: "O mais extraordinário é a facilidade com que nos deixamos apanhar. Não nos passava pela cabeça casar, pelo menos tão depressa. E depois, é Primavera, vai-se até ao campo, faz calor, o Verão adivinha-se bom, há flores por toda a parte, conhece-se uma rapariga em casa duns amigos e, porque torna e porque deixa, aconteceu. Voltamos casados."
Quem acordou nessa altura foi Pierre, Pierre Létoile: "Sem o saberes, contaste a minha história, só que a minha tem mais alguns pormenores..."
O outro interrompeu-lhe as lamúrias. Ele, Pierre Létoile, é que não tinha qualquer razão para se queixar: "Tens a mulher mais encantadora do mundo, bonita, simpática, perfeita. És o mais feliz de todos nós."
O outro concordou, mas não se gabou. Se tinha uma mulher perfeita, nenhum mérito lhe cabia a ele, que só à força casou com ela.
O resto do conto é a história que resumo. Pierre tinha 35 anos quando foi convidado para o casamento dum primo na Normandia, desses que duravam dia e noite. Ficou sentado ao lado duma menina de apelido Dumolin, que não o largou. Era filha de um coronel na reserva e era "loura e militar", "atrevida e faladora".
Lá para as tantas, livrou-se da filha do coronel e foi festejar com os campónios menos formais e mais divertidos. Dançou, namorou e apanhou um pifo de caixão à cova. Quando voltou para casa, só se lembrava que o quarto tinha algo que ver com 2 ou com 14. Mas, felizmente, a chave entrou facilmente na fechadura. Atirou-se para uma chaise longue e, sem se despir, adormeceu.
Foi acordado por vozes femininas. A mais velha censurava a mais nova por ainda estar a dormir às 10 da manhã. Quando ia abrir os reposteiros, tropeçou nele e desatou a gritar por socorro. "Pierre Létoile tinha dormido junto à cama da filha do coronel."
Durante dois dias o rapaz bem se tentou defender. Mas o tio respondeu-lhe com lógica implacável. "Das duas uma: ou seduziste a catraia e sabes bem que essas coisas não se fazem. Ou te enganaste por causa dos copos, como tu juras. Se assim foi, tenho muita pena, mas ainda pior para ti. Ninguém se deixa apanhar em situações tão estúpidas como essa. Seja como for, a reputação da pobre rapariga está perdida, porque ninguém acredita em histórias de bêbedos."
Pierre resistiu dois dias. Mas, como a alternativa ao casamento era um tiro nos miolos, vindo do ofendidíssimo coronel, cedeu. O espírito é sempre fraco.
Em três semanas, publicaram-se os banhos, mandaram-se os convites e Pierre jurou perante um padre que seria fiel até que Deus os separasse. Mas durante a cerimónia reparou que a rapariga não era nada feia.
Chegada a noite, entrou na câmara nupcial para lhe ditar condições, pois que era agora o senhor. Achou-a vestida como de dia, olhos encarnados e palidíssima. "Senhor" - disse ela - "estou pronta para tudo o que me mandar fazer. Mato-me, se assim o quiser."
"Era linda como tudo, a filha do coronel, nesse papel heróico." Obviamente não se matou e foram muito felizes.
Comentário, entre as gargalhadas finais, de um dos amigos. "O casamento é uma lotaria. Nunca escolher os números. Os do acaso são sempre os melhores."
Juntem uma história à outra e, à "luz incorpórea" do luar platónico, onde se fala em acaso, vejam o dedo da reminiscência. Como ainda diz Maupassant, "o Deus dos banquetes apostara em Pierre". O mesmo deus que presidiu ao banquete de Sócrates e Alcibíades. "O que julgamos encontrar só reencontramos." Mudam as formas, mas a substância não. O deus dos acasos é o deus do destino. Eros e Psique, ou o amor e a magia como entes coincidentes.

Publicado por morfeu às agosto 21, 2005 07:58 PM

Comentários

excelente!

Publicado por: glória em setembro 24, 2007 12:13 AM

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