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outubro 02, 2005
O meu reino por uma cidade...por favor...
...o homem domina a pluma, terá razões inúmeras, mas, não seria melhor ir para o Portugal profundo, já que abomina o seu território mais imediato? Os lisboetas que se cuidem....PARA QUÊ?
VASCO PULIDO VALENTE (In público de 2/10/05)
As pessoas querem as coisas mais diferentes do sítio em que vivem. A semana passada um motorista de táxi, num acesso de indignação contra toda a gente que já esteve ou pretende vir a estar na Câmara, berrava que nunca ninguém tinha feito nada por ele e que portanto não ia votar. E explicou: em Lisboa, não existiam instalações sanitárias (públicas, claro está), o que lhe tornava a vida num inferno. Um ponto de vista inesperado, mas compreensível. A ausência de mictórios, cuja conveniência aliás reconheço, não me incomoda. O pior, para mim, é o facto de Lisboa ser ao mesmo tempo uma cidade muito pequena e grande demais, muito pobre e ridiculamente cara, muito provinciana e com um arzinho pedante e pindérico de capital cosmopolita. Com a "construção" a ajudar, ficou um sítio feio, incaracterístico, meio hostil, em que não sair de casa se tornou a única política razoável.
Basta descer o eixo central da cidade, da Penitenciária ao Terreiro do Paço, para ver o horror a que chegámos. Lá em cima, num pseudo-jardim de Ribeiro Teles, abriu um restaurante, em forma de caixote, desconfortável e proibitivo. As colunas triunfais, com o pénis de Cutileiro no meio podiam anunciar um bordel kitsch. Infelizmente, parece que anunciam uma glória qualquer da Pátria. O relvado, do mais puro gosto fascista (e uso aqui a palavra com cuidado) não serve para nada, excepto para exibir uma "grandeza" vácua que falta ao resto de Lisboa. Dos prédios da Rotunda, a pior arquitectura do século, ou até da história, não há nada de publicável a dizer. A Avenida e os Restauradores roçam o absurdo. Os prédios do Rossio, apesar do esforço de João Soares, não merecem o Rossio. E a Baixa morreu - sem bares, sem restaurantes, sem comércio, confrange quem se lembra dela em melhores tempos.
Vale a pena falar do trânsito da manhã e da tarde, do estacionamento, da porcaria universal, dos milhões de poças do Inverno (uma estúpida homenagem ao empedrado em calcário), da falta de parques, de jardins, de esplanadas? Não vale: os lisboetas sabem. O mistério é que cinco indivíduos, presuntivamente no seu juízo, ainda se propõem governar este caos sem remédio. Verdade que só abrem a boca para se injuriar ou se aliviar de irrelevâncias. Mas, seja como for, andam todos por aí; e com certeza perceberam a final futilidade de menor esforço para mudar Lisboa. E, no entanto, persistem. Para quê?
Publicado por morfeu às outubro 2, 2005 10:56 AM