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outubro 08, 2005
Emoção número três...
...a ideia era selecionar uma "emoção" significativa, da semana. Acontece porém que esta que se segue é já a número três...permitam-me esta pouco emotiva formalidade "numerativa"...
O autor da reportagem seguinte, é alguém que eu considero construidor de "Excelência"...é a minha opinião mesmo que o visado não esteja de acordo...
Viagens
REGRESSO A GRANADA
Uma coincidência espantosa
Os miúdos de Donna Tabor angariaram mil dólares para ajudar as vítimas do tsunami

Donna Tabor, o professor-músico Raul Planas e Uli com miúdos da Los Chavalos
A música foi o meu primeiro amor. Eu tinha 11 anos. Comecei a aprender viola na mesma altura em que comecei a ouvir os Beatles. Uma paixão ateava a outra, uma simbiose febril. A minha queda para a música, ou melhor, para dentro da música, foi total.
Muitos anos e muitos amores depois, o amor pela música mantém-se. Com outras exigências, outras inquietudes, mas basicamente com o mesmo prazer intenso que me deu a primeira sequência de acordes completa tocada pelas minhas mãozinhas pré-adolescentes.
Não sou um virtuoso, apenas um músico sensato e competente - mas, dentro das disciplinas do meu curriculum existencial, a música é o saber que se encontra melhor sistematizado. Ao contrário da escrita, da fotografia, do surf e da fluência em alguns idiomas, aptidões que desenvolvi de uma forma quase autodidacta e intuitiva, a música entrou na minha vida seguindo uma estrutura teórica. Com método, com solfejo, com técnica.
Pensava em tudo isto enquanto assistia a uma aula de piano do Raul Planas na escola Los Chavalos. Se eu quisesse passar uns meses a trabalhar como voluntário aqui na escola, seria provavelmente a ensinar música. Tal como o Raul. A diferença é que ele deu esse passo, eu continuo a adiá-lo.
O Raul era professor no conservatório de Barcelona. Em 2003 pediu uma licença sem vencimento para viajar pela América Central. Em Outubro desse ano chegou a Granada, uma linda cidade colonial no Sul da Nicarágua. Entrou em contacto com o projecto da escola Los Chavalos, e decidiu ficar como voluntário durante seis meses. Passados dois anos, ainda não se foi embora.
Por detrás do projecto encontra-se a Donna Tabor, uma simpática americana que eu conheci acidentalmente durante a minha volta ao Mundo. Expliquei então, aqui na «Única», que a Donna, «com a ajuda de um grupo de amigos, criou uma fundação que financia uma escola ‘aberta’, isto é, a porta está sempre aberta para quem quiser entrar». Dizia-me a Donna na altura: «Estes miúdos vêm de situações de miséria extrema. Muitos dormem aqui, porque não têm outra casa (…). Alguns não aguentam isto e voltam para a rua. Pela liberdade, pela inércia, quase sempre pela dependência às drogas, à cola e ao crack».
Alguns não aguentam. Outros resistem - recordo bem um dos que resistem, um miúdo cheio de sardas, que está na aula do Raul. Não me lembro do nome dele, mas sei que era um caso «difícil». Quase não falava, e recusava qualquer forma de aproximação. A Donna explica-me que continua assim, excepto com o Raul. Alguma misteriosa empatia se estabeleceu entre eles. Compreendo qual, quando o miúdo se senta no piano. Sabe que eu sou jornalista, que está a ser observado, que vai aparecer num jornal. Respira fundo, olha uma última vez para o Raul e mergulha na execução. Emerge uma versão comovente de «Para Elisa». É essa a empatia entre o Raul e o miúdo, entre o professor e o aluno: estão ambos a viver o primeiro amor, aquele que se mantém, depois, para sempre: o amor pela música.
A Donna está impaciente por me mostrar outro dos microprojectos em que está envolvida. «Esta escola, como te disse, acolhe miúdos que não têm qualquer apoio, não têm família. Miúdos de rua. Agora, levo-te ao centro da cidade, para ficares a conhecer a Escuelita Yo Puedo». Acompanha-nos a Uli Pollitz, uma educadora infantil alemã que se encontra em Granada a desenvolver o programa pedagógico da Escolinha Eu Posso. Também ela como voluntária. «O nosso objectivo é ensinar a ler e a escrever todos estes miúdos que trabalham aqui no centro da cidade, geralmente a engraxar sapatos, a vender rebuçados, a ajudar as mães no comércio de rua», explica-me a Uli. «Ao contrário dos alunos da Los Chavalos, aqui estes miúdos têm uma família e uma casa. O nosso problema não é tirá-los da rua, mas convencer os pais deles a deixá-los ir à escola».
Estamos agora na praça central de Granada. Um vespeiro de catraios rodeia a Uli, que continua a explicar-me como funciona a «escuelita»: «Temos o seguinte acordo com os pais - eles deixam os miúdos vir duas horas por dia às aulas, e nós em troca damos-lhes o almoço». E conclui, com um sorriso malandro: «Nestas condições, nenhum pai se importa de ter um filho letrado em casa».
Belén é a professora da Escuelita Yo Puedo. Ao contrário da Uli e do Raul, a Belén recebe um ordenado. «O ideal seria poder prescindir de todos os voluntários e assegurar um posto de trabalho aos nicaraguenses», diz-me a Donna, «mas não temos dinheiro para tanto». Para lá da Belén na Escolinha Eu Posso, a fundação emprega nos Chavalos um professor a tempo inteiro, o Mario, e um professor de informática em «part-time», o Ramon, que estuda ainda na universidade. Lembro-me bem de ambos, já trabalhavam aqui há dois anos e meio.
Lembro-me também de vários miúdos, sobretudo dos três mais velhos: o Juan Carlos, o Óscar e o Orlando. Encontro-os a administrar o terceiro microprojecto da Donna, o pequeno restaurante Los Chavalos. Estes rapazes aprenderam a cozinhar com um conceituado «chef» mexicano, o Sérgio que, na altura em que eu passei por Granada, estava envolvido com a fundação.
«Faz todo o sentido», comenta a Donna, «termos este restaurante. Não apenas pelos lucros que já vai dando, mas sobretudo porque Granada é cada vez mais uma cidade turística. Estão sempre a surgir novos restaurantes e hotéis de charme. Estes miúdos saem daqui com mais uma ferramenta, a de saber trabalhar na restauração».
Almoçamos no restaurante. Passaram dois anos e meio, mas não passou o tempo. Continuo a sentir uma grande amizade e uma admiração ainda maior pela minha «Americana em Granada», como então a designei nas páginas da «Única». Fomo-nos mantendo em contacto e seguimos os percursos um do outro: o meu, em sentido literal, deu muitas voltas, se calhar algumas sem sentido. O percurso da Donna foi mais simples e exemplar: um maior envolvimento pessoal na comunidade, passo a passo, sabendo que é melhor fazer pouco de cada vez, mas fazer bem feito.
Falamos de próximos projectos. Digo-lhe da minha viagem eminente à Indonésia, e do meu desejo de reencontrar, nas ilhas Mentawai, os pescadores da cabana flutuante, que me hospedaram durante a volta ao Mundo. Não sei, confesso, se estarão bem, depois do tsunami. A Donna olha-me de uma maneira estranha, balbucia qualquer coisa sobre uma prova da existência de Deus, e depois conta-me tudo o que se lhe está a passar na cabeça.
«Escuta, não vais acreditar, que coincidência espantosa», diz-me, e chama o Óscar, o Juan Carlos, o Orlando. Continua, referindo-se a todos: «Nos dias a seguir ao tsunami, nós organizámos várias actividades sociais, fizemos dois jantares de beneficência, alguns espectáculos de música, enfim, lembras-te, Gonçalo, foi durante as férias do Natal, Granada estava cheia de turistas, bom, reunimos algum dinheiro para ajudar as vítimas do tsunami». Donna pára de falar um segundo e olha para todos os miúdos. Continua: «Tentei várias vezes entregar esse dinheiro, mas nunca encontrei uma organização humanitária que me parecesse indicada. Ou eram demasiado grandes e já sei que o dinheiro se perdia em burocracias; ou eram demasiado obscuras e pouco fiáveis - e eu sei do que estou a falar; ou então nem sequer respondiam aos meus ‘e-mails’».
E sem muitas mais palavras, a Donna entrega-me, em nome de todos eles, um cheque no valor de mil dólares. «Se os teus amigos pescadores precisarem, ajuda-os. Se não precisarem, alguém por lá há-de precisar». E conclui: «Realmente, uma coincidência espantosa!» Rimos todos.
Rir serve para muitas coisas. Para desdramatizar situações tensas ou patéticas; para exprimir a alegria de dar andamento à esperança; para demonstrar a felicidade de um reencontro de amigos. Rir serve também, quando estamos emocionados, para não chorar. Que foi o que me apeteceu fazer, quando alguns dos miúdos mais pobres da Nicarágua me deram o dinheiro que não têm, para ajudar amigos que não conhecem do outro lado do Mundo. Por isso me soube tão bem rir junto com a Donna, o Óscar, o Orlando e o Juan Carlos.
Texto e fotografias de Gonçalo Cadilhe( In Expresso de 8/10/05)
Publicado por morfeu às outubro 8, 2005 12:19 PM
Comentários
Esta história é linda!!! Ainda bem que o mundo é cheio de "miúdos"...
Aqui, no Brasil, sempre são os "miúdos" de idade, de dinheiro, de condições, que são os que mais têm "grandiosidade" de coração, de amor, de espírito de doação...
Dos "graúdos", nada se espera, infelizmente...
Ah! Você deveria criar um local para que se pudesse enviar os posts para outras pessoas.
Um abraço,
Isabel
Publicado por: Isabel em outubro 9, 2005 11:18 PM
Grato pela visita de além-atlântico...coisas que a blogosfera proporciona...
Acerca do local para enviar posts..não percebi bem tua ideia...se quiser ter a amabilidade de me explicar melhor, agradeço...
Feliz por conhecer ainda que virtualmente mais alguém do outro lado do mar...
Um abraço
Morfeu
Publicado por: morfeu em outubro 10, 2005 01:48 PM