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dezembro 28, 2005

A GAZELA EMBOSCADA ...Salpicos do diário de um ex-alferes, feito em terras da Guiné (1966/68)

...dou hoje lugar ao meu irmão Leo, que arrisca de vez em quando escrever algumas das suas já longínquas mas oportunas memórias do tempo da guerra colonial. A alguns visitantes com mais idade, talvez relembre algo...aos mais novos, para que não se esqueça o que muitos dos seus familiares arrostaram com mágoa, cansaço, medo, revolta, coragem...todas essas humanas qualidades que porventura andarão por aí algo embrulhadas no esquecimento do já passou...

Então a estória reza assim...

A GAZELA EMBOSCADA ...


Num dos convívios com a malta de uma “Companhia de Caçadores”, que andou por terras da Guiné, alguns soldados de então recordaram ao “seu alferes”, como ainda lhe chamam, um estranho episódio em que este não quis acreditar, dando-lhe o desconto devido às coisas estranhas que se contam tantos anos passados ...

Pois, quem conta um conto .... acrescenta-lhe um ponto ...

Mas, porque foram tantos a afiançar o mesmo, o alferes decidiu vasculhar o seu baú de recordações e lá estavam de facto uns rabiscos que, em linhas gerais, confirmavam tal episódio e que assim se conta:

Era mais uma acção, talvez simplesmente rotineira, como todos esperavam, embora isso raramente acontecesse.

O alferes Santos ordenou o seu grupo de combate, naquela noite de Agosto de 1967, chuvosa e quente, dizendo simplesmente que o objectivo era montar uma emboscada entre Flaque Cibe e Jufá.

Surpreendentemente, horas antes, tinha aparecido o Comandante do Batalhão, supostamente com o propósito de elevar o moral da malta de Jabadá, aquartelamento que dava guarida à Companhia de que o alferes fazia parte.

De modo que estava naqueles preparos, de saída para o mato, quando o tal Comandante, com a sua proverbial falta de jeito para essas coisas, se lhe dirige, para de forma ufana lhe dizer: - “então nosso Alferes, a fumar o seu último cigarrinho?”

Ao que Alferes, com a autoridade que muitos meses de Guiné já lhe davam, retorquiu:

“Foda-se, meu Comandante, hei-de fumar este e muitos mais, porque o filho da minha mãe ainda não vai morrer desta”.

Claro que foi uma resposta no gozo, mas, pelo sim pelo não, o Comandante decidiu ficar caladinho ... porque o alferes estava com aquele ar tenebroso de quem não faz a barba há muitos dias, vestido de camuflado e rede mosquiteira e cinturão pejado de balas e granadas.

Bem sabia o Comandante que estes gajos do mato não são flor que se cheire, andam todos tão cacimbados que, nos intervalos da guerra, até às escondidas já os viu jogar...

Então os alferes milicianos ....não são de fiar, ouvem às escondidas a Rádio Liberdade, de Argel e, se puderem, simulam ataques aos objectivos com granadas de fumo!

De maneira que lá seguiu o Alferes com o seu grupo de combate, que, por uma questão de maior mobilidade, sobretudo nas sempre difíceis retiradas, reduziu a cerca de 15 elementos, os mais resistentes e experimentados.

Como de costume, atravessaram a longa bolanha contígua ao quartel, atascaram-se no lodo, às vezes até aos joelhos, praguejaram pelas frequentes quedas e pela porcaria daquela chuva caudalosa, embrenharam-se na mata e pararam na clareira estratégica e adequada à passagem de longas horas.

Aí se coseram à terra, numa longa insónia, garantida por muitos temores, sem óbvia necessidade de despertador para a hora de eventual aparição do inimigo.

Pelas 5 da manhã começou a raiar um novo dia, desenhado na luz tímida do sol nascente que pouco a pouco se incendiou e abruptamente mandou parar a chuva.

E tudo foi tão repentino que aquelas cordas grossas, feitas de água, mais parecia que tinham ficado suspensas nas altas copas das árvores que emolduravam a clareira, num cenário fantasmagórico.

Depressa secaram os camuflados e o lugar da chuva foi tomado por um suor pegajoso que mais parecia cola, causado por aquele calor húmido e fétido, mas também pela ansiedade da espera e do momento de mais um diálogo entre a vida e a morte.

E ouviu-se um restolhar, coseram-se mais os corpos à terra, aperraram-se mais as armas, apalparam-se as granadas, aperfeiçoou-se a mira, aumentaram os batimentos cardíacos, retesaram-se os músculos e revolveram-se as entranhas, com aquelas dores inconfundíveis das horas da aflição.

O alferes começou a dar as suas ordens, a passarem em surdina, de homem a homem, fazendo-se calmo e a morrer por dentro.

Era só mais uma acção mas estava farto daquela merda, farto de um tempo que não tinha sido feito para amar, nem para sonhar!

Para ele, era tempo de sobreviver, de pôr os neurónios a funcionar, de levar de volta à “Metrópole” aquela rapaziada simples e generosa!

Sabia que era muito respeitado, por não exigir aos outros o que ele próprio não fizesse, por ser disciplinado e racional em combate, com aquela coriácea resistência que 5 anos de seminário lhe haviam dado.

A castração psicológica do seminário foi uma coisa terrível, digna da manhã submersa do Virgílio Ferreira, mas se não fora tão férrea disciplina decerto não teria sobrevivido àquela guerra e é a única coisa que, só por isso, agradece aos padres....

Respeitado era, portanto, talvez até admirado, mas nunca tão estimado como era um outro Alferes, o Belmiro, um filósofo, que enchia corações com os trinados da sua viola e que inundava o quartel com uma poderosa voz de barítono!

Cantava Coimbra e os seus amores e nunca esquecia a namorada que deixara no Porto, que envolvia em doces versos e ternas canções.

E também gritava pela liberdade, como os hebreus em cativeiro, num “Va pensiero” tonitroante e sublime!

Deixara as questões da operacionalidade para o Santos! Para o Belmiro aquele também era tempo para amar e para sonhar!

Aquele ténue restolhar foi-se aproximando e invadiu a clareira, denunciando a presença de uma gazela – ou seria cabra de mato – tosando a erva, com o ar receoso de quem espreita o perigo, levantando de quando em vez a cabeça, sem perder a elegância!

Logo o Alferes Santos fez passar a palavra de “tudo quieto, ninguém atira”

Sublime aparição aquela, mensagem de beleza e de vida, em vez da morte, quadro de apelo ao sonho e à ternura, desenhado numa clareira debruada numa mata já tão saciada do horror do ferro e do fogo!

Trocaram-se olhares espantados e afugentaram-se desejos de caça, logo vencidos por aquele indescritível enlevo.

De repente, um tiro e a gazela caiu redonda, levantando a cabeça, num último aceno à vida, feito de espanto pelo súbito fim daquela refeição, numa manhã esplendorosa.

Mas o tiro viera do outro lado da clareira, onde, afinal, se acoitara o Inimigo, que não resistira àquele sempre tão desejado reforço das suas provisões!

Outros se seguiram, agora uns contra outros, até que as armas se silenciaram, sem outras consequências.

Então, o alferes Santos dirigiu-se à gazela e deu ordens de que ninguém lhe tocasse, perante o ar espantado daqueles homens.

Subitamente, junto a ela, persignou-se, levantou os braços e entoou um latinório, alusivo à encomendação das almas, talvez muito próprio das cerimónias da semana santa e que ninguém mais entendeu!

Ouvido aquele latinório, convenceram-se os soldados que o gajo tinha pirado. E mais se convenceram quando ordenou a retirada explicando: - O que disse significa que aquela gazela, tal como o homem, pertence à terra e nela se há-de transformar! A gazela fica aqui, em homenagem ao amor e à paz!

Pois, responderam os soldados, vêm aí os “turras” e vão comê-la!

Que seja! Mas nós não, ninguém lhe toca, mandou o alferes!

Ao quartel chegaram mais tarde notícias de que os “turras”, como eram chamados, depois de afugentados pelo tiroteio, se foram reaproximando do local, abrigados na mata e observaram aquela cena.

E contou-se que tiveram o alferes na mira mas, tal como os soldados, ficaram estarrecidos com aquela cena, aquela celebração da natureza, que não entenderam mas respeitaram!

Também eles esbugalharam os olhos de espanto e também eles deixaram que aquele momento de ternura e de paz os invadisse.

Por isso, ao que se conta, levaram consigo a gazela, depositaram-na debaixo do poilão sagrado, a maior árvore da floresta e aí lhe prestaram idêntica homenagem, não feita de latinórios mas de louvores à natureza.

Seguidamente, o”homem grande” da tabanca ordenou que a devolvessem ao local onde morrera e assim a deixaram, com um farto tufo de erva tenra metido na boca, como alimento da viagem que iria fazer, ao encontro dos seus antepassados.

E foi esta a história real, vivida num dia de Agosto de 1967, em que a guerra, por fugazes momentos, se transformou num quadro de paz.

E, a partir desse dia, o Alferes Santos começou a deixar que a sua carapaça se abrisse um bocadinho, que, de vez em quando, as suas emoções brotassem nas confidências com aqueles homens, porque, afinal, aquele tempo também podia ter uns momentos, fugazes que fossem, para a paz, para a ternura e para o amor.

Aos antigos soldados que lhe recordam a história, o alferes continua a responder que isso só aconteceu na imaginação deles.

Mas, ao que parece, tudo assim se passou, naquele dia de Agosto de 1967, em que a guerra deu lugar à paz, por culpa de um alferes cacimbado e de uma inocente gazela emboscada.

Publicado por morfeu às dezembro 28, 2005 01:07 PM

Comentários

Uma história bonita, sem dúvida. Quer o Alferes continue a dizer que se trata de imaginação ou não.
Dava uma pequena metragem interessante!
Muito bonito!

Publicado por: idedumyrox em dezembro 28, 2005 05:57 PM

Tocante este relato de algo bem peculiar mas que eu acho possível. Homenagem à Natureza, mas também ao Amor e à Paz que são coisas de que tanto necessitamos neste mundo.

Aproveito para te desejar um 2006 cheio de Paz, Anor, Harmonia, Solidariedade, Saúde e Alegria pra ti e os teus, amigo Morfeu!

Um beijo

Publicado por: Pink em dezembro 30, 2005 01:23 AM

gostei muito. e gostava de gostar mais com novos e outros contos.continua assim a escrever e pensa em publicar isso. há memórias que ajudam a entender o mundo.
dinkie

Publicado por: agosjud em dezembro 30, 2005 11:21 PM

gostei muito. e gostava de gostar mais com novos e outros contos.continua assim a escrever e pensa em publicar isso. há memórias que ajudam a entender o mundo.
dinkie

Publicado por: agosjud em dezembro 30, 2005 11:56 PM

Houve momentos muito marcantes na passagem dos militares pelas ex-colónias no período da guerra colonial, uns agradáveis de recordar outros nem por isso. Mas o que aqui me trás é dizer ao caro amigo Morfeu que o novo ano traga surpresas agradáveis pois que das outras estamos todos nós muito fartos.
Com um abraço do Raul

Publicado por: congeminações em dezembro 31, 2005 03:48 PM

Bem interessante conto da humanidade do homem...

Mas vim cá para mimos. Ei-los:

Acabei, mesmo agorinha,(graças ao Ognid, da Catedral e da Amélia Pais, de Ao Longe Os Barcos De Flores) de descobrir que este dia 31 terá mais um segundo por imperativos de acerto cósmico...

Pois que esse segundo seja o do nosso abraço
e que ele tenha o tamanho do mundo!

Publicado por: OrCa em dezembro 31, 2005 06:08 PM

Sabes que volta-e-meia, como cão vadio, passo por aqui. Hoje deixo-te um abraço que dure o tempo que preciso fôr. Logo te darei outro quando cá voltar. Provavelmente, em outro ano.
Que, espero, te seja propício aos teus anseios.

Publicado por: eduardo em dezembro 31, 2005 06:22 PM

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