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maio 16, 2006
Se estão doentes, metem-se na cama, sustentam-se de leite e esperam a saúde ou a morte.
Os costumes mudaram muito pouco. Ainda hoje os corvinos preferem trocar e vender. Só a ilha produz mais; produz tudo o que esta gente precisa. Vem o jantar para a mesa num grande alguidar, sopa com toucinho e batatas. Bebem o leite perfumado do cabaço que anda de mão em mão. O leite trabalha sempre, como eles dizem; bebem-no de manhã, ao fim da tarde com sopas, e lá em cima com queijo e pão. Vinho não há e mata-se um boi duas vezes por ano. A cozinha é negra com a caixa e a peneira, o lar e o forno tudo coberto de fumo. Num rescaldo a grelha e o caldeirão; no tecto o toucinho pendurado na tombaralha e as varas com espigas de milho. O vento entra por todos os buracos da casa primitiva, com armação de cedro e canas entrelaçadas de junco. Moem o pão nos moinhos de vento ou nas atafonas, em lojas escuras onde um boi calcando estrume, com os olhos tapados e preso a uma grossa trave que se chama castalho, faz mover o pião e o almanjar. Há cinquenta atafonas na terra, e cada uma tem cinquenta ou sessenta proprietários, que as vão recebendo dos pais e as transmitem aos filhos. O sentimento da propriedade é levado ao último extremo, até ao ponto de dividirem as ruas por cancelas, e campos de meia dúzia de metros quadrados por muros de pedra solta. Só há um vestígio de comunismo, que ninguém recorda que existisse; a lã, que foi comum, é ainda hoje tosquiada em comum. E o dia do fio subsiste. Na última segunda feira de Abril e na última semana de Setembro, toda a população se reúne para tosquiar as ovelhas, que distinguem pelos cortes das orelhas: cada família tem o seu sinal registado nos livros da junta.
Toda a gente se submete às deliberações dos velhos e do padre. É grande a influência do vigário, e em troca dos seus serviços dão-lhe trigo, centeio e batatas e num dia combinado levam-lhe leite e fabricam-lhe queijos para todo o ano. Na igreja as mulheres estão ao meio do templo, de lenço na cabeça, separadas por balaustradas de madeira, e acabada a missa esperam que os homens esvaziem o altar-mor e a porta do adro para depois saírem. O respeito lá dentro é extraordinário. Depois do casamento os convidados juntam-se em casa dos noivos, à volta dos ovos cozidos, vinho e massa da noite, que estão na mesa. E vão comendo e pondo as cascas de lado, dizendo uns para os outros, compenetrados:
- Manares de Deus! – Dança-se até tocar à missa do outro, com os noivos sempre presentes e guardados pela família – porque têm Nosso Senhor no peito – e só no dia seguinte é que os deixam dormir um com o outro.
Não há pescadores: quem quer peixe pega numa linha e vai pescá-lo.
- Vais ao peixe?
- Uai! – como quem diz: sim.
(…)
Se estão doentes, metem-se na cama, sustentam-se de leite e esperam a saúde ou a morte.
(Raúl Brandão, "Ihas Desconhecidas", Círculo de leitores)
Publicado por morfeu às maio 16, 2006 10:26 PM
Comentários
que bonito. :)
Publicado por: margarida v em maio 17, 2006 12:58 AM
Ai, que vontade me deste de partir para os Açores...:)
Beijos
Publicado por: lique em maio 17, 2006 08:03 PM
E eu, que nunca lá fui e não consigo sair de lá...leiam "ilhas desconhecidas" do R.Brandão e façam uma viagem de quase cem anos...de graça...o livro foi escrito em 1926...
Um abraço
Morfeu
Publicado por: morfeu em maio 17, 2006 10:50 PM
Já fui aos Açores por duas vezes. Da primeira, fui de avião e ia caindo. Meu Deus, foi uma aventura ver aquela gente da Terceira esfagoada contra os continentes e a perseguir vacas de corda atada a um fundo estranho de areia de praia.
Da segunda, ia-me perdendo no verde e no mar, na tristeza das gentes e na religião que os une à vida . Ele foi um esboroar de cantos e de almas, ele foi um trinar de saudades do que poderia ser e nunca foi, felizmente, para mim, se lá tivesse deixado certidão. Vão lá antes de morrerem, levem o Raul Brandão em vez de excesso de xanax e tragam-me de volta a cor dos olhos daqueles tristes de Deus, abençoados porém pelo silêncio perverso de uma esperança que tarda e só renasce nos bordados de um poema, aqui, ou no tangido do vento que por ali pasma as almas e curte os corpos de estranho sabor a Inferno. Encontrem-se com o virar de página de ilha em ilha e escrevam o vosso guião até à eternidade. Nunca mais voltarão a serem os mesmos. Para o bem ou para o mal.Partam depressa e remarão combalidos para a eternidade mas tisnados pela força da original sobrevivência à intempérie da solidão, dos cardos e das ovelhas... e, porque não, das flores que teimam em dar ao azul imenso do mar um final feliz.
Fiquem bem
Dinkie
Publicado por: agosjud em maio 18, 2006 10:10 PM
