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maio 20, 2006
Do culto do Espírito Santo.
A única devoção do povo açoriano, ou pelo menos a mais arreigada, é o Santo Espírito, que tem por fim principal dar de comer aos pobres – culto remoto que vem do fundo dos séculos, desaparecido no continente, mas que, levado pelos colonos, perdura nos Açores.
(…)
Nas ilhas e no Brasil, todos os anos se elege um imperador para fazer a festa, que dura da Páscoa a Pentecostes do ano seguinte. Procura-o em casa a multidão e leva-o coroado e de ceptro até à igreja, onde o clero o recebe sentando-o no trono ao lado do santuário e incensando-o como a um bispo (Brasil). Este imperador dos imperadores tem, porém, uma missão que lhe impõem os pobres: dar de comer a toda a gente nos dias de festa. Às vezes arruína-se para encher os ventres insaciáveis da freguesia que o elegeu. As roscas do Santo Espírito são aos montões – levadas pelas mulheres em tabuleiros; a casa do culto é transformada em açougue. Ao lado dos carros de folhagem, dançam os foliões, de balandraus vermelhos e altas coroas na cabeça. De ilha para ilha a festa varia de pormenores, como varia no sertão. O que não varia é o seu extraordinário carácter popular. Não é o padre que celebra o culto – é o povo que o celebra, o povo grosseiro e rude, que traz para diante do Santo Espírito a Santa Matéria. O padre apenas colabora. Na Idade Média a Igreja tolerou-o e tolerou a Festa dos Loucos e do Burro, que entrava no templo de solidéu na cabeça, acabando a missa por o padre desatar aos zurros, ao que o povo respondia em coro com zurros mais altos. Só pouco a pouco a Igreja substituiu estas farsas, que em certas dioceses duraram séculos, pelo culto da Trindade, e o culto ao Divino pelo de Jesus, Maria, José…
(a continuar...)
("Ilhas Desconhecidas", R.Brandão, Círculo de Leitores)
Publicado por morfeu às maio 20, 2006 01:24 PM
