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maio 23, 2006
Do culto do "Espírito Santo" sg/ Raul Brandão.
Hoje o imperador é um americano que voltou à terra com dinheiro e que mandou matar dois bois e cozer quatro sacos de farinha. Vá de encherem-se até lhe tocarem com o dedo! Já cozeram a carne e as sopas. Ainda de noite, vazou-se numa terrina – a sopeira do encontro – a primeira carne e as primeiras sopas do caldeirão e uma rapariga saiu ao alpardo (amanhecer) e ofereceu-as à primeira pessoa que encontrou no caminho. De véspera os foliões com bandeiras e tambores trouxeram a coroa para casa do imperador e da imperadora, que mandaram armar o altar na sala, paramentando-o com vasos e flores, fitas de seda, cordões de oiro e uma bancada com velas acesas. Espreito. Na ruelas da terrinha escura escoam-se fantasmas. Duma ladeira surgem mais sombras. Todos se dirigem para a mesma casa, onde os foliões cantam a alvorada tocando bombo e testos, sete ave-marias, diante do Espírito Santo, dançadas à roda com extraordinária gravidade e sem nunca voltarem as costas ao altar. A povoação está sentada em roda, os pastores velhos ajoelhados atrás de mim e os mais pequenos agarrados á banqueta… O céu é figurado no tecto por um paninho cor-de-rosa com uma pomba de papel dourada a meio. Isto termina pelo oferecimento, começando em tom menor e concluindo em terceira maior, conforme os motes de épocas passadas.
- Seja pelas almas dos defuntos do imperador!
(“Ilhas Desconhecidas”, Raul Brandão, Círculo de Leitores)
Publicado por morfeu às maio 23, 2006 09:48 PM