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maio 24, 2006
Jesus! Jesus! Jesus! - Morreu! - ...
Tudo neste sítio escondido está pautado do nascimento à morte. A família é sã, a casa asseada, e a mulher ouvida em todos os contratos. Não há criados, porque ninguém quer servir. (…) Quando uma pessoa está para morrer, a casa enche-se-lhe de gente: vai para lá metade da freguesia conversar e cheirar rapé. Chegado o momento trágico da agonia, uma das velhas, que rodeiam a cama como avantesmas, salta para cima do moribundo, já de olho vidrado, e abraça-se a ele, repetindo: - Jesus! Jesus! Jesus! – para espantar os maus espíritos e obrigá-los a afastarem-se do leito. E logo que diz: - Morreu! – a gritaria dos espectadores é ensurdecedora. Também, desde que a criatura agoniza, não se acende mais o lume nem se bebe mais água, que se despeja dos cântaros, para que a alma não se creste nem se possa banhar nos potes…
(“Ilhas Desconhecidas”, Raul Brandão, Círculo de Leitores)
Publicado por morfeu às maio 24, 2006 08:00 PM