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maio 31, 2006

...sítio ideal para acabar a vida ignorada...

(…) … logo que lá chego, paro diante duma casinha perdida dentro da floresta. É térrea, com pequenas janelas de guilhotina viradas para o amar. Não vale nada: é a casca abandonada dum caracol. Mas não parece feita; parece que cresceu ao mesmo tempo que as flores vermelhas que a rodeiam e que lembram uma paixão ou um crime. Árvores, quatro muros velhos à roda, a latada sobre varas à entrada do quintal, e um encanto que não sei bem explicar e que nasce das coisas simples, que não procuram impor-se à nossa atenção e só nos oferecem a sua simpatia. Eis o sítio ideal para acabar a vida ignorada com os olhos postos no mar e aquecido de Inverno por este sol esplêndido, mergulhando a minha velhice friorenta na luz radioactiva e estendendo o meu cansaço à sombra das árvores que nos oferecem os frutos maduros. Teria aqui um alegrete caiado de branco com vasos de flores que já ninguém usa e que minha avó cultivava num canteiro – dálias, suspiros, sardinheiras. Refugiar-me-ia naquele canto sombrio onde corre um fio de água entre meia dúzia de bananeiras, que nunca vejo sem ficar atónito. (…) Reparo lá para o fundo num antro de braços retorcidos – floresta primitiva de meia dúzia de metros quadrados; reparo em carreiros escuros com renques inextricáveis de bambus, e nas ervas secas cheias de discos de sol que apetece apanhar como moedas. (…) … e não digo bem; o sítio é para contemplativos viverem e morrerem. Sobretudo viverem, porque a grande delícia num clima destes é viver, e respirar uma voluptuosidade. Ao ar embalsamado da terra mistura-se o hálito violeta do mar. Pode-se dormir ao ar livre sob o dossel de estrelas, porque as noites tépidas da Madeira são uma carícia de pele macia. As noites lânguidas e brancas cheiram a flor e a fruta, as noites desfolham-se diante dos nossos olhos, como uma camélia que morre devagar. No alto, o céu não pode com o peso das estrelas e a cidade, em baixo, cheia de luzes, lembra uma maravilhosa constelação. Estas noites húmidas de luar, junto a uma mulher amada, são das coisas mais extraordinárias que pode haver no mundo, porque a volúpia do exterior está de acordo com a exaltação íntima e o universo vibra dentro de nós até à dor. ("As ilhas desconhecidas", Raul Brandão, 1926, Círculo de Leitores)

Publicado por morfeu às maio 31, 2006 10:03 PM

Comentários

E aquela caminhada/corrida que fizemos do Curral das Freiras até ao Funchal? E aquela poncha que bebemos a meio? E as levadas que descobrimos, guiados pelo mano (bem hajas inesquecível anfitrião)então sediado no Funchal? E aquelas sublimes cervejas saboreadas numa esplanada junto ao tribunal? E as espetadas, em pau de loureiro... e a beleza do Monte, ora inundado de Sol, ora refrigério do asfixiante "capacete" da cidade? E a caldeirada na "Ti Maria"(?) em Porto Santo, após uma esplendorosa manhã na praia? E....e... e...!
Tantos anos passaram...20, sem dúvida, mas essa 1.ª viagem à Madeira continua inesquecível, não achas Morfeu?
Diferente, mas de beleza comparável, a sublime comunhão entre o mar e a montanha que os meus olhos contemplaram no Pico!
É tudo isto que estes belos textos agora me recordam e que te agradeço!
Leoninas e fraternais saudações do
Leo

Publicado por: Leo em junho 1, 2006 01:54 PM

Não sei se vais citar o relato sublime do Terreiro da Luta.Ainda hoje se ouvem os berros dos homens num estrugido de almas penadas que por ali vão passando, sem horas contadas, no verde agreste das babosas entrecortado por algumas luzes de neblina que teima em ficar , agoirando novos eventos.
Subindo, numa tenaz constelação de agonias e esperanças, a leitura à luz da pena do escritor em noites de funcho mal respiradas, foi um dos mais belos momentos que num abraço de agonia tive na cidade.E fiquei com a memória recheada de páginas com sabor a terra, suor de gente esquecida, troncos de humanidade que insiste em se transformar em resorts de felicidade. Quem não esquece as custas do actual destino, naquele tempo impensado nascer? Só Raul Brandão, que li de um fôlego, em tempos idos de instrução criminal, me cismou a profissão, quebrou as amarras da saudade e derramou na alma já pesada os nós desfeitos de uma visão de gente que embruteceu pela fome e pela ignorância, hoje transmutada em alquimia de ingleses, turistas continentofóbicos e spas de luxo convertidos em paraísos prometidos durar para a eternidade ,sempre, languidamente, em carícias de poncha, espetadas fumegantes e verborreia de um clã comandado por um imbecil bafiento.
Dinkie

Publicado por: agosjud em junho 2, 2006 12:31 AM

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