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julho 25, 2007

O Espírito das casas ...

Todos os dias da infância ouvia
No final de noite familiar o eterno
Pedido que nunca ali Seria satisfeito
Seja Deus nos dê uma casinha nossa
Aquela era alugada de longa data
De alguém de mais posse que ali
Tivera ocupação
Casa quadrada com extensão para os dois lados
Um era a casa de fora a nascente
Outra mais baixa de telha vã poente
O estendal todo aberto em arcos de tijolo cru
Onde os morcegos em noites de Verão se acoitavam esvoaçando depois em golpes rápidos de monstrinhos tocando-nos furtivamente e nós apanhávamos alguns de vez em quando estendendo-lhes as asas perversos
Quadrada que era como instalada em moldura ali estava
A casa que não era nossa quase esvoaçando na inclinação
Da pequena colina cujo lombo corria em direcção a misteriosos vales para nós pequenos infantes ornados de morcegos à noite e de trovoadas de Inverno incendiando os fios que ligavam para uma cabine fantasmagórica e fugíamos quando os deuses das tempestade se zangavam e lançavam as labaredas das suas inconstantes e imprevisíveis fúrias fazendo-nos fugir para os campos pedregosos ali ao lado em medo e sem tino ao grito da minha mãe
Alguém se esquecera do mais pequeno que se refugiara debaixo da mesa da sala
E na sua fragilidade inocente insultara a tempestade deixando-se dormir sorrindo
E nas pedras grandes e soltas de calcário choravam nos tempos das chuvas pequenas nascentes que nos maravilhavam a água nascente assim por ali de pedras
Não suspeitando os rios que pelas grutas e algares se formavam e escapuliam
Ali estava a casa que não era nossa
Cheia de todos nós e onde vivíamos numa confusão de pais avós e filharada
Também no sobrado e por onde calhava moravam os pardais e os ratos corriam alegres e sobranceiros para as ratoeira de buracos armadilhados
De manhã despojávamos-nos dos seus cadáveres sem medo atirando-os logo para o baldio ali ao lado
Tempo de na casa ainda se vestirem as crianças
Como já não
Com calções os rapazes de fundilhos fendidos para uma evacução mais fácil
Limpava-se o cú a uma pedra se calhar daquelas que amparavam as nascentes milagrosas
E as mulheres antigas daqueles tempos ausentes de lingerias modernas mijavam de pé com orgulho da sua facilidade e pouca vergonha nenhuma
Eram assim os tempos daquela casa que pairava naquele alto
E eu que pensava que não tinha registado o seu estar e percurso
Cheio de sol e vento e tempestade e grito e fúria e amor possível
Eu que fechara as nascentes milagrosas
Eu que fugira com voto de eternidade para algures
…em noite de Verão brando respiro o espírito da casa pela qual rezávamos todas as noites para ser nossa
E não foi…

Publicado por morfeu às julho 25, 2007 10:31 PM

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