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janeiro 13, 2008
Da confissão "auricular" às "penas do Inferno".
Da minha antiga práctica religiosa, confesso que pequei um bocado ao confessar-me...principalmente quando o padre confessor queria saber "determinadas" coisas... mas como havia a absolvição final, a coisa compunha-se e vinha de alma lavada até ao primeiro pecadilho.
Bento Domingues, em mais uma das suas muito humanas e simultaneamente eruditas intervenções no jornal Público,
ajuda-nos a refectir sobre a questão.
O embaraço da confissão
Frei Bento Domingues O.P. - 20080113
No Ocidente, a maioria dos padres não manifesta grande pressa em "ouvir confissões"
1.Este é o título dado a um debate que terei de orientar amanhã, no Convento de S. Domingos, no programa das conferências mensais do Instituto São Tomás de Aquino (ISTA). Onde estará, porém, o embaraço, se, ainda não há muitos anos, o Catecismo da Igreja Católica e o Código de Direito Canónico, assim como as instruções de João Paulo II sobre O Sacramento da Penitência, foram tão desembaraçados a dizer o que é e como deve ser a "confissão auricular"?
O mal-estar vem de longe, reforçou-se com o Vaticano II e há quem tema e quem deseje que a confissão desapareça de vez. Entre nós, foi D. António Ferreira Gomes que, nas suas Cartas ao Papa, escreveu o que muitos pensavam e não diziam: "Factos são factos e o facto é que hoje, em grande escala, pequenos e grandes fogem do confessionário, sendo essa a maior causa da "descrença" de muitos que intimamente aceitam Cristo e o Evangelho."
Segundo o historiador J. Delumeau (1), todas as cronologias destinadas aos alunos do ensino secundário deveriam dar um grande relevo à decisão do IV Concílio de Latrão (1215) que tornou a confissão anual obrigatória. Esta norma modificou a vida religiosa e psicológica dos homens e das mulheres do Ocidente e pesou espantosamente nas mentalidades, até à Reforma nos países protestantes e até ao século XX nos que permaneceram católicos.
Como observa o monge beneditino Philippe Rouillard, professor de Teologia dos Sacramentos e da Liturgia, em muitas igrejas, os confessionários já só têm um valor de vestígio, se não foram comprados por antiquários para os transformar noutra coisa. V. Gómez Mier descreveu um desejado Adiós al Confesionario. Sem se poder generalizar, a verdade é que, no Ocidente, a maioria dos padres não manifesta grande pressa em "ouvir confissões", são cada vez menos os fiéis que pedem para "se confessar" e a maior parte dos que participam na missa de domingo avança para a Comunhão sem recorrer a esse ritual.
2.Apesar de todo este mal-estar, o citado Ph. Rouillard observa que, salvo no círculo muito restrito dos especialistas da liturgia, a confissão não provocou muitas investigações. Os historiadores que se poderiam interessar pelo assunto são católicos e não se sentiriam muito à vontade para abordar uma questão que os incomoda. Os confessores nunca poderiam dar qualquer informação por razões de absoluto sigilo (2). No entanto, não estamos completamente às escuras acerca da história da confissão. Além de estudos parciais, da "História" de C. Vogel sobre o pecador e a penitência na Igreja antiga e na Idade Média e da obra muito conhecida de J. Delumeau, um grupo de investigadores reuniu-se, durante 25 anos, para nos oferecer excelentes versões das "Práticas da confissão", desde os Padres do Deserto (IV-V) até ao Vaticano II.
Em face da contestação protestante, o Concílio de Trento (1545-1563) procurou fazer do sacramento da penitência o sustentáculo de toda a vida cristã. Se isto teve um grande êxito em muitos casos, acabou por minimizar a importância da Eucaristia e de alterar o seu verdadeiro sentido. A hostilidade que gerou, a partir do século XVIII, coincide com a afirmação progressiva dos direitos humanos e da autonomia da consciência, na qual ninguém pode mandar.
No século XX, a Congregação dos Sacramentos decidiu em 1910, por decreto, a idade do "uso da razão" - por volta dos 7 anos - para aceder à Primeira Comunhão eucarística, precedida de confissão.
As ameaças com as penas do inferno para quem não confessava os pecados mortais, incluindo, então, as crianças e os adolescentes, foi talvez um dos maiores desastres da pastoral da Igreja em toda a sua história. Não vale a pena perder muito tempo com esse detestável passado inquisitorial.
3.Não posso explicitar nem justificar, de modo adequado, uma perspectiva que entende o caminho cristão como uma conversão permanente, celebrada no Baptismo é retomada em todas as celebrações da Eucaristia.
As orientações na evangelização e na pastoral devem ter em conta a diversidade cultural, a promoção dos direitos humanos e o respeito pela consciência inviolável de cada um. No campo propriamente sacramental, é preciso, antes de mais, respeitar a sua hierarquia. Se a porta é o Baptismo, o mais importante dos sacramentos é a Eucaristia, que é também o grande sacramento da confissão dos pecados, da misericórdia e do perdão de Deus. Esta dimensão, iluminada pela proclamação da palavra do Evangelho, percorre toda a missa. Quando não se ajuda a perceber isto, arruina-se o que se pretende salvar com a "confissão auricular".
Certas práticas da confissão não foram apenas grandes crimes do ponto de vista cristão, foram também uma constante e infame desvalorização da Eucaristia como sacramento do perdão.
A Igreja viveu cerca de 12 séculos sem a norma da confissão auricular e Santo Agostinho nunca se confessou.
(1) L"Aveu et le Pardon: les difficultés de confession, XIII-XVIII siècle, Paris Fayard, 1990, pp. 13-14.
(2) Philippe Rouillard, História da penitência - Das origens aos nossos dias, Paulus, São Paulo, 1999.
Publicado por morfeu às janeiro 13, 2008 09:52 AM
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Comentários
Amigão;
Passou também por aqui o meu rompimento há muito com o Catolicismo Romano. Não sei se já te disse alguma vez, também eu fui seminarista, tinha então 10 anitos de idade. Encontro-me com Deus sem intermediários e sinto-me muito bem.
Bom Domingo para ti e para a tua companheira.
Aquele @bração
Zé do Telhado
Publicado por: ze do telhado em janeiro 13, 2008 02:11 PM
Fazias-me mesmo cá muita falta.Só tu, com essa disponibilidade para deixares uns abraços ainda que pela virtualidade...mas eu sinto como se fossem bem reais.Amigo Zeca, vamos lá a continuar nestas lides inglórias e mais ou menos de zés ninguém.Conto contigo e irei seguindo as tuas costumadas zurzidelas aos grandes deste mundo.Bom domingo, ambos numa relação cara a cara com a divindade seja lá o que isso for...ela,ele ou eles e elas, compreenderão e terão algures o seio aberto para as nossas humanidades ou desumanidades....
Abraço
Morfeu
Publicado por: morfeu em janeiro 13, 2008 06:06 PM
Uma das minhas "tragédias" pessoais foi ter crescido com uma educação baseada nessa famigerada "confissão" católica. Poderia falar mesmo de psicose, traumas, de que ainda hoje não me libertei inteiramente.
Vem Frei Bento dizer o que se passa hoje. Mas o mal está feito. Ainda não vi a ICAR (Igr. Católica Apost. Romana)pedir desculpas ou, sequer, publicar novas orientações em que se retrate dos crimes que praticou ao longo de séculos. Nunca perdoarei a essa gente! Daí o meu anticlericalismo feroz. Sou amigo de padres, respeito-os como pessoas individuais. Mas detesto militantemente os padres como "confraria", com esse execrável Papa Bento como chefe de fila.
Cáfila de gente abjecta!NÃO MERECEM PERDAO! Não têm nada a ver com o doce Jesus que habitou os primeiros anos da minha infância!
Desculpe, mas ainda me indigno!
Hoje não acredito EM NADA dessas tretas religiosas. E pertilho a opinião dos que acham que as religiões foram e continuam a ser uma das principais causas das guerras...
Publicado por: Méon em janeiro 14, 2008 01:36 PM
Difícil separar as águas amigo Méon.Não serei tão visceral em relação à Icar...mais crítico.Mas não vou lá muito à bola com a dita.No entanto conheço gente inteligente e boa, crentes, padres...procuro esclarecer o meu caminho com o caminhar dos outros...tem sido difícil e difícil será...
Morfeu
Publicado por: morfeu em janeiro 14, 2008 10:01 PM
Carissímos:Porque li na pag. 31 Religião no Jornal de Notícias de hoje, dia 19 de Julho 2009, "Confissão cai a pique na Igreja Católica"de autoria do Dr.Rui Osório,andei em busca do significado da palavra AMARTIOCENTRISMO"e de busca em busca,acabei caindo e, em boa hora, nesta página que li e reli,apreciando os comentários,com os meus aplausos.Escreve-vos um homem de 78 anos que só agora está a começar a aprender.Um cordial abraço
Publicado por: Victor Rodrigues em julho 19, 2009 08:57 PM
Carissímos: Após ter inserido o meu comentário,gostaria de imprimir esta página mas não consigo,-Quem tem a gentileza de me ensinar?-Obrigado.
Tenho tentado imprimir conforme segue:
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Mão não imprime, as folhas saiem em branco, esta hein?
Publicado por: Victor Rodrigues em julho 19, 2009 09:11 PM
