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março 20, 2008

Arthur C. Clarke II

...to the moon and beyond...

20.03.2008, João Barreiros(in Público)


Para Clarke apenas importava o conteúdo, a mensagem, não a forma. Importava optimizar a ciência. Importava mostrar que o futuro era possível graças ao conhecimento bem aplicado

Vivemos hoje no futuro sonhado pelos autores da ingénua Idade do Ouro da Ficção Cientifica (FC) e este futuro que hoje habitamos não poderia ser mais diferente. O século XX acabou com o desabar das Torres, e nessa pequena hecatombe foram-se os amanhãs dos três fundadores da moderna FC pura e dura: Clarke, Asimov e Heinlein. Agora só existem na nossa memória colectiva, memória essa que só sobreviverá se os seus livros continuarem a ser editados num mundo que cada vez mais se distancia da palavra escrita. Os "bombeiros" de Bradbury afinal nunca chegaram a ser necessários. Não é preciso queimarem-se livros sob o sopro do lança-chamas para que eles deixem de ser lidos.
Porque afinal quem quer hoje saber se os robôs têm de se subordinar às três leis que lhes impõem o respeito pelos seres humanos, se a Psico-história consegue determinar - graças a umas quantas equações inventadas por Hari Seldon - a queda dos Impérios Galácticos, ou se o mundo que nos espera - numa perspectiva a la Heinlein - será uma sociedade libertária onde todos terão o direito constitucional de transportar uma pistola ao cinto. O século XXI acabou de uma vez por todas com as utopias sorridentes, com os robôs compassivos sempre interessados no nosso bem-estar, com engenheiros adolescentes mas com preparação técnica suficiente para conseguirem reparar os geradores de uma nave com apenas uma mola e um fio de arame. Com a explosão da Challenger pôs-se um ponto final nas viagens espaciais rumo a Júpiter e aos braços abertos de um Deus tão complexo quanto Impassível. A diáspora sonhada pela Idade do Ouro morreu no berço.
Vivemos numa era onde o optimismo não vinga. Para trás ficaram as torres de ferro forjado do Gernsback a estenderem-se contra o azul de um céu impoluto, os heligiros a deslizarem sob os ventres bojudos dos dirigíveis, as passadeiras rolantes (a fazer as vezes de passeios pedonais) a transportarem uma população jovem e produtiva rumo aos lares de famílias respeitosamente monogâmicas. O futuro chegou, enfim, mas sem uma única canção que o acompanhe.
Agora que Clarke também partiu rumo a esse Grande Nada, dele só resta uns quantos cabelos a orbitarem em torno da Terra, e a obra, claro, um pouco perdida nos extractos geológicos das nossas bibliotecas.
Estilo asséptico
Clarke envolveu-se nos círculos da FC mesmo antes da Segunda Grande Guerra, mas o seu primeiro conto publicado, Loophole só aconteceu em 1946. Por esta altura, os pulps publicados no Reino Unido, tinham primazia sobre os seus parceiros importados da distante América. O papel era caro e a qualidade de impressão destas revistinhas vendidas nos escaparates dos quiosques dos jornais - ao lado dos comics onde os super-heróis lutavam ainda contra os espiões nazis - deixava muito a desejar. O tempo de vida de uma destas publicações era limitado. Mas que importa isso para esses adolescentes de doze anos que iam lê-las às escondidas, longe dos olhares parentais, entre as páginas dos compêndios de matemática?
Ao contrário dos cientistas loucos que apareciam nas capas - com um ar vagamente germânico ou nipónico, sem esquecer os proverbiais monstros de olhos esbugalhados - os contos de Clarke surgiam com uma limpeza quase asséptica, focavam-se num único problema científico, e geralmente tinham um espigão na cauda para garantir a surpresa final. Infelizmente Clarke nunca foi um grande estilista e essa falta nunca melhorou em todos estes anos de escrita. A escrita sempre foi pesada, sem a leveza poética de um Bradbury ou as cintilações coruscantes de um Alfred Bester. Para Clarke apenas importava o conteúdo, a mensagem, não a forma. Importava optimizar a ciência. Importava mostrar que o futuro era possível graças ao conhecimento bem aplicado. Mas que esse conhecimento - principalmente quando este é limitado ou excesso - também acarretava perigos.
Em 1951 publicou o conto A Sentinela que serviu de base ao filme do Kubrick. Resta dizer que os alienígenas do Clarke nunca foram de contacto fácil. Não porque sejam imperialistas canibais, mas pura e simplesmente porque são distantes, demasiado evoluídos, ou já extintos pela supernova de Belém, como no famoso conto A estrela. E sobre as vidas de cada um de nós - infelizmente Clarke nunca conseguiu dar um corpo real às suas personagens - estendia-se uma perspectiva cósmica, um universo imenso onde as outras espécies poderiam já ter chegado próximo do ponto Ómega e por consequência não queriam saber de nós para nada, pequenas formiguinhas que somos a fugir das botas do Absoluto.
No Encontro com Rama, um grupo de astronautas investiga uma nave imensa, alienígena, que passa pelo nosso sistema solar em piloto automático. Nos poucos dias que dura a exploração, os humanos nunca chegam a encontrar os verdadeiros tripulantes. Em 2001 Odisseia no Espaço e suas sequelas, os criadores do Obelisco (it"s full of stars) reacendem Júpiter - destruindo todas as espécies que habitavam os oceanos de hidrogénio - proíbem aos humanos a colonização do satélite Europa, transformam o primeiro piloto num super-embrião com poderes divinos, e depois desaparecem de cena sem dizerem "água vai".
Revolução conceptual
Na Idade do Ouro (Childwood"s End) um dos seus melhores romances, alienígenas que se assemelham aos demónios bíblicos ajudam as crianças da Terra a darem o salto conceptual rumo à Singularidade e, com esta pequena ajuda, destroem a totalidade do sistema solar. The City and the Stars, é um dos mais famosos exemplos da "revolução conceptual" na história da FC. Num futuro distante, o jovem Alvin, que vive na última - pelo menos ele assim o julga - cidade da Terra, prisioneiro de uma daquelas tecno-utopias compulsivas onde tudo nos é dado e nada nos é pedido em troca, resolve fugir, visita mais outra Cidade desta feita uma ecotopia, descobre uma nave espacial abandonada há milhares de anos e visita o universo, ou o que dele resta. Por esta obra perpassa um sentimento de perda e ao mesmo tempo de mística intensidade, tão cara ao seu espírito de metafísico positivista. Nas Nascentes do Paraíso (Fountains of Paradise) Clarke defende a construção de um elevador orbital, uma mega cabo de monofilamento em fibras de carbono, com base em Sri Lanka, e terminando num asteróide em órbita geo-saincrónica, capaz de substituir o sistema de vaivéns convencional. Mas a narrativa peca já por uma visão demasiado simplista do entendimento entre os vários credos religiosos, por uma quase total ausência de tensão psicológica. O romance do Charles Sheffield, Web Between the Worlds publicado precisamente no mesmo ano (1980) e versando o mesmo tema, é bem mais interessante.
Segundo o crítico John Clute, a FC é uma profunda homenagem ao século que já passou, com todos os seus defeitos, esperanças, belezas e horrores. Sendo assim, Clarke é, e continuará a ser, aquela figura que representa os entusiasmos optimistas dos anos 50, onde tudo existia ainda ao nível das possibilidades.


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20.03.2008, Pedro Ribeiro(in Público)


Arthur C. Clarke, escritor inglês, será lembrado sobretudo como o autor de 2001 e por ter idealizado o satélite de telecomunicações. Morreu ainda à espera que a humanidade parta para o espaço, de um telefonema do E.T.,
e de paz na sua nação adoptiva

Em Dezembro, Arthur C. Clarke colocou um vídeo no YouTube para assinalar o seu aniversário. Nesse vídeo, expressou três desejos para o futuro. Que a humanidade abandonasse "a dependência do petróleo" e encontrasse fontes alternativas de energia; que a sua nação adoptiva, o Sri Lanka, encontrasse a paz; e que fosse descoberta "alguma prova de vida extraterrestre": "ainda estamos à espera que o E.T. telefone."

Não houve tempo para que nenhum desses desejos fosse cumprido. Três meses depois, Clarke morreu na sua casa em Colombo, devido a problemas respiratórios e cardíacos. Tinha 90 anos.
Antecipando a iminência do fim ("perguntam-me como é completar 90 órbitas à volta do Sol; diria que não me sinto um dia mais velho que os 89 anos"), Clarke delineou nesse vídeo o seu próprio epitáfio: "Acima de tudo, quero ser lembrado como um escritor, capaz de entreter os leitores e de expandir as suas imaginações."
Comecemos então por recordar Clarke, o escritor. Foi autor de 2001, o livro que, graças ao filme de Stanley Kubrick, mais o popularizou. Mas também escreveu Rendez-Vous com Rama, A Idade do Ouro, Canções de uma Terra Distante e dezenas de outros romances, contos, ensaios, livros de divulgação científica.
Ainda este mês, fez a revisão final de The Last Theorem, escrito em parceria com outro dos nomes maiores da ficção científica anglo-saxónica, Frederik Pohl. No ano passado, dissera à BBC que este deveria ser o seu "último romance", mas acrescentou: "Não é a primeira vez que digo isto."
Satélites e astronautas
A sua obra foi sempre influenciada por uma crença positivista na ciência como motor do progresso humano. Os grandes temas dos seus romances eram as implicações filosóficas do contacto com civilizações extraterrestres e o espaço sideral como destino inevitável da espécie humana.
Escreveu romances de ficção científica num estilo semelhante ao de contemporâneos como Isaac Asimov, Larry Niven ou Vernor Vinge, herdeiros de Júlio Verne ou H.G. Wells: ficção científica hard, isto é, com grande atenção aos pormenores científicos (a distinção faz-se em relação a autores de ficção científica como Philip K. Dick ou Ray Bradbury, que usavam cenários espaciais ou futuristas para explorar a condição humana, sem pretensões de realismo).
Tal como Verne conseguiu "prever" o submarino ou as viagens espaciais, Clarke também concebeu os satélites geostacionários como instrumento para as telecomunicações (embora não num romance, mas num artigo científico - pelo qual foi pago 15 libras em 1945).
Era também um proponente do conceito do "elevador espacial" - plataformas geostacionárias que serviriam para facilitar o transporte de pessoas e materiais no espaço, sem necessidade de foguetões.
O maior impacto de Clarke terá sido, contudo, a sua capacidade de "expandir as imaginações dos seus leitores". O New York Times recordou uma das suas frases: "A maior parte dos feitos tecnológicos foram precedidos por pessoas que os imaginaram. Estou certo que não teríamos tido homens na Lua sem Verne. Sinto-me bastante orgulhoso de ter conhecido vários astronautas que se tornaram astronautas por terem lido os meus livros."
Arthur Charles Clarke nasceu no Somerset (Sudeste de Inglaterra) nos últimos dias da I Guerra Mundial. Nos anos 40, trabalhou com a equipa britânica que concebeu o sistema de radar.
No dealbar da "era dourada" da ficção científica, publicou vários contos e romances. Em 1956, foi viver para o Ceilão (hoje Sri Lanka), onde passou o resto dos seus dias.
Além de romancista, Clarke foi um dinâmico divulgador da ciência, especialmente em tudo o que estava relacionado com a exploração do espaço. Sobrevive-lhe uma fundação com o seu nome (na Internet em www.clarkefoundation.org), dedicada a estimular a pesquisa científica nos campos que lhe eram mais caros.
Clarke não era supersticioso nem religioso, mas tinha um fascínio pelo misticismo. Nos anos 80, colaborou em duas séries televisivas sobre fenómenos estranhos e mistérios da natureza - muitos lembram-se da série que começava com o crânio de cristal, O Mundo Misterioso de Arthur C. Clarke, que passou na RTP em 1983.
A sua herança mais duradoura será, provavelmente, o filme 2001 - Odisseia no Espaço, realizado por Stanley Kubrick. A semente do filme está num conto de Clarke, Sentinel, que especulava sobre a interferência de uma inteligência extraterrestre sobre a história humana.
O filme é uma criatura substancialmente diferente - uma criatura mais de Kubrick que de Clarke. Os dois colaboraram no argumento; a partir dele, Kubrick fez um filme, Clarke escreveu um livro.
O filme, dominado pela visão artística do cineasta americano, é misterioso, deliberadamente ambíguo e parco em diálogos. O livro é bastante mais "expositivo".
Clarke escreveria três sequelas - 2010 (de que também resultou um filme, realizado por Peter Hyams), 2061 e 3001. Como aconteceu com quase todos os colaboradores de Kubrick, a relação entre Clarke e o cineasta não foi fácil; no entanto, apesar das disparidades entre 2001-o-livro e 2001-o-filme, Clarke mostrou-se sempre muito satisfeito com os resultados de ambas as obras.
A era dourada vem aí
Como acontece a quase toda a ficção científica, o futuro de 2001 já está no passado. Tal como em outras obras de Clarke, alguns elementos desse futuro concretizaram-se antes do tempo; outros ainda estão muito distantes.
A fase inicial da exploração espacial correu mais depressa do que Arthur C. Clarke esperava (nos anos 50, ele previa a chegada do homem à Lua só na década de 70). Mas outras não.
Tivemos Sputnik, Laika, Gagarin, Armstrong; e, depois, tivemos muito pouco. Não temos uma rede de estações espaciais orbitais; não temos colónias permanentes na Lua ou em Marte; a humanidade ainda não chegou ao planeta vermelho, quanto mais a Júpiter. O E.T. ainda não telefonou.
Com o fim da Guerra Fria, o entusiasmo pela colonização do sistema solar esmoreceu. O financiamento de agências como a NASA foi reduzido, e a sua missão dirigida para campos mais pragmáticos, com benefícios económicos imediatos.
Em 2004, o Presidente americano George W. Bush tentou reavivar o interesse pela exploração do cosmos, prometendo no seu discurso do Estado da União programas ambiciosos para uma estação permanente na Lua e uma missão a Marte; foi ridicularizado e acusado de querer apenas desviar a atenção dos seus erros de política externa. Nos quatro discursos do Estado da União que se seguiram, Bush nunca mais falou em Marte.
Em vez de um futuro aventuroso no espaço, a evolução tecnológica da humanidade nas últimas décadas trouxe-nos telemóveis e e-mail.
Mas Clarke não se sentia amargo nem derrotado pelo desinteresse das sociedades contemporâneas no sonho que o tinha inspirado. Pelo contrário.
No vídeo que deixou em Dezembro no YouTube, Clarke referia os projectos (ainda incipientes) de turismo espacial e dizia que "a era dourada [da exploração do espaço] está agora a começar".
"Nos próximos 50 anos, milhares de pessoas viajarão na órbita da Terra, e depois para a Lua, e depois para lá dela. As viagens espaciais serão tão vulgares como hoje é voar para destinos exóticos no nosso planeta."
Clarke concluiu a sua mensagem citando Kipling, e descrevendo o estado de espírito que ainda o animava: "Tenho grande fé no optimismo como princípio orientador."

As previsões

20.03.2008


O escritor para quem a tecnologia muito avançada era magia


Arthur C. Clarke escreveu em 2001, no Readers Digest, previsões para os 100 anos seguintes. No que aos primeiros anos do século XXI diz respeito, falhou em quase tudo. Nos parágrafos de preâmbulo do artigo, Clarke admite que muitas das previsões que fez ao longo de décadas falharam, seja porque não chegaram a acontecer, ou porque aconteceram fora da data prevista.
Segundo o escritor, por esta altura, a indústria automóvel estaria a substituir inteiramente os motores a combustível por energia nuclear "limpa". Em 2004, teríamos assistido ao anúncio do primeiro clone humano. E a última mina de carvão teria fechado em 2006.
O artigo no Readers Digest não é o único exemplo de previsões falhadas. Em 1958, Clarke afirmara que estaríamos a colonizar planetas a partir do ano 2000 e que algures na segunda década deste século seríamos capazes de controlar as condições meteorológicas.
Como habitual, porém, uma previsão certa vale por muitas falhadas. E, apesar dos vários erros e imprecisões, Clarke não deixa de ser conhecido por antecipar o futuro.
Uma das mais conhecidas previsões de Arthur C. Clarke foi feita em 1945 e era, à época, praticamente do domínio da ficção científica.
Numa carta ao director da revista Wireless World, Clarke descreveu em traços largos o conceito de satélite de telecomunicações geostacionário - um aparelho que permaneceria na órbita da terra, imóvel em relação a um determinado ponto da superfície e que possibilitaria o envio de sinais de rádio de um ponto do mundo para outro. A previsão concretizou-se 20 anos mais tarde.
Um dos mais populares contributos de um homem que passou boa parte da vida a especular sobre o futuro são as "três leis de Clarke", que essencialmente defendem que tudo é possível desde que não ultrapasse princípios fundamentais da ciência: se um cientista respeitado diz que algo é impossível, está quase de certeza errado, mas se diz que algo é possível, está quase de certeza certo; a única forma de descobrir os limites do possível é ultrapassá-los; qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia. J.P.P.


Publicado por morfeu às março 20, 2008 08:57 AM

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