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abril 09, 2008

E não se poderá "implodi-lo"?...

Com a devida vénia à crónica de J.Fernandes, Público, que transcrevo em entrada estendida.

(...) Tudo isto reforça a convicção de o único caminho a seguir é o da maioria dos países nórdicos, que só recomeçaram a ver os seus jovens a progredir quando, na prática, acabaram com o Ministério da Educação e entregaram o poder às escolas e às comunidades.

É pena o edifício da 5 de Outubro ficar no meio do tecido urbano, pois daria um belo espectáculo a sua implosão, abrindo espaço para, por exemplo, um monumento às vítimas do "eduquês"... (...)

avaliação já acabou, mas vamos todos fingir que não

José Manuel Fernandes - 20080409

O braço-de-ferro entre a ministra e os professores já se tornou num teatro de fingimentos onde pouco ou nada é levado a sérioOprocesso de avaliação dos professores, que miraculosamente salvaria o sistema de ensino impondo-lhe normas ainda mais centralistas e procedimentos ainda mais burocráticos, acabou. Para já este ano.
Ontem a ministra da Educação propôs aos sindicatos que, em vez de suspender o processo, aceitava, na prática, "suspender" as avaliações que impediriam os professores de progredir na carreira, as Regular e Insuficiente. Na verdade, o que Maria de Lurdes Rodrigues está a tentar evitar é que os professores que forem já avaliados e não couberem nas quotas de Muito Bom e Excelente tenham todos... Bom. Porque era isso, ou é isso, que muitas escolas se preparam para fazer.

O hábito é antigo, como se sabe: não havendo quotas, ou distribuição forçada das classificações para criar alguma diferenciação entre os professores, estes já faziam como a maioria dos funcionários públicos, raramente atribuindo classificações negativas. E como, entretanto, para criar a ilusão de que não recuou, a ministra continuava a fingir que tudo se mantinha na mesma, enquanto ia dando instruções às escolas para simplificarem os processos de avaliação, estas foram ganhando margem para deixar tudo mais ou menos como estava. Mas também "fingindo" que iam cumprindo a lei, umas mais depressa, outras arrastando os pés.

O absurdo da situação criada pela teimosia centralista do ministério ficou anteontem bem à vista: foi apenas a 7 de Abril, já com o 3º período de aulas em andamento, que as escolas receberam da 5 de Outubro a versão definitiva das fichas de avaliação e ponderação de critérios. Nada menos de 16 fichas, acrescente-se. Nesta altura do ano. E depois de termos visto governantes atrás de governantes a garantirem que existiam todas as condições para um processo sério de avaliação...

Entretanto o ministério já tinha recuado em pontos como a necessidade de professores assistirem a aulas de outros professores para os avaliarem, já tinha alterado, de forma legalmente duvidosa, os prazos para a avaliação, deixando-os ao critério das escolas, já tinha também abandonado a norma relativa ao peso dos resultados escolares dos alunos, ou a relativa a existirem objectivos individuais para todos os professores, ou ainda à planificação das actividades.

Na prática, acaba a preocupação com a excelência e com o rigor. Na prática admite-se que, se alguma coisa correr mal, não tem importância, fazendo de conta que se vai fazer uma avaliação a sério, quando se vai acabar a fazer o que muitos professores pediam: experimentar e depois corrigir.

No fundo, as escolas sabiam que, se não realizassem a avaliação, punham em causa o futuro de milhares de professores contratados, um instrumento de chantagem de que a ministra nunca abdicou. E esta foi percebendo o absurdo de tentar obrigar as escolas a estabelecer normas internas cujas regras genéricas nem o próprio ministério tinha definido. Os sindicatos sabem que têm poucas hipóteses de recorrer a formas de luta mais radicais, como greves aos exames. Pelo que assim chegamos à mascarada actual, em que a ministra garante que avaliação está a ser feita, as escolas fingem que a estão a fazer e os sindicatos continuam a dizer-se contra, apesar de saberem que tudo ficou mais menos como dantes.

Até podia ser que tudo resultasse do bom senso, mas infelizmente não resultou. Resultou da lógica infernal de um ministério centralista e de sindicatos cuja inimaginável forma de funcionar lhes deu a oportunidade de mobilizarem, como nunca antes, a maioria dos professores.

Nada disto tornou as escolas melhores, nem contribuiu para a qualidade de ensino, mesmo que seja natural que este ano até tenhamos melhores médias nos exames, pois a equipa da 5 de Outubro, obcecada com as estatísticas, até já começou a tratar disso, designadamente quando alargou para três horas o tempo que os alunos de Matemática terão para responder às suas provas de exame.

Tudo isto reforça a convicção de o único caminho a seguir é o da maioria dos países nórdicos, que só recomeçaram a ver os seus jovens a progredir quando, na prática, acabaram com o Ministério da Educação e entregaram o poder às escolas e às comunidades.

É pena o edifício da 5 de Outubro ficar no meio do tecido urbano, pois daria um belo espectáculo a sua implosão, abrindo espaço para, por exemplo, um monumento às vítimas do "eduquês"...

Publicado por morfeu às abril 9, 2008 09:28 AM

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