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dezembro 14, 2008

Ummah, ignorância e confusão, sg/Faranaz Keshavjee...

...in Público de hoje.

(...)"Os seres humanos são uma nação colocados juntos pela sua humanidade. E o ornamento do poder divino está em cada um e em todos eles, sendo essa a sua alma racional. Na verdade, o ser humano é a alma racional. Todos os homens são na realidade uma entidade singular, expressa em muitos indivíduos. E uma vez que as suas almas são uma só, e o amor decorre da virtude da alma, é dever deles mesmos mostrar o amor e o afecto uns pelos outros. Isto é natural em seres que não se deixem guiar pela sua alma irascível. Quando o ser humano detém a sua alma irascível e é guiado pela sua alma racional, todos os homens se tornam seus irmãos e amigos."(Ibn 'Adi)

A ignorância e a confusão dentro da Ummah

14.12.2008, Faranaz Keshavjee


Há uma apatia geral em pesquisar, pensar e discutir a filologia historicista dos textos clássicos e dos factos islâmicos


Tenho referido que um dos maiores problemas de coexistência e de reconciliação entre o pensamento europeu ocidental moderno e o pensamento de grande maioria dos muçulmanos tem que ver com um profundo hiato de conhecimento e de esclarecimentos, e consequentes confusões, sobre questões que se prendem essencialmente com o Alcorão - a revelação recebida pelo Profeta Muhammad durante 22 anos da sua vida - e o facto islâmico, que engloba fenómenos muito mais dispersos, ambíguos e difusos, pois este prende-se com a adaptação e interpretação daquela revelação a um mundo militar, político, económico e cultural em desenvolvimento e expansão desde o século VIII d.C. até ao XVIII, com o culminar do império Turco-Otomano. No fundo, são mil anos de história em que a Revelação vai conhecendo os mais diversos "islãos".
É também este um longo período de tempo em que sucedem as mais interessantes evoluções intelectuais, culturais e políticas que acabarão por influenciar determinados elementos essenciais para a compreensão e entendimento da diversidade do mundo dos muçulmanos. E uma das mais interessantes transformações é a que vai no sentido da criação de uma confusa transnacionalidade "islâmica" que assume um renovado sentido de "Ummah". Esta transformação de uma identidade reconhecida pelos próprios muçulmanos e atribuída também pelos não muçulmanos pode ser verificada com clareza na forma como o conceito de Islão se substitui ao conceito de Deus no Alcorão. Para que se entenda melhor, basta comparar um dado interessante: a forma "islão" aparece só sete vezes no Alcorão, mas a sua significância e alcance ganha tal importância, tanto para os muçulmanos como nos escritos ocidentais, que acaba por dissolver "Allah" - o conceito abraâmico e unitarista da transcendência que surge umas 2697 vezes no Alcorão!
Numa realidade em que existe uma superioridade efectiva da razão teletecnocientífica (TV, mass media, Internet) sobre a razão crítica filosófica, e na qual não consigo antecipar mudanças substanciais no universo académico português, com imensos experts sobre o mundo muçulmano que nunca se cruzam com potenciais pesquisadores-pensadores nestas matérias, mas que acham que podem organizar "com a prata da casa" cursos de especialização no islão, fico com pena de não ter podido viver em tempos áureos das dinastias Fatimida ou Buyida, onde o saber e a aprendizagem, sem olhar a credos, cores ou género, estava aberto a todo o tipo de saber, com o intuito final de procurar a unidade na diversidade da razão humana.
Na interessante obra sobre o Humanismo no Renascimento do Islão durante a dinastia Buyida, Joel Kraemer mostra a mundividência de Ibn 'Adi:
"Os seres humanos são uma nação colocados juntos pela sua humanidade. E o ornamento do poder divino está em cada um e em todos eles, sendo essa a sua alma racional. Na verdade, o ser humano é a alma racional. Todos os homens são na realidade uma entidade singular, expressa em muitos indivíduos. E uma vez que as suas almas são uma só, e o amor decorre da virtude da alma, é dever deles mesmos mostrar o amor e o afecto uns pelos outros. Isto é natural em seres que não se deixem guiar pela sua alma irascível. Quando o ser humano detém a sua alma irascível e é guiado pela sua alma racional, todos os homens se tornam seus irmãos e amigos." (1992, p. 115)
Entre os pupilos e seguidores de Ibn 'Adi encontravam-se médicos e cientistas cristãos e muçulmanos, empenhados nas traduções das obras de Aristóteles entre outros, e o trabalho patrocinado pelos mecenas do saber e do conhecimento fazia-se sobretudo ao nível do pensamento crítico e da filologia dos textos clássicos. Esta tradição ficou perdida, principalmente no que diz respeito ao Alcorão e aos desenvolvimentos no pensamento islâmico. Há uma apatia geral, de muçulmanos e não-muçulmanos, em pesquisar, pensar, discutir academicamente a filologia historicista dos textos clássicos e dos factos islâmicos. Mais grave ainda é verificar que, entre os membros desta Ummah transnacional, o discurso e o pensamento não passa da mito-história e de um tradicionalismo reinventado, descontextualizado e desintegrado. Precisamos urgentemente de dominar a alma irascível, colocar a razão crítica ao serviço da fé, e passar da mito-história para o estudo transdisciplinar da tradição, para finalmente, dar lugar à liberdade da razão individual. Estudiosa de temas islâmicos (Faranazk@sapo.pt)

Publicado por morfeu às dezembro 14, 2008 12:46 PM

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Comentários

Comentários tão doentios como esses, com certeza saiu de umamente pra lá de anormal.

Publicado por: divina santos em dezembro 17, 2008 02:04 AM

...comentário só oriundo de uma divina santos...enfim...
morfeu

Publicado por: morfeu em dezembro 18, 2008 08:16 PM

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