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fevereiro 22, 2009
Do Xiismo sg/ Faranaz Keshavjee

O xiismo que poucos conhecem
In Público de hoje, secção "crónicas", Faranaz Keshavjee
Com o intelecto podemos contemplar o Absoluto; com a razão só podemos pensar sobre ele
Em diversas circunstâncias se ouve falar dos conflitos entre xiitas e sunitas. O mais recente é o movimento da "talibanização" a noroeste do Paquistão. Antes destes, conheciam-se sunitas e xiitas em confronto no Iraque, e a mais próxima referência ideológica antes dessa era o xiismo da revolução iraniana, preconizada pelo Ayatollah Khomeini.
Na verdade, nenhum destes acontecimentos reflecte a natureza e os princípios éticos do xiismo, que poderiamos conhecer para evitar a perpetuação de uma ignorância que não só afecta o mundo não muçulmano como, inclusivamente, os próprios muçulmanos, incluindo os próprios xiitas, que são, antes de mais, culturalmente muçulmanos, ou seja, pouco conhecedores das tradições intelectuais de origem da sua teologia.
Num conhecido hadith do Profeta, Maomé teria dito: "eu sou a cidade do conhecimento; e Ali é a sua porta; aquele que desejar o conhecimento deve atravessar essa porta".
Conhece-se muito pouco ou quase nada desta figura que foi Ali ibn Abi Talib - a não ser que foi primo e genro do Profeta Maomé e que os seus partidários ficaram conhecidos como xiitas. Antes mesmo de o sunismo ser uma ideologia, e não tinha necessidade de o fazer, uma vez que o poder religioso assentava na liderança do califado secular, Ali, que havia recuado das lides políticas, iniciava uma teologia e teosofia particular que deu origem ao xiismo.
Entre várias outras questões que são abordadas no livro de Reza Shah Kazemi, Justice and Remembrance; introducing the spirituality of Imam Ali, fala-se aqui da sua interessante trajectória intelectual e religiosa, que teve que ver com aquilo que definiu como o "espírito do intelecto".
Para o Imã Ali, "intelecto" (aql) não equivalia a "razão". Ali teria querido usar a expressão "intellectus" tal como se usava na Cristandade Latina - aquilo que é capaz de uma visão contemplativa directa das realidades transcendentes; ao passo que a Razão, de natureza discursiva, indirecta, trabalha com a lógica e chega apenas a conceptualizações mentais dessas realidades. Com o intelecto, então, uma pessoa é capaz de contemplar, ou "ver" o Absoluto; com a razão, uma pessoa só pode pensar sobre ele. Para Ali, o intelecto contém profundidades inesperadas - tesouros enterrados. Isto não quer dizer que a razão e o intelecto sejam dicotómicas. Para Ali, a razão é um dos modos do intelecto, no entanto, não podemos reduzir a objectividade universal da revelação às especificidades das revelações "privadas" do indivíduo. Ou seja, uma pessoa pode dizer que entre as profundidades espirituais do intelecto e a sua superfície racional existe a continuidade e a descontinuidade, em simultâneo. O aspecto da continuidade manifesta-se no facto evidente de que todo o pensamento surge a partir de conceitos dotados de significados inteligíveis; os pensamentos têm que ver com ideias que são racionalmente inteligíveis, e têm que ver com as realidades que expressam. Mas, na opinião de Ali, existe uma descontinuidade entre os aspectos racionais e espirituais do intelecto, onde a razão encontra os seus limites. Para que se possa ir para além destes limites, precisamos de mais do que a razão. E esse "algo mais" é o que faz a ética do que estamos a considerar como sendo espiritual e não racional. É certamente "racional" no sentido em que a forma dessa ética é com efeito susceptível de escrutínio da razão; mas não é "racionalista", uma vez que a sua essência - esses tesouros da alma - não se conseguem estimar unicamente através da razão. E é neste sentido que o sujeito humano deve travar a sua verdadeira jihad - a da alma - sem nunca renunciar ao que é mundano e terreno porque esses são reflexos do Absoluto.
Este tipo de raciocínio neoplatónico bem como todo um conjunto de pensamento sobre o estado e a sociedade, ou sobre a justiça sagrada, ou a expressão de Ali de que "o verdadeiro intelectual não é apenas aquele que pensa correctamente, senão aquele que actua eticamente", são faces do xiismo desconhecidas de muitos de nós.
Obviamente que todo o xiismo se desenvolve a partir de princípios filosóficos que justificam a liderança espiritual do imã. No entanto, não podemos negligenciar o xiismo tal como surge e influencia toda uma civilização. Sobretudo aquela que assenta na postura intelectual que promove a consciência ética e social que vê a revelação como contínua e que permanece atenta aos sinais (ayats) de Deus nos horizontes e dentro de nós próprios. Estudiosa de temas islâmicos
Publicado por morfeu às fevereiro 22, 2009 08:36 AM
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