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junho 19, 2009

Maioria e Liberdade...

"Ralf Dahrendorf (...) amava de tal forma a liberdade que nunca se sentia verdadeiramente à vontade entre a maioria."

...uma oportuna reflexão do director do jornal Público de 19 de Junho de 2009.

A morte de um grande liberal que não gostava das certezas

19.06.2009, José Manuel Fernandes


Ralf Dahrendorf deixou-nos um legado intelectual que nos desafia a desconfiar das certezas, a admitir o erro e a não acreditar que se tem a verdade e, sobretudo, a amar a liberdade numa sociedade justa mas de governo limitado


Será que só existe um modo de governo? Será que, racionalmente, por dedução e criterioso tratamento da informação, podemos chegar à verdade? Será que os mais inteligentes, os mais ilustrados, os mais generosos, os que sentem que descobriram o melhor caminho para a política e a economia, têm o direito natural de guiar os menos ilustrados, os menos dotados?
Ralf Dahrendorf, que durante boa parte da sua vida teve actividade política - entrou para o SPD alemão aos 18 anos, juntou-se depois aos liberais e chegou a ser secretário de Estado, foi comissário europeu, passou pelo partido liberal do Reino Unido, acabou a vida como membro da Câmara Alta britânica, na qualidade de Lorde, ele que nascera em Hamburgo -, amava de tal forma a liberdade que nunca se sentia verdadeiramente à vontade entre a maioria.
Há uma frase famosa de um filósofo-político do século XVIII, Edmund Burke, em que este refere que "quando o equilíbrio do barco em que viaja se encontra ameaçado por sobrecarga em um dos lados (...) procura ardentemente transportar o pequeno peso dos seus argumentos para o lado que possa garantir o equilíbrio". Dir-se-á, com razão, que esta não é a regra na política, sobretudo na política moderna. É-se mais depressa um "adesivo" do que alguém que procura ter distância, e talvez por isso Dahrendorf, que era tudo menos um conservador, tenha escolhido esta frase de um antepassado conservador para fechar um dos seus poucos livros traduzidos em Portugal - Reflexões sobre a Revolução na Europa -, escrito logo após a queda do Muro de Berlim. No fundo, uma das convicções centrais deste homem admirável era a de que não existia uma singularidade da verdade.
Discípulo de Karl Popper, colega em Oxford de Isaiah Berlin, não surpreende que, além de cultivar a liberdade e o pluralismo, desse mais importância a limitar os poderes dos governos do que à necessidade de lhes garantir "força" para realizarem reformas, fossem elas quais fossem. Apreciava mais o equilíbrio do que a vontade "iluminada", mais depressa se preocupava com a mais mínima interferência dos Estados no livre-arbítrio dos cidadãos do que se juntava a campanhas desencadeadas em nome da segurança.

Há quase 12 anos, na última das várias entrevistas que deu ao PÚBLICO, este homem que crescera sob o peso do nazismo e, depois, do comunismo, este cidadãos de dois grandes países europeus e da Europa, fino observador do seu século e crítico atento da actualidade, dizia sabiamente que havia "diferentes capitalismos", "cem modelos diferentes", pelo que seria sempre errado tomar apenas um como referência. Não deixa por isso de ser uma estranha mas feliz coincidência que tenha desaparecido na mesma semana em que um dos mais brilhantes jornalistas norte-americanos da actualidade, Fareed Zakaria, escreveu um notável ensaio na Newsweek cujo título provocador - O Manifesto Capitalista - serve sobretudo para nos levar a percorrer as mil previsões erradas que se fizeram antes e depois de a actual crise se desencadear, algumas delas escritas pelos mais influentes "maîtres à penser" do mundo académico e mediático.
No fundo, aquilo que é essencial é considerar que se pode errar e que se ganha mais em admitir os erros e corrigi-los do que em persistir "no rumo traçado", algo para que sintomaticamente Barack Obama preparou os americanos no seu discurso de vitória. E isto não tem a ver com a falta de convicções - talvez tenha mais a ver com a humildade da tal passagem de Edmund Burke onde ele admite não ter argumentos para defender as suas opiniões "para além de se basearem na observação demorada dos factos e de serem imparciais".
Mas no governo das nações, mesmo nas democracias abertas em que acreditamos viver, é muito importante assegurar que existem os mecanismos que impeçam quem quer que seja de se sentir dono da "singularidade da verdade". Por isso, numa conferência em que participou, há uns seis anos, em Madrid, lhe tenhamos ouvido uma das mais curtas mas completas e anti-intuitivas (para os nossos hábitos) definições do que é ou não uma democracia. Para Dahrendorf qualquer democracia tinha de cumprir as seguintes condições: "Que é possível mudar de governo sem violência; que existe um sistema de pesos e contrapesos capaz de limitar o poder a quem o detém e, por fim, tal regime deve assegurar que o povo tem sempre direito a exprimir-se."
Vejam bem: a democracia não é regime em que escolhemos o governo, é o regime que nos assegura que podemos mudar de governo. Também não é o regime onde as maiorias possam impor-se de forma absoluta, antes aquele onde o seu poder é limitado e vigiado, onde outros poderes garantem o tal equilíbrio que permite aos navios não se inclinarem demasiado só para um lado; e por fim é um regime onde o povo se expressa pelo voto e pela palavra, sem que os poderes possam limitar esta sua essencial liberdade.
Este internacionalista que era europeísta mas também eurocéptico, que se afirmava ao mesmo tempo liberal e social, que por fim, parecendo de novo contrariar as referências anteriores, se definia como um radical, sabia no fundo como Churchill que a democracia era o pior de todos os regimes à excepção dos restantes, e que, como escreveu agora Zakaria, o capitalismo também é a pior máquina de gerar progresso à excepção de todas as outras.
Porquê? Porque estes sistemas imperfeitos incorporam a tentativa e o erro e permitem que o que parece certo hoje seja errado amanhã, e vice-versa, obrigando à procura constante de olhar a realidade em buscas dos sinais que, na nossa condição de homens imperfeitos mas abertos e não sectários, nos permitam procurar os melhores caminhos em cada momento. Com liberdade e responsabilidade. E ao mesmo tempo sem recear ser radical na defesa do que pensamos serem as melhores opções e os melhores argumentos.
Foi isso que Ralf Dahrendorf, em tantos palcos diferentes, fez durante toda a vida.

Publicado por morfeu às junho 19, 2009 10:40 AM

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