maio 27, 2007
E domingo, e a Procissão sg/ João Villaret.
Sendo domingo ... nada melhor para a salvação da alma do que João Villaret "dizendo" a Procissão...
(Clique na imagem para ouvir...)
Publicado por morfeu às 12:32 PM | Comentários (2) | TrackBack
maio 31, 2006
...sítio ideal para acabar a vida ignorada...
(…) … logo que lá chego, paro diante duma casinha perdida dentro da floresta. É térrea, com pequenas janelas de guilhotina viradas para o amar. Não vale nada: é a casca abandonada dum caracol. Mas não parece feita; parece que cresceu ao mesmo tempo que as flores vermelhas que a rodeiam e que lembram uma paixão ou um crime. Árvores, quatro muros velhos à roda, a latada sobre varas à entrada do quintal, e um encanto que não sei bem explicar e que nasce das coisas simples, que não procuram impor-se à nossa atenção e só nos oferecem a sua simpatia. Eis o sítio ideal para acabar a vida ignorada com os olhos postos no mar e aquecido de Inverno por este sol esplêndido, mergulhando a minha velhice friorenta na luz radioactiva e estendendo o meu cansaço à sombra das árvores que nos oferecem os frutos maduros. Teria aqui um alegrete caiado de branco com vasos de flores que já ninguém usa e que minha avó cultivava num canteiro – dálias, suspiros, sardinheiras. Refugiar-me-ia naquele canto sombrio onde corre um fio de água entre meia dúzia de bananeiras, que nunca vejo sem ficar atónito. (…) Reparo lá para o fundo num antro de braços retorcidos – floresta primitiva de meia dúzia de metros quadrados; reparo em carreiros escuros com renques inextricáveis de bambus, e nas ervas secas cheias de discos de sol que apetece apanhar como moedas. (…) … e não digo bem; o sítio é para contemplativos viverem e morrerem. Sobretudo viverem, porque a grande delícia num clima destes é viver, e respirar uma voluptuosidade. Ao ar embalsamado da terra mistura-se o hálito violeta do mar. Pode-se dormir ao ar livre sob o dossel de estrelas, porque as noites tépidas da Madeira são uma carícia de pele macia. As noites lânguidas e brancas cheiram a flor e a fruta, as noites desfolham-se diante dos nossos olhos, como uma camélia que morre devagar. No alto, o céu não pode com o peso das estrelas e a cidade, em baixo, cheia de luzes, lembra uma maravilhosa constelação. Estas noites húmidas de luar, junto a uma mulher amada, são das coisas mais extraordinárias que pode haver no mundo, porque a volúpia do exterior está de acordo com a exaltação íntima e o universo vibra dentro de nós até à dor. ("As ilhas desconhecidas", Raul Brandão, 1926, Círculo de Leitores)
Publicado por morfeu às 10:03 PM | Comentários (2)
janeiro 28, 2006
Astúcia, subtileza, ardil, arteirice, sagacidade.
Em sentido recto e material se chama subtil a um corpo delgado, delicado e ténue, e de conseguinte a subtileza será a delgadeza ou tenuidade deste corpo. Em sentido metafórico chamamos, por analogia, subtil ao homem agudo, engenhoso; aos pensamentos ou ditos mais agudos que sólidos, lhes chamamos subtis; como também dizemos subtileza, por perspicácia de engenho, e subtilizar quando se discorre engenhosamente sobre um assunto. – Pode-se pois definir a subtileza, em sentido moral, dizendo que é a qualidade de um talento perspicaz, o qual examinando miudamente as coisas, observando as diferentes partes de que se compõem, as relações destas parte entre si, ou com o todo e com as circunstâncias e objectos exteriores, chega a conhecê-las dum modo mais claro, positivo e exacto que aqueles que não gozam desta qualidade; tendo sobre eles o que é dotado de engenho subtil a vantagem de poder-se dirigir melhor em todos seus pensamento e acções. – A subtileza é pois uma qualidade boa em si, útil e apreciável, mas viciosa e detestável quando se usa para mau fim.
A astúcia é uma subtileza manhosa, que de ordinário se emprega em fazer dano e fraudar. (…)
O ardil é a astúcia com que se quer lograr algum intento, e se verifica deslumbrando e enganando, e sobretudo cobrindo com fingidas aparências o mal que se quer fazer. – A astúcia oculta suas intenções, o ardil seus passo e seus meios; a astúcia adianta, sustendo-se na subtileza; o ardil, no disfarce com que procede.
Arteirice é palavra antiquada que significava astúcia má, enganosa, fraudulenta; (…) a arteirice consiste especialmente no artifício e mentira com que procede o arteiro. – o astuto, quando está seguro de conduzir-te a teu dano, finge que te guia a teu bem; o arteiro leva-te por veredas oblíquas, que te são desconhecidas, e nelas te arma laços e prepara emboscadas.
A sagacidade é a penetração de espírito que consiste em descobrir o que é mais difícil e oculto nos negócios, etc.; também significa a astúcia com que se inventam e traçam os meios de conseguir alguma coisa, e se pressentem os embaraços e descobrem os meios de os atalhar.
(Dicionário de sinónimos, Lello ed.)
Publicado por morfeu às 04:41 PM | Comentários (2)
janeiro 27, 2006
Arder, inflamar-se, incendiar-se, abrasar-se, queimar-se.
Quando penetra o fogo num corpo combustível, e se manifesta à simples vista, diz-se que arde; quando se desenvolve a chama, inflama-se; quando levanta labareda e se propaga com rapidez e fracasso, incendeia-se; quando o corpo que deu alimento ao fogo, apesar de compacto está todo repassado dele e feito brasa, abrasa-se; quando a força do fogo ou do incêndio devorou a matéria combustível e a reduziu a cinzas, queimou-se.
(dicionário dos sinónimos poéticos e de epítetos,lello,ed)
Publicado por morfeu às 09:20 PM | Comentários (2)
outubro 05, 2005
«Arranjem-se como puderem»...sugiro
Em Portugal, como todos os portugueses sabem, é muito raro conseguir seja o que for. Em contrapartida, tudo se arranja. O arranjar é hoje a versão portuguesa de conseguir.É verdade que «Quem espera, sempre alcança», mas, como ninguém está para esperar, em vez de alcançar o que se quer, arranja-se outra coisa qualquer. No fundo, é talvez por não se terem as coisas que elas se têm de arranjar. Não se tem tempo, mas arranja-se. Já não há bilhetes, mas conhece-se alguém que os arranja. Ninguém tem dinheiro, mas vai-se arranjando para o tabaco. O próprio sistema, político, económico, cultural, social estimula uma atitude para com o cidadão que se traduz pela expressão «arranjem-se como puderem» e o cidadão lá se vai arranjando. O mais das vezes este apelo constante ao improviso, à cunha e ao desenrascanço leva aos piores resultados. A continuar assim o país está bem arranjado. Miguel Esteves Cardoso A Causa das Coisas (lido em:Imaginário, A.Alvim, 2005)Publicado por morfeu às 10:22 PM | Comentários (1)
setembro 29, 2005
A marmelada segundo MEC...sugiro
O gosto português pela marmelada é ainda o mais fácil de caracterizar. A marmelada é doce, sabe muito bem, mas de modo nenhum enche ou satisfaz. Quando se abusa da marmelada, é mais que sabido que, em vez de entreter a gulodice, acaba por enjoar. Ficar-se pela marmelada produz a sensação esquisita de quem tenta matar a fome com chocolate: deixa um muito açucarado vazio a moer no fundo do estômago. A marmelada, como o chocolate, é um prazer que tende a diminuir com o avançar da idade. É uma sobremesa a servir de conduto, um petisco que abre o apetite sem o saber fechar, um antipasto que se trinca à porta trancada da casa de pasto.
Este parágrafo, que penosamente se acabou de ler é, para um português, convenhamos, bastante ordinário. As ressonâncias que estalam á volta da palavra «marmelada» são, aliás, típicas da nossa cultura. Por isso, em vez de nos pormos a distinguir a marmelada fina da grossa, ou a fazer levantamento das formas modernas da marmelada – nomeadamente a marmuça, o marmelame e o enigmático marmex – detenhamo-nos numa consideração mais ampla e importante. A saber: porque é que os portugueses associam tanto o sexo à alimentação?
(Miguel Esteves Cardoso, In "A causa das coisas")
Publicado por morfeu às 09:16 PM | Comentários (4)
abril 09, 2005
Uma certa ida aos fados em tempos outros...

(Ilustração de Nuno Saraiva para coleção "Fado"do Público)
Na semana passada, certo inglês, de passagem por Lisboa, quase me implorou, farto do Idêntico em toda a parte:
- Mostre-me qualquer coisa que não exista noutro país. Há?
Meditei meio segundo e respondi, telegráfico:
- Há. «Cabarets».
O senhor estrangeiro encolheu os ombros em trejeito de desdém. Mas eu teimei:
- Sim. «Cabarets» …«Cabarets» estranhos, ao contrário, de pernas para o ar, sem «jazz» nem pretos de dentes brancos a soprarem gargalhadas nos saxofones. «Cabarets» … do avesso em que não se encontram mulheres de riso fatal a dançarem ao som macabro do estalar das rolhas das garrafas de champanhe. Autênticas Casas de Sofrer – onde se servem indigestões de mariscos e bebidas tristíssimas – construídas de propósito para pessoas, com fumos de luto nas mangas, que pretendem chorar em público sem medo do ridículo. «Cabarets» – válvulas-de-escape, em suma…Venha comigo e verá.
Tomámos um táxi, descemos uma viela sonâmbula, abrimos a porta de vidro em frente e pisámos com reverência o veludo do tapete de cascas de tremoços do Salão de Fados em que duas dezenas de seres, palidamente diluídos no rumor das vozes em surdina, se preparavam para sofrer em comum.
Ambiente de bicos de pés. Os criados deslizavam, irreais, com sapatos fantasmas, para não perturbarem a dor dos clientes que, de cabeça pesada entre as mãos, parafusavam neste tema de meditação irresolúvel: «A vida é uma chatice!» (…)
Ia começar a função. No estrado alinhavam-se duas cadeiras à espera do viola e do guitarrista que entraram pouco depois em ritmo de enterro. O cantor também não tardou a surgir no catafalco, mancha negra dos cabelos até aos sapatos, solenidade de telegrama de pêsames, lívido, suado, sinceramente infeliz, cara de serenata à meia-noite a noivas morta…
Houve um sussurro espectral. Os ouvintes ajeitaram-se o melhor possível nos assentos para sofrerem com comodidade.
(De “O Irreal Quotidiano”, José Gomes Ferreira - 2ª Ed. pp. 125/6. Lido em “Português contemporâneo, antologia e compêndio didáctico, Mendes Silva, Ed. M.E.C, 1986)
Publicado por morfeu às 07:20 PM | Comentários (8)
