outubro 18, 2009
Do casamento católico, sg/ Bento Domingues
Por experiência pessoal, vivi esta questão. Assim, porque afastado da crença e por conseguinte da I.Católica, sempre procurei viver em coerência. Se actualmente se me colocasse a questão de um novo casamento, tendo em conta a minha posição de recuperar com nova alma, a vivência cristã, pensaria diferentemente. Nunca, no entanto, nessa perspectiva espampante e despesista que por aí grassa em quem pode economicamente. A insersão na vivência de uma comunidade colocar-se-ia como objectivo. De qualquer forma, mantenho a minha discordância em relação a esse poder absoluto de que "O que Deus uniu, o homem não separe"....não aceito a infelicidade e hipocrisias forçadas. Sim a essa muito humana e admirável capacidade de transgressão que o Génesis anuncia, pela tentação da serpente: a capacidade de discernir o bem e o mal, a liberdade afinal...
O texto de Bento Domingues retoma a questão e coloca-a imediatamente no titulo:
Casamento católico em vias de extinção?Por Frei Bento
Que pretende quem procura um casamento católico e o que recusa quem, embora baptizado, não quer casar pela Igreja?
(endereço-fonte:
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/18-10-2009/casamento-catolico-em-vias-de-extincao-18039249.htm)
1.O alarme foi dado pelos meios de comunicação social baseado em dados estatísticos: em 10 anos, na diocese de Lisboa, os casamentos católicos baixaram 62 por cento. Observaram-me que, se este ritmo se mantiver, em poucos anos, deixará de haver divórcios de casais católicos e um tema recorrente nestas crónicas - a situação dos divorciados na Igreja - também estará esgotado. É melhor, no entanto, não fazer previsões.
Dir-se-á que, depois de alguma alergia ao institucional, do proclamado desinteresse pela política, pelos partidos, pelos actos eleitorais, as instituições da Igreja e a Igreja como instituição também não poderiam fugir muito à tendência geral. Em parte assim será, mas o realce que a notícia teve, nos meios de comunicação social, dava a ideia de que o catolicismo, em Portugal, estaria em acentuado declínio e a hierarquia católica não poderia continuar a alimentar a ficção de que só existe o modelo católico de família que defende.
Não adianta muito pensar que este decréscimo brutal dos casamentos católicos seja apenas o fruto de políticas laicas acerca da família nem a sua estrepitosa divulgação seja regozijo com a perda de influência do catolicismo. Em Portugal, a liberdade religiosa não está em perigo, nem o direito ao casamento católico. A questão de fundo é outra: que fazer para que as famílias se transformem numa fonte de vida evangelizadora das novas gerações? A estatística citada sugere que as novas gerações só poderão receber uma herança se esta for um convite à invenção de novas formas de ser cristão.
2.Para a compreensão e vivência do casamento católico, surgiu, em Paris, em 1938, um inspirado movimento, obra do Padre Henri Caffarel (1903-1996). Em 2006 foi aceite o pedido de abertura do processo da sua beatificação.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o movimento expandiu-se e foi criada a revistaL"Anneau d"Or, divulgando a experiência das pequenas equipas e a sua espiritualidade. Em 1947, o movimento organizou-se e foi elaborado um documento fundador: aCarta das Equipas de Nossa Senhora, revista em 1976. Em 2002, o Pontifício Conselho para os Leigos reconheceu, finalmente, as Equipas de Nossa Senhora (ENS) como Movimento de Fiéis Leigos. O Movimento expandiu-se por todos os continentes. Entrou, em Portugal, em 1957.
Sessenta anos depois, são celebrados os êxitos imensos deste Movimento de espiritualidade conjugal, apesar das dificuldades e dos limites que a moral familiar oficial impõe. No entanto, muitos casais das ENS interrogam-se: onde teremos falhado para que alguns dos nossos filhos não se casem pela Igreja e nem os seus filhos querem baptizar? Andaram em colégios católicos, foram à catequese, alguns até foram catequistas, pertenceram a movimentos juvenis da Igreja e, depois, nada! Resta-lhes a consolação de que alguns valores essenciais informem as suas vidas.
3.Esta sensação de culpa não tem, por vezes, muita razão de ser. Já não estamos no tempo em que os pais e as mediações de formação da Igreja eram as únicas referências no crescimento dos filhos. Vivemos em sociedades abertas e os mais novos, para além da natural rebeldia da juventude, podem dizer aos pais, de forma clara ou velada: eu já não vou por aí.
Uma observação destas não pode servir, todavia, para a resignação dos pais, dos educadores católicos e da pastoral da Igreja no seu conjunto.
Tendo em conta o que está a acontecer, seria preciso, depois de um debate alargado a paróquias, dioceses, movimentos e universidades católicas, reunir um Concílio dedicado exclusivamente à moral familiar proposta na Igreja e ao reexame do que se passa nas outras religiões e nas diversas manifestações da sociedade civil.
Para o vigente Código de Direito Canónico, "O pacto matrimonial, pelo qual o homem e a mulher constituem entre si a comunhão íntima de toda a vida, ordenada por sua índole natural ao bem dos cônjuges e à procriação e educação da prole, entre baptizados foi elevado por Cristo nosso Senhor à dignidade de sacramento. Pelo que, entre baptizados, não pode haver contrato matrimonial válido que não seja, pelo mesmo facto, sacramento." (Cân. 1055).
As implicações teóricas e práticas desta apresentação do casamento merecem um amplo debate que não é para esta crónica. A pergunta que deixo é outra: que pretende quem procura celebrar um casamento católico e o que recusa quem, embora baptizado, não quer casar pela Igreja?
As dimensões de vida, a importância, as ambiguidades e mesmo os equívocos, que envolvem a opção por uma união de facto, um casamento civil ou um casamento religioso, não cabem em apreciações e valorizações esquemáticas.
É normal que a celebração do matrimónio suscite uma vontade de festa que não tem de ser uma exibição de riqueza real ou aparente. A Igreja, sem negar a importância de uma grande festa, deve propor, aos ricos, uma ocasião para repartir com os pobres. Os Encontros de Preparação para o Matrimónio devem ajudar a perceber que os noivos não estão obrigados a promover a indústria dos "casamentos de sonho".
Publicado por morfeu às 06:57 PM | Comentários (8) | TrackBack
julho 26, 2009
Pobreza...falta de sonho e de coração.
Não há falta de recursos
26.07.2009, Frei Bento Domingues O.P.(Público de 26 de Julho)
"Os problemas não se resolvem com milagres. Estes podem ser, eventualmente, uma pedra no charco do fatalismo"
1.No Evangelho segundo S. João ou, como outros dizem, no IV Evangelho, há uma passagem que tem provocado os comentários mais contraditórios. Estava Jesus à mesa com os discípulos, em casa de Lázaro, que havia retornado à vida. Marta servia-os. Maria, como se sabe por outras fontes, não era muito dada aos trabalhos de casa. Tinha outros interesses e alguns comportamentos estranhos. Conta o Evangelho que, nesse jantar, resolveu banhar os pés de Jesus com um "perfume de puro nardo, muito caro", e de os enxugar com os seus próprios cabelos. A casa ficou toda perfumada.
Judas estava nesse jantar. Não suportou a atitude passiva de Jesus: "Porque não se vendeu este perfume por trezentos denários (equivalente a trezentos dias de salário) para dar aos pobres?" A observação de Judas não podia ser mais sensata: andava Jesus sempre preocupado com os pobres e, depois, deixa gastar, consigo, essa quantia exorbitante num gesto de pura gratuidade.
O narrador não gostou da observação de Judas e aproveitou para carregar mais a sua triste memória: "Ele disse isto, não porque se preocupasse com os pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa comum, roubava o que aí era colocado." Mais ainda. O narrador destaca a reacção de Jesus, politicamente incorrecta, que atravessou os séculos e tem sido usada para o melhor e para o pior: "Deixai-a; para me ungir no dia do meu sepultamento é que o guardou! Pois sempre tereis pobres convosco, mas a mim nem sempre me tereis."
2.Já não estamos no clima da "opção preferencial pelos pobres", um tema fundamental da Teologia da Libertação. Dispomos, no entanto, de bastantes teóricos para explicar as raízes da pobreza e com programas que a podem vencer a curto prazo. Não faltam obras de autores muito considerados - vários já apresentados nestas crónicas - que apontam métodos e medidas para conseguir o fim da pobreza na nossa geração. De vez em quando, há notícias, a nível nacional e internacional, de voluntários das organizações da Igreja ou não, tanto para socorrer os pobres, em situação de urgência, como para vencer as razões da sua exclusão.
António Guterres - alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados - veio a Lisboa receber o Prémio Internacional Calouste Gulbenkian. Foi entrevistado por Teresa de Sousa (P2, 22/07/2009). Esta lembrou-lhe a comparação que tinha feito entre os gastos da comunidade internacional para salvar o sistema financeiro e o que fazia para salvar as pessoas em situação desesperada. Esclareceu que não pede que seja gasto o mesmo dinheiro que foi gasto para salvar o sistema financeiro: "Se o fizesse seria demagogo. O que peço é que seja dada a mesma atenção aos problemas humanos que é dada aos problemas financeiros. (...) O financeiro recebe sempre mais atenção que o económico, o económico mais que o social e o social mais atenção que o humanitário."
Há 40 anos, uma data recordada na semana passada, os astronautas norte-americanos realizaram um grande sonho: "Aqui, homens do planeta Terra/ puseram os pés na Lua pela primeira vez/ Julho 1969 A.D./ Viemos em paz em nome da Humanidade."
Os dramas da pobreza extrema e da exclusão, que entristecem o nosso mundo, estão muito mais perto do que a Lua. Porque será que o abismo entre ricos e pobres se alarga cada vez mais? Poderíamos actualizar a queixa de Judas: em vez de andar a gastar essas somas astronómicas com a conquista do espaço, não seria melhor aplicá-las a vencer esta distância desumana? Não me parece que o dinheiro aplicado na investigação seja roubado aos pobres. Não seria difícil mostrar que os seus resultados podem vir a beneficiar toda a gente, tornar-se um bem comum para futuras gerações. A questão é outra.
3.Jesus Cristo não deixou nenhum método científico nem qualquer fórmula técnica para resolver os nossos problemas. Ninguém lhe peça, mesmo que seja muito católico, um programa de governo ou qualquer projecto de desenvolvimento.
É verdade que, na Missa de hoje, Jesus provoca os seus discípulos (Jo 6, 1-15). A situação era crítica. Uma multidão veio para a montanha escutar o mestre. Não havia nada para comer. Segundo os cálculos dos discípulos, duzentos denários de pão não chegavam nem para dar um bocadinho a cada um e não era com cinco pães de cevada e dois peixes, que um rapazito andava a vender, que se resolvia a questão. Jesus pediu aos discípulos para mandar sentar aquela gente toda. Deu graças a Deus, houve pão e peixe para todos - comeram quanto quiseram - e até sobrou, mas não permitiu desperdícios.
A multidão ficou entusiasmada: "Este é, na verdade, o Profeta que estava para vir ao mundo." Tinham encontrado a solução para todas as situações. O narrador desta história tem uma observação curiosa: Jesus, percebendo que o queriam fazer rei, fugiu. Os problemas não se resolvem com milagres. Estes podem ser, eventualmente, uma pedra no charco do fatalismo. Não são um método. A graça provoca a nossa responsabilidade, não a substitui. Não há falta de recursos. Há falta de sonho e de coração.
Publicado por morfeu às 11:23 AM | Comentários (1) | TrackBack
julho 12, 2009
Caritas in Veritate, sg/ B. Domingues
(...) Não toquei, nem ao de leve, na maioria dos temas abordados nesta encíclica. Desejo-lhe muitos leitores e muito debate. O que ela trouxe de novo é a atenção nova a problemas novos e que exigem, como diz A. Maalouf, "uma visão totalmente diferente da política, da economia, do trabalho, do consumo, da ciência, da tecnologia, do progresso, da identidade, da cultura, da religião, da História" e também da teologia. (...)
(Público, 12 de Julho)
domingo, 12 de Julho de 2009
Caritas in Veritate: algo de novo?
O que a encíclica de Bento XVI trouxe de novo é a atenção nova a problemas novos
1.O título da terceira encíclica de Bento XVI, Caritas in Veritate - uma grande expressão da Nova Aliança, abertura do coração e da inteligência -, não precisa de grande tradução, mesmo se o latim, em Portugal, se tenha tornado especialização de poucos. É de temática social e inscreve-se numa tradição que remonta à Rerum Novarum (1891) de Leão XIII, que teve uma posteridade fecunda no século XX. A última tinha sido a Centesimus annus (1991) de João Paulo II, para celebrar esses cem anos em que muita água correu por baixo e por cima das pontes. Entretanto, também João Paulo II tinha publicado a Sollicitudo rei socialis (1987) para celebrar a inovadora Populorum Progressio (1967) de Paulo VI, preparada pelo padre Louis-Joseph Lebret, O.P., fundador do movimento Economie et Humanisme. Respondia aos apelos da Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II (1962-1965), convocado por João XXIII.
A chamada Doutrina Social da Igreja (DSI) é, de facto, a Doutrina Social dos Papas. Não se identifica com os percursos dos "cristãos pensadores do social" - como lhes chamou e os descreveu Yves Calvez -, embora tenham sido eles que, de modo independente, animaram e alargaram os grandes debates desta área no catolicismo.
João Paulo II tinha sublinhado que a DSI não é uma "terceira via" entre capitalismo liberalista e colectivismo marxista, nem sequer uma possível alternativa a outras soluções menos radicalmente contrapostas: constitui, por si mesma, uma categoria de natureza teológica (SRS 41).
2.A Caritas in Veritate de Bento XVI é um claro exemplo dessa opção. Embora procure ser uma mensagem para o mundo, essa característica nunca poderá ser bem entendida fora da expressão católica da fé cristã. O Papa apostou em não deixar nenhum aspecto na sombra, talvez para não multiplicar encíclicas, como fazia o seu predecessor. Apesar de muito noticiada nos meios de comunicação, não tem garantia de muitos leitores.
O seu grande marco é a Populorum Progressio de Paulo VI, mas existe para dizer que já não estamos no mesmo mundo e que a profundidade e a extensão da crise actual exige à Igreja uma nova lucidez, pois, como se diz no Evangelho, se for um cego a conduzir outro cego, caem ambos no buraco. Isto não significa que os Papas possam dispensar as ciências para caracterizar os fenómenos e disponham de competência própria para responder à velocidade das mudanças, num "mundo sem regras" (A. Maalouf).
O seu ponto de vista é teológico, mas não defende uma teocracia. Bento XVI não é um fundamentalista nem um ateu. Para ele, "razão e fé ajudam-se mutuamente; e só conjuntamente salvarão o homem: fascinada pela pura tecnologia, a razão sem a fé está destinada a perder-se na ilusão da própria omnipotência, enquanto a fé sem a razão corre o risco do alheamento da vida concreta das pessoas" (n.º 74). Ganhamos com a aliança entre as ciências e a caridade: "Vista a complexidade dos problemas, é óbvio que as várias disciplinas devem colaborar através de uma ordenada interdisciplinaridade. A caridade não exclui o saber, antes reclama-o, promove-o e anima-o a partir de dentro. O saber nunca é obra apenas da inteligência; pode, sem dúvida, ser reduzido a cálculo e a experiência, mas se quer ser sapiência capaz de orientar o homem à luz dos princípios primeiros e dos seus fins últimos, deve ser "temperado" com o "sal" da caridade. A acção é cega sem o saber e este é estéril sem o amor. De facto, aquele que está animado de verdadeira caridade é engenhoso em descobrir as causas da miséria, encontrar os meios de a combater e vencê-la resolutamente" (n.º 30).
3.A mútua inclusão da economia e da ética ocupa o centro da encíclica. O grande desafio que temos diante de nós - resultante das problemáticas do desenvolvimento neste tempo de globalização, mas revestindo-se de maior exigência com a crise económico-financeira - é mostrar, a nível tanto de pensamento como de comportamentos, que não só não podem ser esquecidos nem debilitados os princípios tradicionais da ética social, como a transparência, a honestidade e a responsabilidade, mas também que, nas relações comerciais, o princípio de gratuidade e a lógica do dom como expressão da fraternidade podem e devem encontrar lugar dentro da actividade económica normal. Isto é uma exigência do homem no tempo actual, mas também da própria razão económica. Trata-se de uma exigência simultaneamente da caridade e da verdade (n.º 36).
Não existe neutralidade ética nas decisões económicas: a angariação dos recursos, os financiamentos, a produção, o consumo e todas as outras fases do ciclo económico têm inevitavelmente implicações morais (n.º 37).
Não toquei, nem ao de leve, na maioria dos temas abordados nesta encíclica. Desejo-lhe muitos leitores e muito debate. O que ela trouxe de novo é a atenção nova a problemas novos e que exigem, como diz A. Maalouf, "uma visão totalmente diferente da política, da economia, do trabalho, do consumo, da ciência, da tecnologia, do progresso, da identidade, da cultura, da religião, da História" e também da teologia.
Publicado por morfeu às 10:46 PM | Comentários (0) | TrackBack
junho 14, 2009
Lutero e Calvino...que sei eu?
Que se tem feito para conhecer estes dois irmãos em Cristo, na Palavra? Que tenho eu feito para vencer o preconceito bebido desde a infância real e religiosa, onde bulas, protestos, papas antigos mas com ramificações actuais, casamento, etc...se misturam e impedem um esclarecimento? Oportuna a crónica de hoje, no Público, de frei Bento Domingues, recuperando estas duas figuras mestras do pensamento e vivência cristãos. Atentar nas publicações em português de obras deste dois autores...mais vale tarde do que nunca.
"As obras teológicas de Lutero e Calvino nunca foram incorporadas na cultura religiosa portuguesa
1.Tem sentido reabrir o passado, não por ser passado, mas, como dizia Paul Ricoeur, para "libertar a sua carga de futuro". As obras teológicas de Lutero e Calvino - dois dos nomes mais influentes da Reforma protestante - nunca foram incorporadas na cultura religiosa portuguesa. Consciente desta lacuna, o Cento de Estudos de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, para assinalar os 450 anos da morte de Martinho Lutero (1483-1546), organizou um importante colóquio para situar o seu papel no advento da Modernidade (1). Recordando, depois, uma data decisiva na célebre controvérsia em torno da questão das indulgências (31 Outubro 1517), o mesmo Centro não se contentou com o seu debate anual sobre o significado da Reforma. Publicou a tradução das famosas 95 Teses de Martinho Lutero, tenham elas sido ou não afixadas na porta da Igreja de Vitemberga (2).
João Calvino nasceu há 500 anos, no dia 10 de Julho. De novo, o Centro de Estudos de Ciência das Religiões não quis deixar essa data em branco, publicando a tradução da sua Breve Instrução Cristã (3).
As esmeradas traduções e introduções dos textos referidos - que apontam para a obra imensa desses clássicos - pertencem a Dimas de Almeida, professor da Universidade Lusófona.
A importância do pensamento calvinista foi destacada por Max Weber (1864-1920), um dos modernos fundadores da Sociologia e autor de A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Seja qual for a opinião sobre a tese desta grande obra de Max Weber, não podemos esquecer o seu impacto na discussão da génese e interpretação do capitalismo. Além disso, como recorda Dimas de Almeida, o contributo de Calvino para a ideia de democracia no Ocidente foi sublinhado por alguns analistas e não seria descabido encontrar, na origem do nosso sistema democrático, marcas dos presbiterianos dos EUA.
2.Se João Calvino influenciou a história do mundo ocidental não foi, apenas nem sobretudo, no plano económico, social e político. Aos 24 anos abraçou a causa da Reforma e, para ele, o fundamental era submeter a Igreja à Palavra de Deus. Karl Barth, de tradição calvinista e uma das figuras mais importantes da teologia do século XX, tem o cuidado de sublinhar que Calvino "nunca foi o nosso papa. (...) Os reformadores, nossos pais na fé, unidos aos pais da Igreja antiga, não podem ser para nós mais do que antepassados que nos ajudam a compreender. A verdadeira autoridade dos cristãos protestantes é a Palavra, aquela que o próprio Deus pronunciou, pronuncia e pronunciará eternamente mediante o testemunho do seu Espírito Santo nos escritos do Antigo e do Novo Testamentos. Calvino é para nós um mestre na arte de escutar esse singular e único ensino da Igreja".
Não é por acaso que se deve a Karl Barth o empenho na luta pela independência da Igreja frente ao nacional-socialismo. Foi ele que redigiu a Declaração Teológica de Barmen, adoptada no Primeiro Sínodo Confessante da Igreja Evangélica Alemã, realizado entre 29 e 31 de Maio de 1934, tentando encontrar uma orientação para os cristãos confusos diante da ascensão de Hitler: a Igreja deve obediência exclusiva ao seu Senhor e ao Evangelho e a sua característica essencial é ouvir a Deus. O último parágrafo da Breve Instrução Cristã, agora traduzida, reza assim: "Enfim, não é de nenhum outro modo senão em Deus que somos submetidos aos homens que foram estabelecidos acima de nós. E se eles nos ordenam algo contra o Senhor, não devemos ter isso em conta, pondo antes em prática esta máxima da Escritura: Impõe-se-nos mais obedecer a Deus do que aos homens."
3.Hoje, é voz corrente sublinhar que tanto Lutero como Calvino pretendiam trabalhar na reforma da Igreja, mas dentro do catolicismo e sob a autoridade do Papa. Devido a vários e complexos factores, a ruptura trágica consumou-se e continua. Durante a Contra-Reforma católica, a personalidade religiosa de ambos foi, muitas vezes, injustamente denegrida. Só no século XX os historiadores católicos reapreciaram essa história, mostrando a grande estatura humana, cristã e teológica destes reformadores.
Superada a violência pela tolerância recíproca, chegou o tempo da procura do conhecimento mútuo que favoreça um diálogo que vá alterando a mentalidade e a atitude de todos. É esse o caminho do ecumenismo entre as Igrejas cristãs.
O diálogo ecuménico exige rever questões histórico-teológicas, mas não as pode rever como se procurasse voltar ao século XVI. Seria anacrónico e já não têm remédio. Importante seria ver o que há de futuro nessas problemáticas, nesses encontros e desencontros. O verdadeiro ecumenismo só pode ser realizado perante os desafios que afectam a missão presente das Igrejas na luta contra situações de exploração intolerável, seja onde for. Se as Igrejas cristãs não se quiserem deixar interfecundar na busca de caminhos de evangelização, não podem pretender ser o sal da terra e a luz do mundo.
(1) VV.AA., Martinho Lutero. Diálogo e Modernidade, Edições Universitárias Lusófonas, 1999.
(2) Org., trad. e introdução de Dimas de Almeida, Cadernos de Ciência das Religiões, n.° 15, 2008.
(3) João Calvino, Breve Instrução Cristã, org., trad. e introdução de Dimas de Almeida, Revista Lusófona de Ciência das Religiões, Série Monográfica, Vol. III, 2009.
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junho 07, 2009
O "mistério" da SS.Trindade, sg/Bento Domingues.
Trindade: mística de olhos abertos e mística de olhos fechados
07.06.2009, Frei Bento Domingues O.P.( In Público)
«A mística que não tiver os olhos abertos e não praticar a compaixão activa é uma mistificação»
1. Hoje, a Igreja Católica celebra a SS. Trindade. Este mistério inspirou, a um dos nomes maiores da música do século XX, Olivier Messiaen, uma nova e lúdica linguagem, introduzida no seu monumental ciclo para órgão, Méditations sur le Mystère de la Sainte Trinité.
Este entusiasmo faltou claramente a um grande filósofo da Modernidade, I. Kant (1724-1804): "Da doutrina da Trindade não se tira, definitivamente, nada de importante para a prática, mesmo quando se pretendia entendê-la; muito menos ainda quando alguém se convence de que supera absolutamente todos os nossos conceitos. Ao aluno não custa nada aceitar que na divindade adoramos três ou dez pessoas. Para ele, tanto faz uma coisa como outra, porque não tem ideia nenhuma sobre um Deus em várias pessoas (hipóstases). Mais ainda, porque desta distinção não deriva absolutamente nenhuma pauta para a sua conduta."
Quem não gostou nada desta insensibilidade simbólica foi o brasileiro Leonardo Boff. Recordou, de forma esquemática, que o monoteísmo a-trinitário serviu para justificar o totalitarismo, a concentração do poder numa única pessoa, quer política quer religiosa. Já nos primeiros séculos do cristianismo, alguns pensadores vincaram certas e perigosas correspondências: assim como Israel é um único povo mediante a fé num único Deus, também a humanidade dividida, agora, em muitas nações e línguas, voltará a ser uma única humanidade sob o império de um único senhor político; como há um único Senhor no céu, deve haver um único senhor na terra; como existe um único Deus, também deve imperar uma única realeza e uma única monarquia. Justificava-se, desta maneira, o absolutismo dos imperadores cristãos.
Nos tempos modernos, acerca do absolutismo dos reis, alguns ideólogos argumentavam de modo semelhante: o rei, com poder absoluto, é a imagem do Deus absoluto e, assim como Deus está acima de todas as leis, também o príncipe. Não é a verdade e a justiça que fundam as leis, mas o arbítrio do soberano.
Este monoteísmo a-trinitário teve, também, consequências na concepção da unidade na Igreja: assim como no céu há uma só cabeça, também na terra deve haver uma só que a represente, o Papa. Já Inácio de Antioquia (m. 104) afirmara: um único Deus, um único Cristo, um único bispo, uma única comunidade local. Como mostrou Yves Congar, épocas houve em que o Papa era considerado o Deus visível sobre a terra, o Deus terrenus. Esta concepção originou um modelo piramidal de Igreja: em cima, a hierarquia e, em baixo, os leigos. Não é esse o caminho de uma comunidade de irmãos e irmãs, a única que interessa a L. Boff, tanto na Igreja como na sociedade (1).
2. A preocupação deste teólogo não se centrava, porém, numa revisão do passado. O que lhe interessava era o estímulo trinitário para a Teologia da Libertação da América Latina. Quando se diz que o ser humano foi "criado" à imagem de Deus, é preciso perguntar: mas qual Deus?
Como se disse, mesmo no mundo cristão, a utilização do monoteísmo - uma revolução religiosa atribuída a Moisés - pode ser a justificação do pior. No Pai Nosso, também rezamos: assim na terra como no céu. Se queremos mudar a terra, teremos de alterar o Céu, nome divino. Se "é na divindade que vivemos, existimos e nos movemos" (Act 17, 28), é preciso que ela não seja a justificação deste "vale de lágrimas". L. Boff, para rezar o Pai Nosso com os oprimidos que lutam pela libertação e por novas relações sociais, tem de mostrar a eficácia, no seio da história humana, de uma nova leitura do coração da fé cristã: "A comunidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo significa o protótipo da comunidade humana sonhada pelos que querem melhorar a sociedade e, assim, construí-la para que seja à imagem e semelhança da Trindade." A categoria básica desta leitura é a "relação". Como alguém disse, em Deus, de modo absolutamente transcendente, as pessoas são todas iguais, todas diferentes, todas activas sem subordinação, em relação recíproca de comunhão. É esta, aliás, a utopia implícita que alimenta a construção de uma verdadeira democracia, a nível local e mundial.
Se Deus é assim, se fomos criados à sua imagem, se queremos a terra como no céu, isto é, um mundo de irmãos de muitas famílias, a teologia trinitária pode ser uma fonte inesgotável para uma teologia inovadora.
3.Dizer isto é importante. Não esqueçamos, porém, que há teólogos, aparentemente muito místicos, que descrevem minuciosamente o que se passa no mais íntimo da vida trinitária - onde terão ido colher essa ciência? -, indiferentes ou de olhos fechados para o que se passa na terra. A mística que não tiver os olhos abertos e não praticar a compaixão activa é uma mistificação.
Por outro lado, a simbólica cristã, a simbólica trinitária - na qual, o Espírito se diz, em hebraico, no feminino (ruah) -, não se pode esgotar numa fonte de inspiração social, seja ela qual for. Sem a vigilância da chamada Teologia Negativa, que purifica cada afirmação com uma negação provocadora, podemos cair facilmente numa transposição unívoca do céu para a terra e da terra para o céu: a reprodução insípida do mesmo.
(1) Leonardo Boff, A Trindade e a Sociedade, Petrópolis, Vozes, 1987 3. Ver também A Santíssima Trindade é a melhor comunidade, Vozes, 1988.
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maio 31, 2009
Porque hoje é domingo:crónica e reflexão de Bento Domingues.

(Excelente edição "hors-serie" do «Le Figaro»", recém editado, e que aconselho vivamente)
(...)Quem pode o mais também pode o menos, isto é, se as mulheres podem ser cristãs, também poderão ser chamadas, ao mesmo título que os homens, a exercer qualquer ministério ordenado ou não, dentro da Igreja. Nem Deus nem Cristo fazem acepção de pessoas.(...)
(Jornal Público de 31 de Maio de 2009)
domingo, 31 de Maio de 2009
O mistério da pirâmide
Com o evoluir da sociedade, será normal que, na graduação do poder, as mulheres venham a ocupar todos os lugares
1.Num debate televisivo sobre o sacerdócio feminino nas diversas religiões, deparei com o desenho de uma pirâmide para mostrar a situação das mulheres na Igreja Católica. No cimo dessa pirâmide, vinha o Papa, abaixo, os cardeais, mais abaixo ainda, os bispos, seguiam-se, na descida, os padres e, na base da pirâmide, vinham os diáconos. Ali, não havia mulheres. Estava tudo no masculino.
O que mais me espantava, nesse desenho, não era a evidente exclusão das mulheres desses lugares de poder. Estava-se a debater, de forma comparativa, o papel das mulheres na direcção das diferentes religiões, a nível global e local. Não vem ao caso, agora, apreciar o que se passa nas outras religiões. No campo cristão, há Igrejas nas quais a pirâmide do poder já conta com presenças femininas e, com o evoluir da sociedade, será normal que, na graduação do poder, as mulheres venham a ocupar todos os lugares. Há quem diga que tempo virá, no qual será preciso, nessas Igrejas, como nos partidos, parlamentos e governos, lutar por uma quota de homens.
O insuportável, naquele gráfico, era a tentativa de identificar a Igreja Católica, Apostólica, Romana com a Hierarquia. Os esforços desenvolvidos, sobretudo ao longo do século XX, para acabar com essa identificação - uma das maiores reconquistas do Concílio Vaticano II (1962-1965) - parecia que não tinham servido para nada.
Depois, mais a frio, pensei: não há razões especiais para me irritar. Aquela pirâmide é, de facto, a representação que continua a vigorar no imaginário de católicos e não católicos. Quando se fala, bem ou mal, da Igreja - e não só nos meios de comunicação social -, pensa-se no que dizem e fazem o Papa, os bispos e os padres. Quem pensará que a Igreja é, em primeiro lugar, constituída pela rede mundial de comunidades cristãs mais densas ou mais raras, segundo os países e continentes? Compreendi, então, que já Santo Agostinho (354-430) tivesse sentido a necessidade de dizer: "para vós sou bispo, convosco sou cristão". A sua glória não estava em ser bispo, mas em ser cristão: alguém que a graça do Espírito Santo transformara num discípulo de Cristo.
Porque será que, mesmo depois de toda a ênfase posta pela Lumen Gentium do Vaticano II, naquilo que é comum a todos os cristãos (n.º 10) e de ter destacado que os vários ministérios da Igreja se destinam ao bem de todo o corpo (n.º 18), se continue a confundir a Igreja com a Hierarquia e esta transformada numa hierarquia sacerdotal?
2.A linguagem do sacerdócio nunca é utilizada, no Novo Testamento, para designar os ministérios ou serviços da comunidade. A usada é de carácter funcional para fazer ressaltar a sua diferença absoluta em relação ao sacerdócio veterotestamentário ou gentio. Por isso, os ministros das comunidades são designados como presbíteros (anciãos), bispos (vigilantes), pastores, presidentes, chefes, dirigentes, guias, etc.. A linguagem sacerdotal é aplicada só a Cristo, único mediador (Carta aos Hebreus), e, de forma colectiva, ao povo cristão, não para oferecer a Deus sacrifícios "materiais", mas a própria vida (Rm 12; 1Pd 2, 4-10).
A partir dos finais do século II, voltou-se a utilizar, no cristianismo, a linguagem veterotestamentária para designar os seus ministros, mas num sentido analógico, metafórico ou, mais exactamente, tipológico. Depois, de forma variável, desenvolveu-se a terminologia sacerdotal que vai sacralizar os ministérios cristãos à maneira do Antigo Testamento, como tendo parte no sagrado, no divino. Como diz o jesuíta Joseph Famerée, na época moderna, a partir da corrente espiritual francesa de Pierre de Bérulle (1575-1629), far-se-á do padre um "outro Cristo" como se, pela sua ordenação, tivesse sido ontologicamente transformado num ser novo. Nesta identificação, é "transubstanciado" num alter Christus, num mediador necessário entre Deus-Cristo e os humanos.
Esta visão sacerdotalizante e ontológica do padre é, para o autor citado, na linha de muitos outros, inaceitável (1).
3.Dir-se-á que, no referido documento conciliar, "o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ou hierárquico, apesar de diferirem entre si essencialmente e não apenas em grau, ordenam-se um para o outro mutuamente; de facto, ambos participam, cada qual a seu modo, do sacerdócio único de Cristo". Ao dizer "sacerdócio comum", poderia supor-se que a diferença essencial corre a favor do chamado "sacerdócio ministerial ou hierárquico". Erro grosseiro. Como dizia Tomás de Aquino, o que há de mais importante, de mais decisivo, no cristianismo, é precisamente o acolhimento da graça do Espírito Santo, anterior a qualquer forma de ministério ordenado. É ela que transforma a vida.
Na altura do Concílio, não foi possível chegar a acordo para que "sacerdócio" ficasse como próprio de Cristo e de todos os fiéis, como vem no Novo Testamento. O consenso possível foi o da justaposição de duas Escolas.
Quem pode o mais também pode o menos, isto é, se as mulheres podem ser cristãs, também poderão ser chamadas, ao mesmo título que os homens, a exercer qualquer ministério ordenado ou não, dentro da Igreja. Nem Deus nem Cristo fazem acepção de pessoas.
(1) Sacerdote et eucharistie chez Léon Dehon, in La Vie Spirituelle, n.º 782, Maio 2009, p. 240-241
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maio 24, 2009
Místicos,sábios,profetas...
"Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões; não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões; não haverá diálogo entre as religiões sem um estudo aprofundado dos respectivos princípios teológicos fundamentais. Por outro lado, o nosso planeta não poderá sobreviver sem padrões éticos globais, sem referências éticas reconhecidas no mundo inteiro".
(Hans Kung, in bento domingues:crónica dominical do público de 24 de Maio de 2009(
Pontos de contacto entre as religiões?
24.05.2009, Frei Bento Domingues O.P.
O respeito pela liberdade religiosa é uma das proclamações mais repetidas, tanto por João Paulo II como por Bento XVI
1.Integrado nas comemorações do 25.° aniversário da AMI, em parceria com a Fundação Academia Europea de Yuste de Espanha, encerra, hoje, o primeiro Encontro de Culturas - Ouvir para Integrar, com a realização de um vasto programa, desde o dia 21. Foi a primeira vez que este encontro se realizou em Portugal (Lisboa), com a intenção de o repetir periódica e alternadamente em Espanha e Portugal. É convicção destas fundações que, para construir um mundo de concórdia e entendimento, é preciso estabelecer múltiplas pontes de diálogo entre as diferentes culturas e religiões.
Fazia parte do programa uma mesa-redonda dedicada aos Pontos de Contacto entre Religiões. Estas já demonstraram que encerram um imenso potencial de conflito - explorado, muitas vezes, por religiosos e irreligiosos -, mas possuem também um potencial de paz não menos surpreendente. Foram homens e mulheres religiosamente motivados que, sem violência e sem derramamento de sangue, defenderam, por exemplo, uma mudança radical na Polónia, na Alemanha Oriental, na África do Sul, em Moçambique, na América Central e do Sul, nas Filipinas.
Hans Küng, um famoso teólogo católico do diálogo inter-religioso, sintetizou as suas convicções a este respeito de forma quase axiomática: "Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões; não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões; não haverá diálogo entre as religiões sem um estudo aprofundado dos respectivos princípios teológicos fundamentais. Por outro lado, o nosso planeta não poderá sobreviver sem padrões éticos globais, sem referências éticas reconhecidas no mundo inteiro".
2.Bela exigência programática, mas como me dizia um amigo, além dos maus contactos de hostilidade e indiferença, o ponto mais comum entre as religiões é a ignorância mútua, embora aumente a produção científica e de divulgação sobre todas e surjam, por vezes, alguns gestos exemplares. O próprio Hans Küng, tendo publicado várias obras especializadas, escreveu um precioso livro, acessível ao grande público, sobre o mundo fascinante, misterioso e complexo das grandes religiões e que serviu de apoio uma série da TV alemã (1). Parte de um princípio simples: se todos precisam de ser informados para ter voz e intervenção nos acontecimentos actuais, a competência não se deve limitar aos assuntos económicos, culturais e sociais. Deve compreender, também, o vastíssimo mundo religioso, no qual ele destaca as religiões originárias da Índia: hinduísmo e budismo; da China: confucionismo e taoísmo; do Médio Oriente: judaísmo, cristianismo e islão. Segundo ele, para as primeiras a figura-chave é o místico; para as segundas, o sábio; para as terceiras, o profeta. O estudo destas religiões e respectivas tipologias é precedido de uma longa exposição sobre as religiões tribais e as religiões desaparecidas.
Em Portugal, por enquanto, na área da Ciência das Religiões, apenas a Universidade Lusófona dispõe de uma licenciatura, um mestrado, um centro de investigação e uma revista. A instância académica, embora indispensável, não é suficiente para partilhar os possíveis pontos de contacto entre as diversas religiões. Na Europa actual, o pluralismo religioso assume proporções desconhecidas ainda há poucos anos e é fundamental que os diferentes grupos não se fechem sobre si mesmos, constituindo novos guetos religiosos.
3.Não são as religiões, mas os indivíduos e os grupos humanos que dialogam e descobrem as proximidades e as distâncias entre elas. O terreno humano em que todas se poderiam encontrar tem, desde 10 de Dezembro de 1948, na Declaração Universal dos Direitos Humanos, uma referência incontornável: "Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos" (art. 18). Em Portugal, esta resolução da ONU só foi publicada no Diário da República a 9 de Março de 1978. Na Igreja, a liberdade religiosa só foi reconhecida no Concílio Vaticano II. Antes, dizia-se, reconhecer a liberdade religiosa seria equiparar os direitos da verdade e do erro. Ora, a verdade estava na Igreja e vigorava o adágio: "Fora da Igreja não há salvação". Hoje, o respeito pela liberdade religiosa tornou-se uma das proclamações mais repetidas, tanto por João Paulo II como por Bento XVI.
Os grandes especialistas, da própria e das outras religiões, poderão descobrir e declarar os pontos de contacto e as incompatibilidades. Esse trabalho está sempre exposto a ser desautorizado pelas cúpulas das diferentes confissões e, muitas vezes, pela voz popular manipulada.
Não se deve, no entanto, pensar que as religiões não podem mudar, para melhor e para pior. A Igreja Católica, num século, mudou do anátema para o diálogo. Mediante muitas e dolorosas peripécias, conseguiu mostrar que "tudo o que sobe converge", servindo-me da expressão de Teilhard de Chardin, no bicentenário de Darwin.
(1) Hans Küng, Religiões do Mundo. Em busca dos Pontos Comuns, Lisboa, Multinova, 2005
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maio 17, 2009
Em que (quem) acreditar?
(...)Quando se fala de acreditar ou não acreditar em Deus, a primeira pergunta é esta: em que Deus estás a pensar? Se a pergunta é atrevida, a resposta é perigosa. Não podemos pensar sem imagens, sem metáforas, sem conceitos. Para responder, através de imagens e metáforas, é importante saber quais são as que ajudam a viajar para o infinito e aquelas que já estão fixadas como objectos. É conhecida a observação: quando se aponta para o céu, o estúpido olha para o dedo. (...)
(Bento Domingues ln. Jornal Público)
domingo, 17 de Maio de 2009
A raiz da alegria
Quando se fala de acreditar ou não acreditar em Deus, a primeira pergunta é esta: em que Deus estás a pensar?
1.No momento em que escrevo, ainda é cedo para procurar os frutos da viagem do Papa à chamada Terra Santa, lugar da desautorização espiritual das consideradas religiões abraâmicas - judaísmo, cristianismo e islão - ao pretenderem testemunhar todas do verdadeiro Deus umas contra as outras. Religiões supostamente anti-idolátricas que, cultivando a idolatria daquela terra, daquelas pedras, rios, lagos, mares, árvores, montanhas, muros antigos e recentes, monumentos sagrados, vão construindo um barril de pólvora sempre pronto a explodir. Pela serenidade das notícias, não deve ter havido nada que pudesse ser transformado, pelos grandes meios de comunicação social, num escândalo político-religioso. Dado o clima crispado que antecedeu a viagem, esta serenidade é um bom sinal.
2.Se a ignorância é sempre atrevida, parece que acerca das religiões até fica bem: basta ir numa excursão à Índia para ficar a saber tudo acerca de milénios de sabedorias e loucuras e adivinhar o seu futuro; uma peregrinação à Terra Santa é suficiente para descobrir as pegadas históricas de Jesus e outra pelos lugares referenciados nas Cartas de S. Paulo para ficar a conhecer, profundamente, os ziguezagues do seu pensamento. Se estudar era uma "veemente aplicação da mente", a estes peregrinos basta-lhes uma olhadela rápida com tempo para a fotografia.
Hoje, quero chamar a atenção para algumas edições Paulinas. Não se contentaram com a tradução de obras sobre S. Paulo e sobre Jesus e Paulo (sobretudo, as de J. Murphy-O'Connor e de Peter Walker). Apresentaram-nos, também, Jesus Hoje. Uma espiritualidade de liberdade radical, de Albert Nolan, um dominicano da África do Sul. Livro tão belo e sugestivo que é impossível não recomendar. Na colecção Sabedoria Cristã, com a marca de um estilo de espiritualidade que nada tem a ver com as mediocridades da New Age, onde tinham sido publicados três títulos importantes, surgiu agora uma obra que representa uma pura novidade no cenário cultural, teológico e espiritual do nosso país. Trata-se nada menos de alguns Tratados e Sermões de Mestre Eckhart (1260?-1328), filósofo, teólogo, pregador dominicano e, sobretudo, um grande místico, muito discutido desde o século XIV até à actualidade, dentro e fora do espaço eclesial. Apresentado, agora, como um incontornável mediador do diálogo entre o Ocidente cristão e as tradições místicas orientais, este autor proibido na teologia tornou-se, pela mão de M. Heidegger, uma referência da filosofia alemã.
Não é uma obra para almas apressadas nem para consolações imediatas. Quando se fala de acreditar ou não acreditar em Deus, a primeira pergunta é esta: em que Deus estás a pensar? Se a pergunta é atrevida, a resposta é perigosa. Não podemos pensar sem imagens, sem metáforas, sem conceitos. Para responder, através de imagens e metáforas, é importante saber quais são as que ajudam a viajar para o infinito e aquelas que já estão fixadas como objectos. É conhecida a observação: quando se aponta para o céu, o estúpido olha para o dedo. Há metáforas vivas e metáforas mortas: o sopé da montanha, as pernas da mesa ou da cadeira, de metáforas já não têm nada. O jogo simbólico e metafórico salva-nos pela sua capacidade poética de abrir horizontes sem contornos definidos, um viajar permanente da inteligência e da imaginação. Fazer de Deus um ente, nem que seja o Ente Supremo, não o deixa saltar para fora dos conceitos. Mas um Deus que coubesse num conceito era mais pequeno do que esse conceito, era um ídolo, um fabrico da mente. Mestre Eckhart obriga o espírito a um salto para lá de todos os conceitos e de todas as representações. A Deus não se vai, porém, de abstracção em abstracção, mas pelo despojamento absoluto e pela entrada na divindade, presente em tudo, não se confundindo com nada, sem nome adequado para a nomear: o fundo sem fundo de toda a realidade.
3.Há muitos livros que gostava de ver traduzidos em português. Referi-me, no ano passado, a Hablemos de Dios de Victoria Camps e Arrelia Valcárcel. Estas duas catedráticas de Ética elaboraram uma obra muito original sobre as peripécias da religião, especialmente do catolicismo, no devir do processo democrático espanhol. O movimento Nós Somos Igreja tomou a iniciativa de convidar as autoras para dar a conhecer essa obra em Portugal. Foram acolhidas no Centro Nacional de Cultura. Pena foi que os meios de comunicação social não tivessem compreendido a importância de uma problemática fundamental que - entre nós e por motivos opostos - católicos e agnósticos preferem ignorar.
Os textos da liturgia deste domingo fazem parte da constituição da originalidade cristã. Dizem que só lhe pertence o que serve a nossa alegria. Deus não faz acepção de pessoas, seja qual for a sua religião ou cultura, porque o amor que Deus lhes tem é incondicional e o seu mandamento é insubstituível: amai-vos uns aos outros. Que terá acontecido para que a alegria não seja o rosto das Igrejas cristãs, tantas vezes, coberto por normas e ritos de exclusão e de tristeza?
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abril 26, 2009
"Dançai com Cristo sobre os Evangelhos"
"Musas amigas, levai estes espelhos / Que reflectem do tempo a estampa fútil. / Dançai com Cristo sobre os Evangelhos / O círculo dos deuses inconsútil. // Nem céu nem inferno dos sacramentos velhos / Que são os cárceres de uma fé indúctil. / De em meu barro escutar santos conselhos / Desposa o Espírito minha alma núbil. // E em meu jardim interior passeiam / À meia-noite em flor amantes mortos / Que entre acácias se estreitam ressurrectos. // Com paixões que as grades incendeiam / Endireito da vida atalhos tortos, / E na morte entrarei de olhos abertos."
...pegando nas palavras de Natália Correia, Bento Domingues associa a sua reflexão dominical.
(In Público de 26/04/09)
As narrativas que temos são actos de linguagem que tentam apontar sinais, mas não descrever o sobrenatural
1. Desde E. Cassirer, ninguém estranha que se diga que o ser humano é um animal simbólico. Certo positivismo tem dificuldade com essa linguagem, mas é o positivismo que restringe a sua capacidade. É próprio das artes, da literatura e da música sugerir, no sensível, o inexprimível da realidade inabarcável em conceitos claros e distintos.
Na Semana Santa, foram celebradas todas as formas da dor humana. Na Vigília Pascal, antecipamos as páscoas que faltam: matar todos os dias o poder da morte na morte de Cristo, ressuscitar na Sua ressurreição. Nessa Vigília, mãe de todas as vigílias, apesar das longas horas que convocaram o que há de melhor em nós, tudo ficou ainda por dizer. Foi a partir daí que dois mil anos de literatura, música, pintura, cinema fizeram de Jesus Cristo a figura suprema do mundo desejado. Até às festas da Ascensão e do Pentecostes, os cristãos continuarão a dizer, num grande crescendo da memória, o que aconteceu, acontece e acontecerá.
Dir-se-á que os textos dos Evangelhos e dos Actos dos Apóstolos sobre a Ressurreição estão semeados de acontecimentos inverosímeis, de incongruências e até de contradições. Todos os anos regressa a discussão sobre o que neles é histórico, lendário e simbólico.
2. Há dois caminhos que não vão dar a lado nenhum saudável: tentar destrinçar o que é histórico e o que é lendário; servir-se dos textos para pregações e catequeses moralizantes. Os historiadores e os psicólogos podem tentar saber por que razão os discípulos - que tinham dispersado ao verificar a crucifixão e a morte de toda a esperança depositada em Jesus -, passado pouco tempo, confessavam a experiência de que Jesus de Nazaré é o Cristo, o Messias, está vivo e, por causa dele, estarão progressivamente dispostos a tudo. A esse nível, o fenómeno em torno da descrença e da crença na Ressurreição pode ser matéria de história e de psicologia. Mas nada mais. Ninguém viu o acto de ressuscitar nem quem o ressuscitou. São realidades da ordem do inverificável empiricamente. Por duas razões. Primeiro, porque não se trata de alguém que estava morto e que voltou à sua situação anterior. Se fosse o caso - como se diz que aconteceu com Lázaro -, poder-se-ia comparar a situação dessa pessoa antes e depois da morte. Segundo, um fenómeno sobrenatural e o próprio Deus não são evidentes, não são fotografáveis nem testáveis em laboratório. Quem imaginasse o contrário negaria a absoluta transcendência de Deus e o sobrenatural. As narrativas que temos são actos de linguagem que tentam apontar sinais, mas não descrever o sobrenatural.
Pode-se, no entanto, perguntar: mas então, porque será que as narrativas e as pregações do Novo Testamento não se contentaram com a sobriedade essencial: Jesus ressuscitou e não sabemos mais nada. Parem de pensar, de imaginar e de perguntar.
De facto, não foi o que aconteceu. S. Pedro, bastante mais tarde, aconselhou: "Estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança" (1Pd 3, 15). Os autores do Novo Testamento tinham de mostrar que o ressuscitado era o mesmo que foi crucificado, mas não o era da mesma maneira. Era ainda mais real, mas numa forma de realidade incomparável com aquela com que tinham convivido.
3. Tarefa nada fácil. As testemunhas da experiência do Ressuscitado tinham de apresentar a sua convicção na linguagem dos gestos e das experiências que tiveram com Jesus. Tinham também de mostrar o que havia de radicalmente novo naquela experiência. Não lhes caiu do céu um ditado divino que dispensasse a imaginação e as palavras humanas. A Ressurreição transfigura, mas não pode negar as exigências da Incarnação. Tinham de se servir do que estava disponível na sua língua, na sua cultura. São os conceitos de inspiração, revelação e inerrância, atribuídos aos textos bíblicos, que precisam de levar uma grande volta, para não produzirem resultados mais nefastos do que aqueles que pretendem evitar.
Se consentirmos na convicção de que a linguagem simbólica, metafórica, é a mais adequada para exprimir e dizer a fecundidade do mistério pascal na nossa vida, como perpétuo movimento, constante conversão, passagem da morte à vida pelo amor dos irmãos, de todos (1Jo 3, 14), não estranharemos acontecimentos inverosímeis, incongruências e até contradições. O cristianismo junta, no Espírito de Deus, nosso espírito, duas palavras explosivas que parecem incompatíveis: Jesus e Cristo.
Não é na linguagem dos tratados teológicos e dos catecismos que a poetisa açoriana Natália Correia evoca a Páscoa e o Pentecostes. E ainda bem: "Musas amigas, levai estes espelhos / Que reflectem do tempo a estampa fútil. / Dançai com Cristo sobre os Evangelhos / O círculo dos deuses inconsútil. // Nem céu nem inferno dos sacramentos velhos / Que são os cárceres de uma fé indúctil. / De em meu barro escutar santos conselhos / Desposa o Espírito minha alma núbil. // E em meu jardim interior passeiam / À meia-noite em flor amantes mortos / Que entre acácias se estreitam ressurrectos. // Com paixões que as grades incendeiam / Endireito da vida atalhos tortos, / E na morte entrarei de olhos abertos."
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abril 19, 2009
A linguagem da Páscoa, sg/ Bento Domingues
"A consistência artística, literária, poética, musical da expressão religiosa não é apreciada como a grande linguagem da fé". (...) in Público.
1 Nos últimos tempos, quando, nos grandes meios de comunicação, se fala de Hans Küng, um famoso teólogo suíço da Universidade alemã de Tubinga, não é para apresentar a sua vida de professor, investigador e autor de muitos títulos notáveis, mas para destacar as suas tomadas de posição em relação ao Vaticano.
É uma grande injustiça classificá-lo, apenas, como um teólogo rebelde. É sobretudo um pensador crítico. A sua obra, traduzida em várias línguas, deveria merecer a atenção do grande público. É uma obra de diálogo com as outras Igrejas cristãs, com as outras religiões, com a Modernidade e Pós-Modernidade. Interessa-lhe a mobilização dos meios académicos e da opinião pública para a elaboração de uma ética mundial. Não quis encerrar o seu percurso com a publicação de dois volumes de Memórias. Já está traduzida no Brasil uma das suas últimas obras, coroa de uma vida: O Diálogo entre Ciência e Religião (1).
Ele próprio explicita o espírito do seu projecto: não se trata de um modelo de confrontação entre ciência e religião, seja ela de matriz fundamentalista-pré-moderna - que ignora tanto os resultados da ciência como os da exegese histórico-crítica - seja de índole racionalista-moderna, que exclui as perguntas filosófico-teológicas fundamentais e declara, de antemão, irrelevante a religião; também não é um modelo de integração de tendência harmonizadora, seja ele defendido por teólogos que acomodam os resultados científicos aos seus dogmas, ou proposto por cientistas que instrumentalizam a religião em beneficio das suas teses; é, antes, um modelo de complementaridade baseado na interacção crítico-construtiva de ciência e religião. Neste, respeita-se a esfera própria de ambas e evita-se toda a passagem ilegítima de uma à outra, assim como se afasta toda a absolutização de qualquer delas. Por meio do questionamento e enriquecimento mútuos, procura-se fazer justiça ao conjunto da realidade em todas as suas dimensões.
Nesta obra-síntese de um longo percurso, aborda o princípio de todas as coisas e a sua evolução. No epílogo, interroga-se sobre o final de todas as coisas. A sua fé, pondo de lado ornamentos lendários posteriores, centra-se no núcleo da mensagem do Novo Testamento sobre a ressurreição: a morte não conduziu Jesus de Nazaré ao nada, mas a Deus. "Esta é a minha esperança ilustrada, bem fundada: a morte é uma despedida que leva para dentro; é a entrada no Fundamento e Origem do mundo, nosso verdadeiro lar. É o regresso a casa."
2Tenho todo o respeito pela teologia dialógica de Hans Küng. Embora também ele frequente os poetas e os músicos - escreveu uma obra sobre Mozart, Wagner e Bruckner -, não me parece que valorize suficientemente a capacidade de conhecimento que existe na arte. A consistência artística, literária, poética, musical da expressão religiosa não é apreciada, pela maioria dos teólogos, como a grande linguagem da fé, a linguagem da Páscoa. A procura da verdade doutrinal desvia, muitas vezes, a atenção do poder cognitivo dos mitos, dos símbolos, dos ritos, das metáforas da linguagem religiosa.
Não se trata de desvalorizar outras linguagens na busca do conhecimento. M.S. Lourenço escreveu-o de forma magistral: "O artista verdadeiro é aquele que alcançou o conhecimento verdadeiro, o qual consiste na percepção da realidade sensível e na intuição da realidade inexprimível." Não contrapõe a procura da Verdade da Literatura à da Ciência, precisando, no entanto, que "esta procura da Verdade não é apresentada da mesma maneira, uma vez que a formulação estética, a criação da forma, é um objectivo da Literatura e não constitui um objectivo do trabalho científico". Por outro lado, hoje, "estamos em condições de poder relativizar a dicotomia entre a intuição e o raciocínio e de restaurar a confiança no papel da intuição no processo do conhecimento e, deste modo, no valor cognitivo da experiência simbólica da obra de arte literária".
E nesta perspectiva que coloca "a questão das fronteiras entre a Literatura e a Religião, a qual também é um domínio de percepção simbólica". Defende "a ideia de que o culto religioso não existe incondicionalmente e que a expressão da experiência religiosa é condicionada pela formulação literária que a descreve, uma vez que esta é o veículo da asserção religiosa. O passo de São João segundo o qual o princípio é o Logos é assim interpretável como exprimindo a ideia segundo a qual o Logos, a fórmula, é a linguagem universal e, portanto também, a da Religião e do seu culto. Assim o problema da verdade da Religião reconduz-se ao problema da verdade das fórmulas da literatura subjacente. Uma doutrina religiosa é apenas tão verdadeira quanto o for a fórmula literária que a transmite" (2).
Para o grande músico teólogo, Olivier Messiaen (1908-1992), "as investigações científicas, as provas matemáticas, as experiências biológicas acumuladas não nos salvaram da incerteza. (...) De facto, a única realidade é de uma outra ordem: situa-se no domínio da Fé. É pelo encontro com um Outro que nós podemos compreendê-la. Mas é preciso passar pela morte e Ressurreição, o que supõe o salto para fora do Tempo."
Hans Küng, O Princípio de Todas as Coisas: Ciências Naturais e Religião, Petrópolis, Vozes, 2007
M.S. Lourenço, Os degraus do Parnaso, Lisboa Assírio & Alvim, 19982, Cf. pp. 71; 75-76
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abril 12, 2009
Páscoa "passagem", Darwin...sg/ B.Domingues...
A reflexão informada de Frei Bento, em domingo de "Pesah", passagem, libertação, que seja a nossa própria para um mundo melhor. Interessantes algumas das posições de Darwin acerca da selecção natural aplicada ao ser humano e que frei bento destaca, para que não se tenha ideia demasiado ortodoxa do próprio Darwin.
Boa "Pesah" a todos os que por aqui passarem.
"É evidente que a vida humana é biológica. A humanidade desta vida revela-se, porém, na sua necessidade de laços, de reconhecimento, de afecto. Só se pode entender a vida humana como relação. Quando se trata de familiares ou amigos, durante algum tempo, procuramos a sua sobrevivência em nós. Mas nós também morreremos. É bom salvaguardar o futuro da espécie. Será que as pessoas, na originalidade de cada uma, não contam? Mas onde haverá memória para tanta gente? A inimaginável ressurreição parece-me uma ideia justa. No meio do sofrimento, Cristo deixou uma consolação: alegrai-vos porque os vossos nomes estão inscritos no coração de Deus."
domingo, 12 de Abril de 2009
Não há memória para tanta gente
(Público)
É bom salvaguardar o futuro da espécie. Será que as pessoas, na originalidade de cada uma, não contam?
1. No começo da Semana Santa realizou-se, em Istambul, o II Fórum Mundial da Aliança das Civilizações. O primeiro tinha sido realizado, em Madrid, em 2008. Jorge Sampaio foi nomeado alto-representante da ONU para a Aliança das Civilizações, pelo secretário-geral das Nações Unidas, a 26 de Abril de 2007. Apresentou a Aliança como uma verdadeira iniciativa política global para promover um diálogo sustentável entre as civilizações. Ainda é muito cedo para avaliar a eficácia desta iniciativa. De qualquer forma, já tem uma vitória global: a atenção deixou de se fixar no chamado "choque inevitável de civilizações" - caminho da morte - para se centrar no diálogo, princípio de esperança.
2.A revista Humanística e Teologia recolheu duas conferências que o famoso teólogo protestante, J. Moltmann, proferiu na Faculdade de Teologia do Porto. Na primeira, procura responder à questão: o que é a vida humana? Na segunda, aborda a biotecnologia à luz da nova neurobiologia e de uma teologia integral. Assume a recente tese neurobiológica da cooperação da natureza - "simpatia" em lugar de "guerra da natureza".
Não deixa, porém, de destacar os contrastes da posição de Darwin e de a situar na Grã-Bretanha imperial do século XIX. Charles Darwin, apoiado em três escritores seus contemporâneos, depois de descrever "o avanço do homem de uma primitiva condição semi-humana para a actual selvajaria animada", interroga-se acerca do influxo da "selecção natural sobre as nações civilizadas".
Fala contra a vacinação antivariólica, pois através dela também os estratos mais fracos da nossa espécie conseguem sobreviver, podendo reproduzir-se. Destaca a sabedoria dos criadores de gado que não admitem os animais piores para posterior criação. Porém, ao ser contra a guerra entre as pessoas, Darwin parece ilógico.
Com essa atitude refuta o seu próprio princípio fundamental da exigência da evolução mediante a "guerra da natureza". Na guerra, morrem os melhores, enquanto os mais pequenos, os homens mais fracos e de constituição mais delicada podem ficar em casa. Têm mais hipóteses de casar e de reproduzir a sua espécie. Desse modo, o número dos imprudentes, dos miseráveis e dos estratos frequentemente mais degradados da sociedade tende a crescer numa proporção mais rápida do que o número daqueles estratos mais cuidados e virtuosos. Cita Greg: "Os irlandeses que não se cuidam, os sujos, os que não querem chegar mais alto, esses reproduzem-se como coelhos; o escocês frugal que reflecte, que se cuida, o ambicioso... esse casa mais tarde e deixa uma pequena descendência. Na eterna luta pela existência são os inferiores, as raças menos dotadas que dominam, não em virtude das suas boas qualidades, mas devido à força das suas falhas."
Na síntese final e nas últimas notas, destaca um contraste: "O ser humano experimenta com escrupuloso cuidado o carácter e a árvore genealógica dos seus equinos, dos bovinos ou dos caninos, antes mesmo de acasalar. Mas, quando chega ao seu próprio casamento, raramente ou nunca se dá a tanto trabalho... Com efeito, através da escolha (selecção) poderia fazer alguma coisa não simplesmente pela constituição corporal ou pelo aspecto da sua descendência, mas também no que diz respeito às suas características morais e intelectuais... Quando os mais inteligentes evitam o casamento e os negligentes se casam, os estratos mais medíocres da sociedade ambicionarão suplantar os melhores... Deve existir uma concorrência aberta para todas as pessoas e os capazes não devem ser impedidos nem pelas leis nem pelos costumes para terem o maior sucesso ou para criarem uma descendência mais numerosa. Louva, aliás, Esparta, onde estava prescrito que todas as crianças fossem analisadas após o parto: as mais bem constituídas e as mais fortes eram preservadas, as outras eram abandonadas à morte.
3.Não é esse todo o pensamento de Darwin. Entre as citações referidas também se pode ler a seguinte: "A ajuda que nós sentimos e que somos levados a dedicar aos mais necessitados é sobretudo o resultado do instinto de não impedir a simpatia, de não desprezar a porção mais preciosa da nossa natureza."
Seja como for, por enquanto, mais tarde ou mais cedo, tanto os mais fracos como os mais fortes sucumbem todos à morte. Só existem cadáveres adiados. Seria criminoso, no entanto, servir-se dessa verificação para não fazer recuar, até onde seja possível com todos os recursos científicos e técnicos, a doença, o sofrimento e a morte.
É evidente que a vida humana é biológica. A humanidade desta vida revela-se, porém, na sua necessidade de laços, de reconhecimento, de afecto. Só se pode entender a vida humana como relação. Quando se trata de familiares ou amigos, durante algum tempo, procuramos a sua sobrevivência em nós. Mas nós também morreremos. É bom salvaguardar o futuro da espécie. Será que as pessoas, na originalidade de cada uma, não contam? Mas onde haverá memória para tanta gente? A inimaginável ressurreição parece-me uma ideia justa. No meio do sofrimento, Cristo deixou uma consolação: alegrai-vos porque os vossos nomes estão inscritos no coração de Deus.
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março 22, 2009
Recasados II...na reflexão de Bento Domingues
(...) É neste contexto que Bento XVI deveria ser convidado a rever a triste carta Aos bispos da Igreja Católica a respeito da recepção da comunhão eucarística por fiéis divorciados novamente casados, que o cardeal Ratzinger assinou em 1994.
(In Público de 22 de Março, acedido por subscrição.)
Não são da Igreja apenas os que olham para o passado, também os que olham para o presente, para os lados e para o futuro
1.Um dos chefes de redacção do jornal católico francês La Croix, Michel Kubler, no Editorial de 13 de Março (2009), ao comentar a carta de Bento XVI aos bispos, carta de um Papa profundamente magoado, pergunta se a "crise integrista" não será o sintoma de uma crise mais ampla, na Igreja e da Igreja. Ao levantar esta hipótese, não pretende tornar esse quadro ainda mais negro. Procura, apenas, saber onde estão as causas deste drama. Não resultarão elas, em grande parte, do crescente mal-estar de um sistema católico, cuja lógica e discurso são cada vez menos compreensíveis pela cultura ocidental? Não admira que os membros da Igreja, tributários desse sistema e dessa cultura, se encontrem cada vez mais divididos entre ambos. Deparamos, todos os dias, com testemunhos desse disfuncionamento e tudo se complica quando o sistema é usado com dois pesos e duas medidas.
Na eleição deste Papa, muitos católicos pensaram que Bento XVI não poderia ser a continuação do cardeal Ratzinger. Teria de compreender que as suas simpatias pessoais pelas correntes mais conservadoras e as suas alergias pelas teologias modernas não poderiam ser o critério de governo do animador do grande e plural Movimento que é a Igreja Católica. Agora, essa predisposição parece estar em crise, sobretudo no seu país: a Conferência Episcopal Alemã queixa-se de uma grande falta de colegialidade; o semanário Der Spiegel foi ao ponto de escrever que "um papa alemão ridiculariza a Igreja Católica"; não faltaram teólogos a declarar que, "se o Papa quer fazer alguma coisa boa pela Igreja, que se demita". Tal gesto não teria, aliás, nada de humilhante, pois, se os bispos entregam os seus cargos aos 75 anos, se os cardeais perdem os seus direitos aos 80, um Papa, cuja função é muito mais pesada, não deveria esperar por uma idade muito avançada para renunciar ao cargo. Devo observar, no entanto, que esta consideração tão sensata ter-nos-ia privado do velho mais jovem e criativo da Igreja no século XX: o Papa João XXIII.
2.As expressões de abertura, compreensão, generosidade e acolhimento de Bento XVI em relação à sectária "Fraternidade de São Pio X" não impedem de marcar os seus defeitos nem de destacar as qualidades que o comovem, sublinhando que não se pode deixar ao abandono, por razões mesquinhas, 491 sacerdotes, 215 seminaristas, 6 seminários, 88 escolas, 2 institutos universitários, 117 irmãos, 164 irmãs e milhares de fiéis.
Não seria esta uma boa ocasião para iniciar passos de aproximação e abertura em relação a movimentos, comunidades de base, bispos, teólogos, padres e leigos, que as atitudes e medidas de Ratzinger, o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, contribuíram para afastar das instituições da grande Igreja Católica? Não são da Igreja apenas os que olham para o passado, mas também os que olham para o presente, para os lados e para o futuro. O chamado sistema católico parece ter perdido o sentido da catolicidade, da inclusão das vozes mais críticas e criativas que vivem um diálogo activo com o que há de melhor no mundo moderno e na diversidade das culturas.
3.É neste contexto que Bento XVI deveria ser convidado a rever a triste carta Aos bispos da Igreja Católica a respeito da recepção da comunhão eucarística por fiéis divorciados novamente casados, que o cardeal Ratzinger assinou em 1994.
Não se pode esquecer que o ser humano vive uma realidade física, psíquica e relacional numa história familiar muito complexa. Os sacramentos são para os seres humanos, não os seres humanos para os sacramentos. São celebrados, de forma ritual, para que, no quotidiano e nos momentos mais típicos da sua existência, possam viver a fé com esperança e responsabilidade.
A graça do matrimónio não substitui a natureza. Um fracasso matrimonial não é sempre o resultado de um pecado ou de uma infidelidade à graça nem incapacita, automaticamente, as pessoas divorciadas para um novo casamento. São conhecidas muitas experiências que testemunham que a nova relação resultou de um verdadeiro encontro com o amor humano e divino. As Igrejas do Oriente, com as quais a Igreja Católica Romana esteve em comunhão até ao século XI, souberam compreender essa situação humana e eclesial. Foi, aliás, por isso que, no Concílio de Trento, continuando a afirmar a indissolubilidade do matrimónio - e não se pode renunciar a esse horizonte -, não a definiu como um dogma de fé, como alguns desejavam.
Não seria importante que, depois de uma ampla consulta, se reunisse um Concílio Ecuménico das Famílias - representantes das várias tendências - para perspectivar uma pastoral matrimonial que substitua o moralismo por uma ética e uma mística verdadeiramente cristãs? "De uma vez por todas, foi-te dado apenas um breve mandamento: ama e o que quiseres faz. Se te calas, cala-te movido pelo amor; se falas alto, fala por amor; se corriges, corrige por amor; se perdoas, perdoa por amor. Tem no fundo do coração a raiz do amor. Dessa raiz só pode sair o bem." Isto dizia Sto. Agostinho, no Tempo Pascal do ano 407.
Não é, certamente, dessa raiz que nasce o farisaísmo de certas comunidades paroquiais que apontam o dedo à situação matrimonial de outros irmãos.
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março 15, 2009
Do matrimónio indissolúvel, sg/ Bento Domingues.
A hierarquia da Igreja faz bem em não abrir mão do matrimónio indissolúvel
(Vêr Público de hoje)
1.Este tema não é novo no tempo destas crónicas. Que me lembre, comecei logo, em 1993, com um texto sobre Casar, descasar e recasar e não foi a última vez. Por outro lado, em 1995, aparecia, na colecção Nova Consciência, do Círculo de Leitores, Os Divorciados e a Igreja. Na introdução que escrevi, fiz o ponto do debate, que se tornara muito vivo, acerca do acompanhamento pastoral dos divorciados recasados e que tinha envolvido conferências episcopais de vários países. A Congregação para a Doutrina da Fé dirigiu uma carta aos bispos da Igreja Católica a respeito da comunhão eucarística por divorciados novamente casados (1994): os fiéis não estão excluídos da comunhão eclesial e devem ser cuidadosamente acompanhados na sua caminhada cristã. Dada, porém, a situação matrimonial irregular, não podem receber a comunhão eucarística.
O cardeal Trujillo, presidente do Pontifício Conselho para a Família, embora tenha destacado, em 2008, que os casais em crise não devem sentir a Igreja como ausente, intolerante ou madrasta, não abriu um caminho novo: a Igreja continua a tentar formas de convencer e explicar por que motivo os recasados não podem receber a Eucaristia, mas nutre a esperança de que, no final, a Palavra do Senhor, que está acima do Papa e dos bispos, será mais bem compreendida. Por agora, só pode dizer-lhes: são católicos, devem ir à missa, participar de certas acções da Igreja, de iniciativas de caridade e oração. Bento XVI censurou, no mesmo ano, os bispos franceses por consentirem em iniciativas destinadas a abençoar as uniões de católicos divorciados. A vontade de Deus e as leis da vida que Ele nos deu não podem ser relativizadas. O Sínodo dos Bispos discutiu, mas não deixou nenhuma indicação precisa ao Papa. Este lembrou que o único recurso canónico disponível, para os que casaram com rito religioso - mas apenas por convenção cultural - e acabaram separando-se, é a declaração de nulidade do primeiro casamento enquanto "sacramento celebrado sem fé".
Resumindo e concluindo: os católicos recasados pelo civil continuam a ser membros da Igreja, a ser convidados para a Ceia eucarística, mas ficam avisados de que não podem tocar nessa comida: está aqui, mas não é para vós. Podem e devem, no entanto, escutar a Palavra e rezar.
2.Diz-se que é uma solução simplista e de consequências nefastas para a vida pastoral da Igreja Católica. Foi, aliás, o que pude verificar no primeiro dos Colóquios sobre a Fé do passado dia 5, na Igreja Matriz de Ponta Delgada, completamente cheia, com a seguinte interrogação: Os Divorciados/Recasados: Que Lugar na Igreja? Participavam na mesa duas pessoas divorciadas recasadas, testemunhando a sua profunda fé católica, mas sem perceberem por que razão o casamento que fizeram pelo civil não pode ser abençoado e não puderam participar na comunhão eucarística nem mesmo quando os seus filhos fizeram a Primeira Comunhão.
O casamento é, por natureza, uma instituição complexa. Junta duas histórias de vida, genéticas e culturais, com o propósito de formarem uma família que tem de contar com o passado, mas também com a nova rede de relações de cada um, do casal e dos filhos, quando existem. Realizado entre católicos, na forma canónica actual, é celebrado como um sacramento, que acrescenta, às complexas dimensões de qualquer casamento, a inscrição na complexa história da Igreja.
Há anos, Bernard Häring, um famoso teólogo, perguntava: "Haverá saída?" E mostrou que sim. O Centro Dominicano de Bruxelas publicou um documento de trabalho muito importante sobre a mesma questão, vindo a fazer parte de um dossier da revista Lumière & Vie assinado por especialistas, mostrando que não pode ser um assunto encerrado nem sob o ponto de vista teológico nem pastoral (1). O P. Luís Correia Lima, S.J., com o título Divorciados Recasados diante dos Sacramentos, apresentou com clareza as peças essenciais do debate (2).
3.Parece-me que a hierarquia da Igreja faz bem em não abrir mão do matrimónio indissolúvel, como horizonte. Ninguém de boa-fé se casa para se divorciar. O divórcio até pode ser o único caminho para acabar uma união absurda, mas pode também ser fruto de uma irresponsabilidade de ambos ou de um só. O futuro de um casamento depende, em parte, de uma conquista diária.
Quando se invoca a resposta de Jesus, não separe o homem o que Deus uniu, esquece-se a pergunta manhosa de alguns fariseus: "É lícito repudiar a própria mulher por qualquer motivo que seja?" (Mt 19, 1-9). Homem, aqui, significa marido. O que Jesus não pode aceitar, de forma nenhuma, contrariando o próprio Moisés, é o seguinte: a mulher não pode estar sujeita aos caprichos do marido. Isto é tão verdade que os próprios discípulos disseram a Jesus: "Se é assim a condição do homem em relação à mulher, não vale a pena casar-se". O que estava em causa na resposta de Jesus, naquele preciso contexto social e religioso, era a defesa da mulher perante a arbitrariedade dos maridos.
Tenho de voltar a este tema na próxima crónica.
(1) LV, 206 (Março 1992)
(2) Cf. Revista Eclesiástica Brasileira, 239 (2000) 641-649
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março 08, 2009
Deus antigo, Deus novo, sg/ Bento Domingues
(In Público de 8 de Março de 2009)
domingo, 8 de Março de 2009
O Deus antigo e o Deus novo
Ser sacrificado e sacrificar-se é um dado da experiência humana que pode ter sentidos aceitáveis e perversos
1. Nietzsche acusou, da forma mais veemente, o cristianismo de ser a "religião do sofrimento", a inimiga dos prazeres da vida. Não gosto dessas classificações rotundas porque o cristianismo é uma história muito longa, de várias faces e fases, de vários paradigmas, como Hans Küng mostrou numa obra célebre (1). Para evitar equívocos, há mesmo quem fale de cristianismo no plural. Seja como for, Fátima - uma das marcas do nosso catolicismo - é acusada de religião dolorista. O que, para um cristão, pode haver de mais inaceitável, nessas e noutras expressões, é a convicção de que exista um Deus ofendido que nunca está satisfeito com nenhuma reparação. Seria um sádico que se alimentaria da prostração humana. Certos raciocínios teológicos fizeram do próprio sofrimento de Cristo a resposta a um Deus infinitamente ofendido que só podia satisfazer-se com uma reparação infinita.
Pode ter versões mais caseiras: o neto acompanha a avó à missa. A homilia prolonga-se. A avó sente a inquietação do neto e pergunta-lhe: "Está muito chateado?" - Humm, mais ou menos! - Ofereça essa chatice a Nosso Senhor! O neto, um pouco admirado, resmunga: "Porquê, ele gosta?"
2. Ser sacrificado e sacrificar-se é um dado da experiência humana que pode ter sentidos aceitáveis e perversos, fora e dentro das religiões. De modo muito geral, o sacrifício pode ser definido como uma oferenda, animal ou vegetal, apresentada a Deus sobre o altar e subtraída, pela sua destruição parcial ou inteira, a qualquer uso profano.
O Antigo Testamento está marcado por muitas narrativas de sacrifício. O livro do Levítico fez a sua tipologia. Os profetas e os sábios criticaram a redução dos sacrifícios a actos puramente exteriores, contrapondo-lhes as atitudes interiores de entrega a Deus inseparável da prática da justiça e da misericórdia. Depois da destruição do Templo pelos romanos (70 d.C.), a oferta dos sacrifícios, no judaísmo, foi substituída pela liturgia da Palavra.
No Novo Testamento, Jesus - criticado por andar em más companhias e não seguir as rigorosas observâncias do jejum - lembrou, aos seus acusadores, a preferência de Deus: "Eu quero misericórdia; não quero sacrifícios". Jesus não procurou a morte nem esta era a vontade de Deus. Não tinha nenhum amor ao sacrifício, mas, por amor, deu a vida toda. Ao pedir, ao Pai, perdão para aqueles que o condenavam à morte, matou, na sua morte, o ciclo da violência e da vingança. Testemunhou, em lágrimas de sangue, que é possível um mundo outro.
3. A liturgia da Quaresma começou na Quarta-feira de Cinzas. Durante muito tempo, estas assinalavam a nossa evidente e pouco exaltante condição que nenhum mausoléu pode iludir: "Lembra-te que és pó e em pó te hás-de tornar". Agora, em vez desta desolada verificação empírica, conformista, a celebração surge com uma individualizada proposta de vida: "Converte-te e acredita no Evangelho". Acredita que a morte não é a última palavra. Vive de tal maneira que Deus e os outros te queiram para sempre.
Na primeira leitura, o profeta Joel esclarece que os jejuns, as lágrimas e as lamentações não valem por si, mas apenas se exprimirem a conversão radical: "rasgai o vosso coração e não o vosso vestido".
Num trecho do Evangelho, segundo São Mateus, Jesus, perante um público que só pensa em recompensas, dá uma volta completa à religião exibicionista, destinada a mostrar quem era mais santo, mais digno de louvor pelas esmolas, jejuns, rezas e austeridades. A verdadeira religião é um segredo do coração, nosso e de Deus.
4. Neste domingo, a ideologia do sacrifício recebe um golpe mortal. A figura da fé mais incondicional, da obediência mais cega foi sempre a de Abraão, assumida pelo judaísmo, pelo cristianismo e pelo islão.
Pouco interessa, aqui, saber se é uma personagem histórica, mítica, teológica ou uma construção de várias dimensões. Foi sempre muito inspiradora para a literatura, a música, o cinema, a espiritualidade e a teologia. Uns deleitam-se com a prontidão da sua fé e da sua obediência a Deus, a ponto de, por Ele, sacrificar tudo, mesmo o único filho. Confesso que nunca achei muita graça nessa exaltação de um Deus déspota e de uma obediência cega. Este admirável filme de suspense deve entender-se a partir do desenlace: há deuses que exigem uma fé cega e sacrifícios humanos. Abraão acabou por descobrir que andava enganado. O sacrifício de Isaac marca a diferença entre o Deus antigo e o Deus novo: é o Deus antigo que pede a Abraão para sacrificar o seu filho; quando ele o vai fazer, o Deus novo impede-o. O fim do infanticídio ritual é uma das marcas da nossa civilização (R. Girard).
Tudo o que é grande e belo na vida exige sacrifícios. Que o digam os que se dedicam ao desporto, às artes, à investigação. A busca do prazer imediato mata o prazer diferido, aquele que vem da perfeição que se vai realizando. O amor do sacrifício é uma doença. Sacrificar-se por amor é expressão de boa saúde humana e espiritual.
(1) O Cristianismo. Essência e História, Lisboa, Círculo de Leitores, 2002
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fevereiro 08, 2009
Alçada Baptista sg/ Bento Domingues

(Bento Domingues, ln Público de 8 de Fevereiros, texto sob subscrição)
domingo, 8 de Fevereiro de 2009
Alçada Baptista e o catolicismo português
Não se reconhecia no mundo mental, espiritual e militante da Acção Católica e criar um partido tornara-se inviável
1.Quando se fala dos católicos - leigos ou padres - dos anos 40 a 74 do século passado, é quase só, e sempre, para saber o lugar que ocuparam na oposição ao Estado Novo, com o pressuposto de que a "Igreja" era um dos seus pilares. Alçada Baptista figura, necessariamente, nessa paisagem, não só devido às suas tomadas de posição individuais e de grupo, mas sobretudo por causa de um empreendimento de vanguarda e sem paralelo, nos anos 60, "A Aventura da Moraes", que se exprimiu através de uma livraria-editora e duas revistas: O Tempo e o Modo e Concilium (1).
Sobre as peripécias e repercussões desta aventura, já se escreveu muito e continuar-se-á, certamente, a escrever pela sua novidade e significação no campo cultural, religioso e político. O próprio António Alçada explicou, muitas vezes, a nascente desse sonho e as sucessivas dificuldades, incompreensões e desencantos na sua realização, sem nunca renegar a "iluminação" que o fez abandonar a banca prometedora de advogado e tornar-se um editor improvisado: "Naquela altura eu acreditava na Igreja como os crentes acreditam nas igrejas. A insatisfação religiosa que, algum tempo depois, iria desaguar no Concílio Vaticano II era um meio que exprimia as minhas ansiedades e achava que elas eram partilhadas por uma maioria de crentes que estavam inteiramente desmunidos de elementos que os ajudassem a consciencializar e a estruturar aquilo que, na linguagem que então me era cara, 'contribuísse para a progressiva libertação do homem através do esclarecimento e da denúncia da sua alienação política, cultural e religiosa'."
2.Alçada procurava, portanto, responder a uma grande lacuna do catolicismo português e agregar pessoas que a sentissem e a desejassem preencher. Não se reconhecia no mundo mental, espiritual e militante da Acção Católica e a criação de um partido, à imagem da ala mais autêntica da democracia cristã italiana, tornara-se inviável. Do Vaticano II ainda não se falava. Passados anos, quando se poderia pensar que tinha a solução na mão, deu-se conta que andava só a substituir umas coisas exteriores por outras que o impediam de ser ele mesmo. Nem tudo foi um desastre: "Uma das maiores compensações da minha 'irresponsabilidade' de me ter posto a ver se salvava o mundo foi, muito possivelmente, a de ter criado um estatuto que me deixou com um pé no sistema sem que ele se tivesse apropriado completamente de mim." Foi também essa profissão de editor e as andanças em que se viu metido que lhe permitiram um conhecimento do mundo e das pessoas que, como diz em A Pesca à Linha, de outro modo, lhe teriam passado ao lado. Acerca desses encontros, leituras e descobertas, confessa: "Trago sempre comigo um pouco de razão e ironia que me trava os encantamentos sem me retirar completamente do clima onde estou." No primeiro encontro com Lanza del Vasto, depara, em estado puro, com o prazer de viver, de olhar, de ver, de respirar, de ouvir, de estar com os outros, com a alegria. Era a coincidência entre pensamento e vida, mas para Alçada, o incorrigível anti-herói, na primeira reacção, pareceu-lhe que Lanza del Vasto, vestido de profeta, se levava demasiado a sério.
3.Para surpresa de quem o conhecia mal, Alçada aparece, em 1971, com a sua Peregrinação Interior. Vol. I: Reflexões sobre Deus. Serviu a Eduardo Lourenço, num texto magistral, para dilatar e aprofundar essa peregrinação, no interior da nossa literatura, da nossa religiosidade e do nosso catolicismo (2).
Vê, na Peregrinação Interior, o mais significativo e brilhante espelho de uma nova maneira de "ser católico", não isenta de dilemática inquietude, embora muito lusitanamente alheia à cegueira divina de Abraão e aos paradoxos de Job, o que marca, se não os limites clássicos da nossa religiosidade, ao menos os da visão dela de António Alçada Baptista: um catolicismo reformado e reformista, confiado e inquieto.
Dessa Peregrinação surgiu um segundo volume (1982) e, aventuro-me a dizer, um terceiro com outro título, O Tecido do Outono (1999), elaborando, através de novos laços, uma peregrinação expressa numa singular teologia narrativa, onde imanência e transcendência se exigem mutuamente: "Diria que há coisas na natureza e na condição humana que me impõem a existência de um núcleo misterioso a que chamo Deus. [...] Estamos no tempo da morte de Deus, da sua ausência infinita, e aguardamos a sua Ressurreição. É evidente que não posso estar interessado num deus que aterrorizou toda a minha vida passada, que me cortou cruelmente de uma perspectiva de desenvolvimento humano que tem que ser vivido na terra e de que procura separar-me: dos prazeres, dos valores que a terra me proporciona, quer na minha comunicação com os outros, quer no meu desenvolvimento pessoal como o amor humano e a alegria. Recuso uma concepção de Deus cujo caminho seja a tristeza e a angústia."
Alçada, na sua peregrinação, perdeu-se de uma Igreja que sabe tudo e de um Deus autoritário. Encontrou em Cristo a humanidade de Deus, a fonte da possível humanização divina da Igreja.
(1) Teresa Tamen (cord.), A Aventura da Moraes, CNC, 2006
(2) Literatura e Interioridade, in O Canto do Signo, Lisboa, Presença, 1994, pp. 150-157.
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janeiro 18, 2009
Casamentos e autocarros sg/Bento Domingues...
...in Público de hoje.
Casamentos e autocarros
18.01.2009, Frei Bento Domingues O.P.
A prática da hospitalidade gratuita entre as diversas religiões faz bem a todas
1. Os que, no século XIX, anunciaram a "morte de Deus" e o fim da religião foram muito precipitados. A interrogação metafísica não se esgota em nenhuma construção filosófica nem a preocupação religiosa se confunde com as suas expressões organizadas ao longo dos tempos. Se a religião estivesse morta, a cascata de reacções às palavras de Casino (13/1/09), do patriarca da diocese de Lisboa, não teria inundado os meios de comunicação. Voluntária ou involuntariamente, D. José Policarpo realizou uma operação de marketing religioso, sejam quais forem os resultados para a Igreja Católica e para a Comunidade Muçulmana, a curto e a médio prazo. Até os possíveis danos colaterais, no campo do diálogo inter-religioso, convergem para aquele princípio pouco respeitável: "Bem ou mal, o que importa é que falem de nós". No fundo, os muçulmanos conseguiram uma atenção que ultrapassa a sua presença em Portugal. Poderão dizer, à portuguesa, "há males que vêm por bem". Espero, aliás, que este incidente ajude a intensificar e alargar o diálogo da Igreja Católica, em Portugal, com a população muçulmana. O facto de o catolicismo ser maioritário, no nosso país, não pode servir para não ter em conta as outras religiões. O diálogo inter-religioso é essencial para se deixar interrogar pelo outro, independentemente do número dos interlocutores. Não só porque, onde uns, num país, são maioritários podem ser minoritários noutro. Vale a regra de ouro: fazer aos outros o que desejamos que os outros nos façam. Além disso, a prática da hospitalidade gratuita entre as diversas religiões faz bem a todas. Perde-se a ignorância, o orgulho e, com humildade, podem acolher-se e questionar-se mutuamente.
Que o patriarca tenha desassossegado a comunidade muçulmana, a propósito do casamento de jovens católicas com muçulmanos, por causa dos "sarilhos" em que se podem meter, é um aviso de pastor responsável. Não deveria, no entanto, esquecer o que se passa em sua casa. Seria bom que desassossegasse os seus colegas no episcopado, a começar pelo bispo de Roma, acerca dos sarilhos em que envolveram as exigências da celebração do casamento católico - algumas delas dispensáveis - que leva muitos a ficar, apenas, pelo casamento civil. A relação com o divórcio, com um segundo casamento, com o impedimento do acesso à comunhão eucarística dos recasados, acaba por aumentar o número dos católicos não praticantes. Como os sacramentos são para ajudar e não para complicar, até o próprio Deus deve exclamar: ai o que estão a fazer da graça do matrimónio!
2. Essa questão veio interromper uma outra que já andava na imprensa e, sobretudo, na Internet: as reacções à propaganda ateísta nos autocarros. A moda começou em Inglaterra, passou aos EUA, a Espanha e parece que vai chegar a Portugal. O slogan inscrito nos autocarros, inspirado no cientista ateu Richard Dawkins, é o seguinte: "Deus provavelmente não existe. Deixe de se preocupar e goze a vida".
A campanha publicitária, agora em andamento por vários países, começou por ser planeada e parcialmente financiada pela Associação Humanista Britânica (BHA) e visava colocar cartazes em 30 autocarros de Londres.
O novo ateísmo militante tem vários protagonistas de nomeada. Um dos mais célebres é Dawkins, autor de várias obras importantes. Através delas, procurou distribuir as seguintes convicções, sintetizadas por Alister McGrath (1): uma visão darwiniana do mundo toma a crença em Deus desnecessária ou mesmo impossível. A religião estabelece proposições que se alicerçam na fé, o que representa um retrocesso face à busca rigorosa e factual da verdade. Para este autor, a verdade está sempre alicerçada em provas evidentes e todas as formas de misticismo ou obscurantismo, baseadas na fé, devem ser rigorosamente combatidas. A religião oferece uma visão do mundo pobre e pouco clara. "O universo apresentado pela religião organizada é um universo medieval acanhado, extremamente limitado". Inversamente, a ciência oferece uma visão arrojada e luminosa de um universo grande, belo e assombroso. A religião conduz ao mal. É como um vírus maligno que infecta as mentes humanas. Esta não é uma apreciação estritamente científica, uma vez que a ciência não sabe determinar o que é o bem ou o mal: "A ciência não possui nenhum método para decidir o que é ético". Não obstante, esta é uma contestação profundamente moral da religião, bem enraizada na cultura e na história ocidental e que deve ser considerada com a maior seriedade.
No seu livro, Alister McGrath não procurou fazer uma crítica à biologia evolucionista de Dawkins. As opiniões deste devem ser avaliadas pela comunidade científica no seu todo. Ele enfrenta, apenas, as conclusões gerais deste cientista, em particular as referentes à religião e à história intelectual, domínio sobre o qual tem uma competência especial para se pronunciar, isto é, a problemática, extraordinariamente importante, da transição da biologia para a teologia. Ele é biólogo e teólogo. Voltaremos a este tema, pois, como diz Tomás de Aquino, não é evidente que Deus exista ou não exista. (1) O Deus de Dawkins, Lisboa, Alêtheia, 2008, p. 21
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dezembro 14, 2008
Bento Domingues e os...professores.
Habitual leitor das crónicas de Bento Domingues, não posso enquanto professor, deixar de reagir com alguma estupefacção à crónica que nos deixa no Público de hoje. Esta de uma peregrinação a Fátima patrocinada pela Plataforma sindical não lembraria ao diabo...não entendo com Bento Domingues, habitualmente crítico esclarecido, embarca numa notícia do Dn, especialista nos últimos tempos, em confundir a opinião pública com algumas afirmações manipuladoras...aqui fica o protesto e a crónica em entrada estendida. Todos falam falam, mas quem é que percebe mesmo do assunto? Graves vão os tempos.
Salva-se a segunda parte da crónica com as sugestões bibliográficas do cronista, que refere livros bem apaixonantes.
Bom domingo para todos e para Frei Bento.
Peregrinações e janelas
14.12.2008, Frei Bento Domingues, O.P.
No exercício do direito à indignação, num Estado democrático, não vale tudo
(In Público de 14 de Dezembro)
1.Havia rumores de que a Plataforma dos Professores estaria a preparar uma peregrinação a Fátima contra a ministra da Educação. Naquele espaço, há mais do que lugar para todos os professores, familiares e apoiantes. Estranhei que se falasse de uma "peregrinação contra". Em geral, as peregrinações são feitas para agradecer ou pedir alguma graça ou, ainda, como método de transformação espiritual.
As aparições de Fátima não fazem parte do credo católico. A hierarquia da Igreja não pode impor a ninguém a sua aceitação. Acolher ou não esse fenómeno religioso que, desde 1917, vem marcando o catolicismo português depende da atitude de cada um. Há muitos anos que os frequentadores do Santuário se contam aos milhões. Além disso, a rede viária e os equipamentos hoteleiros servem, hoje, para muitos eventos que nada têm a ver com a religião. Ninguém poderia levar a mal que a plataforma sindical dos professores se reunisse em Fátima.
Curiosa é, porém, a notícia do DN (06.12.2008) com um título nitidamente confessional: Professores vão a Fátima pedir a bênção da Igreja. O conteúdo é inquietante: "Na guerra da educação, os sindicatos não descartam qualquer carta do baralho da influência social e espiritual. A Plataforma dos Professores reúne-se com o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Jorge Ortiga, em Fátima, para lhe pedir a bênção para os protestos contra Maria de Lurdes Rodrigues. Os portugueses estão fartos de agitação, mas são muito católicos..."
Em alguns círculos, a chacota das extrapolações não se fez esperar: os professores, ao pedir a bênção da Conferência Episcopal para os protestos contra a ministra da Educação, ofereceriam, em troca, o propósito de colocar uma imagem de Nossa Senhora de Fátima em cada uma das salas de aula de todas as escolas do país... Combateriam, assim, o laicismo no ensino e acabariam por favorecer esse comércio que também está a sofrer com a crise.
No momento em que escrevo, não posso saber ainda se a audiência se realizará nem qual será o seu resultado. Seja como for, o recurso à intervenção da hierarquia católica num processo político reveste aspectos melindrosos. Não acredito que a Conferência Episcopal se vá deixar envolver num protesto de consequências incontroláveis. Os alunos, ao verificarem que os professores não estão dispostos a ser avaliados - a não ser como eles quiserem -, podem começar também a não aceitar exames, a faltar quando lhes apetecer, a impedir os professores de entrar na sala de aulas, a não ser para os humilhar com slogans usados pelos professores nas manifestações.
Haverá professores interessados em tais cenários? Mandaram-me um artigo de Moisés Espírito Santo, sociólogo e professor do ensino superior, que resvala no seu próprio delírio: "Eu só acreditaria que esta escola valha a pena - já que (como vemos) quanto mais palavreado eduquês, quanto mais avaliações, quanto mais Magalhães... menos saberes e menos formação profissional - se os jovens saíssem de lá a portar-se como gente grande para lutar, a saber organizar-se e a protestar sem medos. Com ovos, com tomates e, quando tiver de ser (longe vá o agoiro!), à pedrada" (Jornal de Leiria: 27.11.2008).
Haverá muitos portugueses a desejar que a tarefa das escolas seja a de preparar terroristas? No exercício do direito à indignação, num Estado democrático, não vale tudo. Ficou célebre a expressão "juventude rasca", de Vicente Jorge Silva, primeiro director do PÚBLICO, quando os estudantes viraram as costas à ministra da Educação, Manuela Ferreira Leite, e deitaram as calças abaixo. Parece-me, no entanto, uma extrapolação indevida afirmar que os professores de agora são todos a reprodução, em adulto, dessas atitudes.
2.As peregrinações não vão dar todas a Fátima. O turismo religioso voltou-se, apesar da crise, para itinerários de há dois mil anos, sobretudo para os de Paulo de Tarso, a grande figura cristã deste e do próximo ano. As Edições Paulinas lançaram um conjunto de obras deliciosas para conhecer os enigmas das suas arriscadas viagens e das suas Cartas apaixonadas (1).
Cristo não deixou nada escrito, mas esse vulcão humano e divino provocou, muito cedo - desde há dois mil anos até hoje - ondas e ondas de inspirada literatura. Além daquilo que se pode saber de Jesus, através da investigação histórica - mas sem passar ao lado dela -, o que sobretudo interessa é responder à pergunta: como viver, nas encruzilhadas do nosso tempo, do seu próprio Espírito? O dominicano Albert Nolan responde de uma forma radical, sábia e comovente (2).
Anselmo Borges, um encantado com a metáfora da janela, já tinha aberto uma para o (In)Visível. Surge, nas vésperas deste Natal, com outra aberta sobre a paisagem do (In)Finito (3). É um regalo para a razão e para a imaginação.
(1) Peter Walker, Nas Pegadas de São Paulo. Um guia ilustrado das viagens de São Paulo, Lisboa, Paulinas, 2008; Jerome Murphy-O'Connor, Paulo. Um homem inquieto, um apóstolo insuperável, Lisboa, Paulinas, 2008; Jesus e Paulo. Vidas paralelas, Lisboa, Paulinas, 2008.
(2) Albert Nolan, Jesus hoje. Uma espiritualidade de liberdade radical, Lisboa, Paulinas, 2008
(3) Anselmo Borges, Janela do (In)Finito, Porto, Campo das Letras, 2008
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dezembro 07, 2008
O cristianismo como presépio...
"Para refazer a nossa alma na beleza e na pobreza, basta acolher a graça do Presépio."
Nem só de pão vive o homem
07.12.2008, Frei Bento Domingues O.P. (jornal Público)
Encontrar-se com o nosso património artístico, expressão da fé cristã, é fácil e barato. Basta acolher a graça do Presépio
1. Nem só de pão vive o homem, mas sem pão é difícil. O Diabo sabia disso quando pôs Jesus à prova no deserto. Hoje, diante dos efeitos económicos da especulação financeira, a nível global e local, a oração pelo "pão nosso de cada dia" - que não dispensa o trabalho - continua a fazer todo o sentido.
Quanto à crise, consultei o site da Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE). Estava com pouca luz. O filósofo André Comte-Sponville - um ateu meio cristão - realça o primado evangélico do amor, alma de uma ética superior, mas não perde o sentido do realismo mais chão: "A ética vale mais do que a moral. A moral vale mais do que o direito. Mas a moral é mais necessária do que o amor, o direito é mais realista do que a moral. Se não formos capazes de viver à altura do Novo Testamento, respeitemos, ao menos, o Antigo."
São afirmações lapidares e insuficientes. Encontrei alguns fervorosos católicos lamentando que o Papa - embora com alguns recados à banca - não tenha excomungado os maiores responsáveis por uma crise que continua mais misteriosa do que a Santíssima Trindade.
A receita das excomunhões não me entusiasma e as determinações papais só contam para quem as deseja acolher. Por outro lado, os textos do Novo Testamento colocaram na boca de Jesus de Nazaré e de sua Mãe textos assustadores sobre os ricos. Na escola de S. Paulo, sustentava-se que "a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro" (1 Tm 6, 10). Os cristãos que alinham com sistemas de exploração e com práticas de corrupção sabem muito bem o que fazem e sabem que estão, pelo efeito da sua actuação perversa, a excomungar-se da comunidade humana.
2.Estamos no Advento, mas a necessidade de vigilância não é exclusiva desta quadra litúrgica. Hoje, mesmo fora dos espaços eclesiais, é frequente ouvir: não se pode permitir aos mercados que façam o que lhes apetece sem qualquer controlo. Não basta, no entanto, aproveitar a crise para ter mais cuidado com a gestão da vida económica. Quem ficar por aí vai sonhar com o fim deste pesadelo para voltar a pautar a vida pessoal, profissional e social pela mesma escala de preocupações. Ora, o que está em causa é o sentido que cada um dá à sua vida, a responsabilidade que assume em relação ao bem comum e o espírito de compaixão pelos que vivem sós e abandonados: justiça e gratuidade.
A alteração de critérios deve começar já pela preparação deste Natal. É evidente que ainda há muito sentimento humano para que os sem-abrigo e os velhos e novos pobres não sejam totalmente esquecidos. Os meios de comunicação podem fazer imenso para avivar o sentido da solidariedade e nem são precisas "300 ideias" para os atender. Mas, se ficarmos por aí, é porque pensamos que as pessoas "só vivem de pão". Além da satisfação das necessidades materiais básicas - e estamos muito longe de estas serem atendidas, apesar de todos os programas de combate à pobreza - as pessoas vivem, sobretudo, de afectos e beleza. Quando os presentes de Natal não são investimentos, valem na medida em que forem concretizações de presença pessoal, de reconhecimento, isto é, de que os outros contam para nós.
É normal que o marketing se esforce por encontrar modelos de gastos de Natal para tempos de crise, porque presentes de luxo para gente de luxo são negócios, válidos apenas como negócios, mais ou menos honestos, investimentos talvez mais seguros do que a oscilação dos jogos da Bolsa. A ética desses investimentos e jogos é anti-solidária: a riqueza de uns implica a pobreza de outros.
3.Na perspectiva de revisão de vida, neste tempo de Advento, talvez possamos mudar de registo sem muitos gastos. É um momento privilegiado para descobrir a aliança entre a pobreza voluntária e a beleza. A pobreza, quando imposta, é feia e destruidora. Quando voluntária, pode ser azeda por moralismo, como a de João Baptista, ou bela como a de Jesus e Francisco de Assis. Os Evangelhos encheram de música o curral do nascimento do filho de Maria e o Poverello foi o grande poeta do presépio e da natureza. Fra Angelico só gastou alguma tinta para encher de beleza o Convento de S. Marcos de Florença.
Somos europeus. G. Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, numa conferência na Universidade de Salamanca - no começo do próximo ano estará em Portugal -, insistiu na redescoberta da nossa herança cultural multifacetada. Na apologia da vertente cristã, lembrou algumas afirmações de grandes figuras da cultura europeia: para Goethe, a língua materna da Europa é o cristianismo; segundo I. Kant, a fonte da qual brotou a nossa civilização é o Evangelho; T. S. Eliot foi mais explícito: "Um cidadão europeu pode não pensar que o cristianismo seja verdadeiro e, contudo, o que diz e faz brota da cultura cristã da qual é herdeiro. Sem o cristianismo não teria havido nem sequer um Voltaire ou um Nietzsche. Se o cristianismo desaparece, desaparece também o nosso rosto."
Encontrar-se, hoje, com o nosso património artístico, expressão da fé cristã, é fácil e barato. Para refazer a nossa alma na beleza e na pobreza, basta acolher a graça do Presépio.
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novembro 02, 2008
Da fronteira da morte...
( In Paradisum,Gabriel Fauré)
... percorrida na reflexão de Bento Domingues, O.p. (Jornal Público, crónicas)
Não deixar à morte a última palavra
02.11.2008, Frei Bento Domingues O.P.
A obra mais digna de nota de cada ser humano é ele próprio
1."Tentemos viver de tal modo que, quando morrermos, até o homem da agência funerária lamente a nossa morte." Esta proposta de Mark Twain é um grande programa. A suposição de que ele raramente é cumprido separou a festa de Todos os Santos da celebração dos Fiéis Defuntos. Há pessoas que nem no céu gostaríamos de encontrar como a morte as encontrou. Só uma boa purificação (um purgatório) as poderia tornar companhia apetecível. Quando se pensa em todos aqueles que foram um inferno para os outros, só o inferno parece o seu destino adequado.
Este aparente bom senso - a que se poderiam acrescentar as tristes "reencarnações" - não vai além da transposição para o "outro mundo" do sistema de prémios e castigos que nem para este vale grande coisa. Tem o inconveniente de não respeitar o imenso mistério da vida e da morte e faz de Deus um miserável justiceiro.
Temos testemunhos de que, há muitos milhares de anos, os seres da nossa espécie se despediam dos falecidos com diversos rituais, segundo as diferentes culturas e religiões. Confessavam, sabendo ou não de forma reflexa, que o funeral não era o fim de tudo, a última palavra sobre as pessoas que amavam. Se assim não fosse, todas aquelas flores e ritos poderiam celebrar uma memória, mas seriam dirigidos a ninguém.
Quando morre uma personalidade célebre, faz-se o elogio da sua obra, mas o autor parece que já não conta. Só há futuro para o património. Destaca-se a obra e as pessoas são reduzidas à categoria de cinzas, de estrume.
Nos cemitérios, as lápides e os jazigos podem evocar um itinerário, mas a obra mais digna de nota, de cada ser humano, é ele próprio. Ser verdadeiramente bom vale mais do que todas as realizações científicas, técnicas, filosóficas e artísticas. O santo, o verdadeiro santo, configurado pelo amor de compaixão, vale mais do que todo o mundo material, embora tudo isso possa e deva contribuir para o bem e a beleza da humanidade. Como se costuma dizer, quando morremos, deixamos tudo o que possuímos e só levamos o que somos.
Aqui, são possíveis as atitudes mais diversas, mas não é muito cristão desqualificar as posições de ateus, agnósticos ou dos membros de outras religiões. Perante a morte, não importa procurar saber quem está certo ou errado. Estamos todos sem defesa. O próprio Jesus, no Jardim das Oliveiras e na Cruz, mergulhou no medo e na angústia. O cristão deve, no entanto, estar pronto a dar razão da sua esperança.
2.Conta-se que Jesus enviou setenta e dois discípulos a anunciar o seu Evangelho. Regressaram como adolescentes de um campo de férias. Jesus ouviu tudo e confirmou que tinha sido realmente espantoso. Depois, acrescentou: "Não vos alegreis pelo facto de nada deste ou de outro mundo ter resistido à vossa palavra; alegrai-vos, sobretudo, porque os vossos nomes estão escritos nos Céus."
A expressão "nos céus" é o equivalente a Deus transcendente que está acima de todo o nome, isto é, alegrai-
-vos porque a vossa vida está para sempre inscrita no coração de Deus e ninguém vos poderá arrancar desse amor.
Ao dizer isto, o próprio Cristo ficou espantado: "Nesse mesmo instante, Jesus exultou de alegria sob a acção do Espírito Santo e disse: 'Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos (...).' Voltando-se, depois, para os discípulos, disse-lhes em particular: 'Felizes os olhos que vêem o que estais a ver. Porque - digo-vos - muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não o ouviram!'" (Lc 10, 17-24).
3. A vida humana é uma evolução contínua. Se a morte fosse a última palavra, a pessoa humana estaria a evoluir para o nada. A fé consiste em acreditar que a personalidade de cada um de nós está inscrita no eterno amor de Deus que nenhuma morte poderá vencer.
Para mim, é este o coração da revelação cristã. Não adianta preocupar-se em saber como será a vida depois da vida que conhecemos. Não temos nem a geografia nem o calendário nem a configuração do céu. Todas as evocações ou descrições são, apenas, tentativas de preencher a nossa ignorância, transpondo, para o Além, o que há de melhor (o céu) e o que há de pior (o inferno) neste mundo. É certo que há música e pintura que procuram evocar o estado daqueles que já se encontram na alegria de Deus. No entanto, as evocações de todas as artes, mesmo as mais sublimes, serão sempre a miséria que se pode arranjar para não ficarmos mudos e cegos.
Para quem acredita que "os defuntos" estão, misteriosamente, com Cristo e connosco, neste dia dos Fiéis Defuntos deveria alterar as suas representações: não se reza por eles, reza-se com eles e eles connosco. Deus é Deus dos vivos. Não fez a morte nem à morte deixou a última palavra (Sb 1, 13-15). Não conhecemos, no entanto, nenhuma possibilidade de representar aquilo que Paulo chama "ressurreição" (1Cor 15, 53ss). Podemos, porém, rezar Àquele que tem compaixão de todos: "Porque todos são teus, ó Senhor, que amas a vida!" (Sb 11, 23. 26).
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