janeiro 13, 2008
Fumador, não-fumador: Moralismos e afins...
Uma excelente crónica de A.Pina, no JN magazine. Não sendo eu fumador, entendo que existe um excesso de controle e de zelo, cinicamente exposto em medidas que exalam o "politicamente correcto"...mas será melhor fazer a leitura da crónica em entrada estendida.Em nome do contraditório.

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dezembro 28, 2005
A GAZELA EMBOSCADA ...Salpicos do diário de um ex-alferes, feito em terras da Guiné (1966/68)
...dou hoje lugar ao meu irmão Leo, que arrisca de vez em quando escrever algumas das suas já longínquas mas oportunas memórias do tempo da guerra colonial. A alguns visitantes com mais idade, talvez relembre algo...aos mais novos, para que não se esqueça o que muitos dos seus familiares arrostaram com mágoa, cansaço, medo, revolta, coragem...todas essas humanas qualidades que porventura andarão por aí algo embrulhadas no esquecimento do já passou...
Então a estória reza assim...
A GAZELA EMBOSCADA ...
Num dos convívios com a malta de uma “Companhia de Caçadores”, que andou por terras da Guiné, alguns soldados de então recordaram ao “seu alferes”, como ainda lhe chamam, um estranho episódio em que este não quis acreditar, dando-lhe o desconto devido às coisas estranhas que se contam tantos anos passados ...
Pois, quem conta um conto .... acrescenta-lhe um ponto ...
Mas, porque foram tantos a afiançar o mesmo, o alferes decidiu vasculhar o seu baú de recordações e lá estavam de facto uns rabiscos que, em linhas gerais, confirmavam tal episódio e que assim se conta:
Era mais uma acção, talvez simplesmente rotineira, como todos esperavam, embora isso raramente acontecesse.
O alferes Santos ordenou o seu grupo de combate, naquela noite de Agosto de 1967, chuvosa e quente, dizendo simplesmente que o objectivo era montar uma emboscada entre Flaque Cibe e Jufá.
Surpreendentemente, horas antes, tinha aparecido o Comandante do Batalhão, supostamente com o propósito de elevar o moral da malta de Jabadá, aquartelamento que dava guarida à Companhia de que o alferes fazia parte.
De modo que estava naqueles preparos, de saída para o mato, quando o tal Comandante, com a sua proverbial falta de jeito para essas coisas, se lhe dirige, para de forma ufana lhe dizer: - “então nosso Alferes, a fumar o seu último cigarrinho?”
Ao que Alferes, com a autoridade que muitos meses de Guiné já lhe davam, retorquiu:
“Foda-se, meu Comandante, hei-de fumar este e muitos mais, porque o filho da minha mãe ainda não vai morrer desta”.
Claro que foi uma resposta no gozo, mas, pelo sim pelo não, o Comandante decidiu ficar caladinho ... porque o alferes estava com aquele ar tenebroso de quem não faz a barba há muitos dias, vestido de camuflado e rede mosquiteira e cinturão pejado de balas e granadas.
Bem sabia o Comandante que estes gajos do mato não são flor que se cheire, andam todos tão cacimbados que, nos intervalos da guerra, até às escondidas já os viu jogar...
Então os alferes milicianos ....não são de fiar, ouvem às escondidas a Rádio Liberdade, de Argel e, se puderem, simulam ataques aos objectivos com granadas de fumo!
De maneira que lá seguiu o Alferes com o seu grupo de combate, que, por uma questão de maior mobilidade, sobretudo nas sempre difíceis retiradas, reduziu a cerca de 15 elementos, os mais resistentes e experimentados.
Como de costume, atravessaram a longa bolanha contígua ao quartel, atascaram-se no lodo, às vezes até aos joelhos, praguejaram pelas frequentes quedas e pela porcaria daquela chuva caudalosa, embrenharam-se na mata e pararam na clareira estratégica e adequada à passagem de longas horas.
Aí se coseram à terra, numa longa insónia, garantida por muitos temores, sem óbvia necessidade de despertador para a hora de eventual aparição do inimigo.
Pelas 5 da manhã começou a raiar um novo dia, desenhado na luz tímida do sol nascente que pouco a pouco se incendiou e abruptamente mandou parar a chuva.
E tudo foi tão repentino que aquelas cordas grossas, feitas de água, mais parecia que tinham ficado suspensas nas altas copas das árvores que emolduravam a clareira, num cenário fantasmagórico.
Depressa secaram os camuflados e o lugar da chuva foi tomado por um suor pegajoso que mais parecia cola, causado por aquele calor húmido e fétido, mas também pela ansiedade da espera e do momento de mais um diálogo entre a vida e a morte.
E ouviu-se um restolhar, coseram-se mais os corpos à terra, aperraram-se mais as armas, apalparam-se as granadas, aperfeiçoou-se a mira, aumentaram os batimentos cardíacos, retesaram-se os músculos e revolveram-se as entranhas, com aquelas dores inconfundíveis das horas da aflição.
O alferes começou a dar as suas ordens, a passarem em surdina, de homem a homem, fazendo-se calmo e a morrer por dentro.
Era só mais uma acção mas estava farto daquela merda, farto de um tempo que não tinha sido feito para amar, nem para sonhar!
Para ele, era tempo de sobreviver, de pôr os neurónios a funcionar, de levar de volta à “Metrópole” aquela rapaziada simples e generosa!
Sabia que era muito respeitado, por não exigir aos outros o que ele próprio não fizesse, por ser disciplinado e racional em combate, com aquela coriácea resistência que 5 anos de seminário lhe haviam dado.
A castração psicológica do seminário foi uma coisa terrível, digna da manhã submersa do Virgílio Ferreira, mas se não fora tão férrea disciplina decerto não teria sobrevivido àquela guerra e é a única coisa que, só por isso, agradece aos padres....
Respeitado era, portanto, talvez até admirado, mas nunca tão estimado como era um outro Alferes, o Belmiro, um filósofo, que enchia corações com os trinados da sua viola e que inundava o quartel com uma poderosa voz de barítono!
Cantava Coimbra e os seus amores e nunca esquecia a namorada que deixara no Porto, que envolvia em doces versos e ternas canções.
E também gritava pela liberdade, como os hebreus em cativeiro, num “Va pensiero” tonitroante e sublime!
Deixara as questões da operacionalidade para o Santos! Para o Belmiro aquele também era tempo para amar e para sonhar!
Aquele ténue restolhar foi-se aproximando e invadiu a clareira, denunciando a presença de uma gazela – ou seria cabra de mato – tosando a erva, com o ar receoso de quem espreita o perigo, levantando de quando em vez a cabeça, sem perder a elegância!
Logo o Alferes Santos fez passar a palavra de “tudo quieto, ninguém atira”
Sublime aparição aquela, mensagem de beleza e de vida, em vez da morte, quadro de apelo ao sonho e à ternura, desenhado numa clareira debruada numa mata já tão saciada do horror do ferro e do fogo!
Trocaram-se olhares espantados e afugentaram-se desejos de caça, logo vencidos por aquele indescritível enlevo.
De repente, um tiro e a gazela caiu redonda, levantando a cabeça, num último aceno à vida, feito de espanto pelo súbito fim daquela refeição, numa manhã esplendorosa.
Mas o tiro viera do outro lado da clareira, onde, afinal, se acoitara o Inimigo, que não resistira àquele sempre tão desejado reforço das suas provisões!
Outros se seguiram, agora uns contra outros, até que as armas se silenciaram, sem outras consequências.
Então, o alferes Santos dirigiu-se à gazela e deu ordens de que ninguém lhe tocasse, perante o ar espantado daqueles homens.
Subitamente, junto a ela, persignou-se, levantou os braços e entoou um latinório, alusivo à encomendação das almas, talvez muito próprio das cerimónias da semana santa e que ninguém mais entendeu!
Ouvido aquele latinório, convenceram-se os soldados que o gajo tinha pirado. E mais se convenceram quando ordenou a retirada explicando: - O que disse significa que aquela gazela, tal como o homem, pertence à terra e nela se há-de transformar! A gazela fica aqui, em homenagem ao amor e à paz!
Pois, responderam os soldados, vêm aí os “turras” e vão comê-la!
Que seja! Mas nós não, ninguém lhe toca, mandou o alferes!
Ao quartel chegaram mais tarde notícias de que os “turras”, como eram chamados, depois de afugentados pelo tiroteio, se foram reaproximando do local, abrigados na mata e observaram aquela cena.
E contou-se que tiveram o alferes na mira mas, tal como os soldados, ficaram estarrecidos com aquela cena, aquela celebração da natureza, que não entenderam mas respeitaram!
Também eles esbugalharam os olhos de espanto e também eles deixaram que aquele momento de ternura e de paz os invadisse.
Por isso, ao que se conta, levaram consigo a gazela, depositaram-na debaixo do poilão sagrado, a maior árvore da floresta e aí lhe prestaram idêntica homenagem, não feita de latinórios mas de louvores à natureza.
Seguidamente, o”homem grande” da tabanca ordenou que a devolvessem ao local onde morrera e assim a deixaram, com um farto tufo de erva tenra metido na boca, como alimento da viagem que iria fazer, ao encontro dos seus antepassados.
E foi esta a história real, vivida num dia de Agosto de 1967, em que a guerra, por fugazes momentos, se transformou num quadro de paz.
E, a partir desse dia, o Alferes Santos começou a deixar que a sua carapaça se abrisse um bocadinho, que, de vez em quando, as suas emoções brotassem nas confidências com aqueles homens, porque, afinal, aquele tempo também podia ter uns momentos, fugazes que fossem, para a paz, para a ternura e para o amor.
Aos antigos soldados que lhe recordam a história, o alferes continua a responder que isso só aconteceu na imaginação deles.
Mas, ao que parece, tudo assim se passou, naquele dia de Agosto de 1967, em que a guerra deu lugar à paz, por culpa de um alferes cacimbado e de uma inocente gazela emboscada.
Publicado por morfeu às 01:07 PM | Comentários (7)
outubro 10, 2005
Crónicas de excelência...
...para que a ideia comum e rude que por aí possa existir, seja, que neste país não haja gente" Excelente"...

Publicado por morfeu às 06:05 PM | Comentários (1)
outubro 02, 2005
O meu reino por uma cidade...por favor...
...o homem domina a pluma, terá razões inúmeras, mas, não seria melhor ir para o Portugal profundo, já que abomina o seu território mais imediato? Os lisboetas que se cuidem....As pessoas querem as coisas mais diferentes do sítio em que vivem. A semana passada um motorista de táxi, num acesso de indignação contra toda a gente que já esteve ou pretende vir a estar na Câmara, berrava que nunca ninguém tinha feito nada por ele e que portanto não ia votar. E explicou: em Lisboa, não existiam instalações sanitárias (públicas, claro está), o que lhe tornava a vida num inferno. Um ponto de vista inesperado, mas compreensível. A ausência de mictórios, cuja conveniência aliás reconheço, não me incomoda. O pior, para mim, é o facto de Lisboa ser ao mesmo tempo uma cidade muito pequena e grande demais, muito pobre e ridiculamente cara, muito provinciana e com um arzinho pedante e pindérico de capital cosmopolita. Com a "construção" a ajudar, ficou um sítio feio, incaracterístico, meio hostil, em que não sair de casa se tornou a única política razoável.
Basta descer o eixo central da cidade, da Penitenciária ao Terreiro do Paço, para ver o horror a que chegámos. Lá em cima, num pseudo-jardim de Ribeiro Teles, abriu um restaurante, em forma de caixote, desconfortável e proibitivo. As colunas triunfais, com o pénis de Cutileiro no meio podiam anunciar um bordel kitsch. Infelizmente, parece que anunciam uma glória qualquer da Pátria. O relvado, do mais puro gosto fascista (e uso aqui a palavra com cuidado) não serve para nada, excepto para exibir uma "grandeza" vácua que falta ao resto de Lisboa. Dos prédios da Rotunda, a pior arquitectura do século, ou até da história, não há nada de publicável a dizer. A Avenida e os Restauradores roçam o absurdo. Os prédios do Rossio, apesar do esforço de João Soares, não merecem o Rossio. E a Baixa morreu - sem bares, sem restaurantes, sem comércio, confrange quem se lembra dela em melhores tempos.
Vale a pena falar do trânsito da manhã e da tarde, do estacionamento, da porcaria universal, dos milhões de poças do Inverno (uma estúpida homenagem ao empedrado em calcário), da falta de parques, de jardins, de esplanadas? Não vale: os lisboetas sabem. O mistério é que cinco indivíduos, presuntivamente no seu juízo, ainda se propõem governar este caos sem remédio. Verdade que só abrem a boca para se injuriar ou se aliviar de irrelevâncias. Mas, seja como for, andam todos por aí; e com certeza perceberam a final futilidade de menor esforço para mudar Lisboa. E, no entanto, persistem. Para quê?
Publicado por morfeu às 10:56 AM | Comentários (0)
setembro 02, 2005
Crónicas de excelência
...aprender com os outros: suas experiências, reflexões. As crónicas de Daniel Sampaio, na revista "Xis", tocam-me profundamente. Nesta, que o ilustre visitante poderá ler em entrada estendida, fala-se de trabalho, família, ensino, solidão, alegria breve, resignação em dignidade. Se tiver disponibilidade de tempo...

(Lido em revista "Xis", de 27/08/005, nº323)
Publicado por morfeu às 01:53 PM | Comentários (8)
agosto 21, 2005
Crónicas de excelência II...sugiro
...sugiro a leitura paciente e lúdica desta divertida crónica de
João Benard da Costa...
(Público de 21 de Agosto)
O Deus dos acasos
João Benard da Costa
O que Maupassant desfaz, na prosa transparente que foi segredo dele, é que inimigos ou perdições possam coexistir com noites como aquela. E que no Belo se possa infiltrar algo de feio
1.Manoel de Oliveira contou-me um dia que, nos anos 40, a seguir ao Aniki-Bobó, propôs a Francisco Quintela, o homem da Lisboa Filme, que de 1946 a 1951 deu vida nos 50.000 metros quadrados da Quinta dos Ulmeiros ao que chegaram a chamar a "Cinelândia de Portugal", uma adaptação do conto de Maupassant Clair de Lune.
É a história de um padre com algumas semelhanças com o velho abade de O Melro de Guerra Junqueiro. Não que fosse malicioso, alegre ou prazenteiro, nem que andasse às lebres pelo monte a pé. A acreditar em Maupassant, era magro e fanático. E era um racionalista impenitente. Para ele não havia porquês, nem mais porquês. Cada coisa tinha uma função e obedecia "a uma lógica absoluta e admirável". Por exemplo (exemplo de Maupassant): "As auroras eram feitas para a alegria do despertar, os dias para dourar as searas, as chuvas para as regar, as tardes para preparar o sono, as noites sombrias para dormir."
Nada a ver com o padre de Junqueiro? Não, efectivamente não. Nem sequer nos ódios inconscientes ou nos desprezos intuitivos se pareciam. O cura de Junqueiro embirrava com melros. O de Maupassant com mulheres. Treslia até uma passagem do Evangelho quando dizia citar Cristo ao perguntar: "Mulher, que há de comum entre ti e mim?"
Mas ambas as histórias (a do poema e a do conto) acabam com uma revolução cultural que põe em causa os universos diversamente rígidos do padre que se pelava pelos cozinhados da Fortunata e do padre que não tolerava que a sobrinha - destinada ao convento - lhe viesse mostrar uma joaninha ou uma libélula, dizendo-lhe: "Olhe que bonita, meu tio. Apetece-me comê-la."
No caso de Junqueiro, é a morte heróica do melro, matando os quatro filhos que o padre lhe caçara, num gesto que o poeta não hesita em comparar à morte de Catão e até à de Cristo na Cruz.
No caso de Maupassant, a revelação chegou na noite do dia em que uma alcoviteira lhe foi contar que a dita sobrinha andava a namorar lá para as bandas do rio entre as dez e a meia-noite.
Armado com um imenso varapau, o padre saiu de casa decidido a ajustar boas contas com os namoradeiros.
Era uma noite de luar, dessas como se vê uma de dez em dez anos. Os rouxinóis cantavam. E, de repente, uma fenda se abriu nas suas inabaláveis certezas. "Porque é que Deus tinha criado aquilo? Se a noite foi feita para dormir, para descansar, para esquecer tudo, para não dar pelo tempo, porquê torná-la ainda mais bela do que o dia, mais doce do que as auroras e os crepúsculos? Porque é que aquele astro lento e sedutor, mais poético do que o sol e que só parecia destinado a iluminar coisas delicadas ou misteriosas demais para a grande luz, vinha dar uma tal transparência às trevas?"
Experimentava ele estas dúvidas - dúvidas iniciais na sua vida -, quando apareceram abraçados o rapaz e a rapariga.
Se Junqueiro acaba o seu poema com a apóstrofe à Bíblia, Maupassant, muito mais contido, termina assim o seu conto:
"Ficou de pé, o coração a bater muito, transtornado. Julgou ver algo de bíblico como os amores entre Ruth e Booz, o cumprimento da vontade do Senhor numa dessas vastas paisagens de que falam os livros santos. Vieram-lhe à cabeça, atordoando-o, versículos do Cântico dos Cânticos, clamores ardentes, chamamentos dos corpos, a cálida poesia desse poema incendiado de ternura.
E de si para si, disse: "Deus talvez tenha feito estas noites para nimbar de ideal os amores dos homens."
Começou a recuar perante o par abraçado que continuava a andar. Era a sobrinha dele. Mas não iria desobedecer a Deus, se a castigasse? Se Deus não quisesse o amor, não o rodeava visivelmente de um tamanho esplendor.
E fugiu, perdido, quase envergonhado, como se tivesse penetrado num templo onde não tinha o direito de entrar."
2. O filme nunca se fez, parece que por motivos censórios. Teria enorme curiosidade em ver como seria a lua de Oliveira para a noite da conversão do padre.
Falando apenas de Maupassant - pois só o conto existe -, vou directo ao cerne. Que se pode resumir na velhíssima fórmula que identifica o belo ao bem e que desde os pré-socráticos até hoje tanta tinta tem feito correr. Maupassant nada nos diz sobre os sentimentos mútuos ou pessoais do rapaz e da rapariga de quem nem sequer sabemos o nome. Sobre ele não diz uma palavra. A ela, descreve-a como "bonita, desmiolada e trocista". Se o rapaz fosse como ela, aquela noite teria muito para enraivecer ainda mais o velho padre. Mesmo que fosse "sério, firme e bom medidor de consequências", nunca se pode (ou deve) jurar nada, que o inimigo anda à solta.
Mas o que Maupassant desfaz, na prosa transparente que foi segredo dele, é que inimigos ou perdições possam coexistir com noites como aquela. E que no Belo se possa infiltrar algo de feio. Por isso "pareciam os dois um só ser, o ser para o qual fora destinada aquela noite calma e silenciosa. Eram a resposta viva à pergunta do Padre, eram a resposta do Senhor à interrogação dele. Ama et quod vis fac ("Ama e faz o que quiseres"), como disse Santo Agostinho, que o aprendeu com Orígenes e com Santo Ambrósio. A "luz incorpórea especial", o platonismo cristianizado.
3. Sucede que no mesmo livro (antologia da Guilde du Livre de Lausanne de que já vos prometi falar) em que figura este conto (publicado em 1882, tinha Maupassant 32 anos) segue-se-lhe um outro de que me recordava menos e se chama Ma Femme (também de 1882, mas dois meses posterior ao Clair de Lune).
"Jantar de homens, de homens casados, amigos de longa data, que, de vez em quando, se reuniam sem as mulheres, como rapazes, como antigamente" (hoje esse género de jantares parece que é mais costume feminino do que masculino, mas isso é outra conversa).
Nessa noite, a conversa foi parar ao casamento, e quase todos murmuraram lugubremente: "Se eu soubesse o que sei hoje", "Se voltasse atrás", etc. Até que houve um (Georges Duportin, chamava-se ele) que acrescentou: "O mais extraordinário é a facilidade com que nos deixamos apanhar. Não nos passava pela cabeça casar, pelo menos tão depressa. E depois, é Primavera, vai-se até ao campo, faz calor, o Verão adivinha-se bom, há flores por toda a parte, conhece-se uma rapariga em casa duns amigos e, porque torna e porque deixa, aconteceu. Voltamos casados."
Quem acordou nessa altura foi Pierre, Pierre Létoile: "Sem o saberes, contaste a minha história, só que a minha tem mais alguns pormenores..."
O outro interrompeu-lhe as lamúrias. Ele, Pierre Létoile, é que não tinha qualquer razão para se queixar: "Tens a mulher mais encantadora do mundo, bonita, simpática, perfeita. És o mais feliz de todos nós."
O outro concordou, mas não se gabou. Se tinha uma mulher perfeita, nenhum mérito lhe cabia a ele, que só à força casou com ela.
O resto do conto é a história que resumo. Pierre tinha 35 anos quando foi convidado para o casamento dum primo na Normandia, desses que duravam dia e noite. Ficou sentado ao lado duma menina de apelido Dumolin, que não o largou. Era filha de um coronel na reserva e era "loura e militar", "atrevida e faladora".
Lá para as tantas, livrou-se da filha do coronel e foi festejar com os campónios menos formais e mais divertidos. Dançou, namorou e apanhou um pifo de caixão à cova. Quando voltou para casa, só se lembrava que o quarto tinha algo que ver com 2 ou com 14. Mas, felizmente, a chave entrou facilmente na fechadura. Atirou-se para uma chaise longue e, sem se despir, adormeceu.
Foi acordado por vozes femininas. A mais velha censurava a mais nova por ainda estar a dormir às 10 da manhã. Quando ia abrir os reposteiros, tropeçou nele e desatou a gritar por socorro. "Pierre Létoile tinha dormido junto à cama da filha do coronel."
Durante dois dias o rapaz bem se tentou defender. Mas o tio respondeu-lhe com lógica implacável. "Das duas uma: ou seduziste a catraia e sabes bem que essas coisas não se fazem. Ou te enganaste por causa dos copos, como tu juras. Se assim foi, tenho muita pena, mas ainda pior para ti. Ninguém se deixa apanhar em situações tão estúpidas como essa. Seja como for, a reputação da pobre rapariga está perdida, porque ninguém acredita em histórias de bêbedos."
Pierre resistiu dois dias. Mas, como a alternativa ao casamento era um tiro nos miolos, vindo do ofendidíssimo coronel, cedeu. O espírito é sempre fraco.
Em três semanas, publicaram-se os banhos, mandaram-se os convites e Pierre jurou perante um padre que seria fiel até que Deus os separasse. Mas durante a cerimónia reparou que a rapariga não era nada feia.
Chegada a noite, entrou na câmara nupcial para lhe ditar condições, pois que era agora o senhor. Achou-a vestida como de dia, olhos encarnados e palidíssima. "Senhor" - disse ela - "estou pronta para tudo o que me mandar fazer. Mato-me, se assim o quiser."
"Era linda como tudo, a filha do coronel, nesse papel heróico." Obviamente não se matou e foram muito felizes.
Comentário, entre as gargalhadas finais, de um dos amigos. "O casamento é uma lotaria. Nunca escolher os números. Os do acaso são sempre os melhores."
Juntem uma história à outra e, à "luz incorpórea" do luar platónico, onde se fala em acaso, vejam o dedo da reminiscência. Como ainda diz Maupassant, "o Deus dos banquetes apostara em Pierre". O mesmo deus que presidiu ao banquete de Sócrates e Alcibíades. "O que julgamos encontrar só reencontramos." Mudam as formas, mas a substância não. O deus dos acasos é o deus do destino. Eros e Psique, ou o amor e a magia como entes coincidentes.
Publicado por morfeu às 07:58 PM | Comentários (1)
Crónicas de excelência
...no meio da mediocridade que por aí abunda, consola-me haver gente que cultiva a excelência e porfia na sua partilha...

Publicado por morfeu às 01:27 PM | Comentários (3)
agosto 14, 2005
"Olha as famílias"...sugiro
...com a sua habitual bonomia, Luis Fernando Veríssimo, fala-nos de assuntos leves com profundidade e da profundidade destes com amável leveza...sugiro
Com a devida vénia ao jornal expresso de 13/8/05, onde o autor escreve no caderno Actual.
Quando ouviu da Flávia que precisavam conversar para botar tudo em pratos limpos, o Luís Carlos pensou:
- Iiiiih...
Pratos limpos. O que significava aquilo? Um recomeço, certo. Pratos novos. Pratos sem vestígios do que já tinha sido comido. Mas como era possível esquecer o que tinham comido? Esquecer o que acontecera entre eles? O que sujara seus pratos?
Luís Carlos não gostava da frase «pratos limpos». Perguntou:
- Você quer dizer recomeçar do zero?
Flávia hesitou.
- Não exactamente...
- Claro que não. Ninguém recomeça do zero. Pode-se tentar voltar atrás, mas nunca ao começo. Seria como recuperar a virgindade.
- O que eu quero dizer é... passar um apagador em tudo...
- Passar um apagador? Então uma vida, duas vidas, uma vida a dois como a nossa, pode ser apagada como um erro no quadro negro?
- Eu só acho que a gente deveria tentar falar claramente...
- Mas sem esquecer nada. Ao contrário: lembrar tudo. Botar os podres na mesa.
- Você está dizendo que a gente deve...
- Isso. Quebrar os pratos!
Arleci dizia coisas como «pouco se me dá». Um dia o Osni comentou:
- Arleci, você deve ser a única pessoa no Brasil que ainda diz «pouco se me dá».
- E daí?
- Daí que nada. Eu só acho engraçado.
- Porquê?
- Porque é uma coisa antiga.
E a Arleci encolheu e desencolheu os ombros várias vezes, justamente o gesto antigo correspondente à frase «pouco se me dá».
O Osni ficou pesando se não seria melhor acabar o namoro ali. E ainda por cima, havia aquela obsessão dela por espremer seus cravos.
A americana não entendia. «Pois sim» queria dizer não e «Pois não» queria dizer sim? Tentaram lhe explicar. «Pois sim» tinha o sentido de «imagine se alguém diria sim para isso», e «pois não» o sentido contrário. Então o que queria dizer a palavra «pois»? Era complicado. E a americana ficou ainda mais impaciente quando, em vez de lhe darem uma resposta, disseram «Pois é...» Até que também perderam a paciência com a americana e alguém sugeriu: «Perguntem a ela sobre a guerra no Iraque».
Antigamente, no futebol, certas frases se repetiam. Eram quase obrigatórias. Cada vez que um jogador dava um chutão para o alto, alguém na torcida gritava: «Viva São João!» Todos riam. Quando um time estava dominando a partida e o outro não conseguia sair da defesa, ouvia-se, inevitavelmente: «Aluga-se meio campo!» Todos riam. Quando um jogador entrava com violência num adversário, vinha o comentário: «Olha o recurso!» Desta ninguém ria. Era uma grave constatação de que faltava recursos ao jogador faltoso, uma condenação da feiura do futebol truculento e uma sugestão de que o jogador procurasse outra profissão. E embora já se xingasse a mãe do juiz, o palavrão em coro não era comum. Sempre havia os que, quando os palavrões - os «nomes feios» - começavam a voar, olhavam em volta e diziam «Olha as famílias...» Hoje, claro, as famílias lideram o coro.
Publicado por morfeu às 12:26 PM | Comentários (0)