outubro 29, 2009
Uma década de fotografia.
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outubro 03, 2009
Mais vale uma hora de ciência do que...
...cem anos de ignorância. Um artigo de Alves da Costa, meteorologista.
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setembro 11, 2009
O Tempo, como vivê-lo?
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Hubble: o fascinio do Universo
...quanto mais me fascino, mais o fascínio aumenta...
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setembro 10, 2009
« Le croyance ne supporte pas la critique alors que la foi ne peut que la désirer »
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setembro 06, 2009
Narcisismo in "Courier Internacional".
Um interessante dossiê acerca do "Narcisismo", desenvolvido no número de Setembro do Courrier Internacional, para além de outros artigos e "viagens" mediáticas. Viajar a preço de saldo e sem sair de casa...
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setembro 05, 2009
Ética e Religião, na reflexão de A. Borges
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agosto 29, 2009
A tentação do Cristianismo
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agosto 14, 2009
Mercado de coisa nenhuma...
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junho 16, 2009
"O que ocultam os filhos, o que escondem os pais"

Pais e filhos respeitem-se!
16.06.2009, Autor do texto(In PÚblico de 16 de Junho de 2009)
Ter segredos é normal. Muitos são os pais que gostariam de saber tudo o que se passa na vida dos filhos adolescentes. É preciso confiança e disponibilidade, diz Javier Urra, autor de um livro que revela o que pais e filhos escondem uns aos outros. Por Bárbara Wong
O que escondem os filhos? Os sentimentos mais íntimos, se namoram, se já iniciaram a sua vida sexual. Mas também as suas acções, as más notas, as asneiras que fazem ou de que são vítimas. Os filhos não são os únicos a ter segredos, os pais também evitam falar alguns problemas. Por um lado, não querem preocupar os mais pequenos. Por outro, não querem fazer má figura. O que ocultam os filhos, o que escondem os pais é o título do novo livro do psicólogo clínico e forense espanhol Javier Urra, autor de outro best-seller, O Pequeno Ditador, que alerta os pais sobre os filhos a quem tudo é permitido.
O texto agora publicado foi feito a partir de uma leitura da realidade portuguesa. O autor pegou em mais de três mil inquéritos para perceber o que pais e filhos escondem. Depois, traçou algumas pistas para os protagonistas poderem ultrapassar esses segredos, num livro que deve ser lido em família, recomenda.
Ter segredos é normal e são essenciais na evolução para a maturidade, escreve o autor; por isso, os pais devem respeitá-los. No entanto, devem criar um ambiente que permita aos adolescentes e jovens confiar-lhes alguns deles. É que nem todos os segredos são bons de ser guardados, como, por exemplo, quando os filhos são vítimas de bullying ou de agressões na escola.
E como conseguir esse ambiente? Para Urra parece haver dois tipos de casas em Portugal: o hotel e o lar. Tal como num hotel, há casas onde cada um dos elementos da família entra e sai, sem dar satisfações ou querer saber do outro. "Preocupam-me os pais a quem pergunto: diga-me três coisas positivas do seu filho e respondem que não sabem", confessa ao P2. O autor recorda o depoimento de um adolescente de 11 anos que dizia que aos pais não interessava se estudara ou se comera na escola; lembra oito rapazes que não confessaram a sua homossexualidade aos progenitores e três raparigas que iam à escola, mas não comiam.
Quanto ao lar, é aquela casa onde todos se conhecem, passam tempo com qualidade, mesmo que seja pouco, conversam sobre tudo. Se o pai falar de um colega de trabalho, talvez o filho partilhe uma história que se tenha passado na escola, sugere. Urra ficou impressionado com o número de filhos que dizem que contam tudo aos pais. "Num lar pode haver conflitos, mas pais e filhos não se tratam como desconhecidos", defende.
Apesar de haver poucos jovens a confessar que escondem problemas de consumo de álcool ou de estupefacientes, Javier Urra está preocupado porque é uma ameaça que os jovens tratam com alguma leviandade, pois consideram que têm tudo sob controlo. "Não se pode dizer a um filho que não beba, e estar com um copo na mão", alerta, o psicólogo. O exemplo dos pais é pois fundamental. Mas há mais: "É preciso levá-los aos bairros pobres de Lisboa, a um hospital com crianças enfermas, passar-lhes a mensagem de que ter saúde e vida é o mais importante."
Não há que ter medo de os chocar. "Os pais podem mimar os filhos, mas não deixá-los fazer o que querem, senão os miúdos ficam neuróticos. Aos filhos faz falta normalidade." Essa passa por ter boas relações e respeitar outros membros da família, como os avós, ou os professores; passa por actividades alternativas à escola, como o desporto ou a música, enumera.
Ao contrário do que acontece em Espanha, onde o autor fez o mesmo inquérito e escreveu um livro semelhante; em Portugal, há adolescentes e jovens mais melancólicos, que reflectem e calam muito. "Os pais devem estar atentos, escutar, captar os silêncios, respeitando."
Os pais devem mostrar disponibilidade: "Se um dia quiseres, eu estou disponível para conversarmos." Há diferenças entre ser pai e ser amigo, sublinha. "Um pai é sempre pai. É um amigo, mas de segunda linha e não o melhor amigo que sai com o filho. É aquele amigo com quem se pode ir ver um nascer do sol e jamais se esquecerá", conclui.
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junho 06, 2009
O Mito do "Cuidado"...
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março 15, 2009
Do matrimónio indissolúvel, sg/ Bento Domingues.
A hierarquia da Igreja faz bem em não abrir mão do matrimónio indissolúvel
(Vêr Público de hoje)
1.Este tema não é novo no tempo destas crónicas. Que me lembre, comecei logo, em 1993, com um texto sobre Casar, descasar e recasar e não foi a última vez. Por outro lado, em 1995, aparecia, na colecção Nova Consciência, do Círculo de Leitores, Os Divorciados e a Igreja. Na introdução que escrevi, fiz o ponto do debate, que se tornara muito vivo, acerca do acompanhamento pastoral dos divorciados recasados e que tinha envolvido conferências episcopais de vários países. A Congregação para a Doutrina da Fé dirigiu uma carta aos bispos da Igreja Católica a respeito da comunhão eucarística por divorciados novamente casados (1994): os fiéis não estão excluídos da comunhão eclesial e devem ser cuidadosamente acompanhados na sua caminhada cristã. Dada, porém, a situação matrimonial irregular, não podem receber a comunhão eucarística.
O cardeal Trujillo, presidente do Pontifício Conselho para a Família, embora tenha destacado, em 2008, que os casais em crise não devem sentir a Igreja como ausente, intolerante ou madrasta, não abriu um caminho novo: a Igreja continua a tentar formas de convencer e explicar por que motivo os recasados não podem receber a Eucaristia, mas nutre a esperança de que, no final, a Palavra do Senhor, que está acima do Papa e dos bispos, será mais bem compreendida. Por agora, só pode dizer-lhes: são católicos, devem ir à missa, participar de certas acções da Igreja, de iniciativas de caridade e oração. Bento XVI censurou, no mesmo ano, os bispos franceses por consentirem em iniciativas destinadas a abençoar as uniões de católicos divorciados. A vontade de Deus e as leis da vida que Ele nos deu não podem ser relativizadas. O Sínodo dos Bispos discutiu, mas não deixou nenhuma indicação precisa ao Papa. Este lembrou que o único recurso canónico disponível, para os que casaram com rito religioso - mas apenas por convenção cultural - e acabaram separando-se, é a declaração de nulidade do primeiro casamento enquanto "sacramento celebrado sem fé".
Resumindo e concluindo: os católicos recasados pelo civil continuam a ser membros da Igreja, a ser convidados para a Ceia eucarística, mas ficam avisados de que não podem tocar nessa comida: está aqui, mas não é para vós. Podem e devem, no entanto, escutar a Palavra e rezar.
2.Diz-se que é uma solução simplista e de consequências nefastas para a vida pastoral da Igreja Católica. Foi, aliás, o que pude verificar no primeiro dos Colóquios sobre a Fé do passado dia 5, na Igreja Matriz de Ponta Delgada, completamente cheia, com a seguinte interrogação: Os Divorciados/Recasados: Que Lugar na Igreja? Participavam na mesa duas pessoas divorciadas recasadas, testemunhando a sua profunda fé católica, mas sem perceberem por que razão o casamento que fizeram pelo civil não pode ser abençoado e não puderam participar na comunhão eucarística nem mesmo quando os seus filhos fizeram a Primeira Comunhão.
O casamento é, por natureza, uma instituição complexa. Junta duas histórias de vida, genéticas e culturais, com o propósito de formarem uma família que tem de contar com o passado, mas também com a nova rede de relações de cada um, do casal e dos filhos, quando existem. Realizado entre católicos, na forma canónica actual, é celebrado como um sacramento, que acrescenta, às complexas dimensões de qualquer casamento, a inscrição na complexa história da Igreja.
Há anos, Bernard Häring, um famoso teólogo, perguntava: "Haverá saída?" E mostrou que sim. O Centro Dominicano de Bruxelas publicou um documento de trabalho muito importante sobre a mesma questão, vindo a fazer parte de um dossier da revista Lumière & Vie assinado por especialistas, mostrando que não pode ser um assunto encerrado nem sob o ponto de vista teológico nem pastoral (1). O P. Luís Correia Lima, S.J., com o título Divorciados Recasados diante dos Sacramentos, apresentou com clareza as peças essenciais do debate (2).
3.Parece-me que a hierarquia da Igreja faz bem em não abrir mão do matrimónio indissolúvel, como horizonte. Ninguém de boa-fé se casa para se divorciar. O divórcio até pode ser o único caminho para acabar uma união absurda, mas pode também ser fruto de uma irresponsabilidade de ambos ou de um só. O futuro de um casamento depende, em parte, de uma conquista diária.
Quando se invoca a resposta de Jesus, não separe o homem o que Deus uniu, esquece-se a pergunta manhosa de alguns fariseus: "É lícito repudiar a própria mulher por qualquer motivo que seja?" (Mt 19, 1-9). Homem, aqui, significa marido. O que Jesus não pode aceitar, de forma nenhuma, contrariando o próprio Moisés, é o seguinte: a mulher não pode estar sujeita aos caprichos do marido. Isto é tão verdade que os próprios discípulos disseram a Jesus: "Se é assim a condição do homem em relação à mulher, não vale a pena casar-se". O que estava em causa na resposta de Jesus, naquele preciso contexto social e religioso, era a defesa da mulher perante a arbitrariedade dos maridos.
Tenho de voltar a este tema na próxima crónica.
(1) LV, 206 (Março 1992)
(2) Cf. Revista Eclesiástica Brasileira, 239 (2000) 641-649
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Fotos do Mundo em 2008
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março 08, 2009
Fotografia:"Batalha de Sombras" in Público.
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março 07, 2009
Não concebo um Deus que não seja bailarino...
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fevereiro 25, 2009
Beleza e ancestralidade: Tribo de Omo.
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fevereiro 07, 2009
...um dólar por dia...
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janeiro 22, 2009
Philosophie magazine, Février, dossier+index.


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janeiro 21, 2009
Quadros interactivos, o futuro já!
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janeiro 15, 2009
Simplesmente...Futuro!
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dezembro 11, 2008
Direitos Humanos, 60 anos:Dossiê in Público
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dezembro 06, 2008
Professores em tempo de guerra...com humor...
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dezembro 03, 2008
Greve 3 de Dezembro
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dezembro 02, 2008
Igreja,sexualidade e bioética...
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novembro 24, 2008
Dia da Ciência:Poema para Galileu
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novembro 22, 2008
Do Pecado Original, sg/ A. Borges
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novembro 15, 2008
Deus e Darwin, sg/ A.Borges
Uma pedagógica reflexão de A.Borges, cuja leitura...
sugiro...
sugiro...
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novembro 11, 2008
Professorzecos numa manifezeca...
contra a arrogância da ministra da ??...sendo o orgulho um pecado dos grandes...
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novembro 09, 2008
Mais de 100.00 descendendo de Abril...
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novembro 01, 2008
Professores: a força da união!
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outubro 28, 2008
Educação por esse mundo fora...
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outubro 03, 2008
Brilhante amargura de uma crónica...
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setembro 10, 2008
Os Professores estão com "O País"...
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agosto 16, 2008
Meditação das férias...
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julho 31, 2008
...o que de belo por acaso se encontra...tocante.
...por aqui ao acaso do tempo
dos tempos que dividem o deambular em dia cinzento
sonho o Outro o Além em testemunho de voz
de céu ares cores e coisas várias
por acaso encontro neste viajar fortuito
ah a cidade o tempo os seres e as coisas
a brisa da História fazendo-se música em túnel
de cordas de onde o som brota
a voz
a mulher
o sentir
...por aqui por acaso deixo
como pegada em areia molhada
deixo...
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julho 04, 2008
Apede:"Para uma genealogia do estatuto da Carreira Docente...
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maio 15, 2008
Vou finalmente ser professor...
...após trinta e três anos de experiência bem diversificada, finalmente tenho a oportunidade de aprender como devo ser enquanto prof...é preciso ter topete...
http://www.ina.pt/asp/programa/descricao_pp.asp?c=2682&e=3
http://terrear.blogspot.com/2008/05/as-96-condutas-finalmente.html
O Instituto Nacional de Administração (INA) lançou um vasto programa de acções de formação sobre avaliação do desempenho do pessoal docente com base num sistema de avaliação baseado em 96 condutas do professor, que são :
1. É pontual.
2. Disponibiliza-se para actividades que ultrapassam obrigações
horárias/profissionais.
3. Cumpre prazos .
4. Quando trabalha em equipa é um elemento participativo
e não conflituoso.
5. Zela e preserva material/equipamento escolar.
6. Proporciona ambiente calmo, propício à aprendizagem.
7. Numa reunião tem uma atitude de colaboração e
de entreajuda.
8. Manifesta opinião própria e construtiva relativamente
a assuntos debatidos.
9. Não gera mau ambiente no local de trabalho.
10. Evita banalidades e perda de tempo.
11. É receptivo à mudança.
12. Dá sugestões / tem opiniões críticas para melhoria de serviços.
13. Faz formação de acordo com o projecto educativo da escola (1/3).
14. Faz formação na sua área específica (2/3).
15. Disponibiliza-se para apoiar os alunos após as horas lectivas,
sempre que considere necessário.
16. Regista e avalia o cumprimento das actividades planificadas.
17. Estabelece planos de acção para corrigir desvios.
18. Apoia o desenvolvimento de métodos de aprendizagem / estudo.
19. Estabelece e faz respeitar regras de convivência,
colaboração e respeito.
20. Aplica os critérios de avaliação aprovados pelos
órgãos competentes.
21. Cumpre o horário - substituir parâmetros de assiduidade
22. Mantém a calma perante uma situação de tensão
com alunos, professores ou pais.
23. Mantém limpo e arrumado o local de trabalho.
24. Oferece-se para ajudar em outras áreas que não a
sua quando é necessário.
25. Predispõe-se para ajudar as pessoas aquando da
necessidade de urgência no serviço
26. Conhece o PE da escola, a missão e a visão da escola.
27. Utiliza correctamente os equipamentos.
28. Verifica o estado dos equipamentos antes e
depois da sua utilização.
29. Zela pelo cumprimento do regulamento interno da escola.
30. É educado e cordial com todos os elementos da
comunidade escolar
31. Perante uma situação determinada, apresenta
diferentes alternativas como solução.
32. Comunica por escrito ao conselho executivo sugestões a
implementar (por ex:com base na análise de melhores práticas
de outras escolas ou organizações) que ajudam a garantir um
serviço de mais qualidade.
33. Mantém a confidencialidade e discrição perante determinadas situações.
34. Recolhe diferentes opiniões ou sugestões procurando criar
sinergias com os seus colegas com a mesma função.
35. Colabora / age no sentido de proporcionar um bom clima de escola.
36. Resolve situações de conflito sem ter que solicitar ajuda extra.
37. Assiste a aulas de colegas sempre que considera útil.
38. Permite que outros colegas assistam a aulas suas.
39. Actua de forma rápida e eficaz, de acordo com critérios predefinidos,
dentro das acções previstas nos processos de trabalho em que está envolvido
40. Age com assertividade e discernimento, encontrando as soluções
mais pertinentes para cada situação, apresentando-as ao respectivo
responsável hierárquico.
41. Analisa problemas e toma decisões relativas a rotinas de trabalho,
não necessitando de apoio superior.
42. Avalia sistematicamente os resultados que se propõe atingir e
reformula as actividades para atingir os resultados de forma mais eficaz.
43. Cumpre prazos.
44. Transmite a sua opinião de forma racional e controlada.
45. É receptivo à mudança e envolve os seus pares para melhorar a sua área,
a dos outros e a escola no seu todo, não se opondo às questões.
46. Quando é chamado a desenvolver outras actividades, encara sempre a
situação de uma forma positiva, predispondo-se para actuar.
47. Revela empenho no desenvolvimento das tarefas, realizando-as
antecipadamente.
48. Toma decisões e assume a responsabilidade não jogando a
culpa dos problemas para cima de outros.
49. Sugere soluções inovadoras, antecipando a ocorrência de problemas.
50. Gere com eficiência todos os meios existentes na escola.
51. Procura todas as oportunidades de formação de forma a alargar
conhecimentos específicos relativos à área da sua intervenção.
52. Propõe actividades com vista à modernização e desenvolvimento
da comunidade onde se integra (extravasando os limites da escola).
53. Supera as expectativas do grupo com contribuições activas de
desenvolvimento, motivando estes a seguir o exemplo, oferecendo
ajuda e dando opiniões construtivas (não havendo rejeições das suas contribuições).
54. Assiste a eventos desenvolvidos por qualquer tipo de entidade.
55. Está ao corrente de situações e dificuldades de outras escolas
desenvolvendo soluções na escola como prevenção.
56. Perante uma dificuldade na escola conversa com outros colegas
que possam partilhar situações similares e sugere determinadas acções.
57. Traz à escola pessoas de assuntos de interesse partilhando experiências.
58. Desenvolve planos de acção para a implementação de melhores práticas
pesquisadas e adequadas à escola.
59. Fomenta o networking interno e externo através de comunicações e actividades.
60. Analisa continuamente as tendências dos outros e procura implementar as
melhores práticas para encontrar as melhores soluções.
61. Aplica a formação recebida nas tarefas que lhe são atribuídas.
62. Aproveita ideias de outras áreas ou de organizações semelhantes
e adapta-as à sua.
63. Avalia sistematicamente os resultados que se propõe atingir e reformula
as tarefas, no sentido da melhoria, ou seja, faz alterações ao previsto,
para atingir os resultados de forma mais eficaz.
64. Consegue sinergias com outras áreas da organização no sentido
de facilitar ou agilizar o serviço.
65. Identifica situações que fogem do padrão do controle previsto e
apresenta soluções ao Coordenador no sentido de evitar possíveis problemas.
66. Organiza e coordena actividades consideradas por outras áreas como
melhores práticas e incorpora-as com vista à superação dos resultados
previamente estabelecidos, apresentando propostas ao Coordenador para
superação de objectivos através de um plano de a
67. Orienta e planeia acções com uma visão partilhada que potencia a missão
e os valores da organização.
68. Partilha técnicas, ferramentas e conhecimentos dentro da organização.
69. Partilha técnicas, ferramentas e conhecimentos fora da organização,
por exemplo fazendo apresentações em congressos, palestras, etc
70. Partilha técnicas, ideias e recursos melhorando o trabalho em equipa
através de aconselhamentos aos seus colaboradores.
71. Predispõe-se para ajudar as pessoas aquando da necessidade
de urgência no serviço.
72. Procura todas as oportunidades de formação de forma a alargar
conhecimentos específicos relativos à área da sua intervenção.
73. Sempre que verifica alguma anomalia mesmo que não seja da
sua área sugere soluções simples mas concretas.
74. Contribui para a mudança planeando melhores práticas e tomando iniciativas,
com base em projectos de autonomia e liderança, medindo o grau de satisfação
de pelo menos 75% dos seus colaboradores através de pesquisas de satisfação rápidas
75. Apresenta por escrito propostas de soluções novas de problemas
fora da sua área de trabalho e de actuação
76. Cria acções novas e motivadoras para a manutenção da disciplina na sala.
77. Cria e implementa novas formas e metodologias que favorecem a
participação dos alunos na realização da aula.
78. Cria ferramentas de controle da sua actividade ou de outros dentro
da organização que sejam simples mas resolvam os problemas de acompanhamento.
79. Cria instrumentos que proporcionam auto avaliação dos alunos
com rigor e objectividade.
80. Cria novos métodos de estudo para os alunos, demonstrando a sua eficácia.
81. Cria novos sistemas ou metodologias nas turmas que estimulam o
processo de ensino-aprendizagem.
82. Cria processos e critérios de avaliação e partilha com os avaliados,
obtendo consenso e validação.
83. Desenvolve recursos inovadores para a realização de actividades lectivas.
84. É capaz de desenhar condutas observáveis dos colegas avaliados de
forma simples e objectiva.
85. Envolve-se em projectos comunitários inovadores por iniciativa própria.
86. Estabelece mecanismos novos de seguimento ou acompanhamentos da
implementação dos planos de melhoria negociados com os avaliados.
87. Executa um projecto de liderança inovador e consegue implementar ideias
revolucionárias e estratégicas, envolve as pessoas nesses projectos
não deixando de fora ninguém.
88. Inova com ideias jamais testadas em algum lado e prova que a
organização poderá beneficiar disso.
89. O professor cria e implementa processos claros e reconhecidos pelos
alunos para facilitar a sua disponibilidade e apoio aos mesmos.
90. Preocupa-se no desenho e implementação de novas ideias criadas por
ele que ajudem a escola na redução do abandono escolar.
91. Propõe novas actividades com vista à modernização e desenvolvimento
da comunidade onde se integra.
92. Quando apresenta os problemas apresenta também hipóteses de várias
soluções criadas por ele, devidamente estudadas e analisadas e dá a sua
opinião de como o problema pode ser resolvido da melhor forma.
93. Sugere novas estratégias para a resolução de problemas.
94. Sugere novos critérios que permitam fazer uma análise da planificação
e estratégias de ensino para a adaptação ao desenvolvimento
das actividades lectivas.
95. Sugere soluções inovadoras, antecipando a ocorrência de problemas.
96. Utiliza os resultados da avaliação dos alunos como base para criar
novas formas de actividade lectiva que permitam desenvolver com eficácia
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maio 14, 2008
Pode a web ser triste?... sugiro.
Artigo de José Vítor Malheiros, in Público de 14-05-08
Ted Nelson acha que a Web é uma tristeza
14.05.2008, José Vítor Malheiros
Considera-se um filósofo e um poeta e sente-se mais próximo do cinema que da informática. O criador do hipertexto veio a Lisboa dizer que não devemos desistir dos nossos desejos
"Toda a gente está à espera que eu morra para poderem dizer como admiravam o meu trabalho. Mas ninguém me apoia." A frase, citação de Orson Welles, serve de epígrafe à página pessoal de Ted Nelson na Web. É fácil perceber que ele a subscreve e há razões para isso.
Ted Nelson é considerado universalmente como um dos visionários mais estimulantes do planeta, um dos inventores mais inovadores e um dos pais da World Wide Web. Mas, apesar disso, tenta há quase 50 anos concretizar um projecto grandioso que muita gente pensa que poderá revolucionar o mundo sem ter tido senão pequenos êxitos e apoios esporádicos. O que é tanto mais estranho quando se sabe o título pelo qual o investigador costuma ser apresentado: Ted Nelson é "o pai do hipertexto", um conceito que criou em 1963 e que está na base da World Wide Web de hoje.
Nelson, nascido em 1937 nos EUA, estudou filosofia, fez um mestrado em sociologia em Harvard e o doutoramento no Japão, na Universidade Keio, sobre Filosofia do hipertexto, mas confessa que sempre teve dificuldade para se identificar profissionalmente. A classificação mais próxima do seu coração é a que foi usada pela ministra da Cultura francesa Catherine Tasca, quando o condecorou com a Legião de Honra, em Março de 2001: "um filósofo e um poeta."
Na conferência que Ted Nelson proferiu anteontem na Universidade Atlântica, em Barcarena, (antes disso tinha estado em Lisboa numa mesa-redonda sobre Estratégias para a Sociedade do Conhecimento, a convite do programa europeu Interreg) disse que aos 22 anos se considerava "filósofo e realizador de cinema" e que hoje prefere dizer-se um "humanista de sistemas". Mas vai repetindo que não é um tekkie mas sim um "media guy" - o pai era realizador de cinema e a mãe actriz - e que o que o preocupa são as interfaces.
O que quer este homem, hoje investigador convidado do Internet Institute da Universidade de Oxford? Quer um sistema que permita a toda a gente ter acesso a toda a espécie de documentos - textos, vídeo, música -, usá-los, modificá-los, anotá-los, publicá-los, usar pedaços... Mas isso não é a Web? Pergunte-se e Nelson espuma. Para se acalmar e responder em tom contido: "A Web é fantástica, eu passo quatro horas por dia na Web, mas a Web só permite fazer uma pequena parte das coisas que desejamos." O quê? Não se pode abrir um texto e fazer umas notas à margem, se um texto incluir uma citação de outro não posso ir ver o documento original (só se tiver feito previamente um link à mão), etc.
A visão de Xanadu
Fale-se de hipertexto na Web e Nelson pode irritar-se. O "seu" hipertexto, o verdadeiro hipertexto, aquele que ele inventou em 1963, que descreveu num artigo em 1965, que ele tem andado a vender desde então, não é composto por estes miseráveis links de sentido único que existem no HTML, que existem nesta triste Web: os seus links - que, conforme as funções, ele chama "transclusões" ou "flinks" ou "clinks" - permitem ligações de dois sentidos, para saber que links existem para o documento que eu estou a ler; permitem fazer links de uma palavra para "n" sítios diferentes e muitas mais habilidades.
A conferência que Nelson deu em Barcarena, para uma pequena sala apenas meio cheia, foi dedicada a um novo tipo de bases de dados a que chama "estruturas Zig Zag" (ou "zizi structures"), mas não sem antes apresentar a filosofia geral da sua visão, Xanadu, um projecto nascido em 1960 e que tenta financiar desde sempre com reduzido êxito. O que é Xanadu? A visão ocupa todos os textos de Nelson e não é simples. À primeira vista parece que fala da Web - é um sistema onde todos os documentos podem ser acedidos, modificados, fundidos, onde todos os documentos são hipermédia (outro conceito de Nelson), onde som e vídeo se misturam com gráficos e texto. Mas quando se aprofunda um pouco o conceito... tudo muda e percebemos como a Web é limitada: Xanadu é o nosso sonho tornado realidade, em Xanadu tudo é possível.
Cada documento desta nova Web pode ser modificado por toda a gente, mantendo todas as versões possíveis; quando se faz copy-paste de um parágrafo de um texto para outro isso cria um link permanente para o texto-fonte; as imagens ou os vídeos têm a dimensão que queremos quando os vemos (as fotos têm um "tamanho" no papel, mas os computadores não são papel e não precisam de ter essa limitação); e se pode usar todo o material que quisermos mesmo que esteja protegido por copyright porque, quando usamos um pedaço de um texto com direitos, fazemos um micropagamento (outro conceito de Nelson) ao seu autor sem necessidade de negociação prévia. É a total liberdade de criação e a justa compensação aos criadores. É um mundo onde nada se perde, onde tudo está ligado a tudo, onde a citação é sempre possível e sempre atribuída e onde a colagem e a recombinação são ubíquos.
Os seus desejos para os computadores são simples: Nelson não acha aceitável que seja preciso um programa para abrir um texto e outro para ver um filme. Ou que não se possa escrever nas margens do livro que se está a ler no ecrã. Ou que as versões não coexistam todas. Ou que um ficheiro possa ter metadados mas uma parte de um ficheiro não. Nelson não aceita que, nos computadores, as páginas estejam atrás de um vidro. Tudo o que é possível no mundo real tem de ser possível na Web (ups!, em Xanadu) e muito mais. O mantra é simples: é o computador que tem de se adaptar aos desejos das pessoas e não as pessoas ao computador.
Xanadu pode ser um conceito difícil de concretizar, mas uma coisa é certa: quando houver, eu quero.
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maio 03, 2008
3 de Maio segundo Goya ... inesquecível!
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abril 14, 2008
A persistência do altruismo
...muitas manhãs me levanto quebrando alguma apatia depressiva, e penso na cara de muitos - meus e não apenas - alunos que me colocam a esperança no horizonte. Por eles e por mim, bem hajam.
O gesto solidário destes alunos e desta escola, ensinam-nos que mesmo no tempos mais dificeis, existem túneis com luz abundante
Publicado por morfeu às 09:23 AM | Comentários (0) | TrackBack
abril 12, 2008
Telemóvel ...simplesmente.
...na continuidade do post anterior, no que toca a ambiente tecnosocial, eis mais uma excelente achega de Pacheco Pereira, no Público de hoje, acerca deste ícone dos nossos tempos que, na sua aparente inocuidade despedaça o modus vivendi a que todos nós mais coisa menos coisa estavamos habituados...segue o texto em entrada estendida com a devida vénia ao autor e ao jornal Público.
O telemóvel
José Pacheco Pereira – 2008/04/12 (público)
O objecto que mais mudou os nossos hábitos sociais não é o computador, nem a Internet, nem o cabo, é o telemóvel.
Um telemóvel esteve no centro do momento público mais dramático da educação portuguesa nos últimos tempos. Uma semana antes do telemóvel, foi uma manifestação de professores. Uma semana depois da manifestação, uma senhora magra e baixa de gabardina branca, pequena e frágil, a lutar contra uma adolescente gigante, feita de cereais matinais e vestida de escuro. Na mão das duas, agarrado pelas duas, está um objecto que não existia há dez anos, um telemóvel pequeno que cabe num bolso dumas calças de ganga.
No episódio a que me refiro, e que passou na televisão centenas e centenas de vezes, não há um, mas dois telemóveis, um que está no centro da luta, outro que filma. À volta do telemóvel que filma está uma turma do ensino secundário, está uma escola da cidade do Porto, está Portugal, está a Europa, está o mundo inteiro.
Está o YouTube.
O pequeno objecto é o mais ubíquo de todos os objectos que existem hoje em Portugal, mais visível do que outro objecto tão omnipresente como o telemóvel e tão subversivo socialmente como o telemóvel: o relógio de pulso. Telemóvel e relógio são instrumentos de poderosas transformações sociais que eles revelam tanto como potenciam. Não são eles por si só que produzem essas transformações, porque nenhuma tecnologia por muito nova e revolucionária exerce efeitos sociais sem a "sociedade" estar preparada para a usar, sem que corresponda ao tempo e ao modo, à forma, às correntes de mudança da sociedade que já estão em curso e "descobrem" o objecto acelerando o seu curso com ele.
É o caso do relógio que saiu do laboratório das excentricidades, um pouco como precursor de um Meccano ou um Lego moderno, ou de um jogo de habilidade mecânica, ou de um objecto de luxo tão curioso como inútil, para se transformar numa necessidade tão vital que biliões de homens o trazem no pulso. Se exceptuarmos o uso dos relógios nos navios para calcular a longitude, os relógios não serviam para nada quando a esmagadora maioria das pessoas trabalhava de sol a sol, ou ao ciclo das estações, e estas dependiam de um calendário que estava escrito nos astros. Calendários eram precisos, relógios não eram precisos, até ao momento em que a Revolução Industrial apareceu e mudou quase tudo por onde passou. Milhões de pessoas vieram dos campos para as cidades, para as fábricas e para as minas, e precisavam de horas. O relógio subiu primeiro para as torres ou para o centro da fachada neoclássica das fábricas e lá continuou, passando depois para dentro, e depois para o bolso dos ricos e por fim para o pulso de todos. Hoje o relógio ordena o nosso tempo com um rigor muito para além do biológico e manda no nosso corpo, como nenhum objecto do passado. É tão presente que parece invisível, nem damos por ela que está lá, é parte do nosso corpo, mais do que objecto estranho. Um figurante do Ben Hur esqueceu-se dele, e nos filmes há quem vá para a cama sem ser para dormir, só vestido no pulso.
O telemóvel é o objecto que mais mudou os nossos hábitos sociais desde que existe. Não é o computador, nem a Internet, nem o cabo, é o telemóvel. E continua a mudar sem darmos muito por isso, porque a mudança se faz de forma desigual, quer no que muda, quer em quem muda. Dito de outra maneira, muda certas coisas nos jovens e muda outras nos adultos e os seus efeitos estão longe de ter terminado ou sequer de se saber até que ponto de transformação vão. Uma coisa é certa, o telemóvel, ou seja um instrumento de contacto instantâneo e portátil entre mim e todos e todos e mim, que usa predominantemente a voz e, daqui a poucos anos, usará a voz e a imagem, emigrará para ainda mais perto de mim, para a minha roupa, para os meus ouvidos, como já emigrou para as paredes do meu carro. O que ele transporta não é uma ficção, não é um avatar ou um nick mais ou menos anónimo, não é a minha prefiguração virtual como no Second Life ou nas caixas de comentários ou nos blogues anónimos, é a minha voz, a minha imagem, ou seja, eu. Não seria tão poderoso se fosse um instrumento do meu teatro virtual. Bem pelo contrário, é uma encarnação da minha persona, é o meu lugar na sociabilidade dos outros.
Por isso, luta-se por um telemóvel, porque num telemóvel de um adolescente está muito do seu mundo: telefones dos amigos, telefone dos namorados, passwords, fotografias, mensagens, vídeos, o equivalente a um diário pessoal, em muitos casos mais íntimo que um diário à antiga, com a sua chavinha de brincar que dava a ilusão de que ninguém o lia. À medida que se caminha pela idade acima o conteúdo do telemóvel muda, mas continua pessoal e intransmissível, com os SMS comprometedores que arruínam muitos casamentos, até se tornar quase um telefone de emergência que os filhos dão aos pais com os números deles já gravados e os das emergências: "é só carregar aqui e eu atendo, se houver qualquer problema, assim não se sente sozinho." Sente.
Mas as mudanças não se ficam por aqui. Já escrevi sobre algumas, como a presentificação obrigatória, a obrigação socialmente exigida de se estar sempre presente, porque o corpo e o telemóvel vão juntos. Deixou de se poder estar longe de um telefone, já para não dizer que se deixou de poder não ter telemóvel. A recusa de dar um número de telemóvel é tida como uma má educação ou uma insensata e insociável vontade de não estar disponível. Com o telemóvel está-se sempre disponível, ficam sempre os recados, queira-se ou não recebê-los, e o novo código do telemóvel exige que haja sempre resposta. Por que razão tenho eu que receber recados que não solicitei, e dar respostas que posso não ter tempo ou disponibilidade ou vontade para dar? Não posso, porque a máquina não aceita um não por resposta, ela vive do tráfego, e deseja mais tráfego. Por isso oferece-me voice-mail, e-mail no telemóvel, mensagens, sem eu o pedir.
Nos mais jovens o telemóvel é apenas mais um instrumento para a completa insensibilidade à perda de privacidade e intimidade. Crescendo num mundo que não preza e não educa para esses valores, um mundo que incentiva a exposição pública, o telemóvel fornece um meio de registo, incorporando a máquina fotográfica e o vídeo, no qual qualquer fronteira entre o que é público e privado se esbate. Qualquer um é um paparazzi de si próprio e dos outros e o rapaz que filmou o vídeo em glória do 9.º C da escola Carolina Michaëlis estava a pensar nessa dimensão lúdica e social do YouTube onde a vã glória de maltratar uma professora ou de uma fight na turma iriam dar fama na rede de chats e no Hi5 onde milhares de raparigas, adolescentes ou já nem tanto, se mostram em poses provocadoras, já para não falar no resto. Não sei se quando crescerem se vão arrepender, mas então já será tarde, porque uma vez na rede sempre na rede.
Por último há o controlo, o magnífico instrumento de controlo que é o telemóvel, pessoa a pessoa, numa rede que prende os indivíduos numa impossível fuga àquilo que é o objecto sempre presente, sempre ligado (os telemóveis desligados são de desconfiar), no qual a primeira pergunta é sempre "onde tu estás?", uma pergunta sem sentido no telefone fixo, esse anacronismo. Adolescentes jovens ou tardios, casais, maridos, mulheres, amantes, namorados, patrões e empregados, jogam todos os dias esse jogo do controlo muito mais importante do que a necessidade de falar ao telemóvel. Na verdade a esmagadora maioria das chamadas de telemóvel não tem qualquer objecto ou necessidade de ser feita, ninguém as faria num mundo de telefones fixos, que não seja pelo controlo, pela presentificação do indivíduo no seu jogo de inseguranças, solidões, afectos, e medos, através da caixa electrónica que se segura numa mão.
Não é a necessidade que justifica a presença quase universal dos telemóveis desde as crianças de seis anos até aos velhos, os milhões de chamadas a qualquer hora do dia, em qualquer sítio, da missa à sala de aulas, do carro à cama, é o complexo jogo de interacções sociais que ele permite, sem as quais já não sabemos viver. Viver num mundo muito diferente e cada vez mais diferente.
Historiador
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abril 11, 2008
A "segunda família" sg/ Daniel Sampaio
...texto recolhido na edição subscrita da revista Pública de 5 de Abril de 2008...com a devida vénia ao autor e à revista mencionada.
A SEGUNDA "FAMÍLIA"
Daniel Sampaio
Os incidentes na escola do Porto e a demonstração - pela Internet - de que outros estabelecimentos de ensino poderiam conter situações de grave indisciplina, tiveram a virtude de fazer acordar muitos pais e educadores. A verdade é que quem contacta com jovens já se tinha apercebido como a voracidade de um quotidiano virado para o consumo e para o divertimento sem regras tem empurrado os adolescentes para um mundo em que o prazer e o espectáculo estão acima de tudo.
Esta maneira de viver que caracteriza muitos jovens de hoje inicia-se na infância ou na pré-adolescência. Cresceram vazios, sempre em busca de uma gratificação imediata, tornaram-se exigentes para com os pais, perderam de modo progressivo o sentido do outro: acima de tudo, querem estar bem, viver sem preocupações, "curtir" o momento. Os pais sentem-se perdidos, porque receiam ser firmes, na ânsia de tudo fazerem para que os filhos "sejam felizes" adiam dizer não, mesmo quando não concordam: preferem permitir, também porque às vezes é mais fácil. Quando a família se desmorona por doença mental ou por divórcio, os filhos são muitas vezes os bodes expiatórios dos progenitores e saltam de casa em casa sem que ninguém fale com eles. Mesmo quando a família se mantém intacta e sem problemas de maior, os adolescentes parecem considerá-la secundária, porque são os colegas, os amigos e os contactos na Internet que verdadeiramente os mobilizam.
Fala-se então da "segunda família": os jovens vivem submersos na música preferida, nas roupas, nos adornos corporais e quem lhes interessa, em muitos casos, já não são os pais, os avós e os irmãos, mas os membros da sua nova rede relacional. A escola é importante não como fonte de conhecimentos, mas como alguma coisa que se tolera porque permite ter amigos e levar ao máximo experiências-limite, sobretudo se forem filmadas e exibidas para o grupo. Os pais assistem atónitos: acabadas as redes de vizinhança, enfraquecidas as organizações estruturadas na comunidade e dirigidas por adultos (igreja, escuteiros, grupos desportivos...), olham em redor e vêem os filhos adolescentes cada vez mais longe. É, por exemplo, habitual que os adolescentes faltem aos aniversários ou a outros rituais familiares, porque "vão sair", ou "é o dia de estarem com os amigos".
A explosão tecnológica trouxe a todo o lado esta "cultura" juvenil: telemóveis, grupos de conversação, dispositivos para ouvir música e muitas outras coisas permitiram a comunicação a distância e a socialização fora do controlo familiar: hoje muitos amigos não aparecem em casa e estão longe do grupo de pares de que tanto se falou nos anos noventa. Os ídolos não são os protagonistas da televisão ou do cinema, são sites e programas de conversação que nem sempre veiculam bons modelos: em muitos casos triunfam agora as mensagens hipersexualizadas, os sites das anorécticas, os links para a violência.
Que fazer? Encarar o problema e deixar de vez o discurso saudosista ou derrotado: em primeiro lugar, definir com o adolescente em causa a sua rede relacional. Os adultos responsáveis pela educação têm de saber com quem os filhos contactam, em proximidade ou à distância; perceber quem são os líderes do grupo e por que razão são influentes; trazer para casa membros da "segunda família", sem esquecer de fazer notar que a primeira é a crucial, porque será mais duradoura. Para isso, os pais devem partilhar experiências com outros pais que tenham filhos em situação semelhante, conhecer ao máximo as novas tecnologias, melhorar a proximidade com a escola sem invadir demasiado o território escolar.
O debate sobre estas questões demonstrou como se discute o acessório, sem que as pessoas se apercebam como tudo está a mudar na adolescência e na família. A nova facilidade na comunicação tem de ser a garantia de que os pais contactam os filhos durante o dia, mesmo que estejam a trabalhar. E é bom ver se todos estes comportamentos nos jovens não são uma luta contra o anonimato e o vazio das suas vidas: mesmo que o sejam, temos de os atalhar a tempo.
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abril 09, 2008
E não se poderá "implodi-lo"?...
Com a devida vénia à crónica de J.Fernandes, Público, que transcrevo em entrada estendida.
(...) Tudo isto reforça a convicção de o único caminho a seguir é o da maioria dos países nórdicos, que só recomeçaram a ver os seus jovens a progredir quando, na prática, acabaram com o Ministério da Educação e entregaram o poder às escolas e às comunidades.
É pena o edifício da 5 de Outubro ficar no meio do tecido urbano, pois daria um belo espectáculo a sua implosão, abrindo espaço para, por exemplo, um monumento às vítimas do "eduquês"... (...)
avaliação já acabou, mas vamos todos fingir que não
José Manuel Fernandes - 20080409
O braço-de-ferro entre a ministra e os professores já se tornou num teatro de fingimentos onde pouco ou nada é levado a sérioOprocesso de avaliação dos professores, que miraculosamente salvaria o sistema de ensino impondo-lhe normas ainda mais centralistas e procedimentos ainda mais burocráticos, acabou. Para já este ano.
Ontem a ministra da Educação propôs aos sindicatos que, em vez de suspender o processo, aceitava, na prática, "suspender" as avaliações que impediriam os professores de progredir na carreira, as Regular e Insuficiente. Na verdade, o que Maria de Lurdes Rodrigues está a tentar evitar é que os professores que forem já avaliados e não couberem nas quotas de Muito Bom e Excelente tenham todos... Bom. Porque era isso, ou é isso, que muitas escolas se preparam para fazer.
O hábito é antigo, como se sabe: não havendo quotas, ou distribuição forçada das classificações para criar alguma diferenciação entre os professores, estes já faziam como a maioria dos funcionários públicos, raramente atribuindo classificações negativas. E como, entretanto, para criar a ilusão de que não recuou, a ministra continuava a fingir que tudo se mantinha na mesma, enquanto ia dando instruções às escolas para simplificarem os processos de avaliação, estas foram ganhando margem para deixar tudo mais ou menos como estava. Mas também "fingindo" que iam cumprindo a lei, umas mais depressa, outras arrastando os pés.
O absurdo da situação criada pela teimosia centralista do ministério ficou anteontem bem à vista: foi apenas a 7 de Abril, já com o 3º período de aulas em andamento, que as escolas receberam da 5 de Outubro a versão definitiva das fichas de avaliação e ponderação de critérios. Nada menos de 16 fichas, acrescente-se. Nesta altura do ano. E depois de termos visto governantes atrás de governantes a garantirem que existiam todas as condições para um processo sério de avaliação...
Entretanto o ministério já tinha recuado em pontos como a necessidade de professores assistirem a aulas de outros professores para os avaliarem, já tinha alterado, de forma legalmente duvidosa, os prazos para a avaliação, deixando-os ao critério das escolas, já tinha também abandonado a norma relativa ao peso dos resultados escolares dos alunos, ou a relativa a existirem objectivos individuais para todos os professores, ou ainda à planificação das actividades.
Na prática, acaba a preocupação com a excelência e com o rigor. Na prática admite-se que, se alguma coisa correr mal, não tem importância, fazendo de conta que se vai fazer uma avaliação a sério, quando se vai acabar a fazer o que muitos professores pediam: experimentar e depois corrigir.
No fundo, as escolas sabiam que, se não realizassem a avaliação, punham em causa o futuro de milhares de professores contratados, um instrumento de chantagem de que a ministra nunca abdicou. E esta foi percebendo o absurdo de tentar obrigar as escolas a estabelecer normas internas cujas regras genéricas nem o próprio ministério tinha definido. Os sindicatos sabem que têm poucas hipóteses de recorrer a formas de luta mais radicais, como greves aos exames. Pelo que assim chegamos à mascarada actual, em que a ministra garante que avaliação está a ser feita, as escolas fingem que a estão a fazer e os sindicatos continuam a dizer-se contra, apesar de saberem que tudo ficou mais menos como dantes.
Até podia ser que tudo resultasse do bom senso, mas infelizmente não resultou. Resultou da lógica infernal de um ministério centralista e de sindicatos cuja inimaginável forma de funcionar lhes deu a oportunidade de mobilizarem, como nunca antes, a maioria dos professores.
Nada disto tornou as escolas melhores, nem contribuiu para a qualidade de ensino, mesmo que seja natural que este ano até tenhamos melhores médias nos exames, pois a equipa da 5 de Outubro, obcecada com as estatísticas, até já começou a tratar disso, designadamente quando alargou para três horas o tempo que os alunos de Matemática terão para responder às suas provas de exame.
Tudo isto reforça a convicção de o único caminho a seguir é o da maioria dos países nórdicos, que só recomeçaram a ver os seus jovens a progredir quando, na prática, acabaram com o Ministério da Educação e entregaram o poder às escolas e às comunidades.
É pena o edifício da 5 de Outubro ficar no meio do tecido urbano, pois daria um belo espectáculo a sua implosão, abrindo espaço para, por exemplo, um monumento às vítimas do "eduquês"...
Publicado por morfeu às 09:28 AM | Comentários (0) | TrackBack
março 27, 2008
São os Humanos enigmáticos?... descobertas.
assim vamos avançando neste "o homem esse desconhecido
Publicado por morfeu às 01:20 PM | Comentários (0) | TrackBack
março 26, 2008
Da Matemática, dos bons professores, e...seus honorários.
(In jornal Público de 26 de Março, edição impressa, por subscrição.)
(..) "No relatório, também se fala na importância dos professores.
É um problema tremendo nos Estados Unidos. Não estamos a atrair os melhores para a profissão porque os salários são baixos e porque as escolas não dão todo o apoio aos professores.
Ao fim de cinco anos, as taxas de abandono da profissão chegam aos 50 por cento. E, geralmente, são os melhores que saem. É também uma questão política, já que devia haver mais financiamento para pagar bem aos melhores. O problema é definir o que é um bom professor.
Não há investigação nessa área?
Não. Neste momento sabemos que um bom professor é aquele que consegue que os seus alunos consigam bons resultados nos exames. Este é o único instrumento mensurável que temos. Mas não devia ser o único. É muito importante definir critérios objectivos para distinguir os bons e os maus professores e assim ser possível pagar mais aos primeiros e afastar os segundos, sem que os sindicatos o possam contestar. "(...)
Concentrem todos os esforços em arranjar bons professores
26.03.2008, Isabel Leiria
Nos EUA, os maus resultados a Matemática são um problema estratégico, diz Hung-Hsi Hu
O professor da Universidade de Berkeley, California, Estados Unidos da América, integrou o National Mathematics Advisory Panel, grupo criado por George Bush para reformular o ensino da disciplina. A convite da Sociedade Portuguesa de Matemática, veio a Lisboa falar (deu ontem uma conferência e dá outra amanhã) de um problema que apresenta vários pontos em comum com a realidade nacional.
Há vários anos que os resultados dos alunos americanos a Matemática nos testes internacionais estão a piorar. O que é que originou esse declínio?
Ainda estamos a viver o rescaldo do que se chamou math wars. Nos anos 60, um grupo de matemáticos achou que o ensino nas escolas não era o adequado e propôs mudanças muito rápidas e extremas nos currículos. Defendiam que a educação matemática nas escolas não era mais do que Matemática pura e que os alunos deviam ser ensinados como nas universidades. Para esta corrente - New Math-, o importante não era entender, mas resolver os problemas.
No final dos anos 80 impôs-se uma outra corrente como solução, mas também ela extrema. O NCTM (National Council of Teachers of Mathematics) aprovou um conjunto de orientações, adoptando um novo método de ensino, que privilegiava a participação e o envolvimento dos estudantes naquilo que devia ser aprendido. Mais do que os conteúdos, era a pedagogia que interessava, o que também não trouxe bons resultados.
A tal ponto que o Presidente dos Estados Unidos interveio...
O Presidente apercebeu-se de que o país estava em perigo, já que os estudantes americanos estavam a ser ultrapassados pelos do Japão, de Singapura e outros.
E se o problema não é não estar no topo, o que estes estudos internacionais mostram (como o Pisa ou o TIMSS) é que os Estados Unidos ficam no meio ou na segunda metade da tabela, o que não é aceitável para um país que se quer basear na tecnologia.
O Presidente criou o National Mathematics Advisory Panel e pediu ao grupo que olhasse para toda a investigação sustentada existente e dissesse como se pode resolver o problema. Tudo o que dizemos no relatório são coisas que podemos provar.
Propõe uma intervenção é nos currículos. Em que sentido?
Toda a gente diz que é fundamental ter boas bases para se ir aprendendo a Matemática. Mas é preciso definir o que é que isso significa. Estabelecemos de forma muito precisa e objectiva os conhecimentos que é preciso ter no final de cada ano. No meu estado [Califórnia] há alunos do 7.º que não sabem responder de cor quanto é 7x5. Como podem aprender Matemática e Álgebra, que é entendida como a porta de entrada para o conhecimento mais avançado, se não sabem isto? Nós defendemos que a partir do 3.º ano os alunos têm de saber multiplicar números inteiros. Que no 5.º têm de somar fracções, coisa que não estava a ser aprendida...
O recurso às calculadoras e às novas tecnologias facilita ou não esse tipo de aprendizagens?
É um assunto muito controverso e que ocupou muitas horas de discussão. Há estudos com mais de 20 anos e feito com pequenos grupos de alunos, que concluíram que o uso da máquina de calcular e outras tecnologias não tem efeitos negativos, a curto prazo, na capacidade de pensar e de raciocinar.
Há uma outra investigação muito recente, que incidiu sobre mais de seis mil estudantes, que chegou à conclusão de que as novas tecnologias não ajudam os alunos. Mas também não provou que tinha consequências negativas.
Só que a nossa preocupação é sobre o longo prazo. É saber se a utilização das calculadoras nos primeiros anos de escola se vai reflectir no ensino médio. Se eu peço a um estudante do 7.º ano para multiplicar 7x5 e ele não sabe, isso é preocupante. Mas é preciso mais investigação.
Mas as novas tecnologias não podem ajudar, pelos menos, os alunos com menos gosto pela disciplina a interessarem-se e ter melhores resultados?
Aí estamos a falar de outra coisa. O grupo foi criado porque estávamos a ficar para trás. A ideia é garantir que os alunos estejam preparados para enfrentar os novos desafios da era tecnológica. Se não sabem Matemática, como é que vão ser contratados por empresas como a Microsoft, Hewlett Packard, Texas Instruments? Essas empresas querem alguém não que saiba trabalhar com calculadoras, mas que consiga raciocinar e lidar com informação nova. O objectivo não é garantir que os jovens aprendam alguma coisa que é melhor do que nada.
No relatório, também se fala na importância dos professores.
É um problema tremendo nos Estados Unidos. Não estamos a atrair os melhores para a profissão porque os salários são baixos e porque as escolas não dão todo o apoio aos professores.
Ao fim de cinco anos, as taxas de abandono da profissão chegam aos 50 por cento. E, geralmente, são os melhores que saem. É também uma questão política, já que devia haver mais financiamento para pagar bem aos melhores. O problema é definir o que é um bom professor.
Não há investigação nessa área?
Não. Neste momento sabemos que um bom professor é aquele que consegue que os seus alunos consigam bons resultados nos exames. Este é o único instrumento mensurável que temos. Mas não devia ser o único. É muito importante definir critérios objectivos para distinguir os bons e os maus professores e assim ser possível pagar mais aos primeiros e afastar os segundos, sem que os sindicatos o possam contestar.
Por que é uma disciplina tão complicada para tantos jovens?
Na Matemática não podemos fazer as experiências fantásticas da Física e da Química e que deixam os estudantes boquiabertos. A Matemática é, pela sua natureza, uma disciplina abstracta. É acerca de pensar sobre coisas que não conseguimos ver mas que, se raciocinarmos sobre elas, chegamos a conclusões. O que um bom professor consegue é fazer do abstracto um conteúdo razoável e que pode ser explicado e aceite pelos alunos.
Que recomendações daria aos Governos portugueses?
É preciso que os educadores trabalhem em conjunto com os matemáticos, desde que estes tenham a humildade de aceitar que o ensino nas escolas é complexo. As decisões não podem ser deixadas apenas a quem mal percebe de Matemática. Segundo: concentrem todos os esforços em arranjar bons professores.
Publicado por morfeu às 04:50 PM | Comentários (1) | TrackBack
março 20, 2008
Agressão a professora...
Publicado por morfeu às 07:31 PM | Comentários (1) | TrackBack
março 18, 2008
Resta-nos a Ana Drago?
Publicado por morfeu às 08:07 PM | Comentários (0) | TrackBack
março 17, 2008
Bom -senso ainda...
Tendo acabado de ler a crónica de Daniel Sampaio, na revista Pública, julgo oportuno para quem queira cultivar um pouco o exercício da "humildade activa", como no anterior post referi, transcrever o texto em entrada estendida. Com a devida vénia ao autor, e à revista Pública.
Publicado por morfeu às 12:59 PM | Comentários (0) | TrackBack
Decreto 2/2008...ou a humildade do bom-senso. Subscrevo!
Publicado por morfeu às 12:30 PM | Comentários (0) | TrackBack
março 12, 2008
A avaliação parece que já não é na Ota...
Publicado por morfeu às 11:49 AM | Comentários (11) | TrackBack
março 11, 2008
Ele disse que era falta de sensibilidade política...
Publicado por morfeu às 11:21 AM | Comentários (0) | TrackBack
março 10, 2008
A Metafísica do "Jamé"...
Via blogue "Educação do meu Umbigo"
Publicado por morfeu às 11:55 AM | Comentários (0) | TrackBack
março 09, 2008
Agora a realidade...
...não é um protestozeco qualquer que resvale na indiferença Exª Srª M.
Publicado por morfeu às 03:27 PM | Comentários (0) | TrackBack
A força do humor...sg/ A.Cid
Pela segunda vez utilizo, com a devida vénia ao autor, e ao semanário Sol, uma caricatura do A.Cid. Estou neste momento com dúvida imensa... qual é a caricatura? qual a realidade?

Publicado por morfeu às 03:03 PM | Comentários (1) | TrackBack
Pela dignidade... imagens.
Publicado por morfeu às 11:06 AM | Comentários (0) | TrackBack
março 07, 2008
O grito do silêncio...
...depois de exercitar o grito na entrada anterior, é ocasião de meditar na proposta feita em múltiplos blogs e por vários colegas, para a manifestação de amanhã. Assim...

... e só no final da manifestação fazer eco bem audível e civlizado do nosso querer. Mesmo que o poder estabelecido continue a desautorizar e a dispôr em berro de "quero, posso, mando"... que a nossa dignidade brilhe nas avenidas e praças da capital do "Império"...
Publicado por morfeu às 11:44 AM | Comentários (0) | TrackBack
Exercite a leitura, dicção, fôlego, ideologia...
... no final aproveite para dar um berro dos grandes... em entrada estendida porque só para quem tenha, desde logo, classificação excelente.
VEJA SE CONSEGUE CHEGAR AO FIM E LEIA EM VOZ ALTA QUE É DIGNO......
Por António Barreto - Público
PARECE QUE A EDUCAÇÃO está em reforma. Sempre esteve, aliás. Vinte e
tal ministros da educação e quase cem secretários de Estado, em pouco
mais de trinta anos, estão aí para mostrar o enorme esforço despendido
no sector. Uma muito elevada percentagem do produto nacional é
entregue ao departamento governamental responsável. Este incansável
ministério zela por nós, está atento aos menores sinais de mudança ou
de necessidade, corrige infatigavelmente as regras e as normas. Neste
5 de Outubro, dia da República, o Chefe de Estado e o presidente da
Câmara de Lisboa não se esqueceram de considerar a educação a mais
alta prioridade e a principal causa do nosso atraso. Nesse mesmo dia,
mão amiga fez-me chegar o último exemplo do esforço reformador que
anima os nossos dirigentes. Com a devida vénia ao signatário, o
secretário de Estado Valter Lemos, transcrevo o seu despacho
normativo, cuja leitura em voz alta recomendo vivamente:
O Decreto-Lei n.º 74/2004, de 26 de Março, rectificado pela Declaração
de Rectificação n.º 44/2004, de 25 de Maio, com as alterações
introduzidas pelo Decreto-Lei n.º 24/2006, de 6 de Fevereiro,
rectificado pela Declaração de Rectificação nº 23/2006, de 7 de Abril,
e pelo Decreto-Lei n.º 272/2007, de 26 de Julho, assenta num princípio
estruturante que se traduz na flexibilidade de escolha do percurso
formativo do aluno e que se consubstancia na possibilidade de
organizar de forma diversificada o percurso individual de formação em
cada curso e na possibilidade de o aluno reorientar o próprio trajecto
formativo entre os diferentes cursos de nível secundário.
Assim, o Despacho n.º 14387/2004 (2.ª Série), de 20 de Julho, veio
estabelecer um conjunto de orientações sobre o processo de
reorientação do percurso escolar do aluno, visando a mudança de curso
entre os cursos criados ao abrigo do Decreto-Lei n.º 74/2004, de 26 de
Março, mediante recurso ao regime de permeabilidade ou ao regime de
equivalência entre as disciplinas que integram os planos de estudos do
curso de origem e as do curso de destino, prevendo que a atribuição de
equivalências seria, posteriormente, objecto de regulamentação de
acordo com tabela a aprovar por despacho ministerial.
Neste sentido, o Despacho n.º 22796/2005 (2.ª Série), de 4 de
Novembro, veio concretizar a atribuição de equivalências entre
disciplinas dos cursos científico-humanísticos, tecnológicos e
artísticos especializados no domínio das artes visuais e dos
audiovisuais, do ensino secundário em regime diurno, através da tabela
constante do anexo a esse diploma, não tendo, no entanto, abrangido os
restantes cursos criados ao abrigo do Decreto-Lei n.º 74/2004, de 26 de
Março.
A existência de constrangimentos na operacionalização do regime de
permeabilidade estabelecido pelo Despacho n.º 14387/2004 (2.ª Série),
de 20 de Julho, bem como os ajustamentos de natureza curricular
efectuados nos cursos científico-humanísticos criados ao abrigo do
Decreto-Lei n.º 74/2004, de 26 de Março, implicaram a necessidade de
se proceder ao reajuste do processo de reorientação do percurso
escolar do aluno no âmbito dos cursos criados ao abrigo do mencionado
Decreto-Lei n.º 74/2004, de 26 de Março.
Desta forma, o presente diploma regulamenta o processo de reorientação
do percurso formativo dos alunos entre os cursos
científico-humanísticos, tecnológicos, artísticos especializados no
domínio das artes visuais e dos audiovisuais, incluindo os do ensino
recorrente, profissionais e ainda os cursos de educação e formação,
quer os cursos conferentes de uma certificação de nível secundário de
educação quer os que actualmente constituem uma via de acesso aos
primeiros, criados ao abrigo do Decreto-Lei n.º 74/2004, de 26 de
Março, rectificado pela Declaração de Rectificação n.º 44/2004, de 25
de Maio, com as alterações introduzidas pelo Decreto-Lei n.º 24/2006,
de 6 de Fevereiro, rectificado pela Declaração de Rectificação n.º
23/2006, de 7 de Abril, e pelo Decreto-Lei n.º 272/2007, de 26 de
Julho, e regulamentados, respectivamente, pelas Portarias n.º
550-D/2004, de 22 de Maio, alterada pela Portaria n.º 259/2006, de 14
de Março, n.º 550-A/2004, de 21 de Maio, com as alterações
introduzidas pela Portaria n.º 260/2006, de 14 de Março, n.º
550-B/2004, de 21 de Maio, com as alterações introduzidas pela
Portaria n.º 780/2006, de 9 de Agosto, n.º 550-E/2004, de 21 de Maio,
com as alterações introduzidas pela Portaria n.º 781/2006, de 9 de
Agosto, n.º 550-C/2004, de 21 de Maio, com as alterações introduzidas
pela Portaria n.º 797/2006, de 10 de Agosto, e pelo Despacho Conjunto
n.º 453/2004, de 27 de Julho, rectificado pela Rectificação n.º
1673/2004, de 7 de Setembro.
Assim, nos termos da alínea c) do artigo 4.º e do artigo 9.º do
Decreto-Lei n.º 74/2004, de 26 de Março, rectificado pela Declaração
de Rectificação n.º 44/2004, de 25 de Maio, com as alterações
introduzidas pelo Decreto-Lei n.º 24/2006, de 6 de Fevereiro,
rectificado pela Declaração de Rectificação nº 23/2006, de 7 de Abril,
e pelo Decreto-Lei n.º 272/2007, de 26 de Julho, determino:
O que se segue é indiferente. São onze páginas do mesmo teor. Uma
linguagem obscura e burocrática, ao serviço da megalomania
centralizadora. Uma obsessão normativa e regulamentadora, na origem de
um afã legislativo doentio. Notem-se as correcções, alterações e
rectificações sucessivas. Medite-se na forma mental, na ideologia e no
pensamento que inspiram este despacho. Será fácil compreender as
razões pelas quais chegámos onde chegámos. E também por que, assim,
nunca sairemos de onde estamos.
Publicado por morfeu às 11:36 AM | Comentários (6) | TrackBack
março 04, 2008
Confap...conhece? Atreva-se...
Publicado por morfeu às 03:14 PM | Comentários (1) | TrackBack
março 01, 2008
Do Nada para o Nada, caminhantes ...
nessa contínua e misteriosa busca do Mistério, com a orientação laboriosa de A. Borges
Publicado por morfeu às 09:01 AM | Comentários (0) | TrackBack
fevereiro 29, 2008
"Tecno-luxúria"...conhece?
... ainda não se chegou a tanto, por estes lados. A experiência tecnológica de uma escola dos States, que apresento em entrada estendida, dá que pensar. De facto um "grande" e "excelente" professor continua a ser aquele que domina a palavra em toda a sua extensão e compreensão. E...a conversa, ou conversar, continua a ser grátis... para reflectir.
Patrick Welsh +/Washington Post * digital@publico.pt
Qual é o problema dos professores do liceu T.C. Williams?
Em Setembro, fomos transferidos para um edifício que custou 98 milhões de dólares (65 milhões de euros) em Alexandria (Virginia - Leste dos EUA, próximo de Washington), um dos liceus mais caros de sempre. As salas de aula são banhadas por luz natural. Todas têm um projector LCD montado no tecto, que transmite tudo o que eu queira colocar no meu computador portátil (desde leituras de poesia na Biblioteca do Congresso a entrevistas no YouTube com Toni Morrison e outros escritores) para um ecrã gigante na frente da sala.
O comportamento dos estudantes parece ter melhorado muito. Temos um refeitório que parece saído de um centro comercial de luxo, e que parece ter tido um efeito curiosamente tranquilizante, tal como também teve a presença de 126 câmaras de segurança.
Então, seria de pensar que os professores do T.C. estivessem extasiados. Mas passa-se exactamente o contrário.
A moral entre os docentes está ao nível mais baixo e o cinismo no máximo que eu vi em muitos anos. Qual é o problema?
É aquilo a que um antigo superintendente do sistema escolar de Alexandria descreve como "tecno-luxúria": uma doença que afecta gestores de escolas por todo o país e que se manifesta através de uma necessidade insaciável de adquirir os gadgets informáticos mais recentes, mais rápidos, mais exóticos - quer os estudantes precisem deles ou não.
O "liceu das geringonças"
A "tecno-luxúria" encontra-se na sua fase mais avançada no T.C., onde os nossos administradores fetichizaram a tecnologia de tal forma que alguns dos meus colegas descrevem a escola como o "liceu das geringonças".
Por exemplo: foi dito aos professores de ciência e matemática que não podem usar retroprojectores tradicionais para apresentar materiais às suas turmas - apesar de os professores dizerem que, em muitos casos, estas máquinas são superiores aos computadores para transmitir determinados conceitos.
Mas a avaliação dos professores actualmente não é feita pela sua capacidade de explicar a matéria aos alunos: o que interessa é saber se conseguem ter "salas de aula sem papel" - e quantas geringonças usam. Para parafrasear o filme Campo de Sonhos, se uma empresa de informática construir uma maquineta para a sala de aulas, o sistema escolar de Alexandria vai comprá-lo.
O mais recente é o "school pad". Este é um dispositivo portátil que permite ao professor passear-se pela sala de aula e fazer sublinhados no que o projector LCD for mostrando no ecrã. Por outras palavras, serve para poupar aos professores a meia-dúzia de passos necessária a chegar às suas secretárias e clicar no rato.
A administração escolar encomendou 77 "school pads" para o T.C., a um custo de 495 dólares (330 euros) cada um. Isto apesar de uma das professoras ter dito que o dispositivo a fazia lembrar de um brinquedo de infância: "É só uma maneira de gastar dinheiro para pessoas que são preguiçosas demais para escrever no quadro."
O professor ciborgue
Durante algum tempo, julguei que eram só os professores mais velhos como eu, imigrantes no mundo da Internet, que estavam a queixar-se da chamada "iniciativa tecnológica". Mas afinal até os professores mais jovens estão fartos.
"[Os administradores] preferiam ter um ciborgue a dar as aulas em vez de ter-me a mim", disse-me um jovem professor de inglês. "É a tecnologia como um fim em si mesma. O que conta não é ter coisas que funcionem ou ajudem os miúdos a aprender, é ter coisa que façam os administradores parecer dinâmicos, que passem ao público uma impressão de modernidade."
A escola praticamente admite isto no seu site na Internet, onde se pode ler este texto dirigido aos professores: "Imaginem esta manchete: "Escolas públicas de Alexandria reconhecidas pelo seu programa educativo de tecnologia de ponta; Bons resultados dos estudantes correlacionados com a implementação de tecnologias". Que tecnologias é que existem no liceu que podem conduzir a uma manchete como esta?"
Os administradores podem viver de manchetes, mas o objectivo dos professores é que os seus estudantes aprendam. "Os professores não deviam mudar a sua maneira de ensinar para se adaptarem a um engenho tecnológico qualquer", diz Peter Cevenini, director da divisão de ensino básico do Business Solutions Group da Cisco. "Ensinar é uma arte, e grandes professores podem ensinar de formas completamente diferentes. Há demasiadas escolas a tornar-se obcecadas por máquinas; compram engenhos informáticos apenas porque eles existem."
Na aula, a jogar no laptop
Os miúdos não se deixam levar pelas maquinetas. "O meu melhor professor é o professor Nickley", diz Jamal Stone, aluno do 12º ano. "Ele não liga a isso dos computadores. Usa só o quadro - o quadro inteiro. É enérgico, animado, espirituoso e percebe imenso de matemática. Obriga-nos a prestar atenção; não conseguimos distrair-nos nem tentando."
Jamal tem pena de muitos dos "professores sem papel", que estão sempre a tentar fazer os estudantes usar os seus laptops (oferecidos pela escola) na sala de aula: "Os professores julgam que têm os alunos concentrados em trabalho para a aula, quando na verdade estão em jogos de computador ou a surfar na Web", conta. "Quando os nazis dos computadores bloqueiam um jogo, os miúdos descobrem logo outro."
Outra aluna de 12º ano, Katerina Savchyn, confirma que às vezes usa o laptop para fugir ao tédio das aulas - vai para um jogo online chamado Helicopter.
Aliás, os portáteis oferecidos pela escola constituem um problema de várias maneiras. Estudantes queixam-se de perder imenso tempo nas aulas a tentar fazer uploads de programas necessários. Os laptops estão sempre com problemas em ligar-se ao servidor de wi-fi - mesmo depois de, há alguns meses, os "geeks" dos computadores terem ido a todas as salas de aula instalar novas memórias nos servidores. A administração escolar, que se apressou a dar os computadores aos estudantes há três anos, está constantemente a tentar adaptar-se à nova tecnologia.
Carregas no "enviar" e rezas
O que é mais desconcerte é que o excesso de tecnologia está a desanimar alguns professores jovens e talentosos. Um dos melhores na minha escola - um professor que é estimado por estudantes e pelos seus pais - põe as coisas nestes termos: "Há muito de bom nos computadores, mas estamos a ser obrigados a fazer uma quantidade exagerada de actividades neles. Muitas dessas actividades não se adaptam ao meu estilo de ensinar. Temos tantos obstáculos para superar que há dias em que chego à escola e não me sinto entusiasmado. Estas actividades de computadores só servem para nos afastar dos estudantes."
Claro, a grande questão não é se os professores gostam de passar o seu tempo a aprender a usar uma nova maquineta a seguir a outra; o importante é se esta procissão de novas tecnologias está a ajudar os miúdos a aprender. Pelo que vejo, não.
Um professor de matemática disse: "A matemática sai da ponta de um lápis. Não quero a resposta mais rápida; quero que os estudantes sejam capazes de desenvolver a resposta, de descobrir o seu porquê. A administração da escola parece achar que os computadores tornam a matemática fácil - mas a matemática tem de ser um processo complexo, de aprendizagem passo-a-passo."
Estas palavras são confirmadas por um professor de ciências sociais. Mais do que nunca, diz, "os nossos estudantes querem carregar num botão para ter uma resposta imediata de A, B ou C; cada vez menos querem pensar, porque pensar bem demora tempo".
Vejo o mesmo nas minhas aulas. Sobretudo quando é preciso escrever textos. Muitos estudantes enviam-me os trabalhos pela Internet; as margens do documento estão correctas, o tipo de letra é bonito, e a escrita é pior que nunca.
Parece que a regra se tornou: escreves, passas o corrector ortográfico, carregas no "enviar" e rezas.
+Patrick Welsh é professor de inglês no liceu T. C. Williams há mais de trinta anos
*exclusivo PÚBLICO/ Washington Post
Publicado por morfeu às 09:48 AM | Comentários (0) | TrackBack
fevereiro 27, 2008
Ana Drago "super-star". Brilhante.
Depois da entrada anterior, acerca do estatuto dos deputados e suas prebendas, alguém surge merecedora do seu peso - ela que se me afigura p´ró magro - em ouro: Ana Drago. Já a conhecia dos tempos em que participou brilhantemente no programa de Daniel Sampaio, não me recordo o nome de momento, mas esta mulher pode ir muito longe. Que conserve toda a sua frontalidade, saber, e não deixe que a política a corrompa...
Publicado por morfeu às 12:17 PM | Comentários (0) | TrackBack
fevereiro 26, 2008
Sphaera Mundi
Pode a ciência cantar...emocionante...
Publicado por morfeu às 08:52 AM | Comentários (0) | TrackBack
fevereiro 07, 2008
Ao pé do M. da Educação Kafka é um aprendiz...
As monstruosidades continuam a crescer... até quando? A reflexão de Santana Castilho, no Público de hoje...
A prova
Santana Castilho - 20080207
O que se verificou [na formação de professores] foi um duplo abaixamento. Falar de elevação é farsa de gabinetesO Decreto Regulamentar nº 3 /2008 estipula que, doravante, para se exercer actividade docente num estabelecimento de ensino público pré-escolar, básico ou secundário não chega o grau académico de mestre. É preciso aprovação numa prova de avaliação de conhecimentos e competências concebida e organizada pelo Ministério da Educação. Procedendo assim, o Ministério da Educação vem dizer, entre outras, duas coisas: que não confia nas instituições de ensino superior que formam professores e que nós, portugueses, não devemos confiar no Estado. Vejamos porquê.
As universidades e os politécnicos que formam professores não são clandestinos. Foram reconhecidos pelo Estado como competentes para tal. Para operarem têm que obedecer às exigências do Estado. O Estado impõe-lhes um número mínimo de professores doutorados. Não são livres de conceber os seus planos de estudo: o Estado impõe-lhes matrizes e, além disso, cada curso sujeita-se ao livre arbítrio do Estado para obter autorização de funcionamento. Não são livres quanto à admissão de alunos: o Estado estabelece-lhes cotas. O Estado fiscaliza-as e pode fechá-las, se deixar de lhes reconhecer qualidade. O Estado é, pois, tutor de todas. Mas, mais ainda, o Estado é dono da maioria. Neste quadro, a criação desta prova de avaliação de conhecimentos e competências mostra que o Estado não confia nelas, nem em si próprio. E porque não tem coragem para as enfrentar, dizendo-lhes isso mesmo, muito menos a humildade de reconhecer que falha no que lhe compete, actua kafkianamente: mobiliza mais burocracia, cria mais um monstro e atraiçoa quem acreditou nele. É que às vítimas deste devaneio, todos aqueles que pagaram propinas durante anos para obterem uma habilitação profissional, sublinho, profissional, só resta aguentar a iniquidade.
O que acabo de afirmar não prejudica o que tenho escrito noutras circunstâncias: a formação de professores em Portugal tem perdido qualidade e muitos dos que terminam os respectivos cursos estão longe de possuírem a competência mínima desejável para o exercício da profissão. Porque o Estado há muito que não faz outra coisa que ceder ao facilitismo: quando criou as escolas superiores de educação; quando permitiu o descontrolado crescimento do ensino superior privado; quando aceitou que Bolonha salvaria o mundo. É, aliás, caricato, a este propósito, ler no preâmbulo do diploma que "... o novo regime jurídico da habilitação profissional para a docência... elevou o nível académico da habilitação profissional de ingresso... para o nível de mestrado", quando quem está no terreno sabe bem que tudo não passa de uma mistificação administrativa. O que se verificou foi a desvalorização de dois graus académicos, o de licenciado e o de mestre. O que se verificou foi um duplo abaixamento. Falar de elevação é farsa de gabinetes.
Não cabendo nesta crónica uma análise detalhada do articulado do diploma, não quero concluir sem dois comentários circunstanciais, a saber:
1. Será melhor professor um candidato com 14, 14, 14, nas três componentes da prova, que outro com 20, 20, 13? Pois o primeiro passa e o segundo é excluído.
2. A leitura conjugada dos artigos 12º e 14º permite antecipar que entre a prestação da prova e a divulgação "dos programas e bibliografia de leitura recomendada" mediarão 20 dias. Vinte dias para tratar uma bibliografia? Será isto credível? Será isto sério?
Professor do ensino superior
Publicado por morfeu às 08:59 AM | Comentários (1) | TrackBack
fevereiro 03, 2008
Tou fd....
...e mais muitos profs...e todos os cidadãos muitos e mailos putos que nos passam pelas mãos e...
Carta re-reencaminhada e chegada por mail ao Umbigo através do António Antão:
Boas! Deixo aqui a carta, que pretendo seja bastante esclarecedora, que enviei para vários figuras do meio cultural, político, jornalístico do país. Não me conformo em não fazer nada… isto é muito pouco, nada, atendendo à arrogância da senhora ministra, mas pelo menos, deito-me mais tranquila!
Enviei para o director do Expresso, J.N., Público, para a Inês Pedrosa (para ver se ela abre osolhos e não diz mais asneiras acerca dos profs),para o Pacheco Pereira, para o António Barreto, para o Marcelo, para um jornalista do Sol que um dia me contactou, para o Presidente da República… ainda procuro o mail do Manuel Alegre (que a ele ninguém o cala) e do Sousa Tavares (com o mesmo objectivo da Pedrosa).
Se pensares em mais alguém, avisa. Nunca será demais.
Fátima
Boa noite,
Peço-lhe, por favor, dedique uns minutos à leitura desta missiva, já que é imperioso alertar o país para o estado calamitoso para o qual resvala, irremediavelmente, a Educação em Portugal, caso não se faça nada em contrário. Sou professora e não alimento nem a ilusão nem a pretensão de conseguir mudar muito. Mas V. Excia tem os meios para promover essa mudança.
Vai-me permitir a brutalidade do discurso, mas a situação é gravíssima, muito mais do que transparece tibiamente para o exterior, e este governo incompetente, cínico e prepotente vai conseguir destruir, não apenas o presente, mas, mais gravosamente, o futuro. E não, não estou a ser dramática. Antes estivesse.
1º ponto - Avaliação do desempenho dos professores.
Deve ficar bem claro que os professores querem ser avaliados! Cansados estamos todos de sermos enxovalhados em praça pública, porque nada no sistema distingue os maus profissionais dos bons! Não queremos é esta avaliação. E não é por capricho. É por ser abusiva, quase que surreal, de tão distante que está do conhecimento objectivo da realidade escolar. É despótica e brutal em todos os âmbitos, desde a planificação à implementação… chegando, neste caso, a ser perigosa. A incompetência e falta de lisura dos senhores que comandam o Ministério da Educação são gritantes e raia o patético. Não só insultam os professores, mas insultam (e é bom que todos se consciencializem disso) todos os portugueses, sempre que tentam passar a imagem de competência e profissionalismo.
Passemos aos factos, que poderá constatar com toda a facilidade (e nem os mencionarei todos, por serem tantos).
É pedido, digo, exigido, às escolas que, num prazo de 20 dias, a contar da data de publicação do Decreto Regulamentar nº 2/2008, de 10 de Janeiro seja implementado o processo de avaliação dos professores com base em documentos, despachos, grelhas, recomendações que, decorridos quinze dias sobre aquele prazo, não foram tornados públicos:
· Faltam as recomendações do Conselho Científico ("os avaliadores procedem, em cada ano escolar, à recolha, através de instrumentos de registo normalizados, de toda a informação que for considerada relevante para efeitos da avaliação do desempenho. Os instrumentos de registo referidos no número anterior são elaborados e aprovados pelo conselho pedagógico dos agrupamentos de escolas ou escolas não agrupadas tendo em conta as recomendações que forem formuladas pelo conselho científico para a avaliação de professores." - artigo 6º, ponto 1 e 2);
· sem aquelas recomendações, o Conselho Pedagógico não pode elaborar e aprovar os tais "instrumentos de registo", nem se pode proceder à observação de aulas (artigo 17º);
· o regime da "observação de aulas" raia o absurdo, não porque os professores vejam inconveniente em serem observados (são-no, todos os dias), mas pela violência que representa para o avaliador. Invocando um Decreto Lei que, expressamente, referia que a redução dos departamentos para quatro apenas teria efeitos no concurso para titular (200/2007), o Ministério agora exige o que não é apontado neste despacho 2/2008: a reorganização dos departamentos naqueles quatro, instalando mais confusão num processo já de si tão escabroso e provocando a aglomeração grande número de docentes em cada um desses quatro departamentos. O meu, e do qual fui eleita coordenadora, entenda-se também, "avaliadora" (Departamento de Línguas), tem 31 professores. O das Ciências, por exemplo, tem quarenta e muitos professores. Como é possível que uma pessoa consiga assistir a três aulas por ano lectivo (neste ano, generosamente, apenas serão duas) de 30 professores? Além disso, como é possível acompanhar as planificações das aulas, diárias, desses trinta professores, reunir com cada um, definir objectivos, estratégias e instrumentos? Tudo isto mantendo um horário completo (sim, porque os avaliadores não têm redução alguma da sua componente lectiva, nem tão pouco qualquer alteração no seu salário, nem direito a horas extraordinárias), tendo o dever maior de cumprir com as suas turmas (que, para mim, é o realmente importante! Eu sinto-me responsável pelas minhas cinco turmas do 11º ano!), ao que acresce todo o trabalho burocrático e administrativo do Conselho Pedagógico, onde tenho assento e… as minhas próprias planificações! Sim, porque eu também serei avaliada, duplamente, como professora e como avaliadora! Poderei vir a tornar-me uma competentíssima avaliadora, mas, certamente, me tornarei numa pior professora. E isso é o que mais me angustia, porque eu gosto de dar aulas!
· é certo que no artigo 12º é apontada a possibilidade do coordenador "delegar as suas competências de avaliador noutros professores titulares, em termos a definir por despacho do membro do Governo responsável pela área da educação.". Está bom de ver que… falta esse despacho.
· O que falta, por parte do Ministério, não se fica por aqui: falta o despacho que aprova as fichas de avaliação (artigo 35º), como falta o despacho relativo às ponderações dos parâmetros de avaliação (nº 2, artigo 20º), como falta o despacho conjunto de estabelecimento de quotas previsto no nº 4 do artigo 21º, como falta a portaria que define os parâmetros classificativos a realizar pela inspecção (nº 4 do artigo 29º), como falta o diploma que rege a avaliação dos membros dos conselhos executivos que não exercem funções lectivas (nº1 do artigo 31º).
· no artigo 8º pode ler-se: 1 — A avaliação do desempenho tem por referência: a) Os objectivos e metas fixados no projecto educativo e no plano anual de actividades para o agrupamento de escolas ou escola não agrupada; b) Os indicadores de medida previamente estabelecidos pelo agrupamento de escolas ou escola não agrupada, nomeadamente quanto ao progresso dos resultados escolares esperados para os alunos e a redução das taxas de abandono escolar tendo em conta o contexto socio-educativo.2 — Pode ainda o agrupamento de escolas ou escola não agrupada, por decisão fixada no respectivo regulamento interno, estabelecer que a avaliação de desempenho tenha também por referência os objectivos fixados no projecto curricular de turma.
Nada disto existia antes de 10 de Janeiro e não se altera o Regulamento Interno de uma Escola nem o seu Projecto Educativo, documentos estruturantes que envolvem a participação de todas a comunidade escolar (pais, professores, funcionários, alunos, autarquia) em 20 dias! A menos que se faça com a mesma rapidez, consistência e respeito pelos envolvidos com que o Ministério da Educação despacha leis.
2º ponto - Postura do Ministério da Educação
Creio que os aspectos já apontados seriam suficientes para traçar o negro perfil dos órgãos responsáveis pela área de educação, mas este Governo colocou a fasquia bem alta, daí que tenhamos notícia de algumas pérolas de… escapam-me já as classificações…. e que passo a enunciar (pelo menos, as que eu conheço pelos meios de comunicação social:
· Há dois dias atrás, a Sra Ministra respondeu aos jornalistas, a propósito do, chamemos-lhe, mal-estar manifestado pelas escolas, com a candura que caracteriza o seu discurso, que estavam reunidas todas as condições para se proceder à avaliação do desempenho e que o Ministério daria todo o apoio necessário (não encontrei a citação exacta).
No dia seguinte, é comunicado, através do site do Dgrhe (http://www.dgrhe.min-edu.pt/), que "a contagem dos prazos definidos no artigo 24º do Decreto Regulamentar 2/2008 iniciar-se-á na data da divulgação na internet das recomendações do Conselho Científico para a Avaliação de Professores". Então, não estava tudo a decorrer com normalidade? Até se perdoaria este "lapso" não estivesse o documento eivado de muitas outras arbitrariedades!
· As cerejas no topo do bolo, porque são duas, chegaram hoje com as afirmações do Sr. Secretário de Estado Adjunto e da Educação, Jorge Pedreira: «Os conselhos pedagógicos podem produzir os seus instrumentos sem essas recomendações. Não é obrigatório que as recomendações existam. O decreto regulamentar diz tendo em conta as recomendações que forem formuladas. Se não forem formuladas…»,
(http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=77274)
Creio que nem será necessário comentar uma declaração deste tipo… diz na lei, mas se não aparecerem as recomendações…
Extrapolando: aqueles despachos em falta… se não aparecerem… as escolas improvisarão, que já vão tendo prática disso.
· A outra cereja prende-se com o tal "Conselho Científico". Aliás, está prevista para hoje a apresentação das famigeradas "recomendações". O grotesco desta aparente prova de competência está bem expressa em mais uma afirmação do Sr. Secretário de Estado Adjunto e da Educação, que refere que, estando "em funções há vários meses", a presidente do Conselho Científico, esta elaborará as recomendações!
(http://dn.sapo.pt/2008/01/25/sociedade/ministerio_improvisa_solucoes_para_r.html)
Se isto não é um insulto a tudo o que são os princípios de um estado democrático, já não sei mais o que pensar!
Ora, lê-se no documento aprovado em Conselho de Ministros que regulamenta o Conselho Científico que "Este órgão consultivo será constituído por um presidente, cinco professores titulares em exercício efectivo de funções na educação pré-escolar ou nos ensinos básico e secundário, cinco individualidades em representação das associações pedagógicas e científicas de professores, sete individualidades de reconhecido mérito no domínio da educação e por três representantes do Conselho de Escolas (http://www.min-edu.pt/np3/1459.html).
· Por fim, o próprio Conselho Nacional de Escolas, criado para trabalhar em conjunto com o Ministério da Educação, levando para a mesa de trabalho a experiência de quem lida directamente com as escolas e seu funcionamento prático, tem feito várias recomendações às quais o Ministério não dá ouvidos
(http://jn.sapo.pt/2008/01/25/nacional/conselho_escolas_quer_adiar_avaliaca.html).
O que prova que este Conselho foi criado, apenas, para o Ministério poder invocar uma relação de lisura com as escolas que não acontece de todo. Em anexo, colocarei as propostas apresentadas por este Conselho.
3º e último ponto - Qualidade de ensino.
Este é, a meu ver, o aspecto mais terrível desta arquitectura que o Ministério montou. Custa-me, na verdade, acreditar que pessoas de bem ajam com tanta leviandade e desprezo pelo futuro do país e é esta a razão da premência do meu apelo:
- esta torrente de grelhas, recomendações, parâmetros, planificações diárias, instrumentos, registos e afins esgotarão os professores num trabalho inglório e improdutivo, pois não estarão a trabalhar para os alunos, mas para a sua avaliação;
- o mais grave, ainda, gravíssimo! A subordinação da avaliação do desempenho dos professores e a sua progressão na carreira ao sucesso dos alunos (artigo 16º):
5 — Para o efeito da parte final do número anterior o docente apresenta, na ficha de auto -avaliação, os seguintes elementos:
a) Resultados do progresso de cada um dos seus alunos nos anos lectivos em avaliação:
i) Por ano, quando se trate da educação pré -escolar e do 1.º ciclo do ensino básico;
ii) Por disciplina, quando se trate dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e do ensino secundário;
b) A evolução dos resultados dos seus alunos face à evolução média dos resultados:
i) Dos alunos daquele ano de escolaridade ou daquela disciplina naquele agrupamento de escolas ou escola não agrupada;
ii) Dos mesmos alunos no conjunto das outras disciplinas da turma no caso de alunos dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e do ensino secundário;
c) Resultados dos seus alunos nas provas de avaliação externa, tendo presente a diferença entre as classificações internas e externas.
Tenho a certeza que reconhece de imediato o perigo que isto constitui… nada mais fácil para um professor que "produzir" sucesso. Aliás, estou convicta de que é essa a intenção deste Governo, para assim poder ostentar, com orgulho, as grelhas e os números e o inquestionável sucesso destas medidas… porque os números estão acima de qualquer dúvida!
E, na verdade, tudo estará podre, sob essa capa de êxito. O sistema público de ensino passará a ser um faz-de-conta, um recinto para entreter os jovens… aqueles que não puderem pagar uma escola privada, que lhes garantirá um ensino exigente.
E não olhe com esperança para a alínea c!… a avaliação externa só existe em algumas disciplinas e em alguns níveis de ensino. Como vê… mais um factor de desigualdade entre professores: uns nunca passarão por essa bitola e serão, com toda a certeza, professores de sucesso! E já nem falo do que é subordinar a qualidade do desempenho de um professor à heterogeneidade das turmas que encontra (ambiente familiar e social, motivações pessoais, capacidades cognitivas, enfim, muitos dados em jogo). Eu já tive boas, menos boas e más turmas: será que a minha competência varia tanto?
Peço perdão pela extensão desta carta, mas o problema é por demais sério e, infelizmente, as arbitrariedades são tantas que não as consegui reduzir a menos.
Creia-me, preocupada, mas esperançosa, no poder que a comunicação social exerce sobre a opinião pública. Neste momento, o problema não é só dos professores, é do país inteiro. É uma cidadã, professora e mãe que lhe escreve.
Com elevada estima,
Fátima Inácio Gomes
Professora de Português do quadro da Escola Secundária de Barcelos
Coordenadora do Departamento de Humanidades
Coordenadora do Departamento de Línguas (de acordo com o decreto 200/2007)
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Bento XVI, "Sapienza": Liberdade de expressão.
Pela reflexão de Bento Domingues e de A.Borges, divulgo alguns textos de reflexão. Este primeiro, provém de Bento Domingues. Em princípio mais dois se seguirão sobre o assunto. Com a devida vénia ao autor, e ao jornal Público.Bom domingo.
segunda-feira, 28 de Janeiro de 2008
Como nasceu a universidade?
O discurso de Bento XVI, lido por M. Marietti, acabou por suscitar um verdadeiro concerto de aplausos
1. O clericalismo e o laicismo são duas formas de fanatismo que se alimentam com o medo da verdade do outro, com o medo de que o outro possa ter razão.
O Papa foi convidado a falar na Universidade de Roma "La Sapienza", na cerimónia de abertura do ano académico. Em nome da defesa da laicidade, alguns professores e alunos protestaram. Bento XVI, face à situação, preferiu anular a visita. O discurso acabou por ser lido por M. Marietti, suscitando nos docentes, investigadores, pessoal administrativo e estudantes um concerto de aplausos. O reitor da universidade, Renato Guarini, no seu discurso de abertura, renovou o convite ao Papa. Segundo ele, uma universidade tem o dever de continuar livre, tolerante e aberta. Houve, depois, uma grande manifestação de desagravo na Praça de S. Pedro. Mas não é isso que tem importância. Decisiva é a questão de fundo: em nome da laicidade, uma universidade italiana - fundada, aliás, por um Papa - será obrigada a recusar o diálogo com uma das correntes mais constantes da tradição europeia? Como observou o matemático judeu Giorgio Israel, "é surpreendente que quem escolheu como lema a célebre frase atribuída a Voltaire - "lutarei até à morte para que tu possas dizer o contrário do que eu penso" - se oponha a que o Papa pronuncie um discurso na Universidade de Roma".
Bento XVI começava o seu discurso, precisamente, com a pergunta: o que é que pode e deve dizer um Papa numa ocasião destas? Foi convidado como bispo de Roma - que tem responsabilidades em relação a toda a Igreja católica - para uma universidade que já não é do Papa. Não esqueceu, porém, que este se foi tornando uma das vozes da razão ética da humanidade.
2. Acolhe a objecção: ao falar como Papa, não estaria a tirar conclusões da fé sem validade para os que a não partilham? Antes de responder a esta questão, levanta outra fundamental: o que é a razão? Como poderá uma norma moral demonstrar que é "razoável"? Serve-se da posição maleável de John Rawls para não deixar à razão "pública" o exclusivo da razoabilidade que também se pode encontrar em doutrinas que derivam de uma tradição responsável e motivada. A sabedoria das grandes tradições religiosas deve, por isso, ser valorizada como uma realidade que não se pode lançar impunemente para o cesto da história das ideias. Como representante de uma comunidade que guarda, em si, um tesouro de conhecimento e de sabedoria ética, fala como representante de uma razão ética. Bento XVI, em relação aos destinatários da sua intervenção, pergunta: o que é a universidade? Qual é a sua missão? Ele pensa que se pode afirmar que a verdadeira e íntima origem da universidade está na sede de conhecimento, própria do homem. Este quer saber o que é tudo aquilo que o rodeia. Quer a verdade. Neste sentido, o seguinte questionamento de Sócrates seria o impulso do qual nasceu a universidade ocidental. Diante de uma defesa da religião mítica e sua devoção, Sócrates contrapõe: "Tu acreditas que entre os deuses exista realmente uma guerra recíproca e terríveis inimizades e combates... Teremos nós, Eutifrone, de afirmar que tudo isto é verdade?"
Nesta pergunta aparentemente pouco devota - mas que, em Sócrates, derivava de uma religiosidade mais profunda e mais pura, ou seja, da busca do Deus verdadeiramente divino - os cristãos dos primeiros séculos reconheceram-se a si mesmos e ao seu caminho. Acolheram a sua fé, não de forma positivista ou como a via de fuga de desejos não realizados, mas como uma diluição da neblina da religião mitológica, deixando espaço à descoberta daquele Deus que é Razão criadora e, ao mesmo tempo, Razão-Amor. Por isso, ao interrogar-se da razão sobre o Deus maior e também sobre a verdadeira natureza e o autêntico sentido do ser humano, era para eles, não uma forma problemática de falta de religiosidade, mas fazia parte da essência do seu modo de serem religiosos. Por conseguinte, eles não tinham necessidade de diluir ou abandonar o questionamento socrático, mas podiam, aliás deviam, acolhê-lo e reconhecer, como parte da sua própria identidade, a árdua busca da razão para alcançar o conhecimento da verdade inteira. Assim podia, aliás devia, no âmbito da fé cristã, no mundo cristão, nascer a universidade.
3.O estilo do discurso de Bento XVI - do qual, hoje, só apresento a introdução - não é fácil para uma leitura de jornal. Ao procurar os fundamentos das relações entre a fé cristã e a razão, no horizonte da busca da verdade, num contexto de relativismo cultural, parece que não quer deixar nada por dizer, embora se note que também ele anda à procura. Veremos quais são os caminhos que propõe para a articulação das ciências, da filosofia e da teologia na universidade. S. Tomás de Aquino, celebrado amanhã na Igreja católica, começou a tornar-se o seu guia.
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fevereiro 02, 2008
Manifesto.
...sobre a situação que se vive no ensino básico e secundário. Para quem quiser inteirar-se, criticar, apoiar ou divulgar. Bom sábado.
Manifesto professores em luta
Colegas!
PROFSEMLUTA é um movimento de professores independentemente de qualquer filiação organizacional (partidária ou sindical) que contesta o Estatuto da Carreira Docente, o novo modelo de gestão escolar e o Decreto Regulamentar da avaliação de desempenho.
Já fez uma primeira reunião no sábado dia 12 de Janeiro em Caldas da Rainha.
Encontra-se agendada uma segunda reunião, sábado dia 09 de Fevereiro, nesta mesma cidade.
Se concordas com o MANIFESTO divulga-o o mais possível . (Se não é professor/professora pode passar esta mensagem a quem o seja).
Para mais informações usa o seguinte e-mail profsemluta@hotmail.com
MANIFESTO
Os professores estão a atravessar o momento mais negro da sua vida profissional desde o 25 de Abril. Com um pacote legislativo concebido em sucessivas fases, começando pelo novo Estatuto da Carreira Docente e culminando com o novo modelo de gestão escolar, passando pelo Decreto Regulamentar da avaliação de desempenho, a actual equipa do Ministério da Educação desferiu um golpe profundo na imagem social dos professores, na sua identidade enquanto grupo profissional e nas condições materiais e simbólicas necessárias para que os mesmos se empenhem na qualidade do ensino. A um sentimento de enorme frustração soma-se hoje a insegurança quanto ao futuro profissional, uma insegurança decorrente de todos os mecanismos de fragilização da carreira e de instabilidade de emprego que o governo actual tem vindo a introduzir.
Torna-se agora cada vez mais evidente que os professores deste país foram as cobaias de um ataque aos direitos laborais, segundo uma receita de efeitos garantidos: uma campanha inicial de difamação orquestrada com a cumplicidade de uma comunicação social subserviente, que visou justificar, no plano retórico e propagandístico, a redução sistemática de direitos no plano jurídico. Hoje é também óbvio que este programa teve como objectivo essencial a quebra do estatuto salarial dos professores, que passaram a trabalhar mais pelo mesmo dinheiro, que viram a progressão na carreira arbitrariamente interrompida, e que foram, desse modo, uma das principais fontes drenadas pelo governo para satisfazer a sua obsessão de combate ao défice.
Hostilizados por uma opinião pública intoxicada e impreparada para reconhecer aos docentes a relevância da sua profissão, desprovidos dos meios legais e materiais que lhes permitiriam dignificar o seu trabalho, é com fatalismo, entremeado por uma revolta surda, que os professores deste país encaram hoje o futuro mais próximo. Muitos consideram o Estatuto da Carreira Docente como um facto consumado, procurando adaptar-se-lhe o melhor possível. No entanto, as piores consequências desse Estatuto só agora começarão a revelar-se, e há sinais de que a ofensiva do governo contra os professores e contra a escola pública não chegou ainda ao fim:
• Este ano vai ter início o processo de avaliação do desempenho, pautado pela burocratização extrema, por critérios arbitrários e insuficientemente justificados que poderão abrir a porta para acentuar o clima de divisão e a quebra de solidariedade entre os professores, para «ajustes de contas» adiados, para a perseguição aos profissionais que se desviem da ideologia pedagógica dominante, para a subordinação dos resultados dos alunos à demagogia ministerial do sucesso escolar compulsivo.
• O governo prepara-se para aprovar, sem discussão pública que mereça esse nome, um novo modelo de gestão escolar que se traduz pela redução ainda maior da democracia nos estabelecimentos de ensino, já antecipada ao nível do Estatuto da Carreira Docente, pela diminuição drástica da influência dos professores, atirados para uma posição subalterna nos órgãos directivos, pela sua subordinação a instâncias externas, muitas vezes movidas por interesses opostos ao rigor e à exigência do processo educativo.
• Finalmente, o governo tem também a intenção de suprimir as nomeações definitivas para a grande maioria dos funcionários públicos, iniciativa que terá particular incidência numa classe docente cuja garantia de emprego já está, em muitos casos, consideravelmente ameaçada.
Tudo isto deveria impor, desde já, a mobilização dos professores e o abandono de uma postura de resignação. Não há processos legislativos irreversíveis. Por outro lado, não podemos esperar por uma simples mudança de ciclo eleitoral ou de legislatura para que o ataque à nossa condição profissional seja invertido. Ninguém, a não sermos nós, poderá lutar pelos nossos direitos.
Por tudo isto, e para contrariar a atitude cabisbaixa que impera entre a classe docente, consideramos importante lançar um conjunto de iniciativas, algumas delas faseadas, outras que poderão ser desenvolvidas em paralelo. Assim, propomos:
- apoiar o movimento, que começa a surgir na blogosfera dedicada à nossa profissão, no sentido de se alargar o prazo de discussão do novo modelo de gestão escolar, e organizar nas escolas espaços de debate desse projecto-lei, tendo o cuidado de o situar no quadro mais geral dos constrangimentos legislativos a que hoje se encontra sujeita a nossa actividade profissional;
- promover, nas diferentes escolas e nos agrupamentos de escolas, a discussão sobre as condições de aplicação do Decreto que regulamenta a avaliação de desempenho dos professores, tendo em conta a necessidade de se fixar critérios mínimos de rigor e de justiça nessa avaliação, e considerando que, se a avaliação dos alunos tem sido objecto de muita elucubração teórica, as escolas se preparam para avaliar os docentes sem ponderarem devidamente as dificuldades científicas e deontológicas que semelhante processo suscita;
- encetar um processo de contestação do Estatuto da Carreira Docente nos tribunais portugueses e nas instâncias judiciais europeias, considerando que esse diploma atinge direitos que não são simplesmente corporativos, mas que constituem a base mínima da dignificação de qualquer actividade profissional.
- pressionar os sindicatos para que estes retomem os canais de comunicação com os professores e efectuem um trabalho de proximidade junto destes, o qual passa pela deslocação regular dos seus representantes às escolas a fim de auscultar directamente os professores e de discutir com eles as iniciativas a desenvolver;
- contactar jornalistas e opinion-makers que, em diferentes órgãos de comunicação, tenham mostrado compreensão pelas razões do descontentamento dos professores e apreensão perante o rumo do sistema de ensino em Portugal, no intuito de os incentivar a prosseguirem com a linha crítica das suas intervenções e de lhes fornecer informação sobre o que se passa nas escolas;
- propor políticas educativas que se possam constituir em defesa de uma escola pública de qualidade, que não seja encarada como simples depósito de crianças e de adolescentes e como fábrica de «sucesso escolar» estatístico, políticas capazes de fornecer alternativas para as orientações globais do Ministério da Educação e para as reformas mais gravosas que o mesmo introduziu na nossa profissão.
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janeiro 30, 2008
Barroso, tradição da matança do porco
Publicado por morfeu às 09:58 PM | Comentários (0) | TrackBack
janeiro 23, 2008
Professores doentes: crueldade e lamentos...
... a primeira identificando-se com legislação cega, os segundos como resultado da política de bom entendimento de Sua Exª o Srº Presidente da República ... enfim...
Ministério da Educação insiste na colocação de professores incapacitados na mobilidade especial
23.01.2008, Isabel Leiria
A nova proposta do Ministério da Educação (ME) para reconverter os mais de dois mil professores que, por razões médicas, foram declarados incapazes de dar aulas mas que estão nas escolas a desenvolver outras actividades, mantém o essencial.
A ser aprovada a alteração, os professores nestas circunstâncias vão ter de mudar de carreira dentro da administração pública e, se não o conseguirem, passam a integrar o regime da "mobilidade especial". O que significa que, se após um determinado período de tempo não conseguirem a sua reintegração, vêem o salário progressivamente reduzido.
Os sindicatos foram chamados para nova ronda negocial amanhã, mas a tónica será ainda de discordância. Isto porque entendem que os professores em causa devem poder permanecer nas escolas a realizar as tarefas que lhes têm sido atribuídas (nas bibliotecas, no apoio aos alunos, etc.). Até porque muitos estão numa situação de particular vulnerabilidade.
Não é esse o entendimento do Governo, que considera ser necessária uma gestão mais racional dos recursos humanos. Assim, um professor in-
capacitado para a docência que não requeira voluntariamente ser incluído no regime da mobilidade especial tem de ser sujeito a um processo de reconversão profissional para outra carreira. Com excepção dos docentes que tenham determinadas doenças incapacitantes especialmente protegidas por lei, designadamente do foro oncológico.
O processo inicia-se com a manifestação de preferências por parte dos candidatos. E complica-se se o serviço requerido não estiver interessado em receber um novo funcionário. Resta-
-lhe então passar à situação de licença sem vencimento, reformar-se se tiver o tempo de serviço exigido ou pedir a aposentação. Se lhe for negada por se entender que a doença não justifica a reforma antecipada, entra no regime de mobilidade especial. A grande diferença face ao regime em vigor, aprovado em 2006, é que desaparece a possibilidade de o docente que não pode aposentar-se por falta de tempo de serviço manter-se na escola.
A proposta é "de uma crueldade sem nome contra os professores do-
entes", indigna-se Lídia Menezes, uma professora de 60 anos que sofre de osteoperose agravada. Há nove anos que foi declarada incapacitada para a docência - "mas nunca me deixei de empenhar na escola", garante - e, apesar do agravamento do seu estado, viu o pedido de reforma por invalidez recusado por uma junta médica, em 2006.Depois tentou a reconversão profissional e ser integrada numa junta de freguesia. E estaria tudo bem não fora o salário que recebe ser impraticável para o orçamento da junta. Escreveu ao Presidente da República, que lamentou o caso e reenviou a exposição ao ME. Mas o "desespero" continua, agora com a perspectiva da passagem à mobilidade especial.
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janeiro 19, 2008
Quando os profs não falam em dinheiro.
Hoje o Expresso fala-nos de números. Ficam-nos para meditação...

(Foto/caricatura in Jornal Expresso de 20 de Janeiro de 2008)
Tenho mantido uma quase total reserva em falar nas convulsões da Educação. Tenho consciencia de que tem sido necessário alterar comportamentos e situações. Porém, este governo, com a bandeira do défice em riste, desenvolveu um emaranhado de medidas que mais não são que verniz para "os portugueses que a Srª Ministra ganhou, tendo perdido as professores" (uma das mais brilhantes afirmações destes tempos de brasa), que estão a provocar um enorme mal estar entre a classe. Muitos foram os que votaram em Sócrates e Ps ... eu pessoalmente aguardo as próximas eleições para lhes retirar o meu voto na esperança de pelo menos abater esta execrável maioria absoluta, que permite aquilo a que chamarei: "Ditadura democrática". Estamos cheios de papelada em decretos e portarias e quejandos, que só complicam. E, pergunto eu agora: Alguma vez viram ou ouviram os profs falar em aumentos? Ordenados congelados, carreiras modificadas, estatuto tipo big brother - ver o novo sistema de avaliação - reformas...não será uma carga excessiva?
Hoje o Expresso fala-nos de números. Ficam-nos para meditação...
Publicado por morfeu às 10:12 AM | Comentários (0) | TrackBack
janeiro 13, 2008
Da confissão "auricular" às "penas do Inferno".
Da minha antiga práctica religiosa, confesso que pequei um bocado ao confessar-me...principalmente quando o padre confessor queria saber "determinadas" coisas... mas como havia a absolvição final, a coisa compunha-se e vinha de alma lavada até ao primeiro pecadilho.
Bento Domingues, em mais uma das suas muito humanas e simultaneamente eruditas intervenções no jornal Público,
ajuda-nos a refectir sobre a questão.
O embaraço da confissão
Frei Bento Domingues O.P. - 20080113
No Ocidente, a maioria dos padres não manifesta grande pressa em "ouvir confissões"
1.Este é o título dado a um debate que terei de orientar amanhã, no Convento de S. Domingos, no programa das conferências mensais do Instituto São Tomás de Aquino (ISTA). Onde estará, porém, o embaraço, se, ainda não há muitos anos, o Catecismo da Igreja Católica e o Código de Direito Canónico, assim como as instruções de João Paulo II sobre O Sacramento da Penitência, foram tão desembaraçados a dizer o que é e como deve ser a "confissão auricular"?
O mal-estar vem de longe, reforçou-se com o Vaticano II e há quem tema e quem deseje que a confissão desapareça de vez. Entre nós, foi D. António Ferreira Gomes que, nas suas Cartas ao Papa, escreveu o que muitos pensavam e não diziam: "Factos são factos e o facto é que hoje, em grande escala, pequenos e grandes fogem do confessionário, sendo essa a maior causa da "descrença" de muitos que intimamente aceitam Cristo e o Evangelho."
Segundo o historiador J. Delumeau (1), todas as cronologias destinadas aos alunos do ensino secundário deveriam dar um grande relevo à decisão do IV Concílio de Latrão (1215) que tornou a confissão anual obrigatória. Esta norma modificou a vida religiosa e psicológica dos homens e das mulheres do Ocidente e pesou espantosamente nas mentalidades, até à Reforma nos países protestantes e até ao século XX nos que permaneceram católicos.
Como observa o monge beneditino Philippe Rouillard, professor de Teologia dos Sacramentos e da Liturgia, em muitas igrejas, os confessionários já só têm um valor de vestígio, se não foram comprados por antiquários para os transformar noutra coisa. V. Gómez Mier descreveu um desejado Adiós al Confesionario. Sem se poder generalizar, a verdade é que, no Ocidente, a maioria dos padres não manifesta grande pressa em "ouvir confissões", são cada vez menos os fiéis que pedem para "se confessar" e a maior parte dos que participam na missa de domingo avança para a Comunhão sem recorrer a esse ritual.
2.Apesar de todo este mal-estar, o citado Ph. Rouillard observa que, salvo no círculo muito restrito dos especialistas da liturgia, a confissão não provocou muitas investigações. Os historiadores que se poderiam interessar pelo assunto são católicos e não se sentiriam muito à vontade para abordar uma questão que os incomoda. Os confessores nunca poderiam dar qualquer informação por razões de absoluto sigilo (2). No entanto, não estamos completamente às escuras acerca da história da confissão. Além de estudos parciais, da "História" de C. Vogel sobre o pecador e a penitência na Igreja antiga e na Idade Média e da obra muito conhecida de J. Delumeau, um grupo de investigadores reuniu-se, durante 25 anos, para nos oferecer excelentes versões das "Práticas da confissão", desde os Padres do Deserto (IV-V) até ao Vaticano II.
Em face da contestação protestante, o Concílio de Trento (1545-1563) procurou fazer do sacramento da penitência o sustentáculo de toda a vida cristã. Se isto teve um grande êxito em muitos casos, acabou por minimizar a importância da Eucaristia e de alterar o seu verdadeiro sentido. A hostilidade que gerou, a partir do século XVIII, coincide com a afirmação progressiva dos direitos humanos e da autonomia da consciência, na qual ninguém pode mandar.
No século XX, a Congregação dos Sacramentos decidiu em 1910, por decreto, a idade do "uso da razão" - por volta dos 7 anos - para aceder à Primeira Comunhão eucarística, precedida de confissão.
As ameaças com as penas do inferno para quem não confessava os pecados mortais, incluindo, então, as crianças e os adolescentes, foi talvez um dos maiores desastres da pastoral da Igreja em toda a sua história. Não vale a pena perder muito tempo com esse detestável passado inquisitorial.
3.Não posso explicitar nem justificar, de modo adequado, uma perspectiva que entende o caminho cristão como uma conversão permanente, celebrada no Baptismo é retomada em todas as celebrações da Eucaristia.
As orientações na evangelização e na pastoral devem ter em conta a diversidade cultural, a promoção dos direitos humanos e o respeito pela consciência inviolável de cada um. No campo propriamente sacramental, é preciso, antes de mais, respeitar a sua hierarquia. Se a porta é o Baptismo, o mais importante dos sacramentos é a Eucaristia, que é também o grande sacramento da confissão dos pecados, da misericórdia e do perdão de Deus. Esta dimensão, iluminada pela proclamação da palavra do Evangelho, percorre toda a missa. Quando não se ajuda a perceber isto, arruina-se o que se pretende salvar com a "confissão auricular".
Certas práticas da confissão não foram apenas grandes crimes do ponto de vista cristão, foram também uma constante e infame desvalorização da Eucaristia como sacramento do perdão.
A Igreja viveu cerca de 12 séculos sem a norma da confissão auricular e Santo Agostinho nunca se confessou.
(1) L"Aveu et le Pardon: les difficultés de confession, XIII-XVIII siècle, Paris Fayard, 1990, pp. 13-14.
(2) Philippe Rouillard, História da penitência - Das origens aos nossos dias, Paulus, São Paulo, 1999.
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janeiro 05, 2008
Ser reconhecido... sg. A. Borges.Sugiro.
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janeiro 03, 2008
Foto-galeria 2007...sugiro.
Recolhido in: Jornal Público.
Publicado por morfeu às 11:45 AM | Comentários (6) | TrackBack
dezembro 04, 2007
Aprenda a bater na...mulher, em poucas lições...
sem comentário...julgue por si
Publicado por morfeu às 06:53 PM | Comentários (0) | TrackBack
novembro 30, 2007
É o que acontece...
A arte de Mário Viegas em rifão popular. Que nos sirva a todos...
Publicado por morfeu às 01:19 PM | Comentários (0) | TrackBack
novembro 21, 2007
Prémio nacional de professores
...para informação e meditação...
In: Público de 21/11/07 (edição on-line por subscrição)
Prémio Nacional de Professores Arsélio Martins
21.11.2007
"Quando perco um aluno é uma desgraça completa"
Quando chegou a Vialonga, em 1994, Armandina Soares lembra-se de ter encontrado uma escola "pobre, violenta, em degradação completa". A notícia de colocação naquela escola, numa zona problemática de Vila Franca de Xira, era para muitos professores "uma desgraça", tal a fama. "Poucos lá queriam continuar, mas eu quis."
Lançou mãos à obra para mudar a imagem e as condições de uma escola que tem miúdos de famílias desestruturadas, sem condições económicas ou que mal falam português. Candidatou-se à direcção em 1998 e é à frente do conselho executivo que se tem desdobrado em projectos.
Com persistência e determinação, conseguiu estabilizar o corpo docente e hoje diz que "é difícil encontrar um professor que não se envolva na escola". "Cá dentro não há desmotivação."
Foram estes quase dez anos à frente do Agrupamento de Escolas da Vialonga, com mais de dois mil alunos, que lhe valeram a entrega do Prémio Liderança. Para Nuno Santos, vice-presidente do conselho executivo e um dos principais promotores da sua candidatura, o galardão serve que nem uma luva: "Mesmo com todas as dificuldades, nunca desiste. Insiste junto das pessoas, da sociedade civil, do ministério [da Educação]...."
Um dos últimos projectos ilustra bem a sua determinação. Depois de ter criado uma pequena orquestra de violinos numa das escolas do 1.º ciclo, achou que a iniciativa poderia ser mais ambiciosa e alargou-a a mais 60 miúdos, juntando violetas, violoncelos e contrabaixo. "Todos achámos que era impossível arranjar dinheiro para comprar os instrumentos", diz Nuno Santos. Mas não foi e a ideia agora é alargar aos metais.
À persistência desta professora de 64 anos, nascida no Porto, junta-se a capacidade de trabalho que chega a exasperar os colegas. Num dia normal de trabalho, entra na escola às nove e sai às 19h. E ao fim de 45 anos de actividade, continua a dizer que chega ao fim do dia "tão folgada" como quando o iniciou. "Funciono a um ritmo vertiginoso", diz a professora de ar franzino, garantindo que ainda lhe sobra tempo "para ler, estar com a família e com os netos".
Com idade e tempo de serviço mais do que suficiente para se reformar, esta não é sequer uma hipótese em cima da mesa. "Se passasse à condição de senhora reformada o mais provável era gerar-se um desacato familiar." Será na Vialonga e ainda à frente do conselho executivo, onde se sente mais "útil", que deverá acabar a carreira.
A escola passou a ser um local seguro, o abandono caiu para níveis residuais e o insucesso é baixo, assegura. De resto, e apesar de algum nível de frustração por tudo o que fica por resolver, as recompensas vão surgindo. "Hoje de manhã fiquei satisfeita porque uma menina de 15 anos que estava em risco de abandono voltou à escola. Vivemos destas pequenas vitórias. Por outro lado, a dimensão do problema é tão grande que o que fazemos aqui é uma gota no oceano."
No pátio e nos corredores das escolas não há miúdo que não cumprimente a directora. Faz questão de ser ela própria a conversar com quem se porta pior ou estuda menos. Tem um jeito natural que se tornou evidente desde os tempos em que era aluna da escola primária e levava os colegas com mais dificuldades para sua casa para os ensinar. "A professora Armandina é fixe mas às vezes é um bocado durona. Graças a Deus nunca ralhou comigo", diz Vanda, de 14 anos.
Quanto ao prémio, admite que é agradável ver o trabalho reconhecido mas acredita sobretudo na importância simbólica da distinção. "Estas pessoas precisam de chamadas de atenção que melhorem a sua auto-estima. Geralmente só se fala desta comunidade para dizer mal. Para os pais e para os alunos, ter sido reconhecida como uma pessoa
de mérito é algo que também é deles. Viram na televisão e assumem-no como uma vitória pessoal." Isabel Leiria
a Entre uma aula e outra, Paula Canha aproveita para sair da escola, pega num par de botas impermeáveis e sai na carrinha por um caminho de terra até uma pequena ribeira. Quase a chegar, um pássaro desperta-lhe a atenção. Pára o carro e espreita por uns binóculos para confirmar a espécie.
Depois, já com os pés dentro de água, apanha pedaços de algas que põe dentro de uma lata. Volta ao carro para ir buscar um microscópio de bolso - lá dentro estão também guias de espécies e instrumentos de orientação.
"Neste momento estamos a dar a reprodução sexuada. Eles [os alunos] não têm ideia que as algas também podem reproduzir-se sexualmente. Faço questão que vejam ao vivo como as células se fundem, dão origem a um ovo e daí surge uma alga nova", explica com entusiasmo a professora de Biologia e Geologia da Escola Secundária Dr. Manuel Candeias Gonçalves, em Odemira.
Idas às universidades, saídas durante as aulas até ao rio Mira, que fica do outro lado do quartel dos bombeiros, passeios até à serra para recolher plantas em vias de extinção e tentar garantir a sua reprodução, recolha de ninhos, cadáveres de animais que morrem à beira da estrada e que são levados para a escola para serem reconstituídos os esqueletos - muitos sabem das experiências da professora e avisam "quando encontram qualquer coisa mais estranha".
Estas são algumas das actividades desenvolvidas dentro e fora da escola e que fazem de Paula Canha "uma professora especial", diz Fernando Almeida, vice-presidente do conselho executivo. "Quando vimos que existia este concurso, pensámos logo: nós temos uma pessoa para isto", conta. "Não é porque goste de se evidenciar. É uma pessoa muito discreta e simples. Mas é reconhecida porque o seu trabalho é excelente."
A criatividade na sala de aula, a dinamização de inúmeros projectos com alunos, alguns premiados a nível internacional, e o trabalho à frente do clube de ciências da escola acabaram por resultar na atribuição do Prémio Inovação. "Estou sempre a pensar noutras maneiras de ensinar, sobretudo quando as matérias são mais "intragáveis". É como cozinhar nabos cozidos de forma a que consigam comê-los e que não saibam tão mal."
Da página da disciplina na Internet, com ligações a sites relacionados com os temas, documentários e exercícios, às experiências em laboratório e fora de aulas, passando pela colaboração com universidades e empresas locais são muitas as estratégias que utiliza para cativar os miúdos. E com alguma hão-de "atinar", confia.
Os alunos retribuem com igual empenho e dedicam feriados a saídas de campo e fins-de-semana em acampamentos improvisados dentro da escola a trabalhar nos projectos.
"É incansável a tirar dúvidas." "Contagia-nos com o entusiasmo com que dá as aulas." "É superboa professora e uma grande amiga. Sabemos que mais tarde podemos contar com ela." "Tudo isto não a impede de entregar os testes corrigidos nos dias a seguir. Porque é extremamente profissional e sabe organizar-se. Tem três filhos, uma casa, os viveiros [de aquacultura]...", descreve Samuel. Os alunos do clube de ciências não poupam elogios a Paula Canha, esta bióloga de 43 anos que só mais tarde percebeu que ser professora era a sua vocação. "Houve uma altura em que tive de optar entre dar aulas e continuar no projecto de aquacultura [que lançou em Vila Nova de Milfontes]. Não consegui deixar a escola e percebi que me tinha enganado na profissão... O ambiente não tem nada a ver com o dos negócios. É puro. Os miúdos são muito espontâneos, dizem o que lhes vai na alma. E é um trabalho que não é rotineiro." I.L.
a O contrário de estar out é estar in. E Teresa Pinto de Almeida faz por estar in. "Ninguém quer estar out, nas margens da invisibilidade. O professor, se quer estar próximo dos alunos, tem de estar sempre in." Tem de estar in para, no meio de uma aula onde ele está sempre proibido, anunciar que naquele dia há um exercício para fazer com telemóvel.
Aos 50 anos, Teresa Pinto de Almeida, professora de Inglês há 16 na Escola Secundária Carolina Michaëlis, no Porto, viu o Ministério da Educação entregar-lhe o Prémio Carreira. Ficou orgulhosa, claro, mas quis dedicar a distinção "a todos os professores que, diariamente, dão o seu melhor pelos alunos". "Fiquei sobretudo contente por entender que este é o reconhecimento e valorização da actividade do professor. Este prémio não é meu, dedico-o à classe."
Foi por "circunstâncias várias", e ao arrepio da tradição de família, que Teresa Pinto de Almeida se inscreveu num curso de Filologia Germânica. "Sempre gostei de línguas pela capacidade que elas têm de desenvolver as competências interculturais." Hoje é isso que põe em prática nas aulas. "Uma língua estrangeira é um espaço privilegiado para promover a interculturalidade e para preparar os alunos para o exercício da cidadania."
E se há 28 anos, quando começou a carreira numa escola de Vila do Conde, o ensino era mais "elitista", hoje "a diversidade de públicos obriga a que as aulas sejam preparadas com base numa diferenciação pedagógica", diz. "Hoje é muito mais complexo ser professor."
Antes de tudo, o professor é "um organizador de aprendizagens" mas, porque a sociedade "exige cada vez mais à escola", tem também de ser "mobilizador dos alunos em torno da realização de projectos que eles vêem como importantes para a sua vida". E tem ainda de ser "um amigo". É por tudo isto que as suas aulas são pensadas ao pormenor. "Está provado que o tempo de atenção do aluno numa sessão expositiva é muito reduzido, pelo que as aulas têm de ser muito dinâmicas", explica. As dela são mais ou menos assim: tenta sempre abordar "temas de actualidade", usa as novas tecnologias, leva à sala native speakers (uma turma do 8.º ano entrevistou o treinador de futebol Bobby Robson), alterna as actividades de reading, listening, speaking - reserva sempre uma parte "para a apresentação de trabalhos" porque, insiste, assim prepara os alunos "para o exercício da cidadania participativa".
E porquê o Prémio Carreira? O currículo fala por Teresa Pinto de Almeida: em 2000 terminou o mestrado em Estudos Anglo-Americanos; é autora de manuais escolares (também para Angola) e dos programas da disciplina (também para São Tomé e Príncipe); orienta a formação inicial e contínua de professores. "Todas estas actividades possibilitaram-me experiências privilegiadas. Contactei com muitos professores, com as mais variadas idiossincrasias, e aprendi com todos eles."
Carla Duarte, presidente do conselho executivo, que marcou para esta tarde uma sessão de homenagem a Teresa Pinto de Almeida, diz que, por tudo o que fez pelos alunos e pela escola, o nome dela "foi imediatamente consensual" para apresentar uma candidatura ao concurso nacional de professores. A aposta foi ganha, já se viu. "Ficámos muito satisfeitos com o prémio porque é também uma forma de dar visibilidade à escola e ao seu projecto educativo." S.S.C.
a Será enfado? "Com esta coisa quase deixei de ter tempo para o que gosto..." Modéstia? "Isto é circo", diz, referindo-se aos autocolantes que espalharam a sua cara por tudo o que é parede da escola - "Estamos muito contentes!". Ironia? "Se calhar ganhei porque o júri reconheceu a minha tralha consolidada."
Talvez uma soma disto tudo ou nada disto. Há uma verdade e é esta: a vida de Arsélio Martins, 59 anos, quase deixou de lhe pertencer desde que foi anunciado como vencedor da primeira edição do Prémio Nacional de Professores. Não é que ter jornalistas à perna durante uma semana o aborreça; só que ele tem cada vez menos tempo. "E o que eu mais preciso enquanto professor é de tempo", explica, depois de uma aula de 90 minutos do 10.º B da Escola Secundária José Estêvão, em Aveiro.
A escola está "muito contente", já percebemos. Ele, professor de Matemática há 35 anos, está sobretudo "honrado" por ter sido distinguido no seio da escola de José Pereira Tavares (1887-1983), professor e reitor do então Liceu de Aveiro. "Ao pé deste tipo sinto-me um nabo." Não há quem confirme esta informação. Funcionária de olhos verdes escondidos atrás de uns óculos: "O professor Arsélio é espectacular. É um homem pequeno mas uma grande pessoa." Ana Santos, aluna do 10.º B: "É diferente de todos os professores que já tive. Consegue tornar a Matemática mais simples e explica que ela está em tudo o que fazemos." Maria da Luz, professora de Matemática: "Não desiste enquanto não faz os alunos perceber o que ele está a explicar." Alcino Carvalho, presidente do conselho executivo: "Não se esgota na faceta de professor."
E agora, professor Arsélio? "Eu sou basicamente um produto da educação. Sou filho de camponeses de Santo André, Vagos, fui criado por uma irmã, quis ser padre mas a minha família não deixou, tentei ser marinheiro porque achava que era a melhor maneira de ser poeta." Não sabe se foi por acaso que foi parar a um curso de Matemática Pura. "Não era bom nem mau aluno, mas não houve nenhuma paixão assolapada."
Com verdadeira paixão fala da sua intervenção cívica. Foi dirigente associativo, envolveu-se na política (é deputado municipal pelo Bloco de Esquerda), tem um blogue (aveiro.blogspot.com/). No campo da educação, foi presidente do conselho executivo da José Estêvão, orientou estágios, dirigiu o Centro de Formação de Escolas de Aveiro, foi co-autor dos programas da disciplina, fundou o Sindicato dos Professores do Norte.
Na sala de aula - "a parte mais difícil, a relação directa com os alunos, mas também a que mais me realiza" - o que mais lhe interessa é "não perder nenhum aluno". "Quando perco um é uma desgraça completa", diz. E o segredo, se é que é segredo, é "arranjar estratégias que possam ir ao encontro das necessidades de cada um".
Defende que a melhor forma de potenciar o sucesso numa disciplina como a Matemática é permitir que os alunos tenham o mesmo professor ao longo de um ciclo de estudos - "eu tenho de ter persistência, respiração e tempo". Não dá "nada em papel aos alunos, para eles se habituarem a tirar notas", constrói com as próprias mãos sólidos geométricos para mostrar aos estudantes, maneja com destreza o quadro interactivo - "uma óptima ferramenta". "Sou um professor clássico que foi incorporando tudo o que há de moderno." Mas não é um professor modelo. "Ninguém deve imitar-me. Meti muita água. Mas faço o que gosto e melhor do que isso não há no mercado." Sandra Silva Costa
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novembro 11, 2007
Quem cala consente...sugiro.
Descubra porque não se deve calar e consentir
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novembro 10, 2007
A beleza religiosa no "cais das lágrimas dos portugueses"...
"A religião sem a beleza é inverdadeira. Sem o gratuito - a graça -, é uma desgraça. "
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novembro 04, 2007
Religioso: "deserto" e " superabundância"...sugiro

"Se uns insistem no deserto religioso, outros mostram a superabundância de religiões".
O futuro do cristianismo
Frei Bento Domingues O.P. - 20071104
Se uns insistem no deserto religioso, outros mostram a superabundância de religiões1.Não faltam ensaios acerca do futuro da religião (1). Por natureza, do futuro não se pode saber muito. É sensato continuar com o debate aberto em todos os campos. A retórica da decadência regala-se a dizer que, depois do ateísmo dogmático, que deu cobertura ideológica a sistemas intolerantes, emerge, agora, o ateísmo da indiferença. O nome da nossa cultura fragmentária seria o niilismo, a luz de nada. Viveríamos no eclipse de Deus, na sua ausência e sem notícias Dele. Como se Ele não existisse. A experiência predominante passaria a ser, precisamente, a de já não se fazer nenhuma experiência religiosa, isto é, de não se ser afectado nem, muito menos, transformado por algo que possa evocar Deus. Mas que dizemos, quando dizemos Deus?
Porque não evocar também o fenómeno contrário, o erradamente chamado "regresso do religioso" de mil manifestações? Não é bom confundir o mundo com a sociologia dos nossos contactos e das nossas leituras.
A. Rañada, um físico espanhol, dizia acerca das relações entre ciência e religião: os fundamentalistas religiosos e os ateus militantes têm alguma coisa em comum. Crêem que toda a geografia do mundo cabe num só mapa: o da interpretação intransigente de um livro sagrado ou o dos dados de uma ciência excludente e totalizadora. No entanto, quando olhamos à nossa volta, assalta-nos, de imediato, a complexidade das coisas sempre enredadas num intrincadíssimo emaranhado de conexões causais. E como reduzir a esquemas simples os nossos desejos, temores, esperanças ou recordações? Como poderiam caber num único mapa?
2.A situação é paradoxal. Se uns insistem no deserto religioso do nosso tempo, outros mostram a superabundância de religiões, de espiritualidades, de antigas e novas correntes e movimentos, num mundo cada vez mais global. Quem pensa que as religiões estão a acabar percorra, devagar, o magnífico L"Atlas des Religions (1) e verá que o mais urgente é o diálogo inter-religioso e também entre crentes e não-crentes. Não perdeu actualidade a repetida exigência de Hans Küng: "Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso planeta sem um ethos global, um ethos mundial." Isso está à vista e só os cegos por interesses imediatos não querem ver.
Por outro lado, o diálogo não existe nem para abolir identidades nem para a sua pura afirmação. Num diálogo verdadeiro, todos mudam sem se anularem. É, por isso, necessário que cada um se tome responsável pela sua religião, pelas imagens que faz de Deus e do ser humano.
3.Há dois anos, publiquei aqui um texto intitulado "Deus em Valadares". Era sobre um ambicioso congresso internacional, que tinha superado todas as expectativas, com o tema Deus no século XXI e o futuro do cristianismo, coordenado por Anselmo Borges. Está, agora, à disposição de todos numa bela edição (Campo das Letras). A capa é de José Rodrigues.
Às vezes, o que os títulos anunciam não corresponde ao conteúdo. Os textos desta obra correspondem, exactamente, ao que anunciam. Vêm de Espanha, da Holanda, da Alemanha, do México, do Japão e de Portugal. Nos tempos modernos, a língua portuguesa não está muito habituada a falar de teologia, que, apesar de tudo, por se ter tornado crítica, conseguiu altas cotas de dignidade e de rigor conceptual. Soube dialogar com os sistemas filosóficos, abertamente ateus, que surgiram na história ocidental (Feuerbach, Marx, Nietzsche, Freud...) e, agora, não recusa o encontro com o mundo das diversas ciências.
Os textos do congresso, recolhidos neste livro, não pairam num clima de teologia incontaminada. Também não são um intercâmbio metódico entre ciências e teologias. As diversas expressões da teologia e das ciências respiraram, num espaço cultural multifacetado, a busca do sentido da existência humana, no qual se desenha também o futuro do cristianismo. Este não pode ser procurado num regime de clausura entre experiências humanas, sabedorias, filosofias, éticas e ciências. O cristianismo é incarnação sem confusão. A graça não suprime a natureza. É esse o valor da definição do Concílio de Calcedónia: "Jesus Cristo é um só, mas em duas naturezas." É evidente que esta fórmula é tributária de uma cultura que já não é a do nosso tempo, mas serve para dizer que Cristo está em tudo, mas não é tudo. Deixará, por isso, sempre a liberdade a todas as investigações e a todas as experiências responsáveis.
Anselmo Borges teve ainda a feliz ideia de incorporar, neste livro, o itinerário-testamento do teólogo dominicano E. Schillebeeckx, professor da Universidade de Nimega. Tem sido uma das vozes da Igreja, mais livre, corajosa e responsável, alimentada por um pensamento sempre em mudança, testemunhado, de forma exemplar, neste texto admirável.
(1) Alberto G. Martínez, El futuro de la religión, "Studium", 2005, Fasc 3, 345-385. / (2) "Pays par pays. Les clés de la géopolitique", La Vie, Le Monde, Hors-série, 2007
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novembro 01, 2007
Esta vida de professor, está a dar cabo de mim...
...naa,na naranara,naranarana....à falta de gente idónea e com eles no sítio que tenham a independência e a coragem - então Srºs deputados, então partidos, então Srº Presidente da república, então patriarcas, autarcas, bispos e reitores...- registo a contribuição pela segunda vez no meu blogue de alguém conhecido, com status científico, embora controversa...valha-nos em dia de todos-os-santos, Santa Filomena Mónica...com a devida vénia aí fica em entrada estendida a intervenção...
Deixem os professores em paz
Maria Filomena Mónica - 2007/11/01(público)
Um professor precisa de uma sólida preparação de base, prestígio junto da comunidade e autonomia de acçãoNão conheço muitos professores do ensino básico e secundário, mas o contacto que, ao longo dos anos, venho mantendo com alguns e o facto de ter netos a frequentar a escolaridade obrigatória permite-me ter uma ideia mínima do que se passa nas escolas. Aliás, se não me posso pronunciar com mais profundidade sobre estes graus de ensino não é responsabilidade minha, mas das leis que o Ministério da Educação promulga.
Há quatro ou cinco anos, ofereci-me para, durante um ano lectivo, leccionar História em qualquer grau de ensino não superior, coisa que um jurista do ministério me explicou ser impossível, por ter "habilitações a mais". O meu plano era analisar o ambiente de uma escola da periferia de Lisboa com o objectivo de, no final do ano, escrever um livro. Pelos vistos, faltava-me percorrer o calvário a que estes docentes são sujeitos.
É fácil deitar a culpa dos males do ensino para cima dos professores. No sossego do lar, eu própria já o fiz, mas as coisas chegaram a um ponto que o ataque a esta classe, especialmente se vindo do ministério, é indecoroso. Para se ser bom docente, são precisas três coisas: uma sólida preparação de base, prestígio junto da comunidade e autonomia de acção. A isto pode juntar-se a paixão pelo que se lecciona, um ideal que nem todos podem atingir. Ora que vemos? O Estado prepara mal os docentes (obrigando-os a frequentar cursos mal estruturados e estágios baseados em cursos recheados de jargão inútil), mina o seu status profissional e pretende regulamentar tudo o que se passa na sala de aula. Não estou a falar do curricula, que, esse sim, compete ao poder central elaborar, mas das centenas de despachos normativos, regulamentos e grelhas que atulham as caixas de correio das escolas. Depois de lhes ter dado uma educação deficiente, de ter transformado a sua carreira num pesadelo, de lhes ter retirado a possibilidade de inovar, o Estado dá-se ao luxo de os olhar com desconfiança.
Estou consciente de que, como em todas as profissões, há ovelhas ranhosas dentro da classe. Mas este problema só pode ser resolvido por uma direcção escolar composta de forma diferente e por um sistema de ensino mais flexível do que aquele que existe. Para mal dos nossos pecados, nenhum governo teve coragem para alterar o esquema de organização das escolas, muito menos para deitar abaixo o bloco monolítico que para aí anda a cambalear. Um director empenhado fará sempre a diferença. Tendo começado bem, a actual ministra derrapou e o primeiro-ministro lembrou-se de usar o velho truque de tentar isolar o sindicato das suas bases. Jamais defendi actuar este de forma imaculada - considero até que a maior parte das suas ideias é errada -, mas a degradação do ensino não é fundamentalmente culpa sua, uma vez que o sindicato só interfere porque o poder o deixa. Finalmente, a aparição, no dia 8 de Outubro, de polícias à civil na sede do sindicato na Covilhã, de onde levaram documentos relativos a uma anunciada manifestação contra o engenheiro Sócrates é inadmissível. Só um país apático aceita as conclusões idiotas que, após um chamado "inquérito", o Governo tornou públicas.
Deixo de lado as paranóias do primeiro-ministro para me centrar no tema deste artigo. Para além de terem de leccionar programas imbecis, de passarem a vida a girar de uma escola para outra, de serem sujeitos a avaliações surrealistas, os professores são obrigados a aturar alunos malcriados. Há tempos, um professor contou-me ter sido agredido por um aluno de 17 anos, tendo-me em seguida explicado que decidira não responder à letra ao matulão, porque isso implicaria um processo disciplinar contra ele, docente, e não contra o aluno. Mas não é apenas a violência, mas a apatia que mina a escola. Recordam-se daquela reportagem da RTP1, em que se via uma turma onde, farta de ouvir a lição, uma miúda se punha a varrer o chão? É com isto que, dia após dia, após dia, muitos docentes se defrontam.
Há 30 anos, quando os meus filhos entraram para o ciclo preparatório (actuais 5.º e 6.º anos), numa escola pública (a Manuel da Maia), ao lado do Casal Ventoso, quase todos os alunos pertenciam à burguesia. O ambiente que ali se respirava reflectia a cultura que as crianças traziam de casa: mesmo quando não livresco, o ethos era hierárquico. Com a evolução da sociedade portuguesa - e não o devemos lamentar - tudo isto mudou. Muitos dos alunos provêm agora de meios sócio-económicos baixos e são fruto de gerações de analfabetos. É com crianças educadas à base de telenovelas e de "saberes" aprendidos na rua que os professores têm de lidar. Como se isto não bastasse, a escola é forçada a desempenhar funções que, em princípio, lhe não competiria, tais como cuidar de miúdas que engravidam aos 13 anos e de rapazes que consomem drogas.
Não quero pensar no que é a vida de uma jovem, com filhos pequenos, que diariamente tem de fazer quilómetros, a fim de chegar ao estabelecimento escolar para o qual foi "destacada" - só o termo me horroriza! -, onde é obrigada a enfrentar crianças para quem o ensino é uma maçada. Em geral, sou pouco condescendente com as "baixas" justificadas por atestados que confirmam doenças psíquicas, mas, no caso dos professores, tenho de abrir uma excepção. Só no último mês, deparei-me com duas professoras que se tinham ido abaixo. Nenhuma ensinava, repare-se, em zonas socialmente turbulentas: uma leccionava numa aldeia perto de Viseu, a outra em Évora. O que as afectara fora a ausência de independência dentro da sala de aula: ambas se sentiam marionetes numa peça que não tinham escrito. Sem programas bem feitos, sem manuais decentes, sem incentivos para se actualizarem, a vida dos professores transformou-se num inferno. Professora universitária
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outubro 29, 2007
Portugal, retrato social, sugiro.
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outubro 23, 2007
Não me calo nem aceito...
Impressionou-me, escandalizou-me, ou-me tanto que nem sei o que diga. Tanto quanto se fora uma tipa com a zona púbica em exposição intencional, "negligée, como agora se vê, desde a jovem estudante em sala de aula até à esposa-família dedicada...assim, não aceito e verbero todo o fundamentalismo e o falso pudor cultural que empana seres humanos num negritude definitiva...quem está por debaixo desse negro cobrimento, onde a expressão, o olhar a cor o tudo de um ser humano? Que os homens que vos obrigam sejam eternamente condenados a tal empanamento. Não acredito que alguém assim vestido, refiro-me à mulher de negro, não sofra e de acordo com a causa em questão, será sofrimento sobre sofrimento. Maldigo-vos carrascos culturais e fundamentalistas que não permitem a liberdade de um movimento que seja, o de uma pálpebra que se flicta...quero ser politicamente incorrecto!

23.10.2007
Falar sobre o cancro da mama, a doença que mais mulheres mata nos Estados Unidos e no Médio Oriente, é o objectivo da viagem que a primeira-dama Laura Bush está a fazer, misturando diplomacia e saúde. Hoje estará na Arábia Saudita, ontem esteve nos Emirados Árabes Unidos e, até sexta-feira, ainda há-de ir ao Kuwait e à Jordânia. "Acho muito importante que os habitantes do Médio Oriente saibam que nos EUA nos preocupamos com a saúde das mulheres, porque ainda há muito medo e vergonha aqui, como nós tínhamos há 25 anos", disse Laura Bush. Na Arábia Saudita, 20 por cento dos casos de cancro são da mama. E 70 por cento das doentes são diagnosticadas quando a doença já está muito avançada, quando nos países ocidentais isso só acontece em 30 por cento dos casos. Ontem, no Abu Dhabi, Laura Bush falou com mulheres envoltas em véus negros - sobreviventes de cancro da mama, que contaram as suas histórias pessoais ao lado da primeira-dama.
Nos países árabes, o cancro da mama ainda está associado a um grande estigma social. "As mulheres casadas ficam muito preocupadas com o efeito que a doença terá sobre os seus maridos e famílias, por isso muitas optam por nem fazer mamografias", disse Omniyat Hajri, médico dos Emirados Árabes Unidos habituado a tratar doentes de cancro da mama, citado pela televisão ABC. Laura Bush, cuja avó morreu com cancro da mama e cuja mãe sofreu da doença mas sobreviveu, leva a sua história pessoal como bandeira da viagem - mas que está a ser vista como uma forma de diplomacia suave, em nome do seu marido, que ficou na Casa Branca. Vai encontrar-se com os reis jordanos e sauditas, usando a sua própria imagem para b
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A Educação em Portugal, sg/ Mª Filomena Mónica
Sugiro a investigação reflexiva da autora, no público de hoje. Em entrada estendida para quem não não tenha acesso.
Vale a pena mandar os filhos à escola?
23.10.2007, Maria Filomena Mónica
A revolução contribuiu para que muitos acreditassem ser a educação o caminho para uma vida melhor
Ao longo dos séculos, a resposta a esta pergunta tem variado, mas uma coisa é certa: os pais só mandam os filhos à escola quando nisso vêem um benefício. Nos países protestantes, como a Suécia, os pais desejavam que os filhos soubessem ler, a fim de poderem meditar sobre os ensinamentos da Bíblia, e, nos países com uma forte mobilidade social, como os EUA, os pais ambicionavam que os filhos tivessem um diploma, por pensarem ser essa a via para subir na vida. Quanto à oferta escolar, as situações variaram: os países que procuraram modernizar-se rapidamente, como foi o caso do Japão durante o século XIX, criaram uma rede escolar alargada; os impérios a sério, como a Inglaterra, aumentaram o número de escolas, como forma de subjugar, através da cultura, os nativos.
Pela negativa - e duplamente - Portugal é um caso paradigmático. Aqui, tudo jogou contra a escolarização. Nem os camponeses queriam enviar os filhos à escola, nem, se exceptuarmos uns hiatos temporais, estiveram os governos empenhados em ensinar o povo a ler. Em meados do século XX, o país ainda era uma sociedade rural, onde não só a educação estagnara, como as aspirações populares eram reduzidas. O Estado Novo não estava interessado em industrializar o país, muito menos em formar cidadãos esclarecidos. Foi por isso que chegámos a 1974 com mais de metade da população analfabeta.
A revolução contribuiu para que muitos acreditassem ser a educação o caminho para uma vida melhor. Ao longo das últimas três décadas, os pais fizeram enormes sacrifícios para levar os filhos até à universidade. Não é raro encontrarmos empregadas de limpeza ou taxistas - os indivíduos das chamadas classes baixas com quem os intelectuais têm contacto - que alimentaram sonhos quanto à mobilidade social dos descendentes. Vendo-os desempregados, sentem-se, como é óbvio, ludibriados. É no contexto da estagnação da economia nacional que devemos abordar a questão do abandono escolar. A publicação das recentes estatísticas do Eurostat que revelam que, entre os 18 e os 24 anos, 40 por cento dos alunos - mais do dobro da média europeia - abandonaram a escola levou os responsáveis a prometer o alargamento da escolaridade obrigatória para 12 anos. Mas as leis pouca influência terão sobre o que se vai passar. Perante a questão de ter de decidir se devem manter os filhos na escola, os pais interrogar-se-ão sobre duas coisas: em primeiro lugar, se se podem dar ao luxo de passar sem o contributo do seu trabalho (em termos sociológicos, o chamado custo da oportunidade da educação); em segundo, se aquilo que os filhos irão aprender na escola tem alguma utilidade.
Abordei este tema, no que diz respeito ao ensino primário, na minha tese de doutoramento. Entre outras coisas, pretendia averiguar se, durante os primórdios do Estado Novo, a escolaridade era bem vista pela população. Para meu desgosto, a conclusão foi a de que, para a imensa maioria, a resposta era negativa. Era-o nas regiões de propriedade minifundiária, onde uma criança de sete anos já podia tomar conta dos animais, apanhar lenha e ajudar nas actividades domésticas. Prescindir dela, enviando-a à escola, equivalia a uma descida do nível de vida da família. Um jornal de Viana de Castelo descrevia o modo como um camponês encarava a instrução primária em geral e a alfabetização das mulheres em particular. Interrogado sobre se tencionava mandar as filhas à escola, respondeu: "Nada, nada. Elas estão aqui mas é para trabalhar. Qual escola? Se lá fossem, mais tarde não lhes chegava tempo para se escreverem com os namoros". Saber escrever era um luxo destinado aos privilegiados.
Se tivermos em conta que a estrutura social dessa época não deixava antever qualquer mobilidade social, o comportamento deste camponês era racional. Numa sociedade em que as posições hierárquicas dependiam do nascimento, a instrução não proporcionava benefícios. Além de que, numa sociedade analfabeta, não saber ler estava longe de constituir um estigma. Manhoso, Salazar limitou-se a reforçar os traços retrógrados da sociedade que governou. Os resultados estão à vista: os 10 por cento de alunos de sete anos que reprovam na primeira classe são herdeiros de gerações de analfabetos.
Um momento houve, em 1974, em que tudo pareceu possível. Mas a esperança de que Portugal se pudesse tornar numa sociedade meritocrática está em vias de desaparecer. A maioria dos pais considera, mais uma vez, que não é através da escola que se sobe na vida, mas através de "cunhas". Por outro lado, olha o espectáculo dos licenciados no desemprego com espanto. Muitos, pais e filhos, pensarão duas vezes antes de continuar na escola. O problema do abandono precoce excede em muito o âmbito do Ministério da Educação: é bom que se perceba isto.
É verdade que o objectivo dos nove anos de escolaridade está praticamente cumprido. A isso ajudou, em grande medida, a evolução da sociedade portuguesa, com destaque para o facto de, na economia, o sector primário ter diminuído de forma drástica. Mais do que um bem de produção, os filhos passaram a ser um encargo. Já não há cabras para guardar, nem couves para plantar; vive-se nas cidades, onde as oportunidades para o emprego infantil escasseiam; ser-se analfabeto tornou-
-se uma vergonha. Em vez de vadiarem pelas ruas, mais vale, pensam os pais, que as crianças fiquem na escola, onde, mesmo que pouco aprendam, estão afastadas do perigo dos gangs. A escola passou a ser considerada um depósito, o que, na medida em que pouco dela é exigido, não é uma vantagem.
Quanto ao prolongamento da escolaridade, em nada contribuirá para diminuir a desigualdade social. A massificação do ensino encarregar-se-á de fazer diminuir o valor desse diploma. Do ponto de vista da mobilidade, o 12.º ano valerá menos do que a antiga 4.ª classe: não porque os alunos saibam menos, mas porque, ao distribuir um bem a todos, fica ipso facto desvalorizado. Os factos mais importantes são a evolução do mercado de trabalho e a melhoria dos curricula. Sem isto, o prolongamento da escolaridade apenas serve para esconder o desemprego juvenil.
Vem isto a propósito de uma reportagem, transmitida no Perdidos e Achados da SIC no último dia 13, sobre o que, passados nove anos, acontecera a um grupo de alunos da Escola Básica 2,3 da Trafaria. O que impressiona não é tanto a indisciplina pretérita, mas o facto de os rapazes estarem hoje a exercer, como se a escola nada lhes tivesse dado, a profissão dos pais (a apanha da amêijoa). No dia seguinte, Nuno Crato comentou o programa, salientando justamente a falta de ambição. O que se esqueceu ou não teve tempo de esclarecer foi que, para se desenvolver, aquela carece de um solo apropriado. Ora, no contexto em que foram educados, surpreender-me-ia que estas crianças ostentassem o achievement syndrome presente em países como os EUA. A existência de expectativas profissionais quanto ao futuro só nasce em sociedades dinâmicas. Infelizmente, não é isso que acontece em Portugal.
Professora universitária
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outubro 21, 2007
Estou farto de paninhos quentes e ficar calado...
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setembro 30, 2007
Afinal, quem e o quê, será Sª Exª Valter Lemos?
Quem ocupa lugares determinantes para o país, quem influi no dia a dia de milhares de portugueses, quem...o melhor será ler o artigo de investigação hoje saído no Público... por pudor em entrada estendida.
Não, sr. secretário de Estado
30.09.2007, Maria Filomena Mónica (jornal o Público)
Valter Lemos nunca participou em debates parlamentares, nunca demonstrou possuir uma ideia sobre Educação
Aministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, tem aparecido na televisão e até no Parlamento, o mesmo não sucedendo ao seu secretário de Estado, Valter Lemos. É pena, porque este senhor detém competências que lhe conferem um enorme poder sobre o ensino básico e secundário. Intrigada com a personagem, decidi proceder a uma investigação. Eis os resultados a que cheguei.
Natural de Penamacor, Valter Lemos tem 51 anos, é casado e possui uma licenciatura em Biologia: até aqui nada a apontar. Os problemas surgem com o curriculum vitae subsequente. Suponho que ao abrigo do acordo que levou vários portugueses a especializarem-se em Ciências da Educação nos EUA, obteve o grau de mestre em Educação pela Boston University. A instituição não tem o prestígio da vizinha Harvard, mas adiante. O facto é ter Valter Lemos regressado com um diploma na "ciência" que, por esse mundo fora, tem liquidado as escolas. Foi professor do ensino secundário até se aperceber não ser a sala de aula o seu habitat natural, pelo que passou a formador de formadores, consultor de "projectos e missões do Ministério da Educação" e, entre 1985 e 1990, a professor adjunto da Escola Superior do Instituto Politécnico de Castelo Branco.
Em meados da década de 1990, a sua carreira disparou: hoje, ostenta o pomposo título de professor-coordenador, o que, não sendo doutorado, faz pensar que a elevação académica foi política ou administrativamente motivada; depois de eleito presidente do conselho científico da escola onde leccionava, em 1996 seria nomeado seu presidente, cargo que exerceu até 2005, data em que entrou para o Governo. Estava eu sossegadamente a ler o Despacho ministerial nº 11 529/2005, no Diário da República, quando notei uma curiosidade. Ao delegar poderes em Valter Lemos, o texto legal trata-o por "doutor", título que só pode ser atribuído a quem concluiu um doutoramento, coisa que não aparece mencionada no seu curriculum. Estranhei, como estranhei que a presidência de um politécnico pudesse ser ocupada por um não doutorado, mas não reputo estes factos importantes. Aquando da polémica sobre o título de engenheiro atribuído a José Sócrates, defendi que os títulos académicos nada diziam sobre a competência política: o que importa é saber se mentiram ou não.
Deixemos isto de lado, a fim de analisar a carreira política do sr. secretário de Estado. Em 2002 e 2005, foi eleito deputado à Assembleia da República, como independente, nas listas do Partido Socialista. Nunca lá pôs os pés, uma vez que a função de direcção de um politécnico é incompatível com a de representante da nação. A sua vida política limita-se, por conseguinte, à presidência de uma assembleia municipal (a de Castelo Branco) e à passagem, ao que parece tumultuosa, pela Câmara de Penamacor, onde terá sofrido o vexame de quase ter perdido o mandato de vereador por excesso de faltas injustificadas, o que só não aconteceu por o assunto ter sido resolvido pela promulgação de uma nova lei. Em resumo, Valter Lemos nunca participou em debates parlamentares, nunca demonstrou possuir uma ideia sobre Educação, nunca fez um discurso digno de nota.
Chegada aqui, deparei-me com uma problema: como saber o que pensa do mundo este senhor? Depois de buscas por caves e esconsos, descobri um livro seu, O Critério do Sucesso: Técnicas de Avaliação da Aprendizagem. Publicado em 1986, teve seis edições, o que pressupõe ter sido o mesmo aconselhado como leitura em vários cursos de Ciências da Educação. Logo na primeira página, notei que S. Excia era um lírico. Eis a epígrafe escolhida: "Quem mais conhece melhor ama." Afirmava seguidamente que, após a sua experiência como formador de professores, descobrira que estes não davam a devida importância ao rigor na "medição" da aprendizagem. Daí que tivesse decidido determinar a forma correcta como o docente deveria julgar os estudantes. Qualquer regra de bom senso é abandonada, a fim de dar lugar a normas pseudocientíficas, expressas num quadrado encimado por termos como "skill cognitivos". Navegando na maré pedagógica que tem avassalado as escolas, apresenta depois várias "grelhas de análise". Entre outras coisas, o docente teria de analisar se o aluno "interrompe o professor", se "não cumpre as tarefas em grupo" e se "ajuda os colegas".
Apenas para dar um gostinho da sua linguagem, eis o que diz no subcapítulo "Diferencialidade": "Após a aplicação do teste e da sua correcção deverá, sempre que possível, ser realizado um trabalho que designamos por análise de itens e que consiste em determinar o índice de discriminação, [sic para a vírgula] e o grau de dificuldade, bem como a análise dos erros e omissões dos alunos. Trata-se portanto, [sic de novo] de determinar as características de diferencialidade do teste." Na página seguinte, dá-nos a fórmula para o cálculo do tal "índice de dificuldade e o de discriminação de cada item". É ela a seguinte: Df= (M+P)/N
em que Df significa grau de dificuldade, N o número total de alunos de ambos os grupos, M o número de alunos do grupo melhor que responderam erradamente e P o número de alunos do grupo pior que responderam erradamente.
O mais interessante vem no final, quando o actual secretário de Estado lamenta a existência de professores que criticam os programas como sendo grandes demais ou desadequados ao nível etário dos alunos. Na sua opinião, "tais afirmações escondem muitas vezes, [sic mais uma vez] verdades aparentemente óbvias e outras vezes "desculpas de mau pagador", sendo difícil apoiá-las ou contradizê-las por não existir avaliação de programas em Portugal". Para ele, a experiência dos milhares de professores que, por esse país fora, têm de aplicar, com esforço sobre-humano, os programas que o ministério inventa não tem importância.
Não contente com a desvalorização do trabalho dos docentes, S. Excia decide bater-lhes: "Em certas escolas, após o fim das actividades lectivas, ouvem-se, por vezes, os professores dizer que lhes foi marcado serviço de estatística. Isto é dito com ar de quem tem, contra a sua vontade, de ir desempenhar mais uma tarefa burocrática que nada lhe diz. Ora, tal trabalho, [sic de novo] não deve ser de modo nenhum somente um trabalho de estatística, mas sim um verdadeiro trabalho de investigação, usando a avaliação institucional e programática do ano findo." O sábio pedagógico-burocrático dixit.
O que sobressai deste arrazoado é a convicção de que os professores deveriam ser meros autómatos destinados a aplicar regras. Com responsáveis destes à frente do Ministério da Educação, não admira que, em Portugal, a taxa de insucesso escolar seja a mais elevada da Europa. Valter Lemos reúne o pior de três mundos: o universo dos pedagogos que, provindo das chamadas "ciências exactas", não têm uma ideia do que sejam as humanidades, o mundo totalitário criado pelas Ciências da Educação e a nomenklatura tecnocrática que rodeia o primeiro-ministro. Historiadora
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setembro 24, 2007
Dos professores portáteis afins e ameios...
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setembro 16, 2007
A paz tem alguma piada? ...
"Não existe um caminho para a paz. A paz é o caminho."
(Deepak Chopra, A Paz É o Caminho, Lisboa, Sinais de Fogo, 2007)
Retomo este meu exercício de partilha na blogosfera. E, porque domingo, sendo o "dia do Senhor", mas, não o querendo eu como dia de Senhor nenhum, aqui deixo a intervenção de Bento Domingues, crónica publicada no Jornal Pública, hoje, dia de Senhor nenhum...
O caminho mais curto para a Paz...
Frei Bento Domingues - 20070916
Gandhi não teve seguidores, mas o Dalai Lama reencarnou o seu caminho
1 Já está traduzido em português um livro notável de Deepak Chopra, inspirado em M. Gandhi: "Não existe um caminho para a paz. A paz é o caminho." (1) Sendo a guerra a praga que os seres humanos carregam consigo, o percurso desta obra termina com sete práticas para saber, em cada dia da semana, como viver em paz e ser pacificador. Pode parecer um programa muito básico, mas responde a uma pergunta fundamental do seu mestre: "Poderemos nós ser a mudança que queremos que haja no mundo?" Os sonhos começam a realidade: "Um dia haverá uma guerra e ninguém aparecerá" (C. Sandburg).
O autor deste livro de espiritualidade activa é médico endocrinologista, natural da Índia, radicado nos EUA. Entre as numerosas distinções, foi-lhe atribuído o Prémio Einstein, pelo Albert Einstein Institute College of Medicine em colaboração com o American Journal of Psychotherapy. Em conjunto com Oscar Arias e Betty Williams, laureados com o Prémio Nobel da Paz, fundou a Aliança para Uma Nova Humanidade, uma organização empenhada na justiça social, na liberdade económica, no equilíbrio ecológico e na resolução dos conflitos.
Esta obra integra-se numa espiritualidade que nos chega do Oriente. Como diz J. Masiá, a mensagem do budismo pode ser resumida em duas palavras: pacificar-se e pacificar. Inspira-se numa dupla tradição de vida contemplativa/interiorização e de vida em harmonia com a natureza e com as pessoas. Outra palavra-chave é "sair" de si mesmo por duas vias - pela contemplação e pela práxis solidária. Sair para fora da espiral do engano e da violência; sair da roda do eu superficial atado às desfigurações da realidade; sair para onde aponta a metáfora oriental - "vazio" e "nada" (não confundir com o niilismo) - donde se vêem as pessoas e as coisas, para lá das aparências.
Buda, Jesus, Confúcio e Sócrates são as quatro grandes figuras de pacíficos e pacificadores. Os quatro convidam a sair de si para dentro e para fora. Para dentro, para a meditação; para fora, para a compaixão e a solidariedade. Os quatro convidam a parar e a escutar a voz que, no interior do coração, nos diz a verdade sobre nós próprios e sobre a vida. Os quatro convidam à prática. Antes de perguntar quem disparou a flecha ou quem é o ferido, apressa-te a curá-lo, antes que seja tarde, dizia Buda (2).
2-No momento em que escrevo, ainda não sei como será acolhida a visita, a Portugal, do Prémio Nobel da Paz, XIV Dalai Lama, o símbolo actual da sabedoria no empenhamento pacífico e pacificador do reconhecimento, no interior da China, da autonomia cultural, religiosa e administrativa do Tibete.
Segundo o programa, a segunda visita a Portugal será essencialmente dedicada à apresentação de alguns livros fundamentais do budismo, aconselhados e explicados por Dalai Lama, sobretudo na Faculdade de Medicina Dentária. Para além de outros contactos, é aguardada com expectativa a conferência pública, no Pavilhão Atlântico, na tarde deste domingo, subordinada ao tema O poder do bom coração.
Esta visita foi preparada com a publicação de várias obras de referência do budismo tibetano. Dado que os portugueses foram os primeiros ocidentais a chegar ao Tibete, a Revista Lusófona de Ciência das Religiões, dirigida por Paulo Mendes Pinto e Alfredo Teixeira, teve a feliz ideia de confiar a Paulo Borges (presidente da União Budista Portuguesa) a organização de um dossier dedicado ao estudo da presença do Buda e do budismo na cultura portuguesa. O resultado é notável.
O que me importa sublinhar é a sabedoria exemplar de Dalai Lama na luta pacífica pelo reconhecimento da autonomia do Tibete, embora ele esteja muito longe de conseguir a unanimidade dos tibetanos em torno das suas opções e do seu método. Até se pode dizer, não sem alguma razão, que a sua resistência não violenta acabou por servir os propósitos invasores e dominadores da China: os chineses já não precisam de se mostrar muito agressivos na ocupação do Tibete. O império chinês não tem falta de gente para substituir os tibetanos em todos os domínios.
Os séculos XX e XXI tiveram muitos revolucionários e libertadores. Alguns com aura de heróis, mas a invocação da violência dos oprimidos contra a violência dos opressores - uma fórmula que parece mais que legítima, em determinadas circunstâncias - não consegue saltar para fora do mundo da violência e do comércio das armas que corrompe e desgraça a humanidade dos oprimidos e dos opressores. Não gera uma nova humanidade. Não é uma alternativa.
M. Gandhi não teve muitos seguidores, mas Dalai Lama reencarnou, de forma notável, o seu caminho. Dir-se-á que a via da resistência activa na procura contínua do diálogo é demasiado lenta. E os recursos à violência têm sido rápidos na resolução de conflitos, na obtenção da paz?
O XIV Dalai Lama (Oceano de Sabedoria), que tem assumido a figura de dirigente político, de monge e de místico, só lhe interessa ser um monge e um místico budista ao serviço da compaixão universal (3).
(1) Deepak Chopra, A Paz É o Caminho, Lisboa, Sinais de Fogo, 2007.
(2) Juan Masiá, SJ, El otro Oriente. Más allá del diálogo, Sal Terrae, Santander, 2006.
(3) Mayank Chhaya, A Vida do Dalai Lama. O Homem. O Monge. O Místico. Biografia autorizada, Lisboa, Presença, 2007.
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agosto 16, 2007
Está morto o "Rei"? E. Presley...
Com a devida vénia ao texto - alerta mail do jornal Público de hoje, de autoria de Mário Lopes - que coloco em entrada estendida, nunca é demais relembrar E.Presley. Igualmente fica o registo musical com o seu famoso e escandaloso jogo de ancas...
Antes dele, não existia nada
Elvis Presley, o homem que, com um movimento de anca, abriu caminho para a libertação da sexualidade e para o fim da segregação racial. Elvis Presley, o provinciano que não soube conviver com o mundo que transformou. Morreu a 16 de Agosto de 1977, há precisamente 30 anos.
Em Graceland, Elvis Presley preparava-se para a digressão que iniciaria no dia seguinte. Passou a noite em claro, como tantas vezes acontecia por essa altura, resultado da dependência dos mais variados medicamentos e retirou-se para o seu quarto, às sete da manhã, para descansar antes do voo que, mais tarde o levaria a Portland. Não chegou a embarcar. Ao final da manhã, era encontrado morto. À tarde, a notícia corria o mundo: "Rei Elvis morto". 16 de Agosto de 1977, há precisamente 30 anos. Elvis had left the building. Permanentemente. Não ressurgiria noutro palco, noutro casino, noutro filme.
Causa da morte? Incerta. Só a saberemos em 2027, quando a sua autópsia passar a ser do domínio público. Culparam-se o excesso de medicamentos, culpou-se um coração fraco, uma vida sedentária e a desilusão com a artificialidade da sua existência naqueles últimos tempos. Charlie Feathers, companheiro dos primórdios do rock"n"roll, seria mais prosaico: "Elvis não morreu das drogas, morreu do pequeno-almoço". Na sua memória, as sandwiches de taxa calórica assassina que compunham a dieta do amigo, que não bebia álcool, que não se drogava com a heroína e a cocaína da praxe em estrela rock"n"roll.
Em 1977, engordado de forma grotesca, enfiado em fatos de um kitsch inenarrável, incapaz dos movimentos felinos de outrora ou de se lembrar das letras das suas canções, Presley continuava a ser um dos mais lucrativos artistas americanos. Os concertos, os curtos concertos que conseguia dar, esgotavam. O público, envelhecido como ele e, também como ele, distante da actualidade pop, acorria em massa para ver o mito. Elvis já não era humano. Era uma imagem, um ícone, uma certa ideia de América - que não era a nova América a que, inadvertidamente, tinha dado impulso decisivo nos anos 50. "Antes de Elvis, não existia nada", hiperbolizou John Lennon - mas estava certo. "Elvis morreu quando foi para o tropa", exagerou o mesmo Lennon - mas havia na afirmação um fundo de verdade.
De Tupelo à Elvislândia
Elvis Aaron Presley. Nascido em Tupelo, entre a pobreza da Grande Depressão, a 8 de Janeiro de 1935. O camionista que, com um movimento de ancas e uma música que reunia no mesmo corpo o country branco e o r&b negro, abriu caminho para a libertação da sexualidade e para o fim da segregação racial. Esse Elvis Presley detestado por conservadores adultos e idolatrado por adolescentes que não queriam e não podiam ser como os pais, foi destacado para o serviço militar em 1958, quatro anos depois de gravar o primeiro single, That"s All Right. A revolução estava lançada e Presley, provavelmente a figura mais importante da cultura popular americana do século XX, não soube como viver nela. Quando o coração parou a 16 de Agosto de 1977, Elvis já estava morto. O mito como grande herói americano, como entertainer supremo de excentricidade e voz imbatíveis, esse estava em construção há muito.
Tão cedo quanto 1956 o mercado foi invadido de produtos de merchandise - de águas-de-colónia a cães de peluche. Em 1971 já se faziam visitas guiadas à casa de Tupelo onde nasceu e, no ano seguinte, erguiam-se placas com a alteração toponímica da estrada fronteira à sua mansão: "Elvis Presley Boulevard".
Este presente em que Graceland é uma espécie de "Elvislândia" que recebe 600 mil visitantes por ano, em que milhares de pessoas vivem profissionalmente da imitação do "Rei", em que se vendem bustos "Elvis" robotizados que entoam as suas canções mais famosas (é só procurar no youtube) e em que até "edições especiais" da sua manteiga de amendoim preferida têm procura, ou seja, este Elvis caricatural que perdura na memória colectiva formara-se há muito. No meio de tudo isto, como descobrir este homem de quem falava Bob Dylan: "Quando ouvi pela primeira vez a voz de Elvis, soube que não iria trabalhar para ninguém e que ninguém iria ser o meu patrão"? Este a que Bruce Springsteen se referia desta forma: "Ele era tão grande quanto o próprio país, tão grande quanto o sonho completo. Nada tomará alguma vez o seu lugar"?
Em 30 de Setembro de 1955, James Dean morria ao volante de um Porsche. Juntamente com Marlon Brando, o "rebelde sem causa" mostrara pela primeira vez o retrato de uma juventude que não era apenas compasso de espera entre a inocência da infância e a seriedade do mundo adulto: abria-se um novo universo, convulsivo e irrequieto, rebeldia angustiada vivida como se não houvesse espaço para mais que o aqui e o agora. Poucos meses depois, a 20 de Novembro de 1955, Elvis Presley assinava contracto com a multinacional RCA. Já era então uma estrela no sul dos Estados Unidos, onde os singles gravados nos míticos Sun Studios - que albergavam ou albergariam Johnny Cash, Jerry Lee Lewis ou Roy Orbison - revelaram em primeira-mão alguém que, quando a RCA lhe assegura exposição nacional e internacional, amplificaria até ao grito ensurdecedor o revelado por James Dean. Elvis ficou-lhe com o corpo e tornou explícita a sexualidade implícita. Elvis não reteve a angústia, mas criou a música que, para horror do mundo adulto, a superou de forma incontrolável. "Como é que um freak como Elvis Presley pode encantar os nossos adolescentes é algo para além da minha compreensão", escrevia um colunista à época, citado num artigo publicado na revista Mojo de Maio de 2006. Obviamente que não percebia. A América que convivia confortavelmente com a segregação racial, com a prosperidade acrítica do pós-guerra, com a pureza virginal dos adolescentes, nunca poderia compreender aquele furacão que a transformaria profundamente.
O branco negro
Nascido em Tupelo mas criado em Memphis, Elvis Presley cresceu entre o blues e o gospel que fervilhavam na Beale Street, o centro da zona negra da cidade. Pela rádio, em casa, apaixonava-se pela country e pela voz de crooners como Dean Martin ou Perry Como. Tão desfavorecido financeiramente quanto os seus vizinhos negros, imune às fronteiras musicais de raça, a visão musical de Presley não incluía catalogações.
Sam Phillips, produtor e proprietário dos Sun Studios, procurava em Elvis um branco que tivesse a voz e o "feeling" de um negro. Conseguiu bem mais que isso.
Quando Elvis fez as suas primeiras gravações rock"n"roll já era expressão conhecida. Existia Bill Haley e o seu Rock Around The Clock, existiam Little Richard e Chuck Berry. O problema era que Bill Haley era demasiado velho e demasiado branco. O problema era que Berry e Richard eram demasiado negros. Elvis Presley transformaria tudo isso. Representou de forma magistral o microcosmos de uma América selvagem e desregrada que a América não queria ver e transformou não só a América, como o resto do mundo.
Estava tudo no ritmo insaciável de That"s All Right e na electricidade contagiante de Hound Dog. Estava tudo nessa inquietante Mistery Train e na sensualidade escaldante de Fever. Estava tudo na voz que passava do terno sussurro à provocação num par de acordes e naquele menear de ancas que levou a televisão americana a censurá-lo da cintura para baixo.
Em 1956, o single Heartbreak Hotel chegava a Inglaterra e, com ele, rumores de que, nos Estados Unidos, vários jovens se tinham suicidado ao som da música - eis o quão alienígena e perigosa parecia a sua música. Quando já era figura mundialmente conhecida, em 1962, o governo mexicano proibiu a exibição dos seus filmes após um motim durante a projecção de "GI Blues" - eis o quão "perigoso" era The King, mesmo depois da tropa.
A verdade, porém, é que Elvis Presley, o homem que deu voz e corpo a uma revolução cultural, o homem que não compreendia porque o atacavam os guardiães da moral e bons costumes - "a minha mãe gosta do que faço", ripostou uma vez; "o pessoal negro anda a fazer isto há anos e ninguém se escandaliza", defendeu-se outra -, nunca deixou de ser o miúdo do Mississipi que idolatrava o gospel, o country e o blues, o miúdo que desejava secretamente seguir os passos de Dean Martin e James Dean (excluindo a parte do Porsche). Não deixou de ser o provinciano que, exceptuando uma breve digressão canadiana, nunca actuou fora dos Estados Unidos em toda a sua carreira, e que se propôs a Nixon, em 1970, para servir o governo americano como agente atento aos perigos da "contracultura hippie" e dos Black Panthers.
As lantejoulas
Em meia década, Elvis Presley transformou o mundo. Passaria o resto da vida a não se reconhecer nele. Os Beatles e os Rolling Stones anunciavam uma nova ordem nos anos 60 e Presley abandonava os palcos para se dedicar em exclusivo a péssimos filmes série-B. O psicadelismo aparecia, a soul sofisticava-se, sucediam-se as mais diversas e arrojadas experiências artísticas e lá o encontrávamos no final dos anos 60 e em grande parte da década seguinte em Las Vegas, actuando para fãs acríticos e aburguesados.
Claro que há nuances. Claro que em 1968 viveu um breve renascimento, em esplendoroso cabedal rockabilly, no famoso 68 Comeback Special em que exibiu a chama de outrora - In The Ghetto e Suspicious Minds, os seus últimos clássicos absolutos, são resultado dele. Tal porém, foram fogachos num percurso de crescente excentricidade e decadência.
Colonel Tom Parker, na realidade Andreas Cornelis Van Kuijk, holandês e imigrante ilegal - eis a razão, sabe-se agora, para sempre se ter oposto a digressões internacionais de Elvis -, dirigiu-o como máquina de lucro fácil sem encontrar grande oposição. Presley, que alguns descrevem no final de vida como um homem amargurado e com tendências paranóicas à Howard Hughes, foi crescendo. Em lucros, em peso, em lantejoulas, em megalomania: durante a década de 70, a sua entrada em palco chegou a ser feita ao som de Assim Falou Zaratustra, de Richard Strauss. Se cantava My Way, não o fazia gloriosamente como Sinatra - havia um subtexto trágico naquele Elvis Presley a cantar aquela canção.
Quando, a 16 de Agosto de 1977, a noiva Ginger Alden o encontra, sem vida, no chão da casa de banho de Graceland, a lenda estava a um passo de se transformar em culto quase religioso: os imitadores, as peregrinações a Graceland, os duetos virtuais com Celine Dion aí estão para o mostrar bem vivo, trinta anos depois. O seu legado, de tão massivo, torna-se quase imperceptível. Está por todo o lado, em qualquer manifestação de música popular urbana tal como a conhecemos. Sabê-lo, hoje, agradaria certamente a Elvis Aaron Presley.
O supracitado artigo da Mojo refere que, meses antes de morrer, numa suite de hotel, escreveu a seguinte nota: I"m glad everyone is gone now/ I will probably not rest tonight/ I have no need for all of this/ Help me Lord.
n
Mário Lopes ( In Público)
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julho 20, 2007
O Beijo, essa maravilha ...
Publicado por morfeu às 06:44 PM | Comentários (9) | TrackBack
julho 14, 2007
Nesta acalmia da tarde, conjugo o verbo transcender... com...
...a devida vénia à sempre estimulante crónica de Anselmo Borges no Diário de Notícias.
Pensar é ultrapassar, transcender.
Publicado por morfeu às 04:18 PM | Comentários (2) | TrackBack
julho 04, 2007
Junta +professor=Cancro mortal
reenvio-vos para este texto interventivo
Publicado por morfeu às 09:38 PM | Comentários (1) | TrackBack
julho 02, 2007
A Esfinge esse ser obsessivo...
… Em reflexão, uma vez mais, com as sábias palavras de A.Borges..."
Publicado por morfeu às 08:51 AM | Comentários (3) | TrackBack
junho 04, 2007
"Entupir" será um insulto?
(no caso do link não funcionar, fica a notícia em entrada estendida...só assim fará sentido esta entrada...)
Mais de 20 mil docentes de fora devido ao número limitado de vagas
Professores ameaçam entupir tribunais com contestação a concurso de titular
04.06.2007 - 14h30 Lusa
Os sindicatos de professores disponibilizaram-se hoje para apoiar juridicamente os docentes que não consigam aceder à categoria de titular, estimando que milhares de processos venham a entupir os tribunais quando forem divulgados os resultados do concurso.
No primeiro dia de candidaturas à categoria de professor titular, a mais elevada da nova carreira, a plataforma que reúne todos os sindicatos do sector estimou que mais de 20 mil docentes fiquem de fora devido ao número limitado de vagas e às restrições do concurso, cujos resultados serão divulgados no final de Julho.
Em conferência de imprensa, a plataforma apelou a todos os docentes em condições de concorrer para se candidatarem, reclamando depois nos tribunais caso não consigam aceder à categoria, em virtude de restrições consideradas ilegais como a penalização de faltas dadas por motivos de doença.
"Estamos preparados e disponíveis para apoiar cerca de 20 mil processos em tribunal, com acções individualizadas movidas pelos professores que ficarem de fora", afirmou Mário Nogueira, secretário-geral da Federação Nacional dos Professores e porta-voz da plataforma sindical.
Na sexta-feira, os sindicatos tinham admitido a hipótese de interpor uma providência cautelar para suspender o processo de acesso a titular, mas hoje declararam que isso não é possível, uma vez que o Ministério da Educação não abriu um concurso nacional, mas um concurso por cada agrupamento de escolas.
"Para suspender, não teríamos de apresentar uma providência cautelar, mas centenas ou milhares, uma por cada concurso. Isso é praticamente impossível e poderia até aprofundar as desigualdades, fazendo suspender uns concursos e outros não", explicou o porta-voz.
A penalização de faltas dadas por doença na apreciação do factor assiduidade continua a ser um dos aspectos mais contestados pelos docentes, assim como o facto de a análise curricular ser restringida aos últimos sete anos, quando a maioria dos candidatos tem, em média, mais de duas décadas de serviço.
Para os sindicatos, as regras deste concurso promovem a discriminação de vários docentes, nomeadamente os bacharéis que se encontram nos escalões mais elevados da carreira e que estão impedidos de concorrer, assim como os que actualmente beneficiam de uma dispensa parcial da actividade lectiva por razões de doença.
A possível ultrapassagem de docentes mais graduados por outros com menos pontuação, devido à existência de regras diferentes para os candidatos do 10º escalão, constitui igualmente uma das preocupações da plataforma.
Ao contrário do que acontece com os colegas do 8º e do 9º escalões, os docentes do 10º não estão sujeitos à existência de vagas para poderem aceder à categoria de titular, bastando-lhes somar 95 pontos no conjunto dos diversos factores em análise.
Esta pontuação não é, contudo, fácil de alcançar, sendo mesmo impossível para um professor que não tenha desempenhado cargos nos últimos sete anos, mesmo que este tenha tido uma avaliação positiva e nunca tenha faltado.
Assim, se um docente do 10º escalão tiver 94 pontos, por exemplo, fica automaticamente de fora, enquanto um colega de um escalão mais baixo pode subir a titular, mesmo que com uma pontuação menor, desde que haja vaga.
Todas estas situações são passíveis de contestação em tribunal, pelo que a plataforma apela aos docentes para exporem aos gabinetes jurídicos dos sindicatos os motivos da sua exclusão, depois de ser divulgada a lista final dos candidatos admitidos e não admitidos.
No final da conferência de imprensa, os dirigentes dos diversos sindicatos do sector deslocaram-se ao ministério para entregar um abaixo-assinado subscrito por mais de 30 mil docentes contra a divisão da carreira em duas categorias.
No entanto, ninguém no ministério se dispôs a receber os dossiers com as assinaturas, tendo os sindicatos recebido indicações para deixarem o abaixo-assinado na recepção, o que motivou um forte protesto por parte dos professores.
Em declarações à Lusa, o porta-voz da plataforma adiantou que, na sequência desta situação, agentes da PSP presentes no local procederam à identificação dos professores que se encontravam à porta do Ministério da Educação, gerando grande indignação.
Publicado por morfeu às 09:52 PM | Comentários (2) | TrackBack
maio 27, 2007
E domingo, e a Procissão sg/ João Villaret.
Sendo domingo ... nada melhor para a salvação da alma do que João Villaret "dizendo" a Procissão...
(Clique na imagem para ouvir...)
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março 28, 2007
Não! Não à "rectroactividade" da lei ...
Eu professor do 10º escalão, com 33 anos de serviço, digo não a esta perversidade inconcebível num estado de direito. Não recuso ser avaliado mas de forma proactiva. É muito simples: Srºs sindicalistas, colegas, a Kafkiana construção acerca do professor titular deve cair pela base ... se alguém quiser exemplos da aplicação desta perversidade é só perguntar... e não me mandem trabalhar e outras bocas useiras e vezeiras. A Educação é algo demasiado importante para amesquinhar uma das suas paredes mestras: Os professores... não há volta dar-lhe!
Publicado por morfeu às 10:40 AM | Comentários (0) | TrackBack
março 26, 2007
Velórios "educativos" sg... sugiro.
O professor Santana Castilho, continua com a sua frontalidade, a ser, dos poucos, um "moscardo" em relação ao ambiente (des)educativo... com a devida vénia ao autor e ao jornal Público de hoje. (vd. entrada estendida)
A vocação fúnebre das políticas educativas
26.03.2007, Santana Castilho
Os veredictos dos tribunais têm exposto a má qualidade das decisões políticas dos governantes da 5 de Outubro
Repugna-me que os responsáveis pelas políticas educativas tenham vindo a estrangular sistematicamente o ensino da Filosofia. Extinguiram exames nacionais da disciplina e baniram-na de cursos onde o seu ensino deveria ter sido reforçado. Que pretendem? Cercear o desenvolvimento da inteligência crítica dos jovens?
Os estudos filosóficos são estruturantes em qualquer programa de formação humana e indispensáveis como garante das aquisições civilizacionais que nos antecederam. Contra mais esta iniciativa fúnebre do Ministério da Educação, decorre um movimento cívico que pode ser conhecido em http://www.spfil.pt/peticao.html.
2. As bancadas parlamentares assemelham-se, repetidas vezes, a autênticos necrotérios de vontades. Soube-se, na transacta semana, que cerca de 30 por cento dos deputados do PS que integram a comissão parlamentar de educação estão contra normas várias do estatuto da carreira docente, recentemente promulgado. Essas normas, no dizer do grupo rebelde (em rigor, tristemente obediente), violam princípios básicos da Constituição da República Portuguesa e são "arbitrárias e discriminatórias". Apesar destes qualificativos, os deputados preteriram o interesse dos representados e a sua própria convicção, em nome da disciplina de voto. Repugna-me esta visão domada da democracia e esta leitura do que é ser deputado. O crédito moribundo de que gozam os ditos sofreu mais uma pazada.
3. Mariano Gago parece observar de longe o velório da Universidade Independente. Poderá argumentar que está manietado por um mar perverso de burocracias construídas ao longo dos tempos. Mas porque pertence a um Governo que manda polícia de cara tapada e caçadeira em riste intervir na lota de Setúbal, compreenderá a dificuldade que temos em perceber as diferenças: de um lado, peixe fresco acondicionado em madeira proibida dita intervenção enérgica; do outro, peixe graúdo, que enlameia diariamente a instituição universitária, merece uma passividade fúnebre. Esta desproporção de meios incomoda.
4. Os veredictos dos tribunais portugueses têm exposto a má qualidade das decisões políticas dos governantes da 5 de Outubro: conto, salvo erro, 10 condenações relativas aos exames de Física e Química, 3 no que respeita a falta de pagamento de aulas de substituição e despachos revogados, por ilícitos. A relativa passividade dos media dá que pensar. A displicência e o silêncio sepulcral dos visados não surpreendem.
5. Que credibilidade merece a anunciada aposta na formação e na qualificação dos portugueses quando, do mesmo passo, se promovem políticas homicidas dos mais qualificados e se assiste ao aumento da emigração de jovens licenciados? Ficámos ultimamente a saber que os bolseiros de pós-doutoramento em Ciência e Tecnologia continuavam sem receber as quantias que lhes são devidas; que as alterações legislativas aos regulamentos de equiparação a bolseiros em processo de doutoramento, ditadas a meio dos projectos e derrogando o previamente acordado, estão a levar ao abandono das investigações; que o desemprego dos docentes custou ao Estado, no último ano, 18 milhões de euros, sem que estejam considerados os desempregados do ensino superior, escandalosamente discriminados.
6. Mais um anúncio e mais uma iniciativa inédita: vão ser gastos 940 milhões de euros na recuperação de escolas ao longo dos próximos nove anos; segundo o porta-voz do Ministério da Educação, um dos instrumentos de financiamento será, e passo a citar, "o aluguer de espaços para casamentos e baptizados" e "para torneios de solteiros e casados". Esqueceram-se de considerar o aluguer para velar mortos e discriminaram os divorciados nos torneios de salão. Depois da anulação do défice, é provável que ainda sobre algum Portugal, algumas escolas, algumas maternidades, algumas urgências hospitalares, alguns apeadeiros de caminhos-de-ferro, algumas estações de correio, algumas aldeias do interior e, obviamente, 54 governantes com os seus 500 assessores e adjuntos, 137 secretárias, 128 motoristas e 280 auxiliares administrativos.
Professor do ensino superior
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março 18, 2007
... "po(i)", com o sentido de proteger, defender ...
Publicado por morfeu às 08:44 AM | Comentários (1) | TrackBack
março 08, 2007
Escola: Abandono ou fuga? ...
Perante os números evidenciados pela imprensa de hoje - vêr Público - coloca-se-me a questão como professor e como cidadão, do porquê deste abandono. Da minha experiência resulta a constatação de uma falta geral de ambiente familiar - regras, hábitos de leitura, culto do imediato, telemóvel, do confortável, jogo de computador - que permite uma "matriz" voluntariosa para ir à escola. Aqui chegados, os miúdos encontram as situações mais diversas: instalações, professores, pessoal auxiliar, que carecem muitas vezes de qualidade e rigor de actuação. Eu, sendo professor do secundário, tenho que dizer o seguinte: praticamente todos os meus alunos que tiveram sucesso, não apenas na escola como na vida, tinham um ambiente familiar razoavelmente estruturado.
Nos tempos que correm, é dificil a escola "competir" com os meios de comunicação, principalmente na sua vertente lúdica ou pseudo lúdica.
Deixo em entrada estendida, dois comentários de leitores no Público de hoje.
Por aneto - Aveiro
As escolas têm grades à sua volta mas apenas para delimitar espaço? Não, as grades das escolas são encaradas de outra forma por muitos pais. Sou professor de História de uma turma complicadíssima em termos de comportamento e aproveitamento nos arredores de Aveiro. O meio social é pobre e muitos pais não vão pura e simplesmente à escola falar com a Directora de Turma. Depois de esgotados os métodos pedagógicos dentro da sala de aula, fizemos hoje, às seis da tarde, uma reunião com professores, apis e alunos. Iria ser analisada a situação da turma e tentativa de mudar o rumo às coisas com a ajuda dos pais. De 19, compareceram 7 Encarregados de Educação e logo aqueles cujos educandos dão menos problemas. Os pais dos alunos mais problemáticos nem se dignaram a comparecer. Assim não há Director de Turma ou professor que consiga apoio para levar o barco a bom porto. Mais do que educar alunos, este país precisa urgentemente de educar toda uma nação.
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Por Pedro P.(prof do 2º ciclo) - Leiria
Verdadeira hecatombe nacional mas ninguém parece disposto a fazer nada! A desmotivação, a falta de regras e hábitos de trabalho dos alunos sentem-se logo no primeiro ciclo. É de uma cultura cívica de rigor e exigência e de uma ampla promoção da escola e do saber que Portugal necessita. Os pais portugueses são, no geral, maus educadores porque eles próprios também têm baixo nível de escolaridade! O que interessa não são as OPAS! É toda a Juventude Portuguesa a quem pouco se exige e tudo se permite que está em causa comprometendo-se o futuro deste País ainda (e sempre)adiado!! Concordo com o reforço da acção social mas também com o reforço do controlo fiscal para subsidiar efectivamente quem precisa! E com a valorização e prestigiamento da Escola Pública e da função docente que se encontram, ao momento, feridos de morte por esta equipa ministerial.
Publicado por morfeu às 09:23 AM | Comentários (4) | TrackBack
março 05, 2007
Berra, atira papeis ao ar, quem é quem é...
... pois claro ... esse personagem de opereta terá que ser essa inefável eminência, que se desfaz em mimos para os professores, e que, na assembleia, com deputados profes da sua cor, se alterou como noticia o semanário "Sol"...consultável na versão de papel, mas que também se pode consultar online... leiam, leiam, e digam da vossa justiça. Como é que uma entidade deste calibre está à frente de responsabilidade e de supostas reformas do ensino.... a Srª Ministra não se mexe nem diz nada... quero, posso e mando, em toda a sua amplitude...
Morfeu
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janeiro 01, 2007
Do Tempo...

(A. Borges:In Dn de 31 de Dezembro de 2006)
Publicado por morfeu às 08:10 PM | Comentários (4) | TrackBack
dezembro 19, 2006
Os "merceeiros" do ensino...
... ainda que próximos dessa inefável data a que chamamos Natal, aqui fica uma carta de um leitor do Público ... já que não podemos ser generais... talvez merceeiros, 
mas com bom senso e honestidade... sugiro a leitura!
(...) "Fiéis à sua "estratégia do ressentimento" e firmes na sua intenção de funcionalizar a profissão, definiram então dois objectivos estratégicos: o de reformularem o Estatuto da Carreira à luz da "filosofia do merceeiro", que faz depender a qualidade do serviço, do número de horas passadas atrás do "balcão"; o de reduzirem toda a classe docente a uma quase única categoria de tarefeiros indiferenciados e resignados, sempre prontos a saltar daqui para ali, ao som do apito do ME." (...)
CARTAS AO DIRECTOR
A agenda oculta do Ministério da Educação
A deriva psiquiátrica que sustenta a obsessão persecutória do Ministério da Educação (ME) sobre os professores começa a tornar-se cada vez mais evidente e intolerável. A cada semana que passa, o ME descobre mais um "benefício" ou um "privilégio" no Estatuto da Carreira que deverá ser revogado para que a escola portuguesa se torne cada vez mais finlandesa: são as "aulas de substituição", a presença infinda no local de trabalho, o desterro por três anos sem qualquer apoio económico, a avaliação por pais ausentes, as interrupções do Natal e da Páscoa, o quadro dos excedentários...
Certamente que até os cidadãos menos atentos começarão a questionar-se sobre a validade e a honestidade das constantes críticas e recriminações dirigidas aos docentes. Não parece ser possível que os 150 mil professores portugueses mais não sejam que uma corja de preguiçosos e ociosos, nadando em prerrogativas e deferências inaceitáveis, preocupados apenas com a sua manutenção ou alargamento. É uma imagem demasiado má e repelente para ser verdadeira e, como todos os excessos e caricaturas, esta também se denuncia a si própria.
Por vezes, as razões profundas que sustentam as perseguições, políticas ou profissionais, são demasiado vergonhosas para serem expostas publicamente. Então, ensaiam-se justificações pseudotécnicas e comentários de circunstância que procuram ocultar os verdadeiros motivos. Este é um caso flagrante.
(...) Esta mentalidade tacanha, mesquinha, fechada, passiva e invejosa despreza profunda e visceralmente aquilo que um profissional liberal tem de mais útil e precioso: a possibilidade de gerir, de modo autónomo, modulável e responsável o seu tempo, conciliando a sua prática profissional, os períodos e modalidades de formação, as estratégias e opções de planeamento, a elaboração de projectos e iniciativas próprias, sem ter de obedecer cegamente a uma tutela distante e indiferente ou a regras eternas, caprichosas, arbitrárias e inúteis.
O "verdadeiro" funcionário público, bovino e apático, mas também manhoso e finório, dá-se mal com a mentalidade liberal, ressente-se com a sua liberdade e procura não aceder-lhe mas destruí-la.
E, se bem que, tecnicamente, os professores não preencham todos os requisitos que definem um profissional liberal, ainda assim, a sua margem de manobra em relação ao seu trabalho é claramente mais ampla do que aquelas que estão disponíveis ao funcionário público regular.
Fiéis à sua "estratégia do ressentimento" e firmes na sua intenção de funcionalizar a profissão, definiram então dois objectivos estratégicos: o de reformularem o Estatuto da Carreira à luz da "filosofia do merceeiro", que faz depender a qualidade do serviço, do número de horas passadas atrás do "balcão"; o de reduzirem toda a classe docente a uma quase única categoria de tarefeiros indiferenciados e resignados, sempre prontos a saltar daqui para ali, ao som do apito do ME.
E aqui temos, em toda a sua simplicidade, os motivos reais que explicam o acinte ministerial. A credibilização da profissão docente passa pela denúncia desta forma torpe de fazer política e pela reivindicação de um estatuto que delegue nos professores uma maior autonomia e responsabilidade; mas passa também por uma modificação significativa do discurso sindical, que, ao tentar fazer passar, junto dos media, uma imagem risivelmente épica e heróica da função docente, mais não consegue do que concentrar o ridículo e o desdém da população em geral.
A classe docente é uma classe como qualquer outra: a par de gente séria, honesta, competente e dedicada, pululam também os oportunistas, os ignorantes, os vaidosos e os inúteis. E se quisermos atingir o estatuto invejável do prestígio escandinavo, talvez não fosse pior assumirmos e valorizarmos rapidamente aquelas que são as suas duas maiores armas e virtudes: a honestidade e o bom senso.
José Caldas (professor)
Lisboa
Publicado por morfeu às 01:21 PM | Comentários (4)
novembro 25, 2006
As "Inverdades" (continuação)

Na sequência de posts há algum tempo aqui e aquicolocados, voilá ... mais uma "amostra" de possíveis inverdades - oh! santa demagogia - resultantes da séria, honesta, incontestável, sobranceria do Nosso Extraordinário Primeiro Ministro Engenheiro ... queria dizer-lhe, senhor primeiro que, hoje, sábado, a hora esta, lendo o Público, estou efectivamente a trabalhar, para lá do meu horário oficial. Como estou neste momento a leccionar "Retórica e Argumentação", aproveito para selecionar as "peças" mais significativas deste desolado mundo portuga. Assim, para a coleção, constará a sua demagogia e maila da sua afilhada, M.Rodrigues. Do Outro, de Sua Exª. silenciosa, só inverdades por omissão...
... em entrada estendida, uma carta ao director do Público, acerca do tempo de trabalho dos professores. Sei do que estou a ler e a falar, pois sou professor do 10º escalão. Para quem tenha efectivamente interesse. Bom fim de semana, com muitas inverdades...
CARTAS AO DIRECTOR(in público de 25 de Novembro de 2006)
O poder da falsidade
e os professores
No PÚBLICO de 5 Novembro de 2006, páginas 16-17, apareceu a reportagem "A viagem mais louca de Sócrates", de Ricardo Dias Felner (R.D.F.). Tal artigo contém (pág.17) a seguinte frase, atribuída ao primeiro-ministro José Sócrates em relação aos professores: "Com 50 anos, alguns trabalham 12 horas por semana."
Não duvido da transcrição fiel de R.D.F. na frase citada. O que me surpreende é a ligeireza com que estas frases (que não correspondem à verdade) são ditas, sem ninguém as rebater. O jornalista não rebateu a frase, talvez por não ter informação sobre o assunto, mas devia informar-se para não deixar passar coisas destas em branco. Por outro lado, o primeiro-ministro, ao afirmar uma falsidade completa, pecou duplamente: se o disse em inconsciência, fez afirmações sobre o que desconhece; se o fez convictamente, sabendo a verdade mas distorcendo-a intencionalmente, então usou de má fé e demagogia, intoxicando a opinião pública contra os professores. Na verdade as alternativas anteriores parecem resumir-se a incompetência (falar do que se desconhece) ou mentira (fazer uma afirmação sabendo que não é verdade).
O problema é que o público, sobretudo o que está fora dos assuntos do ensino e da educação, toma essa frase falsa como se fosse verdadeira. As pessoas dirão: "Foi o primeiro-ministro que o disse." Também o parecer dos opinion makers (mesmo quando transmite inverdades) é tomado como se fosse "a verdade bíblica". Aí está a sua perversa eficácia. O público, intoxicado com esta informação distorcida, actua posteriormente com base nesse "conhecimento", quando condena os professores ou quando aplaude as atitudes da actual ministra da Educação. É a demagogia pura a funcionar. Expliquemo-nos seguidamente.
1. Só os professores no 10.º escalão, topo da carreira docente, têm 12 horas lectivas por semana; e isto se só leccionarem no ensino secundário). Mas, note-se, horas lectivas por semana não são o mesmo que horas de trabalho semanal. Os outros professores, sucessivamente mais novos, terão mais horas (até 22 h) de serviço lectivo (i.e., aulas).
2. O trabalho de um professor não consiste apenas em aulas. Será que as aulas se dão sem trabalho prévio? As matérias não têm de ser planeadas, preparadas, estudadas, às vezes ensaiadas? E não há actividades experimentais a pôr em prática? E não há avaliações (testes, exercícios, fichas, etc.) que têm de ser elaboradas/criadas, pois não caem já feitas do céu? E não será preciso corrigir os testes, as fichas, os trabalhos dos alunos? Tudo isso já não conta como trabalho? Muitas pessoas acham que um professor só está a trabalhar quando tem os alunos pela frente e o giz na mão. Na realidade, ter um bom desempenho com o giz na mão, sem cometer gaffes, exprimindo-se com clareza e concisão, pressupõe treino prévio e a manutenção de capacidades que têm de ser constantemente praticadas! Quem se lembra disso? E será que, contando horas sem critério, as pessoas em geral sabem o que é dar 3, 4 ou 5 aulas seguidas a jovens que muitas das vezes não querem aprender? E que recorrem a tudo para sabotar (literalmente) o trabalho do professor? Deviam experimentar!
Devido à intoxicação resultante de informação distorcida, muitas pessoas tomam as 12 horas/22 horas de aulas como se fossem o horário de trabalho do professor em questão. E, naturalmente, comparam essas horas lectivas com os seus casos pessoais, acabando por dizer: "Eu arrasto-me 35 ou 40 horas por semana e vêm depois estes malandros que trabalham menos tempo do que eu e ainda reclamam!" Para que conste, o horário semanal de um professor, desde o 2.º ciclo do ensino básico até ao 12.º ano é de 35 (trinta e cinco) horas por semana, incluindo, além das aulas, todas as restantes actividades e tarefas que a profissão exige.
3. Para se ver melhor o disparate a que algumas pessoas chegam, vejamos um exemplo muito óbvio e esclarecedor. No programa Prós e Contras, na televisão (canal 1), a jornalista Fátima Campos Ferreira (F.C.F.) faz um bom trabalho que, visto pelos espectadores, é de 2 a 3 horas por semana. Note-se que não ponho em causa este trabalho, nem a sua qualidade ou duração, nem sequer F.C.F.: apenas o cito como exemplo útil. Os espectadores atentos e esclarecidos sabem muito bem que fazer aquele programa é muito mais do que as 2 ou 3 horas de visibilidade no ecrã! Mas será que todos vêem assim?
Sabemos que o programa pressupõe um trabalho intenso de bastidores ao longo da semana, que o público não vê, mas nem por isso deixa de ser trabalho. Na mesma óptica cega que uma certa opinião pública aplica aos professores, alguém poderia dizer que F.C.F. "só trabalha duas ou três horas, por semana." Sabemos que tal não corresponde à verdade, mas a maioria das pessoas não faz este exercício de reflexão em relação aos professores. Nem o primeiro-ministro José Sócrates, que confunde tempo lectivo semanal com horário semanal de trabalho!
Guilherme de Almeida
Professor de Física há 33 anos - Lisboa
Publicado por morfeu às 08:39 AM | Comentários (2)
novembro 10, 2006
Gato por lebre... não é gastronomia mas o ECD ... sugiro.
Mário Nogueira (in Público de 10 de Novembro)
O Ministério da Educação tenta vender gato por lebre. Os professores já perceberam isso e estão a reagir, mas, infelizmente, o cidadão comum ainda não. Mas também ele se deve preocupar. Porque é pai ou encarregado de educação de alunos que frequentam as escolas portugueses; porque é parte interessada em que a escola pública contribua, de forma decisiva, para o desenvolvimento do país. Por estas duas razões, deverá, também, contestar um mecanismo que não contribuirá para elevar a qualidade do ensino, antes introduzirá novos focos de conflito na escola e contribuirá para a desmotivação e desmoralização dos docentes. Será isto que faz falta à educação?!
O discurso do Ministério da Educação sobre a revisão do Estatuto da Carreira Docente (ECD) tem sido construído em torno da avaliação e do mérito. As tónicas são: é necessária uma avaliação rigorosa; é necessário distinguir os melhores e premiar o seu mérito; os sindicatos defendem a igualitarização. Secretários de Estado e ministra repetem estas frases até à exaustão para que pareçam essas as suas preocupações sobre a carreira docente.
Quem já leu o projecto de ECD apresentado pelo ME - infelizmente, há quem fale e escreva sobre o tema sem o ler - sabe que, nele, a avaliação do desempenho é um logro.
O modelo apresentado, em nome de uma alegada objectividade, assenta em quatro fichas: do próprio, do avaliador directo, da direcção da escola e dos pais. Tais fichas serão uniformizadas a nível nacional por despacho da ministra. Os itens previstos são os do senso comum: a assiduidade, o insucesso, o abandono escolar, o serviço distribuído, a apreciação dos pais e pouco mais. Dentro deste espírito, refere-se que cada docente terá, pelo menos, três aulas observadas, decididas pela direcção da escola. Admite-se criar uma comissão para a avaliação, mas consultiva ou com funções de validação.
Surge, ainda, outro tipo de avaliação que servirá para decidir quem, por alegado mérito, será promovido a categoria superior da carreira (as normas reguladoras são remetidas para diploma próprio).
Uma avaliação a sério - aquela que os sindicatos defendem! - não pode ser assim burocratizada, deverá ter um carácter formativo. Tem de prever a reflexão crítica, o debate e a discussão nos órgãos pedagógicos das escolas, designadamente nas suas estruturas intermédias, tem de ser da responsabilidade de uma comissão de avaliação, tem de ser continuada, tem de ser contextualizada, tem de fazer parte de um processo mais global de avaliação das escolas e do próprio sistema. É essa a proposta da Fenprof entregue no ME: uma avaliação exigente e séria. A do ME, nem dos famigerados créditos de formação, tão criticados pela ministra, se conseguiu libertar...
Assim, infere-se, o discurso meritocrático do ME não passa de um embuste. Um embuste com a intenção de disfarçar o objectivo maior da sua proposta: impedir o normal desenvolvimento de carreira.
Nesse sentido, há dois aspectos no seu projecto que assumem uma importância maior: a classificação de "Regular" e a fixação de vagas para acesso aos três escalões de topo da carreira.
"Regular" é uma classificação positiva, mas determinará a perda de anos de serviço na progressão, atrasando-a e tornando mais barato o exercício da docência. Quem tiver "Regular", segundo o ME, já terá uma bonificação: o vencimento. Para que sejam muitos os "regulares" (e os atrasos na progressão), esta será a classificação positiva com maior intervalo. Numa escala de 0 a 10, o Regular vai de 5 a 6,9. Os restantes intervalos serão de 1 valor (Bom, Muito Bom e Excelente). "Regular", contudo, não será sinónimo de menos bom, pois pode até ser-se excelente. Para o ME, um docente pode, num ano em que teve um desempenho extraordinariamente positivo, ter "Regular", bastando que adoeça, que recupere de acidente, que acompanhe um filho doente, que esteja grávida, que lhe morra um familiar, que se case e, por um destes motivos, entre outros justificados, tenha de faltar 10 dias. Então, perderá anos de serviço e o Ministério da Educação poupará dinheiro.
Já o acesso aos três escalões superiores da carreira está condicionado à existência de vagas. Com esses três escalões é criada uma categoria a que se acede por promoção, sendo as vagas decididas anualmente pelo Governo. Os limites previstos no projecto levarão a que cerca de 90 por cento dos docentes nunca cheguem a tais escalões. Poderão ser óptimos docentes, reunir todas as condições para a promoção e, até, obter aprovação no concurso de acesso. Pelas regras propostas, 90 por cento dos docentes ficarão na categoria inferior, tendo por topo um escalão que, actualmente, é intermédio.
Quanto às quotas para atribuição de Excelente e Muito Bom, de pouco valendo, servem, contudo, para quebrar a unidade do corpo docente em cada escola e para reforçar o poder de quem decidirá em última instância: a direcção.
Esta é a proposta de avaliação apresentada pelo ME. Pobre, sem rigor científico, sem carácter formativo, mas com um objectivo claro. Nela, o mérito é conversa. A esmagadora maioria dos melhores será penalizada, uns quantos, de mérito duvidoso, encostar-se-ão ao(s) poder(es) e ganharão com isso.
O Ministério da Educação tenta vender gato por lebre. Os professores já perceberam isso e estão a reagir, mas, infelizmente, o cidadão comum ainda não. Mas também ele se deve preocupar. Porque é pai ou encarregado de educação de alunos que frequentam as escolas portugueses; porque é parte interessada em que a escola pública contribua, de forma decisiva, para o desenvolvimento do país. Por estas duas razões, deverá, também, contestar um mecanismo que não contribuirá para elevar a qualidade do ensino, antes introduzirá novos focos de conflito na escola e contribuirá para a desmotivação e desmoralização dos docentes. Será isto que faz falta à educação?! Membro do secretariado nacional da Fenprof
Publicado por morfeu às 07:56 AM | Comentários (3)
novembro 06, 2006
Este Homem não se instala ...
... no possível conforto do longínquo ensino universitário - terá este alguma coisa a ver com o restante? - procurando com as suas intervenções descobrir as falhas, as grandes brechas afinal, do que mal está neste reino da Dinamarca, digo, Portugal. Toda a minha consideração, dando o exemplo à maioria dos seus colegas, que devem olhar cá para baixo com indiferença, como se não tivessem nada a ver com o assunto. "Que se desenrasquem"... deixo em entrada estendida, com a devida vénia, a crónica impressa hoje no jornal Público, a quem devo também a vénia respectiva.
"Gracias profesorado, sin vosotros no seria posible"
Santana Castilho
À
epígrafe subjaz uma das muitas diferenças que explicam como, tão perto, estamos tão longe. Foi escolhida pela Consejeria de Educación da Junta de Andalucia, da vizinha Espanha, para lema de uma campanha na imprensa, rádio e televisão, visando prestigiar, reconhecer e valorizar socialmente a profissão de professor.
A Consejeria está para o governo autonómico da Andaluzia como o nosso Ministério da Educação está para o governo do país. A sua titular, consejera (ministra) Cândida Martinez, considerou o conjunto dos 112.000 professores sob sua tutela "o elemento central do sistema educativo" e quis, com esta campanha, "agradecer em nome de toda a sociedade o trabalho que, em cada dia, realizam estes docentes" nas suas escolas.
É caso para dizer, ironicamente: lá, como cá! Lá, 20 anos de adesão à Europa transformaram a Espanha numa das 10 maiores economias mundiais e 45 milhões de habitantes em cidadãos. Apesar do atraso, da presença de nações distintas e dos antagonismos linguísticos. Aqui, primeiro-ministro, ministra da Educação e sequazes, tudo têm feito para dividir os 10 milhões de habitantes em bons e maus, produtivos e vilões. Porque a cidadania é escassa, o populismo destes pequenos políticos resulta e espelha-se nos fóruns da TSF e Antena 1, nos correios dos leitores da imprensa escrita e nos comentários dos blogues. Os professores são hoje, infelizmente, para muitos portugueses invejosos e pouco esclarecidos, os novos párias da sociedade.
O anunciado prolongamento das negociações entre a plataforma sindical e o Ministério da Educação sobre o estatuto dos professores está obviamente condenado ao insucesso. Os sindicatos reclamaram-no para não serem acusados, mais do que já são por alguns, de intransigência. O ministério aceitou-o porque a lei assim obriga. Ambos sabem que o resultado vai ser nulo. Mas o tema justifica algumas considerações, entre tantas possíveis, que ofereço à reflexão de quem pensa que os sindicatos não passam de forças de bloqueio e os professores de desavergonhados privilegiados.
Para reunir cerca de 30.000, vindos de todo o país em dia feriado, e conseguir uma adesão da ordem dos 80 por cento a dois dias de greve, tem de haver um número esmagador e bem superior de professores descontentes. Esta realidade está bem para além da influência do PCP ou dos sindicatos. Significa uma ruptura absolutamente única entre o corpo docente e o Ministério da Educação.
Pouco importa que o primeiro-ministro, alardeando insensibilidade política e sobranceria pessoal, fale de humor quando devia aproveitar, democraticamente, para reflectir sobre a natureza da mensagem. Pouco importa a boçalidade das gargalhadas da ministra quando interrogada sobre o facto. Os atentos sabem que não há concerto possível para esta política de reformas, que assenta no ataque a determinados grupos profissionais, instigando terceiros contra os "privilégios" por aqueles adquiridos.
Falemos de "privilégios". Qual é o vencimento liquido dos professores, depois de 16 anos de estudo, pelo menos, a que acrescem formações periódicas obrigatórias, pós-graduações, mestrados e doutoramentos em número já significativo, pagos do próprio bolso? Em inicio de carreira são cerca de 760 euros, 1000 ao fim de 13 anos de serviço, 1400 ao fim de 23 anos de trabalho. Com 30 anos de serviço chegam aos 1700 euros. Será isto escandaloso?
O impacto da diminuição salarial proposta pelo Ministério da Educação, projectada ao longo da carreira, chega a atingir verbas da ordem dos 300.000 euros. Não deverão os professores lutar por estes "direitos adquiridos"? Para justificar esta rapina, os novos justiceiros falam de justiça social. Estranha maneira de fazer justiça, radicada no cortar, no diminuir e no vilipendiar os que já têm algo. Por que não escolhem aumentar os que têm menos, em vez de lhes alimentar ressentimentos? Que progresso é o deste país, que anda para trás em nome da justiça social?
Qualquer professor tem 35 horas de serviço semanal, como qualquer funcionário público. As 13 dessas horas que não são de aulas são insuficientes para realizar as tarefas que cabem a um professor. Por favor, peço aos portugueses mais distraídos que façam alguns exercícios fáceis. Estejam atentos ao próximo teste que os vossos filhos levem para casa. Leiam-no e reescrevam as anotações que os professores lá exararam. Pensem que ter 200 alunos é uma média corrente. Se o professor fizer dois testes por período e gastar 15 minutos a corrigir cada um, necessitará de 100 horas. Quer isto dizer que lhe sobram 50 horas, nesse período de três meses, para reuniões na escola, preparar lições, atender pais, etc., etc. Onde vai esse tempo?
Por favor, preencham duzentas daquelas fichas idiotas que os professores têm que preencher. Cronometrem o tempo.
Experimentem um só dia espreitar para o interior de uma escola, daquelas em cujas imediações a policia apreendeu, desde o inicio do ano lectivo, 1159 doses de heroína, 1406 de cocaína e 3358 de haxixe. Não falhem uma daquelas onde há rapazinhos com pulseiras electrónicas no tornozelo.
Se não mudarem as ideias sobre os privilégios dos professores, digam-me, que eu sugiro mais exercícios, de tantos que poderão clarificar o que é ser professor, hoje, em Portugal. Professor do ensino superior
Publicado por morfeu às 07:39 PM | Comentários (0)
novembro 03, 2006
Os "enfermeiros" da Educação,,,
Ontem, em entrevista na rtp2, a Srª Ministra da Educação, num rasgo, misto de intelígência e de sinceridade, acertou profundamente nas suas declarações: comparou professores e enfermeiros. Tive a presunção de, por ser licenciado, curso universitário, anos de ensino, poder considerar-me mais ou menos nivelado a um médico, digamos, de clínica geral (obviamente sem os seus proventos).Afinal, o meu estatuto é o de uma espécie de "enfermeiro da educação". Voilá... estamos todos doentinhos Srª Ministra. Bem haja pela sua frontalidade. Longa vida!
Publicado por morfeu às 07:31 AM | Comentários (6)
outubro 29, 2006
Muito interessante este curriculum vitae...
Estive a ler o "curriculum vitae"
1) Pode-se verificar que, a Srª Ministra nunca deu aulas no ensino básico e secundário. Apenas no Ensino Superior. Não estaria mais indicada para gerir o Ensino Superior?
2) Na sua intervenção bibliográfica, verifica-se uma forte componente titular acerca de engenheiros e engenharia. Compreendo as afinidades com o engenheiro Sócrates. Teremos uma futura primeira ministra?Também acerca de recursos humanos se comprova forte componente titular.
3 )A título pessoal, achei muito interessante o seguinte título biobibliográfico: "1990 «Mulheres patrão»'», Sociologia, Problemas e Práticas, nº 8.
Ps. Considero estas minhas intervenções - vd. entradas anteriores - como trabalho docente, realizado para além do horário oficial, pelo que me seriam devidas horas extraordinárias. Tá bem, eu não as vou exigir :))))))
Adenda...não resisto a colocar em entrada estendida a intervenção de A. Barreto ...
Notícias erráticas
RETRATO DA SEMANA ANTÓNIO BARRETO
Todos os dias nos chegam notícias de medidas inesperadas e intenções imprevisíveis do governo. De tudo um pouco e avulso: decisões fulgurantes, novos planos, reformas radicais, investimentos fabulosos, extinções e reorganizações de serviços. Já se percebeu que o governo montou uma agência ou rede capaz de manter o domínio da informação, aquilo que eles dizem a "agenda". Por culpa dessa mesma rede de propaganda ou graças ao contributo criativo dos jornalistas e das suas fontes, uma parte das notícias é errada, outra é só parcialmente verdade e outra é finalmente verdadeira. Desta última, ainda há a distinguir entre o que realmente se fará e o que é apenas desejo e poderá ser contrariado pela vida. Alguns grandes investimentos, por exemplo, eram verdade até chegarem aos jornais, mas deixaram de o ser poucas semanas depois. Aumentos de preços e tarifas também são exemplos desta espécie de verdades efémeras. O que não impede que a maior parte das escaramuças de Sócrates foram lançadas assim, repentinamente, num discurso. É esse o jeito deste especialista em emboscadas. A aspirina nos supermercados, o fim de algumas Scut, a redução das férias dos juízes e dos professores e o aumento de impostos dos deficientes das forças armadas são exemplos de "rumores" verdadeiros.
PODERÍAMOS REAGIR COMO TANTAS vezes apetece. Isto é, considerar apenas que "são todos uns incompetentes", incluindo nestes todos os gabinetes dos governantes e as redacções dos jornais. Seria também possível considerar, na mais velha tradição popular, que "eles" são todos mentirosos, sendo eles, uma vez mais, os políticos e os jornalistas. Mas as coisas são mais complicadas. Na verdade, suspeito que muitas destas notícias erráticas são deliberadamente fabricadas, seja pelos gabinetes do poder, seja pelos da oposição. Assim como pelos sindicatos e patrões. E também por jornalistas e "fontes" partidárias anónimas. As intenções destas mentiras, meias verdades, boatos, fugas de informação e notícias verdadeiras são várias. Em alguns casos, trata-se simplesmente de "ver se pega" e de "apalpar" as reacções. Noutros, são dissidentes dos partidos que querem assim tornar difícil a vida dos governantes ou das direcções partidárias. Por vezes, trata-se de inexperiência das organizações que dizem o que ainda não devem. Outras, são puras invenções de jornalistas que não fazem o trabalho de casa e não verificam as fontes e os boatos. Finalmente, também temos as tentativas de exagero sensacionalista, da autoria das mais diversas pessoas, jornalistas "empenhados", políticos na sombra, partidos, sindicatos e empresas, com o fim de "dramatizar" uma qualquer questão.
AS ÚLTIMAS SEMANAS FORAM FÉRteis neste género de notícias erráticas. Aumentos de impostos, de propinas e de tarifas de serviços públicos; número de abortos legais e clandestinos praticados em Portugal; ou redução das pensões e das comparticipações nos medicamentos foram exemplos. Ainda hoje não sabemos exactamente com que contar. Como os nossos políticos brincam alegremente com os números, é difícil ter uma ideia. Um ministro e um autarca, por exemplo, dizem exactamente o contrário, um do outro, diante de números supostamente iguais. De igual modo, um ministro, um patrão e um sindicalista referem "dados de facto" absolutamente opostos, mas relativos à mesma realidade. Quem necessita da informação para a sua vida profissional, ou simplesmente porque quer estar informado, pode abandonar qualquer esperança de conhecer os factos a tempo.
VEM ISTO A PROPÓSITO DE DUAS informações, ainda não confirmadas, recebidas nestas últimas semanas. Primeira: o ensino da filosofia no secundário vai ser considerado marginal, isto é, optativo, e o respectivo exame de 12º ano deixa de ser obrigatório, incluindo para os alunos que, na universidade, pretendam cursar ciências sociais, direito, história ou mesmo filosofia. Conclusão inevitável: nunca mais alguém se vai interessar pela filosofia e o seu ensino está condenado a curto prazo. Segunda: a ministra da Educação pretende que já no próximo ano os professores sejam obrigados a dar oito horas de aulas por dia. Eis duas notícias dadas pelos jornais que me deixaram perplexo. A ponto de não acreditar. São de uma tal ignorância e de tal modo insensatas que não podem ser verdade. Devem fazer parte das provocações dirigidas contra alguém, neste caso contra a ministra e o seu ministério.
NÃO QUERO ACREDITAR, MAS A verdade é que a morte da filosofia na escola tem fortes possibilidades de ser verdadeira. Nunca vi desmentido. Até já li artigos assinados por Nuno Crato e José Gil justamente indignados. Não consigo perceber o que leva o ministério a cometer um crime destes. Numa altura em que está na moda o "conhecimento transversal" e em que os manuais elogiam a "interdisciplinaridade" e a "multidisciplinaridade", a extinção da filosofia tem o odor da poupança e da facilidade. Ou então vem daqueles círculos que querem uma escola virada para o emprego, as técnicas, "a vida", dizem eles. A filosofia deve ser considerada inútil, difícil, traumatizante e eventualmente burguesa ou livresca. Também pode ser que a considerem perigosa, porque ajuda a pensar. Num tempo em que os conhecimentos explodem e se diversificam, nada mais essencial, nada mais útil do que uma disciplina que possa fazer sínteses, que ajude à formação de uma visão do mundo, que permita aprender como os homens pensam e que ajude a raciocinar. A filosofia é essa disciplina. É quando a escola se vira para as profissões e foge da cultura que mais se precisa da filosofia. Já o senhor marquês de Pombal dizia que era necessário "o estudo da filosofia e das artes, pois servem de base de todas as ciências"! Eu sei que a estupidez tem tradições e não deveria ficar surpreendido. Por razões semelhantes se foram retirando das escolas as artes plásticas, a história da ciência e da arte, o teatro e a música. A própria geografia foi atirada para uma antecâmara do lixo e não ficaria admirado que a história siga um dia o mesmo caminho. Mesmo assim, não quero acreditar na decisão do ministério. Deve haver engano.
COMO ENGANO DEVE HAVER NAS notícias que nos dizem que a ministra quer que os professores cumpram oito horas de aulas por dia. Oito vezes cinco dias, temos quarenta horas de aulas por semana. A que se devem acrescentar as horas de reunião de turma e de escola, as horas de recepção dos alunos e dos pais, as horas de revisão de testes e de exames, as horas de substituição de professores e as horas de acompanhamento de estudo e trabalho, sem esquecer evidentemente as horas de preparação de aulas. Pensar que isto é possível ou que deve ser feito releva de uma mente definitivamente descolada da realidade. Desafio qualquer ser humano a cumprir este horário! Creio que nem sequer vale a pena fazer mais contas e argumentar. Não quero acreditar. Deve ser engano.
(In Público de 29 de Outubro de 2006)
Publicado por morfeu às 08:19 AM | Comentários (3)
outubro 28, 2006
Queridos profs: O Pai Natal morreu!
Queridos profs : o pai Natal morreu
... em sinal de luto enlouquecido, sim, porque estou a ficar passado como as passadices para não dizer mais, do Ministério do Caos e da Deseducação... e mais não digo...
Publicado por morfeu às 12:22 PM | Comentários (1)
outubro 17, 2006
Dedicado à Srª Ministra da Educação e seus "Boys"...
...há sempre alguém que resiste ...
Publicado por morfeu às 05:51 PM | Comentários (5)
setembro 18, 2006
Oser metafísico de um "atestado médico" ... sugiro
Uma colega minha de Filosofia (...por minha honra, declaro que não estou a escrever esta entrada em horário de trabalho e muy menos em aula de substituição :)))))...) enviou-me um mail, devidamente referenciado, que apreciei sobremaneira. A quem interesse, deixo-o transcrito ipsis verbis em entrada estendida ...
Atestado Médico
>
>
>
>
> Leiam este texto escrito por um professor de filosofia que escreve
>semanalmente para o jornal O Torrejano.
>
>Tudo o que ele diz, é tristemente verdadeiro...
>O atestado médico por José Ricardo Costa
>
>
>Imagine o meu caro que é professor, que é dia de exame do 12º ano e vai
>ter de fazer uma vigilância.
>Continue a imaginar. O despertador avariou durante a noite. Ou fica
>preso no elevador. Ou o seu filho, já à porta do infantário, vomitou o
>quente, pastoso, húmido e fétido pequeno-almoço em cima da sua imaculada
>camisa.
>Teve, portanto, de faltar à vigilância. Tem falta.
>Ora esta coisa de um professor ficar com faltas injustificadas é
>complicada, por isso convém justificá-la. A questão agora é: como
>justificá-la?
>Passemos então à parte divertida. A única justificação para o facto de
>ficar preso no elevador, do despertador avariar ou de não poder ir para
>uma sala do exame com a camisa vomitada, ababalhada e malcheirosa, é um
>atestado médico.
>Qualquer pessoa com um pouco de bom senso percebe que quem precisa aqui
>do atestado médico será o despertador ou o elevador. Mas não. Só uma
>doença poderá justificar sua ausência na sala do exame. Vai ao médico.
>E, a partir este momento, a situação deixa de ser divertida para passar
>a ser hilariante.
>Chega-se ao médico com o ar mais saudável deste mundo. Enfim, com o
>sorriso de Jorge Gabriel misturado com o ar rosado do Gabriel Alves e a
>felicidade do padre Melícias. A partir deste momento mágico, gera-se um
>fenómeno que só pode ser explicado através de noções básicas da
>psicopatologia da vida quotidiana. Os mesmos que explicam uma hipnose
>colectiva em Felgueiras, o holocausto nazi ou o sucesso da TVI.
>O professor sabe que não está doente. O médico sabe que ele não está
>doente. O presidente do executivo sabe que ele não está doente. O
>director regional sabe que ele não está doente. O Ministério da Educação
>sabe que ele não está doente. O próprio legislador, que manda a um
>professor que fica preso no elevador apresentar um atestado médico,
>também sabe que o professor não está doente.
>Ora, num país em que isto acontece, para além do despertador que não
>toca, do elevador parado e da camisa vomitada, é o próprio país que está
>doente.
>Um país assim, onde a mentira é legislada, só pode mesmo ser um país
>doente.
>Vamos lá ver, a mentira em si não é patológica. Até pode ser racional,
>útil e eficaz em certas ocasiões. O que já será patológico é o desejo
>que temos de sermos enganados ou a capacidade para fingirmos que a
>mentira é verdade.
>
>
>Lá nesse aspecto somos um bom exemplo do que dizia Goebbels: uma mentira
>várias vezes repetida transforma-se numa verdade. Já Aristóteles
>percebia uma coisa muito engraçada: quando vamos ao teatro, vamos com o
>desejo e uma predisposição para sermos enganados. Mas isso é normal.
>Sabemos bem, depois de termos chorado baba e ranho a ver o "ET", que
>este é um boneco e que temos de poupar a baba e o ranho para outras
>ocasiões. O problema é que em Portugal a ficção se confunde com a
>realidade. Portugal é ele próprio uma produção fictícia, provavelmente
>mesmo desde D.Afonso Henriques, que Deus me perdoe. A começar pela
>política. Os nossos políticos são descaradamente mentirosos. Só que
>ninguém leva a mal porque já estamos habituados. Aliás, em Portugal é-se
>penalizado por falar verdade, mesmo que seja por boas razões, o que
>significa que em Portugal não há boas razões para falar verdade. Se eu,
>num ambiente formal, disser a uma pessoa que tem uma nódoa na camisa,
>ela irá levar a mal. Fica ofendida se eu digo isso é para a ajudar, para
>que possa disfarçar a nódoa e não fazer má figura. Mas ela fica zangada
>comigo só porque eu vi a nódoa, sabe que eu sei que tem a nódoa e porque
>assumi perante ela que sei que tem a nódoa e que sei que ela sabe que eu
>sei. Nós, portugueses, adoramos viver enganados, iludidos e achamos
>normal que assim seja. Por exemplo, lemos revistas sociais e ficamos
>derretidos (não falo do cérebro, mas de um plano emocional) ao vermos
>casais felicíssimos e com vidas de sonho.
>Pronto, sabemos que aquilo é tudo mentira, que muitos deles divorciam-se
>ao fim de três meses e que outros vivem um alcoolismo disfarçado. Mas
>adoramos fingir que aquilo é tudo verdade.
>Somos pobres, mas vivemos como os alemães e os franceses. Somos
>ignorantes e culturalmente miseráveis, mas somos doutores e engenheiros.
>Fazemos malabarismos e contorcionismos financeiros, mas vamos passar
>férias a Fortaleza. Fazemos estádios caríssimos para dois ou três jogos
>em 15 dias, temos auto-estradas modernas e europeias, mas para ver
>passar, a seu lado, entulho, lixo, mato por limpar, eucaliptos, floresta
>queimada, barracões com chapas de zinco, casas horríveis e fábricas
>desactivadas.
>Portugal mente compulsivamente. Mente perante si próprio e mente perante
>o mundo.
>Claro que não é um professor que falta à vigilância de um exame por
>ficar preso no elevador que precisa de um atestado médico. É Portugal
>que precisa, antes que comece a vomitar sobre si próprio.
>
>__________________________________________
>
>António Manuel Águas Borralho
>
>
>Departamento de Pedagogia e Educação
>Universidade de Évora
>Apartado 94
>7002-554 ÉVORA (Portugal)
>Tel: +351266768050
>Fax: +351266768073
>Tm: 962608900
Publicado por morfeu às 02:57 PM | Comentários (3)
Oser metafísico de um "atestado médico" ... sugiro
Uma colega minha de Filosofia (...por minha honra, declaro que não estou a escrever esta entrada em horário de trabalho e muy menos em aula de substituição :)))))...) enviou-me um mail, devidamente referenciado, que apreciei sobremaneira. A quem interesse, deixo-o transcrito ipsis verbis em entrada estendida ...
Atestado Médico
>
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>
>
> Leiam este texto escrito por um professor de filosofia que escreve
>semanalmente para o jornal O Torrejano.
>
>Tudo o que ele diz, é tristemente verdadeiro...
>O atestado médico por José Ricardo Costa
>
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>Imagine o meu caro que é professor, que é dia de exame do 12º ano e vai
>ter de fazer uma vigilância.
>Continue a imaginar. O despertador avariou durante a noite. Ou fica
>preso no elevador. Ou o seu filho, já à porta do infantário, vomitou o
>quente, pastoso, húmido e fétido pequeno-almoço em cima da sua imaculada
>camisa.
>Teve, portanto, de faltar à vigilância. Tem falta.
>Ora esta coisa de um professor ficar com faltas injustificadas é
>complicada, por isso convém justificá-la. A questão agora é: como
>justificá-la?
>Passemos então à parte divertida. A única justificação para o facto de
>ficar preso no elevador, do despertador avariar ou de não poder ir para
>uma sala do exame com a camisa vomitada, ababalhada e malcheirosa, é um
>atestado médico.
>Qualquer pessoa com um pouco de bom senso percebe que quem precisa aqui
>do atestado médico será o despertador ou o elevador. Mas não. Só uma
>doença poderá justificar sua ausência na sala do exame. Vai ao médico.
>E, a partir este momento, a situação deixa de ser divertida para passar
>a ser hilariante.
>Chega-se ao médico com o ar mais saudável deste mundo. Enfim, com o
>sorriso de Jorge Gabriel misturado com o ar rosado do Gabriel Alves e a
>felicidade do padre Melícias. A partir deste momento mágico, gera-se um
>fenómeno que só pode ser explicado através de noções básicas da
>psicopatologia da vida quotidiana. Os mesmos que explicam uma hipnose
>colectiva em Felgueiras, o holocausto nazi ou o sucesso da TVI.
>O professor sabe que não está doente. O médico sabe que ele não está
>doente. O presidente do executivo sabe que ele não está doente. O
>director regional sabe que ele não está doente. O Ministério da Educação
>sabe que ele não está doente. O próprio legislador, que manda a um
>professor que fica preso no elevador apresentar um atestado médico,
>também sabe que o professor não está doente.
>Ora, num país em que isto acontece, para além do despertador que não
>toca, do elevador parado e da camisa vomitada, é o próprio país que está
>doente.
>Um país assim, onde a mentira é legislada, só pode mesmo ser um país
>doente.
>Vamos lá ver, a mentira em si não é patológica. Até pode ser racional,
>útil e eficaz em certas ocasiões. O que já será patológico é o desejo
>que temos de sermos enganados ou a capacidade para fingirmos que a
>mentira é verdade.
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>Lá nesse aspecto somos um bom exemplo do que dizia Goebbels: uma mentira
>várias vezes repetida transforma-se numa verdade. Já Aristóteles
>percebia uma coisa muito engraçada: quando vamos ao teatro, vamos com o
>desejo e uma predisposição para sermos enganados. Mas isso é normal.
>Sabemos bem, depois de termos chorado baba e ranho a ver o "ET", que
>este é um boneco e que temos de poupar a baba e o ranho para outras
>ocasiões. O problema é que em Portugal a ficção se confunde com a
>realidade. Portugal é ele próprio uma produção fictícia, provavelmente
>mesmo desde D.Afonso Henriques, que Deus me perdoe. A começar pela
>política. Os nossos políticos são descaradamente mentirosos. Só que
>ninguém leva a mal porque já estamos habituados. Aliás, em Portugal é-se
>penalizado por falar verdade, mesmo que seja por boas razões, o que
>significa que em Portugal não há boas razões para falar verdade. Se eu,
>num ambiente formal, disser a uma pessoa que tem uma nódoa na camisa,
>ela irá levar a mal. Fica ofendida se eu digo isso é para a ajudar, para
>que possa disfarçar a nódoa e não fazer má figura. Mas ela fica zangada
>comigo só porque eu vi a nódoa, sabe que eu sei que tem a nódoa e porque
>assumi perante ela que sei que tem a nódoa e que sei que ela sabe que eu
>sei. Nós, portugueses, adoramos viver enganados, iludidos e achamos
>normal que assim seja. Por exemplo, lemos revistas sociais e ficamos
>derretidos (não falo do cérebro, mas de um plano emocional) ao vermos
>casais felicíssimos e com vidas de sonho.
>Pronto, sabemos que aquilo é tudo mentira, que muitos deles divorciam-se
>ao fim de três meses e que outros vivem um alcoolismo disfarçado. Mas
>adoramos fingir que aquilo é tudo verdade.
>Somos pobres, mas vivemos como os alemães e os franceses. Somos
>ignorantes e culturalmente miseráveis, mas somos doutores e engenheiros.
>Fazemos malabarismos e contorcionismos financeiros, mas vamos passar
>férias a Fortaleza. Fazemos estádios caríssimos para dois ou três jogos
>em 15 dias, temos auto-estradas modernas e europeias, mas para ver
>passar, a seu lado, entulho, lixo, mato por limpar, eucaliptos, floresta
>queimada, barracões com chapas de zinco, casas horríveis e fábricas
>desactivadas.
>Portugal mente compulsivamente. Mente perante si próprio e mente perante
>o mundo.
>Claro que não é um professor que falta à vigilância de um exame por
>ficar preso no elevador que precisa de um atestado médico. É Portugal
>que precisa, antes que comece a vomitar sobre si próprio.
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>__________________________________________
>
>António Manuel Águas Borralho
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Publicado por morfeu às 02:57 PM | Comentários (3)
julho 21, 2006
Srª Ministra, muito obrigado! Senhores deputados, obrigado muito!
O pouco que me foi possível ver, via canal público, do debate ontem na assembleia, acerca dos famigerados exames em repetição, deixou-me profundamente desiludido. Os deputados que nos deviam representar com saber e bom senso, apenas apreoveitaram a pontualidade de um acontecimento pedagógico - os exames - para exibirem a ausência de intervenção nos problemas educativos. A Srª Ministra, finalmente foi espremida - curioso foi assistir às intervenções da "cota" feminina na assembleia - e vacilou ao não assumir responsabilidades. Srª Ministra: sugiro que a Srª e a sua equipa façam profunda reflexão acerca do caos que instalaram no sistema educativo, e a continuarem assumam ao menos a vossa incapaciade e irresponsabilidade, não fazendo de outros, o bode expiatório dos males educativos. A porta está aberta...
Publicado por morfeu às 07:25 AM | Comentários (13)
julho 20, 2006
Srª Ministra, também necessito de um assessor...
Publicado por morfeu às 09:39 AM | Comentários (0)
junho 25, 2006
A Srª Ministra da Educação também tem virtude(s)... sugiro.
Publicado por morfeu às 09:13 AM | Comentários (18)
junho 23, 2006
Da indisciplina da violência, do insucesso nas escolas... sugiro.
(...) Para as gerações actuais, a escola é uma "seca" e, sendo assim, nada mais justo e natural, para as cabeças das angélicas criancinhas, do que fazerem dela um recreio permanente. Em suma: a indisciplina que grassa hoje em dia nas escolas torna radicalmente impossível ensinar lá o que quer que seja. (...)
Vamos aumentar o descalabro? (público de 23/06/06)
Maria de Fátima Bonifácio
Vamos aumentar o descalabro? (público de 23/06/06)
Maria de Fátima Bonifácio
O país ficou chocado com a reportagem exibida pela RTP1 a 30 de Maio sobre uma escola na periferia de Lisboa que mais se assemelhava a um depósito de delinquentes. Não vale a pena relembrar as imagens. Mas vale a pena sublinhar que o secretário de Estado presente no debate que se seguiu não teve uma palavra de apreço pelos professores que enfrentam diariamente aquele martírio. Ao contrário do que este governante tentou inculcar, a "escola" em questão não constitui caso único: constitui apenas um de demasiados casos extremos para que ninguém parece ter solução. E, no entanto, a responsabilidade do ministério é aqui límpida e irrefragável. O Estado tem, como qualquer empregador, a obrigação legal de garantir a segurança física dos que para ele trabalham. Manifestamente, não cumpre tal obrigação. Em 2005, os casos de professores agredidos pelos alunos ultrapassaram largamente o milhar: mais de três por dia. Escolas como aquela que nos foi mostrada são casos de polícia, e só com um polícia ao lado é que os professores se deviam prestar a lá dar aulas.
Infelizmente, o problema da disciplina nas escolas não se cinge aos casos extremos em que ela assume a forma de pura violência. Em todas elas, independentemente das zonas onde estão implantadas, se verifica mais ou menos a existência de uma indisciplina larvar, insidiosa, que subverte por completo o ambiente de ordem e tranquilidade absolutamente indispensável à aprendizagem. Em todas elas os professores são desrespeitados, insultados e vêem todos os dias a sua autoridade escarnecida por crianças e adolescentes totalmente falhos da mais elementar educação e totalmente desprovidos da mais básica noção de dever. Conheço professores que dão aulas no centro de Lisboa e nem assim se atrevem a estacionar o carro nas imediações da escola, por receio de que lhes furem os pneus ou vandalizem os automóveis. Para as gerações actuais, a escola é uma "seca" e, sendo assim, nada mais justo e natural, para as cabeças das angélicas criancinhas, do que fazerem dela um recreio permanente. Em suma: a indisciplina que grassa hoje em dia nas escolas torna radicalmente impossível ensinar lá o que quer que seja.
Anos e anos - décadas ! - de pedagogia romântica, assente no pressuposto de que as crianças são vítimas inocentes de uma sociedade repressiva e de que albergam na pureza dos seus espíritos imaculados tesouros de intuição e até de sabedoria ainda não contaminada pelo cinismo do mundo, mergulharam a escola numa anarquia. As pedagogias libertárias de finais da década de 60 - "é proibido proibir" - pegaram de estaca num país dominado por uma cultura cívica e política esquerdista, que prega a irresponsabilidade individual e só aponta o dedo à responsabilidade social. Ao longo dos anos e das décadas, o Ministério da Educação encarregou-se de esvaziar as escolas e os professores das suas competências disciplinares, na crença idiota de que os meninos e as meninas se poderiam corrigir com doçura, através de bons conselhos e benignas acções de recuperação. As punições foram praticamente abolidas. Alunos com 20 e mais participações disciplinares não são expulsos. Quando se abrem inquéritos, os alunos são ouvidos em pé de igualdade com os professores; ao cabo de vários meses redundam, na melhor das hipóteses, numa suspensão - que não conta para as faltas dadas: os prevaricadores são presenteados com alguns dias ou uma semana de férias. Em suma, a indisciplina na escola tem medrado a coberto da mais completa impunidade.
Muito me espanta que o actual Ministério da Educação, que tem sido justamente louvado pelo esforço sério e sem precedentes para identificar e atalhar os factores do insucesso escolar em Portugal, não tenha até agora feito uma referência ao problema da indisciplina que mina e inutiliza a escola como lugar de transmissão de conhecimentos. Não basta denunciar a falta de orientação das escolas e dos professores para os resultados dos seus alunos. Nem chega denunciar o espírito burocrático-administrativo que prevalece sobre um real empenhamento num trabalho colectivo tendente a minorar os problemas dos alunos com maiores dificuldades. E o diagnóstico do insucesso escolar também não se esgota na denúncia das pequenas e grandes corrupções em torno da distribuição de turmas e horários. Tudo isto existe e conta, sem dúvida, e não se vê como possa ser remediado, enquanto as escolas forem governadas por conselhos executivos obrigados a agradar a quem os elegeu. Mas o ministério devia inscrever o problema da indisciplina no topo das suas prioridades, pelo simples motivo de que sem ordem e tranquilidade não há concentração nem trabalho, e sem concentração e trabalho não haverá sucesso escolar.
Ora, nunca se restaurará a disciplina, se os professores não tiverem a sua autoridade protegida pelo ministério e as escolas continuarem de pés e mãos atados para punir os alunos que perturbam a actividade escolar. Não há que fugir disto. Foi assim com espanto e consternação que tomei conhecimento de que o ministério se prepara para chamar os pais a participar na avaliação dos professores, prevista no Estatuto da Carreira Docente actualmente em discussão. Ninguém nega que a balda das avaliações como eram feitas até aqui tem de acabar. Como têm de acabar as pseudoformações que garantiam créditos para a progressão automática nas carreiras. Apenas negam isto os sindicatos, que com o seu reaccionarismo imobilista têm contribuído mais do que ninguém para a degradação da imagem dos professores na sociedade. Mas associar os pais à avaliação dos professores parece-me a medida mais insensata e nefasta que poderia passar pelas cabeças da 5 de Outubro.
Aos paizinhos serão distribuídas "fichas de avaliação", em que se pronunciam sobre "a relação que os professores têm com as crianças". Extraordinária ideia, na verdade! Mas o que sabem eles dessa "relação" a não ser o que os filhinhos lhes contam lá em casa? E quem não sabe que os filhinhos acharão sempre que ela é péssima com os docentes mais exigentes? O secretário de Estado alega que as informações dos pais serão ponderadas com o parecer dos conselhos executivos. Fraco remédio! Basta que um aluno saiba que o docente está sujeito à avaliação do paizinho e da mãezinha para que sinta as costas quentes e redobre de insolência. Se o ministério persistir na adopção de uma medida tão absurda, carregará com a responsabilidade de ser o primeiro contribuinte para a liquidação final da autoridade do professor e, por extensão, para o agravamento da indisciplina e do consequente insucesso escolar. E incorrerá na grave contradição de, por um lado, exigir mais trabalho e empenho aos professores - como pode e deve fazer -, retirando-lhes, por outro lado, um dos meios decisivos para cumprirem a sua missão com eficácia.
A ideia de pôr os pais a avaliar os professores daria vontade de rir, se não fosse grave. Para além do que fica dito, sobram outras considerações. Grande parte dos pais que têm actualmente os filhos na escola são analfabetos ou pouco menos do que isso. Não possuem um vestígio de idoneidade intelectual para se pronunciarem sobre a qualidade dos docentes; para não mencionar os muitos que não possuem idoneidade moral. Depois, outra grande, grande parte pura e simplesmente despeja os filhos na escola e não quer saber do que lá se passa. Em Portugal, a maioria dos "encarregados de educação", por incompetência ou desinteresse, ou ambas as coisas combinadas, vivem inteiramente divorciados da vida escolar. Só vejo vantagens em manter pais destes à distância. E não me venham com o exemplo da América ou da Finlândia, onde os pais e as suas associações se envolvem intensamente na gestão escolar: convém não esquecer que, infelizmente, estamos em Portugal. Historiadora
Publicado por morfeu às 08:50 AM | Comentários (17)
junho 17, 2006
Os transcendentes objectivos da Srª Ministra, do Srº P.M. e de Sª Exª o Presidente...
... sob a poeira de reforma "voluntariosa" repousa camuflada, a verdadeira razão de tanta guerrilha... afinal mais simples do que se pensa... felicidades para a Educação!
Despesas do Estado com pessoal em queda
Maior contribuição veio do Ministério da Educação
As despesas com pessoal diminuíram 2,5 por cento até Maio, para 4853,1 milhões de euros, de acordo com a execução orçamental do subsector Estado, divulgada ontem pela Direcção-geral do Orçamento (DGO).
Esta redução concentra-se no Ministério da Educação, avança a DGO, que a atribui à diminuição do número de efectivos dos professores dos ensinos básico e secundário contratados para o ano lectivo 2005/2006 e ao congelamento dos escalões.
(In Público de 17/06/006, secção de economia, adaptado)
Publicado por morfeu às 08:42 AM | Comentários (3)
junho 14, 2006
Em nome do futuro da Educação, hoje digo: Não!
Publicado por morfeu às 08:45 AM | Comentários (3)
junho 13, 2006
Experiência de Quase Morte... dos professores.
...Amanhã estarei em greve, como profissional que sou há trinta e dois anos, em solidariedade comigo próprio, e em solidariedade com os meus colegas mais novos propícios a maior enxovalhada...
É obrigação de todos os portugueses que se interessem - e todos se devem interessar - pela Educação, procurarem informar-se da hora em que esta será enterrada...digo, informarem-se da Agência que se encarrega do enterro, à qual todas as informações poderão ser pedidas....Amanhã, estarei de negro, de luto...
Publicado por morfeu às 04:20 PM | Comentários (14)
junho 05, 2006
Demolidor... ainda a Educação!
Em que país estava a ministra da Educação?
Beatriz Pacheco Pereira (Publico de 5 de Junho de2006)
O passado é negro, mas a culpa não é, seguramente, dos professores. Os que resistiram a todos estes erros da responsabilidade do Ministério que tutela são quase heróis. Que mereciam ser estimados e bem pagos para permanecer na profissão.
Sucedem-se os ataques violentíssimos aos professores como únicos responsáveis pelo desaire do ensino público (note-se, público, não privado, como se eles não fossem os mesmos...).
Caso é para perguntar à sra. ministra onde andava e que informação tinha sobre o que se passava, de há trinta anos para cá, no Ministério que agora tutela. Ninguém chega a ministro sem saber o que está para trás. Mas nada se nota. Se não está bem informada do passado, aqui ficam alguns dados que explicam bem como se pode ter chegado aos descalabro que apregoa.
Pergunta-se pois, sra. ministra, onde andava quando o seu Ministério...
1- ...aprovou cursos de professores primários em que se proibiam as cópias e a memorização da tabuada (Institutos Piaget e quejandos...)
2- ...deixou professores primários dar aulas em aldeias remotas em escolas sem água, sem luz e com alojamentos dignos de eremitas? E todos ou outros em verdadeiro trabalho missionário por esse país fora?
3- ...deixou que o concurso de professores enviasse, anos e anos a fio, pessoas com uma qualificação de nível superior (as que devia mais estimar) pelo país inteiro, à custa de suas famílias destroçadas e dos filhos que não podiam ter ou ter consigo?
4- ...ignorou ostensivamente que eles pagavam os transportes do seu bolso, viajando 100-120 quilómetros até, sempre sem qualquer ajuda de custo, diminuindo dramaticamente os que lhes sobrava no fim do mês? Não seria isto imoral e desumano?
5- ...teve inúmeros ministros que se sucediam a ritmo alucinante, cada um puxando pelos seus galões de docentes universitários, vomitando reformas continuamente e sempre sem ter em conta a sua adequação, implementação e financiamento?
6- ...deixou que a dotação financeira de uma escola secundária fossse absolutamente ridícula durante décadas, mal dando para pagar a água, luz, os edifícios escolares se degradassem de tal modo que nenhum professor se aventurava nas instalações sanitárias dos alunos, e não havia recintos desportivos ou actividades extra-escolares?
7- ...permitiu horários dos alunos que alcançam as 8-9 horas por dia, uma carga insuportável para qualquer pessoa? (tive uma turma destas este ano lectivo, e eu dava a 9º aula do dia...)
8- ...não se preocupou com o tempo de estudo dos alunos. Quantas horas sobram semanalmente para os alunos estudarem? Na escola, onde se pode estudar se não há salas de estudo organizadas e, em muitas, as bibliotecas, se funcionam, não têm espaço para tal? Será em casa, à noite, com pais que se demitem cada vez mais da sua função de vigilantes e educadores?
9- ...esvaziou o quadro das escolas de funcionários, deixando que sejam poucos, mal preparados e pouco mais do que empregados de limpeza?
10- ...obrigou os professores (especialistas nas suas matérias, não se esqueçam) a passar muitas horas extra-horário, a fazer tarefas administrativas que antes competiam aos funcionários não-docentes, ou então em reuniões absolutamente improdutivas mas obrigatórias? Não sabia que os professores já passavam muitas noites e fins de semana a preparar aulas e material lectivo?
11- ...permitiu que o Sistema Disciplinar se esvaziasse, em nome da retenção quase obsessiva de alunos dentro de portas e do aumento da população discente nas escolas, minando sistematicamente a autoridade dos professores? Este ano, sei que alunos com comportamentos irregulares, e até criminosos, com 20 ou mais participações disciplinares, não foram expulsos nem submetidos a nenhum programa de reabilitação por especialistas credenciados... Porque reduziu o Ministério o poder de sanção dos professores?
12- ...só deu atenção ao número de computadores por escola e ao acesso à Internet mas não permitiu aos alunos compreender o poder dos media? Afinal os alunos passam o resto do escasso tempo diário a ver uma televisão que lhes mostra só publicidade de telemóveis, futebol, escândalos e anedotas... Os valores dos jovens hoje são ensinados pelo matraquear de televisões mal regulamentadas. Porque não age o Ministério sobre elas também? Porque será que abdicou da sua função reguladora deixando que canais abertos dêem pornografia encapotada, publicidade que ofende os direitos humanos e dos animais, programas impróprios a horas do jantar? Porque nunca interagiu o Ministério da Educação com o da Cultura?
13- ...permitiu que se extinguissem os Exames por puras razões estatísticas? Ninguém no Ministério sabia que era preciso separar os que sabiam dos que não sabiam, e desde o início da escolaridade? Porque facilitou sempre a passagem dos que tinham níveis negativos?
14- ...deixou que as escolas tivessem apenas um psicólogo (quando o tinham, claro) que além de fazer sozinho a orientação vocacional, não tinha tempo para lidar com os casos mais graves que surgiam nos alunos? Porque, entre eles, não havia futuros desajustados da sociedade, nem doentes mentais, nem vítimas de abuso sexual, nem de violência doméstica, nem problemas de droga. Ou havia?
15- ...não se deu conta da crescente feminização das nossas escolas? Por que razão isso aconteceu, é simples - ser professor era (é) das tarefas mais exigentes, mal pagas, de carreira mais difícil e incerta. Portanto, óptima para o lado mais fraco da nossa sociedade. Depois, com algum malabarismo, ainda deixava algum tempo livre para as tarefas domésticas. Os homens, simplesmente não se sujeitavam a isto e partiam para outras profissões, mesmo dentro da função pública como para repartições e organismos de gestão do Ministério da Educação. Esta acomodação a padrões de sociedade retrógrados nunca incomodou o Ministério? (A propósito, os professores-homens estão a voltar ao ensino, não porque sintam vocação, mas porque há falta de empregos...)
Podia continuar estas interrogaçãoes que apontam para coisas que a sra. ministra, estranhamente, prefere não falar. O passado é negro, concordo, as estatísticas não se podem ignorar, mas a culpa não é, seguramente, dos professores. Porque os que resistiram a todos estes erros da responsabilidade do Ministério que tutela são quase heróis. Que mereciam ser estimados e bem pagos para permanecer na profissão. Sabe a sra. ministra porque é que, em Inglaterra, já ninguém quer ser professor e andam à procura deles em Espanha e até em Portugal ? Professora do ensino secundário (bpachecop@hotmail.com)
Publicado por morfeu às 08:10 AM | Comentários (4)
junho 03, 2006
Ainda há quem fale bem dos professores... haja Deus!
"Devo começar por esclarecer que não sou professora. Escrevo na condição de estudante - estou agora no ensino superior, mas o meu percurso escolar ainda está bem vivo na minha memória. Ser professora não está de todo nos meus planos, não pretendo fazer parte de uma classe tão claramente maltratada."
(In Público de 3 de Junho, "Cartas ao director")
Tive bons professores - alguns surpreendentemente bons, tendo em conta a infinidade de "reformas" de que eu e os da minha geração (a de 1982 - tenho 23 anos) foram "cobaias". Tive professores que me fizeram relembrar o gosto pelo teatro (algo adormecido desde as primeiras memórias enquanto pequenina espectadora do TIL), que o tornaram prática comum nos meus lazeres. Tive professores cujo grau de exigência acima da média (e acima do requerido pelos diversos ministérios) me fizeram trabalhar muito para conseguir decifrar equações e problemas de física, matemática, química... Tive também professores que, na idade das "filosofias", me mostraram como os filósofos de outros e deste tempo eram importantes e contribuíram para mudar as formas das coisas reais... e professores que me mostraram desde cedo como era importante ler - e escrever.
Acima de tudo, estes meus professores mostraram-me a insatisfação constante perante o conhecimento - e o querer saber mais. Mostraram-me também como é essencial superar-me sempre em cada etapa à procura de respostas e de como é importante saber exprimir-me para comunicar as minhas ideias. E, sobretudo, como manter sempre essa atitude de curiosidade perante o mundo.
A minha sociologia diz-me que o meu percurso escolar não teve grandes percalços porque não pertenço a um meio particularmente desfavorecido. É evidente que sim, é um factor importante. Devo muito aos meus pais os incentivos que deles recebi a conseguir lutar pelos meus objectivos. Mas de qualquer forma acredito que seja possível a qualquer aluno o conseguir ter um percurso de sucesso escolar - o que não passa nunca pelo rebaixar contínuo da condição de professor, mas antes pelo seu estímulo.
É importante notar que a escola é feita em primeiro lugar para se aprender, para se "aprender a gostar de aprender", e tal não se consegue através de facilitismos imbecis (como a questão das provas globais de Português em escolha múltipla... pasmei perante tal exemplo), mas através de uma ética muito forte de trabalho árduo - e também de prazer em aprender. As medidas que têm vindo a ser criadas no sentido de "facilitar" as matérias, para que o aluno "não se assuste" (ou lá para o que será), têm como resultados práticos o que se vê todos os dias: pessoas da minha idade que não sabem a diferença entre um "há" e um "à", que escrevem e dizem as mais incríveis barbaridades, que não se podem "dar ao trabalho" de conceber um ensaio de raiz sem tentar copiar de algum lado... Ser-se realmente bom parece ser algo reservado a uns poucos sobreviventes deste enorme barco à deriva que é o sistema de ensino que temos.
Simplesmente dói-me este "chico-espertismo" ser institucionalizado pelo próprio sistema de ensino. Acredito que continue a haver bons professores... não sei é como esta classe - já de si tão pouco unida, parecendo por vezes estranhamente incapaz de se mobilizar para lutar pelo estatuto da profissão - conseguirá manter-se à tona de tantas reformas e erros conceptuais vindos dos vários ministérios da Educação. Resta-me desejar-lhes coragem.
Ágata Sequeira
Almada
Publicado por morfeu às 12:09 PM | Comentários (1)
junho 02, 2006
Esse "Monstro" a que se chama Educação... sugiro!
O monstro
Vasco Pulido Valente (In Público de 2 de Junho)
(...) "A escola que por aí existe, como a democracia a fez, não passa de uma garagem gratuita onde os pais por comodidade e tradição metem as crianças. Não serve as crianças, que não a respeitam e, em grande percentagem, voluntariamente a deixam. Não serve os professores, que não ensinam e sofrem, ainda por cima, um vexame diário. Não serve a economia, a cultura ou o simples civismo dos portugueses. É inútil, quando não é nociva. Chegará, ou não chegará, o dia em que um governo se resolva a olhar para a realidade. Até lá não vale a pena gemer por causa de um monstro que Portugal inteiro viu crescer com equanimidade e deleite."
Voltou a discussão sobre a violência na escola. É assunto tão velho que já tresanda. Mas neste país, que não aprende, e nunca aprendeu, é sempre preciso repetir o óbvio. Vêm as desculpas do costume (o "meio social", a "família" e por aí fora). E os remédios do costume (a autoridade dos professores, a participação dos pais, como se eles se ralassem, ou do mirífico dinheiro da "iniciativa privada"). Infelizmente, nada disso leva a parte alguma. Os "reformadores" têm de meter na cabeça uma verdade básica: na prática, o sistema de ensino não permite expulsar, repito, expulsar ninguém e assim, como se depreenderá, qualquer aluno tem a impunidade garantida. Do ministro ao último professor, toda a gente acredita que expulsar um aluno equivale a uma espécie de condenação à morte. Marçal Grilo, uma das pessoas mais deletérias que passaram pelo Governo, reservou para si a autoridade de aplicar essa pena capital e, segundo nos disse depois, ficou muito emocionado e tremente, quando em três casos durante quatro anos não a pôde evitar. Isto quase que significa uma licença para matar, coisa que as criancinhas percebem muito bem.
Quem não vive na lua está farto de saber o que a escola precisa e não precisa. Não precisa de psicólogos, nem de psiquiatras: precisa de um código disciplinar e de uma guarda que o execute. Não precisa de conselhos directivos, nem de lamechice pedagógica, precisa de um director (como defende o PSD), que ponha expeditivamente na rua quem perturbar a vida normal da escola, quer se trate de alunos, quer se trate de professores. Não precisa da ajuda, nem da "avaliação" dos pais; precisa que os pais paguem pelo menos parte da educação dos filhos (mesmo que em muitos casos esse pagamento seja um gesto simbólico).
A escola que por aí existe, como a democracia a fez, não passa de uma garagem gratuita onde os pais por comodidade e tradição metem as crianças. Não serve as crianças, que não a respeitam e, em grande percentagem, voluntariamente a deixam. Não serve os professores, que não ensinam e sofrem, ainda por cima, um vexame diário. Não serve a economia, a cultura ou o simples civismo dos portugueses. É inútil, quando não é nociva. Chegará, ou não chegará, o dia em que um governo se resolva a olhar para a realidade. Até lá não vale a pena gemer por causa de um monstro que Portugal inteiro viu crescer com equanimidade e deleite.
Publicado por morfeu às 07:29 AM | Comentários (35)
maio 29, 2006
Do "Bumba no Prof." ou do Estat. Carreira Docente em discussão...
... Para não estar a cansar demasiado os peregrinos que por aqui passam, sugiro-lhes, caso estejam interessados que consultem Estatuto Carreira Docente
... quem não quiser ter a pachorra de consultar o documento não tem permissão de atirar ovos ou tomates aos profes...Amén!
Publicado por morfeu às 06:13 PM | Comentários (1)
maio 10, 2006
Adenda útil ao post anterior sobre as contradições do ensino e de um seu comentador...
... pensei várias vezes se devia colocar este post em adenda ao anterior. Não me anima qualquer espírito de vingança contra o autor mencionado... apenas faço questão de deixar para apreciação dos interessados, o artigo que tenho em arquivo que foi publicado, após a famosa intervenção na RTP da Srª Ministra... leiam e comparem. Como dizia Camões "mudam-se os tempos mudam-se as vontades".
Por consideração pela figura emblemática do referido articulista, e para que não haja qualquer leitura polémica, coloco o artigo em entrada estendida... mas o filho pródigo é bem recebido!
novembro 23, 2005
Lição magistral. Título: ...qualquer professor que não seja debilóide...
...eu tenho imensa consideração pelo drº E.P.C. Percebo o seu posicionamento em relação a atitudes sindicais contestáveis. Agora, que do alto da sua bem instalada e confortável cátedra, teça os comentários que se seguem com a ligeireza que manifesta...
"Mas qualquer professor que não seja um debilóide sabe estabelecer uma relação com turmas de alunos que não conhece e conversar descontraidamente sobre aspectos genéricos das disciplinas e as suas correlações (nada é estanque), sobre os modos de tirar notas na aula, sobre a procura de um livro ou de um artigo na biblioteca, sobre o uso produtivo da Internet e outras questões metodológicas."
(In jornal o público de 23 de novembro)
Aulas de substituição
Eduardo Prado Coelho o fio do horizonte
Fui ver o Prós e Contras com a maior curiosidade. Queria perceber que terá levado professores à greve, que me dizem que foi muito participada (não estava cá para ver de mais perto). Mas nas actuais circunstâncias difíceis do país, um sector tão importante como é a educação só poderia, pensava eu, fazer greve com ponderosas razões. Devo dizer desde já que fiquei convencido que todos estavam de acordo no essencial e que aquilo que os dividia eram questões formais, de lana-caprina, que não justificavam a irresponsabilidade demonstrada. Cheguei à conclusão de que o que teria movido os sindicatos seria uma vez mais uma lamentável ausência de solidariedade para com um governo que tomou medidas corajosas que até agora mais ninguém havia tomado (e isso deve-se à coragem e determinação de José Sócrates), e que deu uma linha orçamental para o país, e aquela tendência dos sindicatos para se tornarem forças de conservação e mesmo reaccionarismo face às mudanças do mundo que manifestamente não entendem (e que conduz a uma dessindicalização vertiginosa em toda a Europa). É triste, quando se trata de profissionais que têm por função compreender o mundo.
Diga-se desde já que a ministra foi excelente. Sem nenhuma arrogância, revelando o espírito de diálogo e abertura que muitos lhe contestam, Maria de Lurdes Rodrigues mostrou entusiasmo na sua missão e foi mesmo ao ponto de reconhecer que esse entusiasmo poderia ter efeitos negativos no modo como por vezes queria resolver as coisas. Parabéns também para David Justino, que, com um sentido de justiça que se sobrepôs a razões políticas (essas que levaram à desgraça parlamentar de Marques Mendes), soube dizer como estava de acordo com quase todas as medidas da actual ministra.
Para além dos aspectos que dizem respeito à função pública em geral (e que todos aceitam para os outros, mas ninguém quer aceitar para si), julgava que a grande questão era a das aulas de substituição. Ouvi sobre isso dizerem-se coisas extraordinárias: que os professores não tinham que ficar a tomar conta de meninos, e que um professor de Geografia não poderia substituir uma aula de Educação Física. Estávamos na demagogia mais despudorada. Substituir uma aula em que um professor falta não é necessariamente dar a matéria que ele estava a dar. Mas qualquer professor que não seja um debilóide sabe estabelecer uma relação com turmas de alunos que não conhece e conversar descontraidamente sobre aspectos genéricos das disciplinas e as suas correlações (nada é estanque), sobre os modos de tirar notas na aula, sobre a procura de um livro ou de um artigo na biblioteca, sobre o uso produtivo da Internet e outras questões metodológicas. O único problema que vejo na permanência dos professores nas escolas está na necessidade de encontrar espaços onde eles possam trabalhar sossegadamente, ler os livros que lhes interessam ou preparar aulas. Esta é a questão que me parece que cada escola, na sua autonomia, tem de resolver.
Quanto à greve, foi certamente um equívoco de que alguns se aproveitaram politicamente. Professor universitário
Publicado por morfeu às 08:24 PM | Comentários (5)
maio 09, 2006
Drº Prado Coelho...mais vale tarde que nunca...
... tendo presente um famoso artigo produzido no início do ano lectivo, em que defendia a facilidade de uma aula de substituição e apodava de "debilóide" quem não fosse capaz de a realizar, assim como a crença na bondade das medidas voluntariosas da Srª ministra, finalmente o Drº Prado Coelho poisou na realidade e deu-se conta da triste realidade do que se passa pelas escolas...mais vale tarde que nunca...
Trabalhos forçados
Eduardo Prado Coelho o fio do horizonte
"Há qualquer coisa que não está a funcionar bem no Ministério da Educação. Existe uma determinação em abstracto do que se deve fazer, mas uma compreensão muito escassa da realidade concreta. O que se passa com o ensino do Português e a aprendizagem dos textos literário é escandaloso. Onde deveria haver sensibilidade, finura e inteligência na compreensão da literatura, há apenas testes de resposta múltipla completamente absurdos. Assim não há literatura que resista. Há tempos, dei o exemplo da regulamentação por minutos e distâncias de determinadas provas. O ministério respondeu-me que se baseavam na mais actualizada bibliografia e que tinham tido reacções entusiásticas perante tão inovadoras medidas. Não me convenceram minimamente. Trata-se de dispositivos ridículos e hilariantes, que provocam o mais elementar bom senso.
O problema reside em considerar os professores como meros funcionários públicos e colocá-los na escola em sumária situação de bombeiros prontos para ocorrer à sineta de alarme. Mas a multiplicação de reuniões sobre tudo e mais alguma coisa não permite que o professor prossiga na sua formação científica. Quando poderá ler, quando poderá trabalhar, quando poderá actualizar-se? Não é certamente nas escolas que existem condições para isso. Embora na faculdade eu tivesse um gabinete, sempre partilhado com mais quatro ou cinco pessoas, nunca consegui ler mais do que uma página seguida. Não existem condições de concentração.
Pelo caminho que as coisas estão a tomar, assistiremos a uma barbarização dos professores cada vez mais desmotivados, cuja única obsessão passa a ser defenderem-se dos insultos e dos inqualificáveis palavrões que ouvem à sua volta. A escola transforma-se num espaço de batalha campal, com o apoio da demagogia dos paizinhos, que acham sempre que os seus filhos são angelicais cabeças louras. E com a cumplicidade dos pedagogos do ministério. Quando precisaríamos como de pão para a boca de um ensino sólido, estamos a criar uma escola tonta e insensata."
Neste benemérita tarefa tem-se destacado o secretário de Estado Valter Lemos. É certo que a personagem se diz e desdiz, avança e volta atrás, com a maior das facilidades. Mas o caminho para onde parece querer avançar é o de uma hostilização e incompreensão sistemática da classe dos professores. Com isto prejudica o país, e prejudica o Governo, com um primeiro-ministro determinado e competente, mas que não pode estar atento a todos os pormenores. E prejudica o PS, mas não sei se isto o preocupa.
Vem agora dizer que o professor deve avisar previamente que vai faltar, o que no limite significa que eu prevejo com alguns dias de antecedência a dor de dentes ou a crise de fígado que vou ter. E que deve dar o plano da aula que poria em prática caso estivesse em condições. Donde, as matérias são totalmente independentes de quem as ensina, basta pegar no manual, e ala que se faz tarde. Começa a tornar-se urgente uma remodelação do Governo, mas isso é tema delicado a que voltarei mais tarde. Professor universitário
(público de nove de maio de 2006)
Publicado por morfeu às 07:16 AM | Comentários (23)
março 24, 2006
Sex/love generation...sugiro
... interessantissima crónica de Pedro Strecht, no público de hoje...
"Não podemos arriscar matar o desejo de quem é ainda criança. Ou o sonho, o prazer de, a pouco e pouco, poder descobrir o desconhecido. Não podemos dar a quem ainda não cresceu o suficiente algo a que jamais dará o justo entendimento que o leve a usufruir de uma das coisas mais belas que a vida tem: a possibilidade real de amar alguém e, em troca, ser por ela ou por ele amado. "
E agora permanecem a fé, a esperança e o amor.
Mas a maior de todas é o amor.
(De uma Epístola de São Paulo aos Coríntios)
Love generation
Pedro Strecht
Se em vez de uma love generation, estivermos a criar uma sex generation? Em vez de alguém que espera por crescer para viver, vive para, a pouco e pouco, morrer ou matar partes demasiado sensíveis e importantes da vida
Quando se está a crescer, tudo tem o seu tempo de existir e acontecer. A precocidade ou o adiamento excessivo de determinadas vivências afectivas e emocionais pode causar paragens, desvios ou regressões em áreas muito importantes do desenvolvimento, sendo que, por vezes, podem daí resultar riscos importantes no presente ou no futuro. Começar a andar, a falar tem o seu tempo, assim como tem o seu tempo retirar as fraldas, entrar para a escola, aprender a ler ou a escrever e ainda, mais tarde, sair, namorar, ser autónomo na vida. Por isso mesmo, preocupamo-nos quando vemos jovens adolescentes de 13 anos iniciar a frequência de um curso universitário por terem sido considerados "sobredotados", crianças de quatro anos que ainda não falam ou, noutro exemplo, rapazes de onze que ainda frequentam o 3.º ano de escolaridade ou raparigas de 15 que já são mães. Tudo quanto é excessivamente a mais ou a menos corresponde a algo que não está a ser suficientemente digerido ou metabolizado a nível mental e que deixará marca.
É isso mesmo que também se passa no campo das vivências afectivas e sexuais que, como tudo o resto, devem ter um tempo de existência consonante com determinado crescimento físico e psíquico, sem o qual não encontram nem contenção nem utilidade possíveis. Foi com certeza por isso que a clássica psicologia definiu um tempo do crescimento de rapazes e raparigas que designou por latência, que teoricamente ocorre entre os 5/6 anos e a entrada na puberdade, por volta dos 12 a 13 anos. Durante esse período, as crianças com um desenvolvimento normal estão particularmente disponíveis para aprender, conhecer, descobrir, imaginar e criar: as suas faculdades cognitivas ampliam-se de forma espectacular, a capacidade de interagir com os outros (da mesma idade ou adultos) é muito grande, e a possibilidade de adesão a modelos que a cercam é total. Aliás, é durante esse tempo do crescimento que os mais novos se organizam em termos das suas identificações masculinas e femininas, que vão funcionar com um esteiro onde se vão inscrever os movimentos psicológicos que caracterizam a adolescência. Latências bem vividas, com uma boa qualidade de vivências afectivas, facilitam adolescências mais tranquilas e ricas na capacidade de ligação a outros, de investimento na escola e de desejo de conhecer e amar o sexo oposto.
Só que, nos últimos tempos, um fenómeno de proporções epidémicas parece estar a perturbar a vida emocional de muitos rapazes e raparigas dessa idade. Depois de há alguns termos observado o efeito arrasador dos canais pornográficos da TV cabo, a que muitos tinham acesso directo através de uma televisão no quarto, ou indirecto pela troca de informação de outros mais velhos, eis que chegou para ficar a questão dos sites da Internet com os mesmos conteúdos. De facto, de forma cada vez mais repetida, todos os que conhecem ou trabalham com crianças desta faixa etária têm conhecimento de rapazes ou raparigas siderados ou hiperexcitados com um acesso desadequado a este tipo de informação. De uma forma que é verbalizada directamente e a completo despropósito, mesmo em plena sala de aula, por exemplo, ou agida numa brincadeira de recreio que a todos deixa espantados pelos seus aspectos demasiado concretos, ou encoberta em sinais ou sintomas "mistério" que vão desde alterações do comportamento, do sono, perturbações alimentares, quebra do rendimento escolar, entre outros, a vivência desadequada procura uma exteriorização possível que, não raramente, é repetida até à exaustão, porque, de facto, o que está em causa é a metabolização impossível de algo para que o funcionamento psíquico de uma criança dessa idade não tem resposta, por incapacidade maturativa, tanto física como psicológica.
Depois, são casos como esses que implicam riscos no momento e no futuro. No momento, porque um rapaz ou uma rapariga infectada por uma dose maciça de uma informação sexual de que não pode dar conta é sempre alguém que fica demasiado exposto a quem dela quiser tirar um proveito patológico, como por exemplo alguém mais velho que, face a determinada solicitação da própria criança, não a deseja conter para a reequilibrar, mas sim explorá-la para dela abusar (emocionalmente ou sexualmente, por exemplo). No futuro, porque aquilo que não é difícil constatar nas vidas desses mais novos é que a vivência antecipada de determinadas experiências sexuais, ainda para mais com a agravante de serem desprovidas de um bom enquadramento afectivo, mata o desejo, aniquila a vontade ou induz as bases para algumas organizações perversas da personalidade que só mais tarde, na adolescência ou mesmo quando já se é adulto, se podem vir a revelar, embora aí com contornos mais dramáticos.
Por isso, nos tempos de hoje, muitas crianças pré-adolescentes precisam de um apoio reforçado quer no seu suporte afectivo, quer numa correcta protecção por limites bem definidos pela presença cuidadora de um adulto que saiba a importância de estar presente e de oferecer maneiras positivas de ocupar o tempo, brincar e crescer em segurança. É que é habitual estes casos acontecerem em momentos repetidos em que rapazes ou raparigas estão demasiado entregues a si próprios, sem ninguém por perto que para eles consiga olhar, filtrando a adequação dos estímulos que a envolvem.
Quando uma criança tem acesso directo e concreto a questões que são vividas fora do tempo certo, o traumatismo psíquico acontece e daí à possibilidade de adoecer pode ir um curto passo. E isso é algo que custa sempre ver e aceitar, sobretudo em tempos que teriam tudo para facilitar que elas crescessem bem, incluindo no campo afectivo e sexual: menos filhos por casal, mais informação e interesse dos pais, maior atenção por parte de quem delas cuida, potenciais inatos realmente espantosos, simplesmente à espera de poderem ser bem moldados... E depois, se em vez de uma love generation, estivermos a criar uma sex generation? Em vez de alguém que espera por crescer para viver, vive para, a pouco e pouco, morrer ou matar partes demasiado sensíveis e importantes da vida.
Não podemos arriscar matar o desejo de quem é ainda criança. Ou o sonho, o prazer de, a pouco e pouco, poder descobrir o desconhecido. Não podemos dar a quem ainda não cresceu o suficiente algo a que jamais dará o justo entendimento que o leve a usufruir de uma das coisas mais belas que a vida tem: a possibilidade real de amar alguém e, em troca, ser por ela ou por ele amado.
E agora permanecem a fé, a esperança e o amor.
Mas a maior de todas é o amor.
(De uma Epístola de São Paulo aos Coríntios)
Nota: por decisão do PÚBLICO, esta é a última crónica do Lugar dos Novos, após uma colaboração de quase quatro anos. Aos leitores, obrigado! Pedopsiquiatra
Publicado por morfeu às 01:11 PM | Comentários (6)
fevereiro 21, 2006
Não me posso calar: "As inauditas, confusas, inefáveis, aulas de substituição."
Defendo que haja aulas de substituição adequadas: se de matemática seja professor de matemática e assim para português e inglês, que são as três disciplinas que considero fundamentais. Com uma bolsa adequada de professores. Tudo ao molho é que não. Srª ministra: nas minhas substituições ao básico, eu que sou de Filosofia, e por mais imaginação que tenha desenvolvido, um facto: os alunos não me querem lá! E como pode imaginar, as ditas transformam-se numa espécie de prisão cujos personagens careço de mencionar. Srº 1º ministro, o senhor do alto da sua sobranceria não consegue ver que vai nu....
Eu faço greve!
Publicado por morfeu às 07:38 AM | Comentários (9)
novembro 28, 2005
A autoridade conquista-se...sugiro
Porque é que, às vezes lidando com as mesmas turmas, há professores que conseguem mais facilmente o respeito dos seus alunos do que outros?
Esse é um dos grandes mistérios da educação. Os melhores professores conseguem manter uma relação equilibrada com os alunos. Há uma sensação de conforto e de naturalidade na acção pedagógica. Eles sabem que a autoridade não pode ser exercida de forma arbitrária. É preciso que as regras tenham sentido, que sejam impostas com justiça e equidade. Mas eles evitam, também, cair no extremo oposto o poder baseado na pura sedução ou no carisma pessoal (...) É também muito interessante ouvir o que os alunos têm para nos dizer.
Publicado por morfeu às 12:02 PM | Comentários (2)
A autoridade conquista-se...sugiro
Porque é que, às vezes lidando com as mesmas turmas, há professores que conseguem mais facilmente o respeito dos seus alunos do que outros?
Esse é um dos grandes mistérios da educação. Os melhores professores conseguem manter uma relação equilibrada com os alunos. Há uma sensação de conforto e de naturalidade na acção pedagógica. Eles sabem que a autoridade não pode ser exercida de forma arbitrária. É preciso que as regras tenham sentido, que sejam impostas com justiça e equidade. Mas eles evitam, também, cair no extremo oposto o poder baseado na pura sedução ou no carisma pessoal (...) É também muito interessante ouvir o que os alunos têm para nos dizer.
Publicado por morfeu às 12:02 PM | Comentários (2)
novembro 23, 2005
Lição magistral. Título: ...qualquer professor que não seja debilóide...
...eu tenho imensa consideração pelo drº E.P.C. Percebo o seu posicionamento em relação a atitudes sindicais contestáveis. Agora, que do alto da sua bem instalada e confortável cátedra, teça os comentários que se seguem com a ligeireza que manifesta...
"Mas qualquer professor que não seja um debilóide sabe estabelecer uma relação com turmas de alunos que não conhece e conversar descontraidamente sobre aspectos genéricos das disciplinas e as suas correlações (nada é estanque), sobre os modos de tirar notas na aula, sobre a procura de um livro ou de um artigo na biblioteca, sobre o uso produtivo da Internet e outras questões metodológicas."
(In jornal o público de 23 de novembro)
Aulas de substituição
Eduardo Prado Coelho o fio do horizonte
Fui ver o Prós e Contras com a maior curiosidade. Queria perceber que terá levado professores à greve, que me dizem que foi muito participada (não estava cá para ver de mais perto). Mas nas actuais circunstâncias difíceis do país, um sector tão importante como é a educação só poderia, pensava eu, fazer greve com ponderosas razões. Devo dizer desde já que fiquei convencido que todos estavam de acordo no essencial e que aquilo que os dividia eram questões formais, de lana-caprina, que não justificavam a irresponsabilidade demonstrada. Cheguei à conclusão de que o que teria movido os sindicatos seria uma vez mais uma lamentável ausência de solidariedade para com um governo que tomou medidas corajosas que até agora mais ninguém havia tomado (e isso deve-se à coragem e determinação de José Sócrates), e que deu uma linha orçamental para o país, e aquela tendência dos sindicatos para se tornarem forças de conservação e mesmo reaccionarismo face às mudanças do mundo que manifestamente não entendem (e que conduz a uma dessindicalização vertiginosa em toda a Europa). É triste, quando se trata de profissionais que têm por função compreender o mundo.
Diga-se desde já que a ministra foi excelente. Sem nenhuma arrogância, revelando o espírito de diálogo e abertura que muitos lhe contestam, Maria de Lurdes Rodrigues mostrou entusiasmo na sua missão e foi mesmo ao ponto de reconhecer que esse entusiasmo poderia ter efeitos negativos no modo como por vezes queria resolver as coisas. Parabéns também para David Justino, que, com um sentido de justiça que se sobrepôs a razões políticas (essas que levaram à desgraça parlamentar de Marques Mendes), soube dizer como estava de acordo com quase todas as medidas da actual ministra.
Para além dos aspectos que dizem respeito à função pública em geral (e que todos aceitam para os outros, mas ninguém quer aceitar para si), julgava que a grande questão era a das aulas de substituição. Ouvi sobre isso dizerem-se coisas extraordinárias: que os professores não tinham que ficar a tomar conta de meninos, e que um professor de Geografia não poderia substituir uma aula de Educação Física. Estávamos na demagogia mais despudorada. Substituir uma aula em que um professor falta não é necessariamente dar a matéria que ele estava a dar. Mas qualquer professor que não seja um debilóide sabe estabelecer uma relação com turmas de alunos que não conhece e conversar descontraidamente sobre aspectos genéricos das disciplinas e as suas correlações (nada é estanque), sobre os modos de tirar notas na aula, sobre a procura de um livro ou de um artigo na biblioteca, sobre o uso produtivo da Internet e outras questões metodológicas. O único problema que vejo na permanência dos professores nas escolas está na necessidade de encontrar espaços onde eles possam trabalhar sossegadamente, ler os livros que lhes interessam ou preparar aulas. Esta é a questão que me parece que cada escola, na sua autonomia, tem de resolver.
Quanto à greve, foi certamente um equívoco de que alguns se aproveitaram politicamente. Professor universitário
Publicado por morfeu às 09:18 AM | Comentários (3)
novembro 18, 2005
A professora que se f....
...numa aula de 7ºano, tendo faltado a professora para a aula programada, foi destacada uma outra, disponível para substituição, de acordo com as recentes orientações do ministério. Os alunos reagem com desagrado, mas a professora lá vai tentando fazer compreender a situação. Numa carteira, com dois alunos, um deles chama a atenção ao outro "é pá, cala-te aí, a professora está a falar"...resposta do colega em voz bem audível: " A professora que se foda!"...
...com esta brilhante e pedagógica história assinalo o dia de greve dos professores! Os portugueses que se informem e se esforcem para perceber o mal estar que reina nas escolas, e reflictam também o modo pelo qual os seus filhos devem ser educados...Em democracia devemos dialogar e não instaurar uma política do quero, posso, mando, como a Srºa ministra tem exemplificado...enfim!
Publicado por morfeu às 08:25 AM | Comentários (6)
novembro 16, 2005
Do mal-estar educativo...sugiro!
...ao aproximar-se um dia de manifestação do mal estar sentido por muitos professores deste país - e os alunos como se sentirão?- colocarei aqui algumas sugestões de leitura e de reflexão pessoal. Hoje sugiro a leitura desta carta enviada para o jornal Público. Apenas quero adiantar que reina um enorme mal estar por essas escolas, embora nós professores, como cidadãos responsáveis, continuemos a obedecer democraticamente, a ordens por vezes desconexas e quiça ilegais...
CARTAS AO DIRECTOR
O estado da educação
Outono. Caem as folhas das árvores. Caem os sonhos, as expectativas de professores que há muito anseiam pelo dia em que finalmente possam rasgar a papelada e meter na gaveta a burocracia infame em que se traduz, neste momento, o ensino em Portugal.
Nem sequer nos atrevemos já a falar do passado, porque o que temos pela frente é um futuro. Mas que futuro? Acaso estarão as gerações presentes a construir um futuro?
Vejamos se conseguimos dar esta resposta.
Queremos viver num país organizado, em que as instituições funcionem, em que os cidadãos se sintam seguros, protegidos na doença, conhecedores das regras cívicas, críticos, bem-humorados, sorridentes, felizes, enfim... e que se esqueçam que há um governo "rosa", "laranja", "vermelho" ou de outra qualquer cor, porque a melhor forma de testarmos que o governo está a governar é esquecermos que ele está lá, no seu posto, a governar bem.
O problema é que um sistema organizativo de um país começa na organização familiar e da escola. E aqui é que está o busílis da questão. Onde está a autoridade dos pais e dos professores? E vem-nos à memória a célebre frase que um conhecido médico, depois ministro, publicou um dia e que é uma máxima popular: "Quem dá o pão dá o pau."
Hoje não se dá pão nem pau.
"Pão" signo de ética, referências positivas, organização mental, espírito crítico, conteúdos cognitivos verdadeiramente importantes e não para encher curriculum, ou melhor, "atafulhar", porque é disso que se trata. Não é uma qualquer Área de Projecto que um aluno frequenta aos 10, 11 anos que o prepara melhor para a vida.
É um desperdício de recursos, de dinheiro dos impostos (ou o Governo já se esqueceu que os professores são uns dos melhores contribuintes e que por isso também sustentam as escolas?)
"Pau" sinónimo de autoridade, castigo, se for preciso, porque não? Será que se "constroem" militares com falinhas mansas e sopinhas de mel? Ou homens preparados para a vida? Como é que um pai ou um professor podem exercer a sua autoridade, se não conseguirem exercer o seu direito de mandar, pois é disso que se trata? "Mandar" tornou-se palavra proibida. Íamos até dizer "tabu", mas isso cheira a politiquice barata e o que se faz nas escolas tem de ser sério e honesto, pois está em jogo o futuro de todo o país.
Por conseguinte, sem "pão" nem "pau" e com programas anacrónicos, desfasados da realidade quotidiana, do país e do mundo, não há ensino que medre, alunos que aprendam (salvo boas excepções, claro), professores satisfeitos, escolas organizadas e limpas. O futuro está portanto hipotecado.
Não são umas quaisquer "actividades educativas", leia-se "substituições", que vão constituir uma mais-valia para os alunos e para o país. E sabe porquê, senhora ministra? Porque nessas aulas não se dá "pão" e a autoridade dos professores é anulada, pois os alunos pouco ou nada querem fazer; o que querem é ter "furos". Ou será que a senhora ministra já se esqueceu de quanto era bom ter furos no seu tempo de estudante? Nunca os teve? Não? Foi pena...
Se calhar ia para a biblioteca de um qualquer liceu ou colégio para meninas educadas. E até era bom para si, pois os seus pais provavelmente habituaram-na a ler.
Tem piada... a nós também! Mas e os outros, os que nunca foram habituados a ler?!
Um conselho: partidos organizem-se! Façam com que os vossos políticos durmam menos no Parlamento e sobretudo escutem melhor a nação. Não basta distribuir muitos beijos ao povo, nas campanhas, é preciso conhecer in loco todo o terreno da educação e não fazer leis avulsas, só para agradar às "massas" que nada conhecem... mas é preciso votos ...
Maria Josefina Cardoso Guimarães Andrade e Silva
Ermesinde
Elisa Maria Vieira Pinto Tojal Monteiro
Porto
Isaura da Conceição Cruz Tinoco Xavier de Campos
Ermesinde
(in público de 17 de Novembro)
Publicado por morfeu às 09:26 AM | Comentários (2)
novembro 04, 2005
Senhores doutores imigrantes…sugiro
No último número do “Courrier International” edição portuguesa, Fernando Madrinha tece algumas pertinentes considerações…sugiro!
"Um país que empurra para universidades estrangeiras jovens candidatos a médicos, quando necessita tanto deles como do oxigénio para respirar, é um país em estado calamitoso, visto que já não tem sequer noção daquilo de que mais precisa".
Ficámos a saber por estes dias que um quinto dos portugueses licenciados trabalha fora do país. Di-lo um estudo do Banco Mundial divulgado pelo D.N (…)
(…) O movimento é de saída de quadros, supõe-se que dos melhores e presume-se para sempre, se nada for feito para os cativar.
(…) Seria uma excelente notícia se esses 20 por cento não nos fizessem falta. Mas acontece que precisamos deles como de pão para a boca. Quem entra hoje num hospital não tem a menor dificuldade em perceber, por exemplo, o absurdo que têm sido as continuadas políticas de restrição à formação dos médicos e de enfermeiros, resultante da ausência de investimento em faculdades e escolas dessas especialidades. (…)
(…) Nos hospitais mais importantes das grandes cidades, o castelhano quase se tornou já a primeira língua. E não é difícil encontrar num qualquer centro de saúde do interior, um médico da mais remota nacionalidade – libanês, por exemplo – que mal se exprime em português, mas vem tratar e acompanhar doentes idosos, em muitos casos analfabetos eles próprios com dificuldades de expressão.
(…)
Um país que empurra para universidades estrangeiras jovens candidatos a médicos, quando necessita tanto deles como do oxigénio para respirar, é um país em estado calamitoso, visto que já não tem sequer noção daquilo de que mais precisa.
In courrier… de 5 de Novembro de 2005
Publicado por morfeu às 08:14 PM | Comentários (2)
Ler e reflectir sobre a Escola...
A escola, os filhos, os professores, os…todos!
Publicado por morfeu às 02:12 PM | Comentários (1)
outubro 20, 2005
Deixe-se de "merdas" Sª Ministra...
Não é habitual eu utilizar títulos desde teor...mas, a Srª Ministra da Educação que se deixedas ditas acima referidas e diga o que é óbvio: não há "pilim" "dinheiro", "money", "Vil metal"...agora tecer considerações espúrias e mal cozidas em pretensas apreciações pedagógicas...sugiro que leiam o que aparece hoje no jornal "Público"...
Metade dos professores já estão nos três escalões mais altos da carreira docente
Se todos os relatórios de actividade que os professores fazem antes de subir de escalão são valorizados com a nota máxima, tem de concluir-se que não estão a funcionar como uma avaliação de desempenho, afirma a ministra da Educação. Mais: "Actualmente é possível um professor progredir na carreira estando dispensado de dar aulas."
O congelamento das carreiras por um ano vai permitir reavaliar o sistema de progressão, explica Maria de Lurdes Rodrigues. "Precisamos de ter uma componente de avaliação de desempenho que valorize os professores que efectivamente dão aulas, que têm várias turmas, que se envolvem no esforço da recuperação dos alunos." Até porque, acrescenta, os obstáculos que se possam criar "são valorizadores" da função docente. "Penso que os professores que são muito empenhados também não se revêem neste regime em que praticamente não há distinções entre os que trabalham muito e os outros."
O resultado de não se ter controlado o mecanismo de progressão, critica, é que nos últimos anos o sistema ficou com "50 por cento dos professores nos últimos três escalões do carreira". "Obviamente que esta situação tem de ser trabalhada, temos de construir progressivamente uma hierarquia, que distinga os professores com mais experiência e mais competências, até para distribuir correctamente as responsabilidades. Neste momento um professor em início da carreira ou no 10.º escalão pode estar a exercer exactamente as mesmas funções", observa a ministra.
Publicado por morfeu às 07:16 AM | Comentários (6)
outubro 16, 2005
Já sabe tudo, pensa que sabe, ainda não sabe, os seus filhos sabem?....sugiro

Na revista "Notícias Magazine", o tema é àcerca da contracepção...e por extensão, do "inefável" truca- truca...possibilidade de a um preço acessível evitar uma viagem a uma dessas clínicas de Badajoz.
Aproveito para dar os parabéns à ilustre directora da revista, Isabel Stilwell, pelo trabalho persistente e de qualidade que tem conseguido na publicação que dirige...e que começa a ser superior a muitos dos números que a revista "Única" nos oferece...o Vasco P.Valente, deu ao Expresso uma zurzidela...mas isso já é outra conversa! Vão lá ao quiosque da esquina e comprem esta revista com o dn ou jn. Infelizmente não está on-line, nem por subscrição o que é uma pena...Bom domingo, em companhia destes dois poste: sobre a religião e sobre a sexualidade...(Vd anterior...)
Publicado por morfeu às 12:50 PM | Comentários (3)
julho 19, 2005
Abafos e desabafos de um prof....
Nas diversas escolas que percorri – foram catorze até à data – múltiplas foram as experiências. Tendo morado na calçada do Carriche calhou-me em sortes uma velhinha escola em Mafra. Ora, no final dos anos setenta, eram quarenta quilómetros para cada lado o que perfazia oitenta diários. A gasolina que fazia andar um inolvidável Fiat 128 vermelho custava para aí vinte paus. Como não havia despesas de deslocação lá nos organizávamos, diferentes colegas, e dividíamos a despesa por todos. Lembra-me bem da antiga estrada, estreita, com uns buracos para quebrar a monotonia da viajem e curvas muitas. Eu que nunca gostei de me levantar cedo, lá fazia das tripas coração e embarcava diariamente nesse percurso para estar sem falta às oito e trinta da matina na primeira aula da manhã. Nesse tempo coube-me leccionar: história de Portugal; filosofia décimo ano; psicologia; Introdução à política!!! Um verdadeiro sábio que ia a todas por obrigação. Honestamente foi um sufoco, e, lamento não ter podido exercer em conhecimento e profundidade matérias que à partida não era suposto dar. Mas o mais caricato sucedeu com um colega de economia, que na ausência de um horário específico, teve de aceitar leccionar a disciplina de Francês. Ora acontecia que ele de Francês não percebia um oui, e teve que gramar este paradoxo até ao final, falando sei lá o quê e de quê…
(N.B. A quem interessar o tema, os textos saídos e a sair ficarão arquivados na categoria "Educação")
Publicado por morfeu às 04:48 PM | Comentários (6)
julho 18, 2005
Abafos e desabafos de um prof....
Ainda com raízes no séculos XIX, as minhas tias avós mantinham em meados dos anos 60, atitudes, convicções, o embiocamento do vestuário, o que as levava a parecerem umas viúvas tristes, anónimas e apagadas. Talvez o fossem mas não totalmente. Na ausência de mimos mais directos dos progenitores foram elas que no meio de um negrume de viúvas virgens nos chamavam de “nossos amores”. Para além disso, passavam fome para visitarem os seus únicos sobrinhos, ou, alimentá-los quando de férias nas suas simples e pobres casas.
“Quando forem grandes vão para professores”, diziam-nos elas, convictas da sapiência, estatuto, honradez, dos ditos. Foi assim que tal palavra e profissão entraram na minha cabeça. Padre falhado por abandono de vocação, médico impossível por apetência, restou a última porta vocacional que se abriu a partir de 1975: meio-horário, trabalhador estudante, três mil escudos mensais, se bem me lembro. Assim começou esta odisseia pedagógica, da qual resultarão os próximos “abafos e desabafos” de um prof…
Publicado por morfeu às 03:41 PM | Comentários (4)



