novembro 08, 2009

Muro, muros de Berlim....

Um acontecimento com efeitos “devastadores”…relembrar.

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outubro 29, 2009

Uma década de fotografia.

sugiro...

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outubro 03, 2009

Mais vale uma hora de ciência do que...


...cem anos de ignorância. Um artigo de Alves da Costa, meteorologista.

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setembro 19, 2009

Ouvir o silêncio...

sugiro...

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setembro 11, 2009

O Tempo, como vivê-lo?

sugiro...

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Hubble: o fascinio do Universo

...quanto mais me fascino, mais o fascínio aumenta...

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setembro 10, 2009

« Le croyance ne supporte pas la critique alors que la foi ne peut que la désirer »

sugiro...

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setembro 06, 2009

Narcisismo in "Courier Internacional".

Um interessante dossiê acerca do "Narcisismo", desenvolvido no número de Setembro do Courrier Internacional, para além de outros artigos e "viagens" mediáticas. Viajar a preço de saldo e sem sair de casa...

Um interessante dossiê acerca do "Narcisismo", desenvolvido no número de Setembro do Courrier Internacional, para além de outros artigos e "viagens" mediáticas. Viajar a preço de saldo e sem sair de casa...


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setembro 05, 2009

Ética e Religião, na reflexão de A. Borges


Para todos os que se preocupem com estas questões, aqui fica alguma ajuda, na crónica sabática de A.Borges. Bom fim-de-semana.

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agosto 29, 2009

A tentação do Cristianismo

(...) Luc Ferrry não crê, porque "é demasiado belo para ser verdade". Outros, porém, acreditaram e acreditam, precisamente porque o cristianismo mostra a sua verdade na sua correspondência com o dinamismo mais fundo do ser humano. Cabe a cada um decidir.(...)

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agosto 14, 2009

Mercado de coisa nenhuma...

sugiro...

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julho 06, 2009

Jan Hus, bohemian reformer...

Jan Hus (Bohemian religious leader)

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junho 06, 2009

O Mito do "Cuidado"...

"Uma vez, ao atravessar um rio, o 'Cuidado' viu terra argilosa. Pensativo, tomou um pedaço de barro e começou a moldá-lo. Enquanto contemplava o que tinha feito, apareceu Júpiter. O 'Cuidado' pediu-lhe que insuflasse espírito nele, o que Júpiter fez de bom grado. Mas, quando quis dar o seu nome à criatura que havia formado, Júpiter proibiu-lho, exigindo que lhe fosse dado o dele. Enquanto o 'Cuidado' e Júpiter discutiam, surgiu também a Terra (Tellus) e queria também ela conferir o seu nome à criatura, pois fora ela a dar-lhe um pedaço do seu corpo. Os contendentes tomaram Saturno por juiz. Este tomou a seguinte decisão, que pareceu justa: 'Tu, Júpiter, deste-lhe o espírito; por isso, receberás de volta o seu espírito por ocasião da sua morte. Tu, Terra, deste-lhe o corpo; por isso, receberás de volta o seu corpo. Mas, como foi o 'Cuidado' a ter a ideia de moldar a criatura, ficará ela na sua posse enquanto viver. E uma vez que entre vós há discussão sobre o nome, chamar-se-á 'homo' (Homem), já que foi feita a partir do húmus (Terra)'."

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maio 16, 2009

O "casino" dos Cardeais...sg/ A.Borges

...o Anselmo Borges que me desculpe pela alteração do titulo, mas a brincadeira terá sentido...

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abril 26, 2009

"Dançai com Cristo sobre os Evangelhos"

"Musas amigas, levai estes espelhos / Que reflectem do tempo a estampa fútil. / Dançai com Cristo sobre os Evangelhos / O círculo dos deuses inconsútil. // Nem céu nem inferno dos sacramentos velhos / Que são os cárceres de uma fé indúctil. / De em meu barro escutar santos conselhos / Desposa o Espírito minha alma núbil. // E em meu jardim interior passeiam / À meia-noite em flor amantes mortos / Que entre acácias se estreitam ressurrectos. // Com paixões que as grades incendeiam / Endireito da vida atalhos tortos, / E na morte entrarei de olhos abertos."

...pegando nas palavras de Natália Correia, Bento Domingues associa a sua reflexão dominical.
(In Público de 26/04/09)

As narrativas que temos são actos de linguagem que tentam apontar sinais, mas não descrever o sobrenatural

1. Desde E. Cassirer, ninguém estranha que se diga que o ser humano é um animal simbólico. Certo positivismo tem dificuldade com essa linguagem, mas é o positivismo que restringe a sua capacidade. É próprio das artes, da literatura e da música sugerir, no sensível, o inexprimível da realidade inabarcável em conceitos claros e distintos.
Na Semana Santa, foram celebradas todas as formas da dor humana. Na Vigília Pascal, antecipamos as páscoas que faltam: matar todos os dias o poder da morte na morte de Cristo, ressuscitar na Sua ressurreição. Nessa Vigília, mãe de todas as vigílias, apesar das longas horas que convocaram o que há de melhor em nós, tudo ficou ainda por dizer. Foi a partir daí que dois mil anos de literatura, música, pintura, cinema fizeram de Jesus Cristo a figura suprema do mundo desejado. Até às festas da Ascensão e do Pentecostes, os cristãos continuarão a dizer, num grande crescendo da memória, o que aconteceu, acontece e acontecerá.
Dir-se-á que os textos dos Evangelhos e dos Actos dos Apóstolos sobre a Ressurreição estão semeados de acontecimentos inverosímeis, de incongruências e até de contradições. Todos os anos regressa a discussão sobre o que neles é histórico, lendário e simbólico.

2. Há dois caminhos que não vão dar a lado nenhum saudável: tentar destrinçar o que é histórico e o que é lendário; servir-se dos textos para pregações e catequeses moralizantes. Os historiadores e os psicólogos podem tentar saber por que razão os discípulos - que tinham dispersado ao verificar a crucifixão e a morte de toda a esperança depositada em Jesus -, passado pouco tempo, confessavam a experiência de que Jesus de Nazaré é o Cristo, o Messias, está vivo e, por causa dele, estarão progressivamente dispostos a tudo. A esse nível, o fenómeno em torno da descrença e da crença na Ressurreição pode ser matéria de história e de psicologia. Mas nada mais. Ninguém viu o acto de ressuscitar nem quem o ressuscitou. São realidades da ordem do inverificável empiricamente. Por duas razões. Primeiro, porque não se trata de alguém que estava morto e que voltou à sua situação anterior. Se fosse o caso - como se diz que aconteceu com Lázaro -, poder-se-ia comparar a situação dessa pessoa antes e depois da morte. Segundo, um fenómeno sobrenatural e o próprio Deus não são evidentes, não são fotografáveis nem testáveis em laboratório. Quem imaginasse o contrário negaria a absoluta transcendência de Deus e o sobrenatural. As narrativas que temos são actos de linguagem que tentam apontar sinais, mas não descrever o sobrenatural.
Pode-se, no entanto, perguntar: mas então, porque será que as narrativas e as pregações do Novo Testamento não se contentaram com a sobriedade essencial: Jesus ressuscitou e não sabemos mais nada. Parem de pensar, de imaginar e de perguntar.
De facto, não foi o que aconteceu. S. Pedro, bastante mais tarde, aconselhou: "Estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança" (1Pd 3, 15). Os autores do Novo Testamento tinham de mostrar que o ressuscitado era o mesmo que foi crucificado, mas não o era da mesma maneira. Era ainda mais real, mas numa forma de realidade incomparável com aquela com que tinham convivido.

3. Tarefa nada fácil. As testemunhas da experiência do Ressuscitado tinham de apresentar a sua convicção na linguagem dos gestos e das experiências que tiveram com Jesus. Tinham também de mostrar o que havia de radicalmente novo naquela experiência. Não lhes caiu do céu um ditado divino que dispensasse a imaginação e as palavras humanas. A Ressurreição transfigura, mas não pode negar as exigências da Incarnação. Tinham de se servir do que estava disponível na sua língua, na sua cultura. São os conceitos de inspiração, revelação e inerrância, atribuídos aos textos bíblicos, que precisam de levar uma grande volta, para não produzirem resultados mais nefastos do que aqueles que pretendem evitar.
Se consentirmos na convicção de que a linguagem simbólica, metafórica, é a mais adequada para exprimir e dizer a fecundidade do mistério pascal na nossa vida, como perpétuo movimento, constante conversão, passagem da morte à vida pelo amor dos irmãos, de todos (1Jo 3, 14), não estranharemos acontecimentos inverosímeis, incongruências e até contradições. O cristianismo junta, no Espírito de Deus, nosso espírito, duas palavras explosivas que parecem incompatíveis: Jesus e Cristo.

Não é na linguagem dos tratados teológicos e dos catecismos que a poetisa açoriana Natália Correia evoca a Páscoa e o Pentecostes. E ainda bem: "Musas amigas, levai estes espelhos / Que reflectem do tempo a estampa fútil. / Dançai com Cristo sobre os Evangelhos / O círculo dos deuses inconsútil. // Nem céu nem inferno dos sacramentos velhos / Que são os cárceres de uma fé indúctil. / De em meu barro escutar santos conselhos / Desposa o Espírito minha alma núbil. // E em meu jardim interior passeiam / À meia-noite em flor amantes mortos / Que entre acácias se estreitam ressurrectos. // Com paixões que as grades incendeiam / Endireito da vida atalhos tortos, / E na morte entrarei de olhos abertos."

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março 26, 2009

Filósofos pensam o Futuro...

sugiro...

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março 15, 2009

Do matrimónio indissolúvel, sg/ Bento Domingues.

A hierarquia da Igreja faz bem em não abrir mão do matrimónio indissolúvel
(Vêr Público de hoje)

1.Este tema não é novo no tempo destas crónicas. Que me lembre, comecei logo, em 1993, com um texto sobre Casar, descasar e recasar e não foi a última vez. Por outro lado, em 1995, aparecia, na colecção Nova Consciência, do Círculo de Leitores, Os Divorciados e a Igreja. Na introdução que escrevi, fiz o ponto do debate, que se tornara muito vivo, acerca do acompanhamento pastoral dos divorciados recasados e que tinha envolvido conferências episcopais de vários países. A Congregação para a Doutrina da Fé dirigiu uma carta aos bispos da Igreja Católica a respeito da comunhão eucarística por divorciados novamente casados (1994): os fiéis não estão excluídos da comunhão eclesial e devem ser cuidadosamente acompanhados na sua caminhada cristã. Dada, porém, a situação matrimonial irregular, não podem receber a comunhão eucarística.

O cardeal Trujillo, presidente do Pontifício Conselho para a Família, embora tenha destacado, em 2008, que os casais em crise não devem sentir a Igreja como ausente, intolerante ou madrasta, não abriu um caminho novo: a Igreja continua a tentar formas de convencer e explicar por que motivo os recasados não podem receber a Eucaristia, mas nutre a esperança de que, no final, a Palavra do Senhor, que está acima do Papa e dos bispos, será mais bem compreendida. Por agora, só pode dizer-lhes: são católicos, devem ir à missa, participar de certas acções da Igreja, de iniciativas de caridade e oração. Bento XVI censurou, no mesmo ano, os bispos franceses por consentirem em iniciativas destinadas a abençoar as uniões de católicos divorciados. A vontade de Deus e as leis da vida que Ele nos deu não podem ser relativizadas. O Sínodo dos Bispos discutiu, mas não deixou nenhuma indicação precisa ao Papa. Este lembrou que o único recurso canónico disponível, para os que casaram com rito religioso - mas apenas por convenção cultural - e acabaram separando-se, é a declaração de nulidade do primeiro casamento enquanto "sacramento celebrado sem fé".

Resumindo e concluindo: os católicos recasados pelo civil continuam a ser membros da Igreja, a ser convidados para a Ceia eucarística, mas ficam avisados de que não podem tocar nessa comida: está aqui, mas não é para vós. Podem e devem, no entanto, escutar a Palavra e rezar.

2.Diz-se que é uma solução simplista e de consequências nefastas para a vida pastoral da Igreja Católica. Foi, aliás, o que pude verificar no primeiro dos Colóquios sobre a Fé do passado dia 5, na Igreja Matriz de Ponta Delgada, completamente cheia, com a seguinte interrogação: Os Divorciados/Recasados: Que Lugar na Igreja? Participavam na mesa duas pessoas divorciadas recasadas, testemunhando a sua profunda fé católica, mas sem perceberem por que razão o casamento que fizeram pelo civil não pode ser abençoado e não puderam participar na comunhão eucarística nem mesmo quando os seus filhos fizeram a Primeira Comunhão.

O casamento é, por natureza, uma instituição complexa. Junta duas histórias de vida, genéticas e culturais, com o propósito de formarem uma família que tem de contar com o passado, mas também com a nova rede de relações de cada um, do casal e dos filhos, quando existem. Realizado entre católicos, na forma canónica actual, é celebrado como um sacramento, que acrescenta, às complexas dimensões de qualquer casamento, a inscrição na complexa história da Igreja.

Há anos, Bernard Häring, um famoso teólogo, perguntava: "Haverá saída?" E mostrou que sim. O Centro Dominicano de Bruxelas publicou um documento de trabalho muito importante sobre a mesma questão, vindo a fazer parte de um dossier da revista Lumière & Vie assinado por especialistas, mostrando que não pode ser um assunto encerrado nem sob o ponto de vista teológico nem pastoral (1). O P. Luís Correia Lima, S.J., com o título Divorciados Recasados diante dos Sacramentos, apresentou com clareza as peças essenciais do debate (2).

3.Parece-me que a hierarquia da Igreja faz bem em não abrir mão do matrimónio indissolúvel, como horizonte. Ninguém de boa-fé se casa para se divorciar. O divórcio até pode ser o único caminho para acabar uma união absurda, mas pode também ser fruto de uma irresponsabilidade de ambos ou de um só. O futuro de um casamento depende, em parte, de uma conquista diária.

Quando se invoca a resposta de Jesus, não separe o homem o que Deus uniu, esquece-se a pergunta manhosa de alguns fariseus: "É lícito repudiar a própria mulher por qualquer motivo que seja?" (Mt 19, 1-9). Homem, aqui, significa marido. O que Jesus não pode aceitar, de forma nenhuma, contrariando o próprio Moisés, é o seguinte: a mulher não pode estar sujeita aos caprichos do marido. Isto é tão verdade que os próprios discípulos disseram a Jesus: "Se é assim a condição do homem em relação à mulher, não vale a pena casar-se". O que estava em causa na resposta de Jesus, naquele preciso contexto social e religioso, era a defesa da mulher perante a arbitrariedade dos maridos.

Tenho de voltar a este tema na próxima crónica.

(1) LV, 206 (Março 1992)
(2) Cf. Revista Eclesiástica Brasileira, 239 (2000) 641-649

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Fotos do Mundo em 2008

sugiro...

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março 08, 2009

Fotografia:"Batalha de Sombras" in Público.

sugiro...

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março 07, 2009

Não concebo um Deus que não seja bailarino...

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Da pseudo-misoginia de S. Paulo

Sempre me provocou revolta, nos casamentos católicos, a leitura de cartas de S.Paulo, acerca da mulher e do seu estatuto no casamento. Consequentemente, a minha posição foi de alguma animosidade em relação ao apóstolo. Recentemente, tive a ocasião de ler obras mais actuais e fidedignas, e mudei de opinião. Como diz a crónica de A. Borges, de S.Paulo existem cartas verdadeira e pseudo-epístolas. Ora, é nas pseudo-epístolas que a misoginia se manifesta. Os noivos que exijam doravante que tais textos não sejam utilizados.

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fevereiro 28, 2009

Deus e a Liberdade de Expressão...

... trata-se, antes de mais, de um acto de liberdade de expressão. No quadro do respeito pela lei, todos têm direito a manifestar as suas opiniões e crenças. Este direito é, evidentemente, extensivo aos ateus.

Ver também artigo anterior acerca do tema.

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fevereiro 25, 2009

Beleza e ancestralidade: Tribo de Omo.

...habituados que estamos a uma beleza de consumo, sem peso ou substância, fitemos a nossa admiração nesta ancestralidade que povoa corpos e seres de seres que por aí existem mas não sei se constam...

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fevereiro 22, 2009

Do Xiismo sg/ Faranaz Keshavjee

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O xiismo que poucos conhecem
In Público de hoje, secção "crónicas", Faranaz Keshavjee


Com o intelecto podemos contemplar o Absoluto; com a razão só podemos pensar sobre ele

Em diversas circunstâncias se ouve falar dos conflitos entre xiitas e sunitas. O mais recente é o movimento da "talibanização" a noroeste do Paquistão. Antes destes, conheciam-se sunitas e xiitas em confronto no Iraque, e a mais próxima referência ideológica antes dessa era o xiismo da revolução iraniana, preconizada pelo Ayatollah Khomeini.

Na verdade, nenhum destes acontecimentos reflecte a natureza e os princípios éticos do xiismo, que poderiamos conhecer para evitar a perpetuação de uma ignorância que não só afecta o mundo não muçulmano como, inclusivamente, os próprios muçulmanos, incluindo os próprios xiitas, que são, antes de mais, culturalmente muçulmanos, ou seja, pouco conhecedores das tradições intelectuais de origem da sua teologia.
Num conhecido hadith do Profeta, Maomé teria dito: "eu sou a cidade do conhecimento; e Ali é a sua porta; aquele que desejar o conhecimento deve atravessar essa porta".

Conhece-se muito pouco ou quase nada desta figura que foi Ali ibn Abi Talib - a não ser que foi primo e genro do Profeta Maomé e que os seus partidários ficaram conhecidos como xiitas. Antes mesmo de o sunismo ser uma ideologia, e não tinha necessidade de o fazer, uma vez que o poder religioso assentava na liderança do califado secular, Ali, que havia recuado das lides políticas, iniciava uma teologia e teosofia particular que deu origem ao xiismo.

Entre várias outras questões que são abordadas no livro de Reza Shah Kazemi, Justice and Remembrance; introducing the spirituality of Imam Ali, fala-se aqui da sua interessante trajectória intelectual e religiosa, que teve que ver com aquilo que definiu como o "espírito do intelecto".

Para o Imã Ali, "intelecto" (aql) não equivalia a "razão". Ali teria querido usar a expressão "intellectus" tal como se usava na Cristandade Latina - aquilo que é capaz de uma visão contemplativa directa das realidades transcendentes; ao passo que a Razão, de natureza discursiva, indirecta, trabalha com a lógica e chega apenas a conceptualizações mentais dessas realidades. Com o intelecto, então, uma pessoa é capaz de contemplar, ou "ver" o Absoluto; com a razão, uma pessoa só pode pensar sobre ele. Para Ali, o intelecto contém profundidades inesperadas - tesouros enterrados. Isto não quer dizer que a razão e o intelecto sejam dicotómicas. Para Ali, a razão é um dos modos do intelecto, no entanto, não podemos reduzir a objectividade universal da revelação às especificidades das revelações "privadas" do indivíduo. Ou seja, uma pessoa pode dizer que entre as profundidades espirituais do intelecto e a sua superfície racional existe a continuidade e a descontinuidade, em simultâneo. O aspecto da continuidade manifesta-se no facto evidente de que todo o pensamento surge a partir de conceitos dotados de significados inteligíveis; os pensamentos têm que ver com ideias que são racionalmente inteligíveis, e têm que ver com as realidades que expressam. Mas, na opinião de Ali, existe uma descontinuidade entre os aspectos racionais e espirituais do intelecto, onde a razão encontra os seus limites. Para que se possa ir para além destes limites, precisamos de mais do que a razão. E esse "algo mais" é o que faz a ética do que estamos a considerar como sendo espiritual e não racional. É certamente "racional" no sentido em que a forma dessa ética é com efeito susceptível de escrutínio da razão; mas não é "racionalista", uma vez que a sua essência - esses tesouros da alma - não se conseguem estimar unicamente através da razão. E é neste sentido que o sujeito humano deve travar a sua verdadeira jihad - a da alma - sem nunca renunciar ao que é mundano e terreno porque esses são reflexos do Absoluto.

Este tipo de raciocínio neoplatónico bem como todo um conjunto de pensamento sobre o estado e a sociedade, ou sobre a justiça sagrada, ou a expressão de Ali de que "o verdadeiro intelectual não é apenas aquele que pensa correctamente, senão aquele que actua eticamente", são faces do xiismo desconhecidas de muitos de nós.
Obviamente que todo o xiismo se desenvolve a partir de princípios filosóficos que justificam a liderança espiritual do imã. No entanto, não podemos negligenciar o xiismo tal como surge e influencia toda uma civilização. Sobretudo aquela que assenta na postura intelectual que promove a consciência ética e social que vê a revelação como contínua e que permanece atenta aos sinais (ayats) de Deus nos horizontes e dentro de nós próprios. Estudiosa de temas islâmicos

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fevereiro 21, 2009

Como reconhecer Deus? sg/ Anselmo Borges

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Há relativamente pouco tempo, coloquei esta pergunta a um grupo de crentes: "Se Deus lhe aparecesse, dizendo 'aqui estou, sou eu o Deus', como o reconheceria?"

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fevereiro 16, 2009

Beleza e sofrimento...

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Nakita Olegole, 17 anos, tribo mursi, Etiópia. Quando ainda pequenas, fazem-se incisões no lábio inferior e nas orelhas, inserindo depois, discos de argila cada vez maiores...(In Marie Claire)

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fevereiro 07, 2009

...um dólar por dia...

sugiro... a reflexão de A.Borges acerca do excesso do capital, da ausência de ética na sua prática...

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janeiro 22, 2009

Philosophie magazine, Février, dossier+index.

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janeiro 21, 2009

Quadros interactivos, o futuro já!

O admirável mundo novo da interactividade...a música do gesto...relatório minoritário à disposição da escola....

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janeiro 18, 2009

Casamentos e autocarros sg/Bento Domingues...

...in Público de hoje.

Casamentos e autocarros

18.01.2009, Frei Bento Domingues O.P.

A prática da hospitalidade gratuita entre as diversas religiões faz bem a todas

1. Os que, no século XIX, anunciaram a "morte de Deus" e o fim da religião foram muito precipitados. A interrogação metafísica não se esgota em nenhuma construção filosófica nem a preocupação religiosa se confunde com as suas expressões organizadas ao longo dos tempos. Se a religião estivesse morta, a cascata de reacções às palavras de Casino (13/1/09), do patriarca da diocese de Lisboa, não teria inundado os meios de comunicação. Voluntária ou involuntariamente, D. José Policarpo realizou uma operação de marketing religioso, sejam quais forem os resultados para a Igreja Católica e para a Comunidade Muçulmana, a curto e a médio prazo. Até os possíveis danos colaterais, no campo do diálogo inter-religioso, convergem para aquele princípio pouco respeitável: "Bem ou mal, o que importa é que falem de nós". No fundo, os muçulmanos conseguiram uma atenção que ultrapassa a sua presença em Portugal. Poderão dizer, à portuguesa, "há males que vêm por bem". Espero, aliás, que este incidente ajude a intensificar e alargar o diálogo da Igreja Católica, em Portugal, com a população muçulmana. O facto de o catolicismo ser maioritário, no nosso país, não pode servir para não ter em conta as outras religiões. O diálogo inter-religioso é essencial para se deixar interrogar pelo outro, independentemente do número dos interlocutores. Não só porque, onde uns, num país, são maioritários podem ser minoritários noutro. Vale a regra de ouro: fazer aos outros o que desejamos que os outros nos façam. Além disso, a prática da hospitalidade gratuita entre as diversas religiões faz bem a todas. Perde-se a ignorância, o orgulho e, com humildade, podem acolher-se e questionar-se mutuamente.
Que o patriarca tenha desassossegado a comunidade muçulmana, a propósito do casamento de jovens católicas com muçulmanos, por causa dos "sarilhos" em que se podem meter, é um aviso de pastor responsável. Não deveria, no entanto, esquecer o que se passa em sua casa. Seria bom que desassossegasse os seus colegas no episcopado, a começar pelo bispo de Roma, acerca dos sarilhos em que envolveram as exigências da celebração do casamento católico - algumas delas dispensáveis - que leva muitos a ficar, apenas, pelo casamento civil. A relação com o divórcio, com um segundo casamento, com o impedimento do acesso à comunhão eucarística dos recasados, acaba por aumentar o número dos católicos não praticantes. Como os sacramentos são para ajudar e não para complicar, até o próprio Deus deve exclamar: ai o que estão a fazer da graça do matrimónio!
2. Essa questão veio interromper uma outra que já andava na imprensa e, sobretudo, na Internet: as reacções à propaganda ateísta nos autocarros. A moda começou em Inglaterra, passou aos EUA, a Espanha e parece que vai chegar a Portugal. O slogan inscrito nos autocarros, inspirado no cientista ateu Richard Dawkins, é o seguinte: "Deus provavelmente não existe. Deixe de se preocupar e goze a vida".
A campanha publicitária, agora em andamento por vários países, começou por ser planeada e parcialmente financiada pela Associação Humanista Britânica (BHA) e visava colocar cartazes em 30 autocarros de Londres.
O novo ateísmo militante tem vários protagonistas de nomeada. Um dos mais célebres é Dawkins, autor de várias obras importantes. Através delas, procurou distribuir as seguintes convicções, sintetizadas por Alister McGrath (1): uma visão darwiniana do mundo toma a crença em Deus desnecessária ou mesmo impossível. A religião estabelece proposições que se alicerçam na fé, o que representa um retrocesso face à busca rigorosa e factual da verdade. Para este autor, a verdade está sempre alicerçada em provas evidentes e todas as formas de misticismo ou obscurantismo, baseadas na fé, devem ser rigorosamente combatidas. A religião oferece uma visão do mundo pobre e pouco clara. "O universo apresentado pela religião organizada é um universo medieval acanhado, extremamente limitado". Inversamente, a ciência oferece uma visão arrojada e luminosa de um universo grande, belo e assombroso. A religião conduz ao mal. É como um vírus maligno que infecta as mentes humanas. Esta não é uma apreciação estritamente científica, uma vez que a ciência não sabe determinar o que é o bem ou o mal: "A ciência não possui nenhum método para decidir o que é ético". Não obstante, esta é uma contestação profundamente moral da religião, bem enraizada na cultura e na história ocidental e que deve ser considerada com a maior seriedade.
No seu livro, Alister McGrath não procurou fazer uma crítica à biologia evolucionista de Dawkins. As opiniões deste devem ser avaliadas pela comunidade científica no seu todo. Ele enfrenta, apenas, as conclusões gerais deste cientista, em particular as referentes à religião e à história intelectual, domínio sobre o qual tem uma competência especial para se pronunciar, isto é, a problemática, extraordinariamente importante, da transição da biologia para a teologia. Ele é biólogo e teólogo. Voltaremos a este tema, pois, como diz Tomás de Aquino, não é evidente que Deus exista ou não exista. (1) O Deus de Dawkins, Lisboa, Alêtheia, 2008, p. 21

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janeiro 15, 2009

Simplesmente...Futuro!

sugiro...

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dezembro 20, 2008

"There's probably no God. Now stop worring and enjoy your life"

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Trata-se de uma campanha publicitária a favor do ateísmo, promovida pela Associação Humanista Britânica e apoiada pelo célebre biólogo darwinista R. Dawkins, professor da Universidade de Oxford, ateu militante e, segundo muitos, fundamentalista.

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dezembro 11, 2008

Direitos Humanos, 60 anos:Dossiê in Público

sugiro...

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dezembro 02, 2008

Igreja,sexualidade e bioética...

sugiro...


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novembro 24, 2008

Dia da Ciência:Poema para Galileu

sugiro...

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novembro 22, 2008

Do Pecado Original, sg/ A. Borges

"A impressão geral que me ficava da religião nos tempos da catequese não era luminosa. Pelo contrário, tudo aquilo transmitia um mundo bastante tenebroso, a ideia de um Deus castigador e de nós sujeitos a um destino de submissão trágica. Os primeiros pais tinham pecado, Deus andava irado com a gente e Jesus sofria na cruz para ver se nos libertava. A alegria era um roubo e a palavra Evangelho, que quer dizer "notícia boa", não pousava sobre nós nem nos aquecia." (...)

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novembro 17, 2008

O "Mosquito"


Quando é que começaste com as tuas habilidades,
Monsieur?

Para que são essas pernas tão altas?
E para quê tíbias tão esguias e finas,
tu, sobranceria?

E é preciso elevares tanto o centro da tua gravidade
e pesares tanto como o ar quando em mim poisas
e em mim ficas, sem peso nenhum, tu, fantasma?

Ouvi uma mulher chamar-te Victory com asas
na indolente Veneza.
Viras a cabeça no sentido da cauda e sorris.

Como podes pôr em ti tanta crueldade,
partícula translúcida de fantasma
em corpo tão frágil?
Estranho ser, com as tuas asas e as tuas pernas trémulas,
deslocando-se lentamente como a garça ou um súbito coágulo de ar,
não és senão nada.

E contudo há uma aura que te circunda,
a tua pequena e maldosa aura, voando às voltas, lançando torpor na minha mente:

As tuas habilidades, o teu número de infecta magia:
a invisibilidade e o poder anestesiante
que fazem a minha atenção distrair-se de ti.

Mas agora sei qual é o teu jogo, feiticeiro listrado;
Estranho, sim, como volteias pelo ar, magnânimo, e
em círculos e recuos me envolves,
vampiro de asas
Victory alado.

Determinado, do alto das pernas finas e compridas
olhas-me de viés com uma astúcia consciente da minha atenção,
tu, minúscula partícula.

Odeio a forma como voas de lado, às guinadas no ar,
porque já leste os meus pensamentos contra ti.

Mas vem, vamos brincar às escondidas
e logo se vê quem é mais esperto neste jogo, nesta simulação.
Se o homem ou o mosquito.

Tu não sabes que eu existo, e eu não sei que tu existes.
Ora vamos lá então!

É esse teu zumbido,
esse teu odiento e rápido zumbido,
tu, demónio pontiagudo,
que me faz estremecer subitamente o sangue em total aversão por ti:
essa espécie de corneta, breve e estridente, junto aos meus ouvidos.

Porque fazes uma coisa dessas?
Não é certamente boa política.
Mas dizem que não consegues evitar.

Se assim é, então acredito um pouco na Providência que protege os inocentes.

Soa tão surpreendente quanto um slogan
o grito de triunfo quando me picas o crânio.

Vermelho, sangue vermelho
super-mágico
líquido proibido.

Vejo como ficas
durante um só segundo num espasmo esvaído,
obscenamente extasiado
sugando sangue fresco,
o meu sangue.

Tanto silêncio, tanta suspensão de movimento,
tanto prazer farto,
tanta obscenidade violentadora.

Cambaleias
mas aguentas-te.
Só esses teus malditos e frágeis filamentos,
essa tua imponderável leveza,
te salvam, levam-te no mesmo sopro de ar que a minha raiva faz ao coçar-se.
E afastas-te em irrisória glória,
tu, gota de sangue alada.

Não te poderei vencer?
Serás demais para mim?
Serás mesmo Victory com asas?
Nem mosquito saberei ser para, enquanto mosquito, te derrotar?

Estranho como o sangue que sugaste faz tão grande mancha
quando comparada com a tua infinitesimal e ínfima presença!
Estranha a negra e densa fogueira onde desapareces!

D.H.Lawrence

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novembro 15, 2008

Deus e Darwin, sg/ A.Borges

Uma pedagógica reflexão de A.Borges, cuja leitura...
sugiro...
sugiro...

Publicado por morfeu às 11:39 PM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 21, 2008

Ciência e religião...

sugiro...

Publicado por morfeu às 10:29 PM | Comentários (13) | TrackBack

outubro 13, 2008

A Vida Eterna ... despedida.

Avidaeternasavater.jpg

...com um dos mais belos poemas de amor e tudo o mais que possa ser, aqui deixo a sugestão para leitura de mais uma obra extraordinariamente pedagógica de F.Savater.

Despedida

Eis-me aqui junto da tua sepultura,
Hermengarda,
para chorar a carne pobre e pura
que nenhum de nós viu apodrecer

Outros viriam lúcidos e enlutados,
e no entanto eu venho embriagado,
Hermengarda, eu venho embriagado.
E se pela manhã encontrarem a cruz
do teu túmulo derrubada no solo
não foi a noite, Hermengarda,
nem foi o vento.
Fui eu.

Quis amparar a minha embriaguez na tua cruz
e rolei pela terra em que repousas
coberta de margaridas e contudo triste.

Eis-me aqui junto da tua sepultura,
Hermengarda,
para chorar o nosso amor de sempre.

Não é a noite, Hermengarda,
nem é o vento.
Sou eu.

( Ledo Ivo, Valsa fúnebre para Hermengarda.)

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setembro 20, 2008

"O bosão de Deus..."

sugiro...

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agosto 16, 2008

Meditação das férias...

sugiro...

Publicado por morfeu às 06:34 PM | Comentários (1) | TrackBack

agosto 15, 2008

Alternativas

...que implicarão, caso a escravidão petrolífera acabe, mudanças na própria sociedade...quando?..

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julho 31, 2008

...o que de belo por acaso se encontra...tocante.


Mélina Mercouri Athène ma ville
Colocado por modinelly

...por aqui ao acaso do tempo
dos tempos que dividem o deambular em dia cinzento
sonho o Outro o Além em testemunho de voz
de céu ares cores e coisas várias
por acaso encontro neste viajar fortuito
ah a cidade o tempo os seres e as coisas
a brisa da História fazendo-se música em túnel
de cordas de onde o som brota
a voz
a mulher
o sentir
...por aqui por acaso deixo
como pegada em areia molhada
deixo...

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julho 26, 2008

Pensar...

-Porcupine_tree_metanoia.jpg

"Pensar é uma bonita e orgulhosa ocupação quando se estuda, mas não é a pensar que uma pessoa consegue «sair» de estados de alma difíceis. Nesse caso outra coisa tem de acontecer. Então deve ser-se passivo e escutar. Estabelecer outra vez contacto com um bocadinho de eternidade."
(Etty Hillesum, diário, pg.115, A/alvim)

Até à próxima terça-feira vou estar em "Metanoia" ..

Publicado por morfeu às 08:41 AM | Comentários (0) | TrackBack

junho 12, 2008

Le monde des religions; L'Inquisition,

Mondereligionsinquisição.jpg

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junho 11, 2008

Lire: La philosophie et le sexe. Capa.

Lirephilosophiesexe.jpg

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maio 14, 2008

Pode a web ser triste?... sugiro.

Artigo de José Vítor Malheiros, in Público de 14-05-08

Ted Nelson acha que a Web é uma tristeza
14.05.2008, José Vítor Malheiros
Considera-se um filósofo e um poeta e sente-se mais próximo do cinema que da informática. O criador do hipertexto veio a Lisboa dizer que não devemos desistir dos nossos desejos
"Toda a gente está à espera que eu morra para poderem dizer como admiravam o meu trabalho. Mas ninguém me apoia." A frase, citação de Orson Welles, serve de epígrafe à página pessoal de Ted Nelson na Web. É fácil perceber que ele a subscreve e há razões para isso.
Ted Nelson é considerado universalmente como um dos visionários mais estimulantes do planeta, um dos inventores mais inovadores e um dos pais da World Wide Web. Mas, apesar disso, tenta há quase 50 anos concretizar um projecto grandioso que muita gente pensa que poderá revolucionar o mundo sem ter tido senão pequenos êxitos e apoios esporádicos. O que é tanto mais estranho quando se sabe o título pelo qual o investigador costuma ser apresentado: Ted Nelson é "o pai do hipertexto", um conceito que criou em 1963 e que está na base da World Wide Web de hoje.
Nelson, nascido em 1937 nos EUA, estudou filosofia, fez um mestrado em sociologia em Harvard e o doutoramento no Japão, na Universidade Keio, sobre Filosofia do hipertexto, mas confessa que sempre teve dificuldade para se identificar profissionalmente. A classificação mais próxima do seu coração é a que foi usada pela ministra da Cultura francesa Catherine Tasca, quando o condecorou com a Legião de Honra, em Março de 2001: "um filósofo e um poeta."
Na conferência que Ted Nelson proferiu anteontem na Universidade Atlântica, em Barcarena, (antes disso tinha estado em Lisboa numa mesa-redonda sobre Estratégias para a Sociedade do Conhecimento, a convite do programa europeu Interreg) disse que aos 22 anos se considerava "filósofo e realizador de cinema" e que hoje prefere dizer-se um "humanista de sistemas". Mas vai repetindo que não é um tekkie mas sim um "media guy" - o pai era realizador de cinema e a mãe actriz - e que o que o preocupa são as interfaces.
O que quer este homem, hoje investigador convidado do Internet Institute da Universidade de Oxford? Quer um sistema que permita a toda a gente ter acesso a toda a espécie de documentos - textos, vídeo, música -, usá-los, modificá-los, anotá-los, publicá-los, usar pedaços... Mas isso não é a Web? Pergunte-se e Nelson espuma. Para se acalmar e responder em tom contido: "A Web é fantástica, eu passo quatro horas por dia na Web, mas a Web só permite fazer uma pequena parte das coisas que desejamos." O quê? Não se pode abrir um texto e fazer umas notas à margem, se um texto incluir uma citação de outro não posso ir ver o documento original (só se tiver feito previamente um link à mão), etc.
A visão de Xanadu
Fale-se de hipertexto na Web e Nelson pode irritar-se. O "seu" hipertexto, o verdadeiro hipertexto, aquele que ele inventou em 1963, que descreveu num artigo em 1965, que ele tem andado a vender desde então, não é composto por estes miseráveis links de sentido único que existem no HTML, que existem nesta triste Web: os seus links - que, conforme as funções, ele chama "transclusões" ou "flinks" ou "clinks" - permitem ligações de dois sentidos, para saber que links existem para o documento que eu estou a ler; permitem fazer links de uma palavra para "n" sítios diferentes e muitas mais habilidades.
A conferência que Nelson deu em Barcarena, para uma pequena sala apenas meio cheia, foi dedicada a um novo tipo de bases de dados a que chama "estruturas Zig Zag" (ou "zizi structures"), mas não sem antes apresentar a filosofia geral da sua visão, Xanadu, um projecto nascido em 1960 e que tenta financiar desde sempre com reduzido êxito. O que é Xanadu? A visão ocupa todos os textos de Nelson e não é simples. À primeira vista parece que fala da Web - é um sistema onde todos os documentos podem ser acedidos, modificados, fundidos, onde todos os documentos são hipermédia (outro conceito de Nelson), onde som e vídeo se misturam com gráficos e texto. Mas quando se aprofunda um pouco o conceito... tudo muda e percebemos como a Web é limitada: Xanadu é o nosso sonho tornado realidade, em Xanadu tudo é possível.
Cada documento desta nova Web pode ser modificado por toda a gente, mantendo todas as versões possíveis; quando se faz copy-paste de um parágrafo de um texto para outro isso cria um link permanente para o texto-fonte; as imagens ou os vídeos têm a dimensão que queremos quando os vemos (as fotos têm um "tamanho" no papel, mas os computadores não são papel e não precisam de ter essa limitação); e se pode usar todo o material que quisermos mesmo que esteja protegido por copyright porque, quando usamos um pedaço de um texto com direitos, fazemos um micropagamento (outro conceito de Nelson) ao seu autor sem necessidade de negociação prévia. É a total liberdade de criação e a justa compensação aos criadores. É um mundo onde nada se perde, onde tudo está ligado a tudo, onde a citação é sempre possível e sempre atribuída e onde a colagem e a recombinação são ubíquos.
Os seus desejos para os computadores são simples: Nelson não acha aceitável que seja preciso um programa para abrir um texto e outro para ver um filme. Ou que não se possa escrever nas margens do livro que se está a ler no ecrã. Ou que as versões não coexistam todas. Ou que um ficheiro possa ter metadados mas uma parte de um ficheiro não. Nelson não aceita que, nos computadores, as páginas estejam atrás de um vidro. Tudo o que é possível no mundo real tem de ser possível na Web (ups!, em Xanadu) e muito mais. O mantra é simples: é o computador que tem de se adaptar aos desejos das pessoas e não as pessoas ao computador.
Xanadu pode ser um conceito difícil de concretizar, mas uma coisa é certa: quando houver, eu quero.

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maio 04, 2008

Porque hoje é domingo... da Ascensão.

... como o meu saber continua a ser infimo sobre estas coisas da religião e da espiritualidade, como continuamente sinto o ímpeto de uma busca sem fim definido, valho-me de outros saberes e sentires. Desta forma são sempre enriquecedoras as reflexões dominicais de frei bento domingues o.p. Segue em entrada estendida o seu discorrer sobre ciência e religião, conquistas e limites daquela, sentido, necessidade desta. E, fala-nos também desse suposto mistério que é a ascensão de Cristo para algures não se saberá onde...

Subir aos céus
Frei Bento Domingues O.P. – 2008/05/04(público)

A linguagem das transformações espirituais da existência não se lê nem se interpreta com um dicionário.
1.
O biólogo Francisco José Ayala, membro da Academia Nacional da Ciência dos EUA, tem dedicado a sua vida ao estudo da evolução. Para ele, religião e ciência não são inimigas.
Ao apresentar, em Espanha, o seu último livro (1), o jornal El Mundo fez-lhe algumas perguntas. As suas respostas interessam.
A primeira pergunta é daquelas que aparecem sempre nestas circunstâncias: será possível conciliar religião e ciência?
A resposta também já se tornou um lugar-comum entre os que não gostam de cultivar confusões: religião e ciência tratam de coisas distintas.
Perante o debate público, que irrompeu nos EUA em 1991, sobre o chamado "Desígnio Inteligente" (2), F. Ayala não se contenta em dizer que são coisas distintas. Para ele, os que propõem o "Desígnio Inteligente" são, precisamente, os que vão contra Deus porque procuram usar a ciência para demonstrar a sua existência. Além disso, se essa teoria estivesse certa, seria uma blasfémia. Implicaria que Deus é incompetente porque desenha mal as coisas e, por outro lado, é cruel, pois cria predadores.
Por exemplo, o nosso olho é mais deficiente do que o dos polvos. Será que Deus tem mais apreço pelos polvos do que pelos humanos?

Quando lhe perguntam se há cientistas crentes, responde que isso não é incompatível. Um Deus pessoal, como nas religiões monoteístas, está presente em todos os indivíduos. Isso não significa que nos desenha, mas que nos inspira valores morais.
Há uma escola de teologia evolutiva que sustenta que a presença de Deus também evolui.
O entrevistador insiste: não terá a religião surgido como resposta a enigmas sem resposta que a ciência vai solucionando?
Para F. Ayala, a religião nasce de uma necessidade biológica dos humanos, pela consciência da existência e pela consciência de que vamos morrer. Há uma inclinação para a angústia e isso leva ao enterro dos mortos e à necessidade de acreditar em algo transcendental, comoDeus. Nasce também como resposta aos enigmas da vida que se vão resolvendo e, sob esse aspecto, o papel da religião vai diminuindo.
A ciência, porém, não é solução para o problema existencial e é este que nos faz crer na vida do além.

A vida do além implica a existência de uma alma imortal?
Resposta do biólogo: a ciência não pode responder. Isso é algo espiritual e a ciência fala de processos naturais. Aliás, sobre a mente, sabemos que o cérebro existe, como comunicam os neurónios, mas não como se convertem esses sinais eléctricos em ideias e sentimentos, nem como chegamos a ter consciência pessoal. Não quero, por essa razão, fixar a ideia de alma na mente.
O entrevistador veio logo com uma resposta: a religião diz que a existência tem um sentido e a ciência diz que a evolução foi fruto de adaptações e mutações. O biólogo acrescenta: sim, houve mutações. No entanto, a evolução não é fruto do azar, mas da selecção natural. Somos uma espécie entre milhões. Todavia, a ciência não nos diz para onde vamos.
A religião dá sentido à vida.

2.
Se a religião dá sentido à vida, as expressões desse sentido serão plurais. As religiões são diferentes. Aqui, interessa-me destacar um dos aspectos que a convicção cristã assume neste Domingo da Ascensão de Cristo aos Céus. Se a abordagem da fé não é a da ciência, é de boa higiene mental partir do princípio de que não estamos a falar de um lugar nem das vias de acesso a esse espaço que pudesse ser observado e descrito por qualquer ciência ou técnica, como se Jesus fosse um dos precursores dos astronautas. Basta de representações ridículas da fé. Na pregação, na catequese e na teologia, temos de reflectir sobre a linguagem que a Bíblia e o Credo cristão usam. As "leis" da linguagem simbólica, metafórica, parabólica, poética e narrativa existem para sugerir, dão que pensar, mas não obedecem a uma ligação circunscrita entre os significantes e os significados. Esse tipo de explicações mata a música da linguagem e não dá conta das transformações a que ela convida. A linguagem das transformações espirituais da existência não se lê nem se interpreta com um dicionário.

3.A Ascensão é a linguagem da fuga à manipulação política de Cristo pelas Igrejas. Jesus tinha vencido essas tentações, mas nunca estarão definitivamente resolvidas. Os Actos dos Apóstolos, a primeira história da Igreja, começam por essas permanentes ambições dos discípulos: "Senhor, será agora que ides restaurar a realeza em Israel?" (Act 1, 6). Cristo parece cansado com essa pergunta recorrente. Dissera tantas vezes que não veio ao Mundo para mandar, mas para servir a esperança e a transformação da vida e eles sempre na mesma... Agora, confessa que só o Espírito de Deus lhes poderá dar a volta e é o único dom que ele tem para a Igreja.

É também recorrente a pergunta: onde estarão as pessoas que amamos e morreram? Não aconselho ninguém a ir ao cemitério. Creio que estão no coração de Deus, a casa definitiva de todos. Se me perguntam onde é e como é, atrevia-me a dizer que é tão grande como o amor de Deus, tão invisível e presente como Ele. Não procuro outro Céu.

(1) Darwin y el Diseño Inteligente, Alianza, 2008.
(2) Sobre o debate sobre o "Desígnio Inteligente", cf. Francis S. Collins, A Linguagem de Deus, Lisboa, Presença, 2007

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maio 03, 2008

3 de Maio segundo Goya ... inesquecível!

3 de Maio de 1808

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abril 05, 2008

..."bestia cupidissima rerum novarum"...

Do Homem, do transcendente, do transcender, na reflexão sempre enriquecedora de A.Borges

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março 16, 2008

Domingo de Ramos...

Em complemento poderá ler a habitual reflexão de Bento Domingues...

Fora do amor não há salvação

16.03.2008, Frei Bento Domingues, OP


O que mais importa, na Semana Santa, é confrontar a nossa vida com esse processo e fonte de amor infinito


1Repetiu-se, durante séculos de cristandade - embora com significações diferentes - que "fora da Igreja não há salvação". De forma oficial, esta afirmação deicida só foi desautorizada duas vezes antes do Vaticano II. Hoje, a salvação foi substituída pela globalização do império do dinheiro. Prefiro uma sabedoria mais antiga: fora da vida como dom faremos sempre, deste mundo, um inferno. Ao contrário das aparências, a celebração da Semana Santa não está só preocupada com o processo de Jesus, que nunca poderá ser ignorado. O que mais importa, no entanto, é confrontar a nossa vida com esse processo e fonte de amor infinito.
Sejam quais forem as interpretações que se possam fazer acerca da sua personalidade, ninguém se atreve a negar a existência histórica de Jesus de Nazaré, como já foi moda. Nos últimos trinta anos, a convicção de que se pode reconstruir uma imagem histórica de Jesus sai cada vez mais reforçada e documentada.
Nasceu, provavelmente, entre os anos 6 e 4, antes da era comum. Falava o dialecto da sua região, o aramaico da Galileia. Frequentava a Sinagoga e sabia ler textos bíblicos em hebraico. É normal que soubesse, também, um pouco de grego e alguns termos em latim. Este judeu da Galileia cresceu e viveu nessa parte setentrional da Palestina, herdeira directa do grande reino de Herodes.
Cruzavam-se, nela, as vias de comunicação em direcção a portos que ligavam a terra nacional dos judeus ao imenso espaço mediterrânico. Davam também acesso a vastos territórios do Oriente onde a cultura grega se impunha cada vez mais. Foi nesta terra aberta e de misturas que o fundador do cristianismo passou a maior parte da sua vida e lançou as bases de uma nova religião.
2. A sua intervenção foi muito breve, mas explosiva sob o ponto de vista teológico e social: era preciso mudar de Deus, de religião, de família e sociedade. Ele esperava o advento iminente do reino de Deus que daria início a um período de justiça, de igualdade, de bem-estar e de paz, a começar no coração das pessoas para nascerem de novo. Não sendo política nos métodos, a mensagem de Jesus tomava-se política nas suas consequências.
Este Galileu queria subtrair os seus discípulos à lógica dos estreitos e asfixiantes interesses familiares e dos grupos político-económicos do seu tempo. É nesse sentido que se compreende que tenha louvado os que abandonavam mulher, filhos, trabalho e que vendiam tudo o que possuíam. Também para derrubar a lógica egoísta dos núcleos domésticos, propunha-lhes uma hospitalidade sem retribuição, queria que as famílias hospedassem os deserdados, os pobres de pedir e também os doentes graves, reconfigurando, assim, radicalmente, a vida familiar.
Jesus sonhava com uma sociedade de iguais em que se praticasse a justiça e o amor recíproco. A atenção para com os pobres nada tinha de romântico, como a atitude típica de certas elites que exaltam a vida simples. Sabia que a doença e a pobreza extremas eram e são horríveis. Devem ser combatidas e eliminadas (1).
Nos Actos dos Apóstolos, foi imaginada uma comunidade onde todos eram um só coração e uma só alma e tinham tudo em comum (Act 4, 32-35). Muito mais tarde, S. João entendeu bem o espírito de Jesus: fazer família com quem não era da família, saltar todas as fronteiras para reunir todos os filhos de Deus dispersos (Jo 11, 52).
3. Não é por acaso que a Quaresma começa com Jesus assaltado pelas tentações da dominação económica, política e religiosa. Enfrenta-as como tentações diabólicas, que procuram desviá-lo do seu projecto e às quais responde com um não radical. S. Marcos mostra que os discípulos não percebiam esse caminho, essa alergia ao poder de dominação. Jesus não percebia como é que eles o queriam seguir sem abandonar as ambições do velho mundo e sem se converterem ao espírito de serviço desinteressado (Mc 10, 35-45).
Ao entrar na Semana Santa, é-nos lembrado que Jesus não morreu de velho nem de doença. A pretexto da sua intervenção subversiva, as autoridades políticas e religiosas moveram-lhe um processo que continua muito discutido. Foi condenado à morte e crucificado, talvez a 7 de Abril do ano 30, véspera do grande dia da páscoa judaica e executado nos arredores de Jerusalém, junto de uma velha pedreira. Teria, nessa altura, entre 34 e 36 anos.
Perante isto, é paradoxal que se coloque na boca de Jesus "Ninguém me tira a vida, sou eu que a dou", como se ele tivesse procurado o sofrimento e a cruz. Nas celebrações da Eucaristia, também se repete: "Na hora em que Ele se entregava, para voluntariamente sofrer a morte"... Isto pode parecer perverso: afinal, Jesus terá sido uma marioneta nas mãos de Deus e os que o condenaram e executaram, instrumentos da vontade divina?
Estas expressões dizem, no entanto, a verdade mais profunda: Jesus detestava o sofrimento e a cruz, mas para não trair, para não renegar o caminho de libertação que, por amor incondicional, escolhera, aceitou todas as consequências que lhe impuseram.
(1) Cf. Corrado Augias e Mauro Pesce, A Vida de Jesus Cristo. O Homem Que mudou o Mundo, Lisboa, Presença, 2008.

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março 02, 2008

"Importa mais o que fazes do que o que crês: pelos frutos os conhecereis"

1 Além dos textos - sempre diferentes e belos - da liturgia diária, tenho tido por companhia, na caminhada desta Quaresma para a Páscoa, um livro com um título que parece assinado por duas místicas - Hablemos de Dios - e que, afinal, é obra de duas agnósticas, Victoria Camps e Amelia Valcárcel. São ambas catedráticas de Ética, uma em Barcelona e outra em Madrid, com notáveis currículos. Comecei a folheá-lo por simples curiosidade e confesso que já me obrigou a várias releituras. O livro consta de um programa de cartas que estas duas amigas escreveram, uma à outra, com a preocupação de estudarem o lugar da religião nas chamadas sociedades seculares e laicas: O Lugar da Religião no Século XXI; Estaremos Secularizados?; Deus, a Transcendência e a Moral; Laicidade, Laicismo, Fundamentalismos; O Mal: Onde está Deus?; Aprender a Viver sem Deus; Ofensas à Religião; Fé e Descrença; Deus e Nós; O Cristianismo e o Futuro.
Tanto Victoria Camps como Amelia Valcárcel tiveram uma educação rigorosa e intencionalmente católica. Católica era Espanha, oficialmente, quando vieram ao mundo que as marcou. Foram testemunhas de várias revoluções. No campo intelectual - e no caso delas também profissional - passaram pela influência do marxismo, do existencialismo, da filosofia analítica. Tudo isto serviu para socavar um bom número de crenças e também de práticas e costumes - pouco fundadas ou simplesmente equivocadas. As duas eram jovens nos anos que explodiram no Maio de 68. Ambas são feministas e contribuíram activamente, cada uma à sua maneira, para difundir o discurso da emancipação da mulher. No campo estritamente religioso, o Concílio Vaticano II permitiu respirar com alívio e pensar que outro catolicismo era possível, ainda que a esperança tenha durado pouco. Veio, depois, o pós-modernismo, com o relativismo e a descrença como senhas de identidade que punham em apuros todos os ideais da Ilustração. Espanha viveu uma transição política sem precedentes e a religião católica foi-se privatizando. Como resultado de todo este processo, confessam: "Hoje, contemplamos o fenómeno religioso a partir da distância e da dúvida. Para nós, a religião é mais um objecto de estudo, de interesse e de curiosidade do que algo que nos defina e constitua. Isso não impede que essa espécie de aleitamento religioso que nos alimentou na infância e na juventude continue a notar-se na nossa forma de tratar o tema religioso. A nossa perspectiva não é, pelo menos assim o pensamos, a de quem procura um ajuste de contas com passado ou fale movido por ressentimento. Ainda que tenhamos visto como se debilitaram, em nós, algumas crenças que, noutros tempos, foram sólidas, pensamos, no entanto, que sem crenças não se pode viver. De todas elas, a fé religiosa continua a ter um peso substancial na existência de muitos indivíduos e de sociedades inteiras, um dado que merece ser tido em conta."
2. Dentro dos dez temas acima indicados, nunca estas duas filósofas esquecem, nem no estilo nem no conteúdo, que escrevem cartas de mútua e amistosa provocação filosófica, ética e religiosa. Cada uma está interessada em levar a outra cada vez mais longe, não em mostrar-se mais inteligente. O resultado são 268 páginas em que o leitor tem a impressão de que, também ele, faz parte desta profunda indagação.
Victoria Camps termina a sua última carta defendendo que, no Estado laico, a religião deve entrar no "espaço público" de deliberação. Isso não pode acontecer, porém, enquanto se continuar a identificar as religiões, cristãs ou não cristãs, com suas expressões mais fanáticas e suas manifestações mais violentas, aquelas que atraem mais os meios de comunicação que nada sabem de matizes e profundidades. "Prefiro um mundo no qual a religião tenha lugar e possa expressar-se abertamente, se ainda tiver sentido para alguém." Amelia Valcárcel, por seu lado, diz à sua amiga Victoria, em forma orante: "A religião tem ainda muito tempo para organizar o mundo. Rezemos para que ouse pensar livremente e se humanize. Oremos para que se torne compassiva, caritativa. Aliás, como diz a nossa religião, importa mais o que fazes do que o que crês: pelos frutos os conhecereis."
3. Jesus deve sentir-se muito melhor na companhia destas filósofas do agir humano, da responsabilidade perante o mal, perante o sofrimento do mundo do que com os discípulos e os fariseus escandalizados com o seu comportamento pouco religioso, como se lê, hoje, no Evangelho de S. João. Jesus, com efeito, ao passar, viu um homem cego de nascença. Eles vieram logo com a pergunta fatal: Rabi, quem pecou, ele ou os seus pais, para que nascesse cego? O Mestre não está interessado nessa discussão culpabilizante dos inocentes. Deus não pode ter nada a ver com isso. O que interessa é a cura do cego. Se Jesus teima em realizá-la no dia proibido, no sábado, dia exclusivamente consagrado a Deus, é para mostrar que esse dia só lhe pode agradar se for o dia especialmente consagrado à libertação dos seres humanos. A humanização desta religião é que a torna divina.

Publicado por morfeu às 09:38 AM | Comentários (11) | TrackBack

março 01, 2008

Do Nada para o Nada, caminhantes ...

nessa contínua e misteriosa busca do Mistério, com a orientação laboriosa de A. Borges

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fevereiro 29, 2008

"Tecno-luxúria"...conhece?

... ainda não se chegou a tanto, por estes lados. A experiência tecnológica de uma escola dos States, que apresento em entrada estendida, dá que pensar. De facto um "grande" e "excelente" professor continua a ser aquele que domina a palavra em toda a sua extensão e compreensão. E...a conversa, ou conversar, continua a ser grátis... para reflectir.

Patrick Welsh +/Washington Post * digital@publico.pt

Qual é o problema dos professores do liceu T.C. Williams?
Em Setembro, fomos transferidos para um edifício que custou 98 milhões de dólares (65 milhões de euros) em Alexandria (Virginia - Leste dos EUA, próximo de Washington), um dos liceus mais caros de sempre. As salas de aula são banhadas por luz natural. Todas têm um projector LCD montado no tecto, que transmite tudo o que eu queira colocar no meu computador portátil (desde leituras de poesia na Biblioteca do Congresso a entrevistas no YouTube com Toni Morrison e outros escritores) para um ecrã gigante na frente da sala.
O comportamento dos estudantes parece ter melhorado muito. Temos um refeitório que parece saído de um centro comercial de luxo, e que parece ter tido um efeito curiosamente tranquilizante, tal como também teve a presença de 126 câmaras de segurança.
Então, seria de pensar que os professores do T.C. estivessem extasiados. Mas passa-se exactamente o contrário.
A moral entre os docentes está ao nível mais baixo e o cinismo no máximo que eu vi em muitos anos. Qual é o problema?
É aquilo a que um antigo superintendente do sistema escolar de Alexandria descreve como "tecno-luxúria": uma doença que afecta gestores de escolas por todo o país e que se manifesta através de uma necessidade insaciável de adquirir os gadgets informáticos mais recentes, mais rápidos, mais exóticos - quer os estudantes precisem deles ou não.

O "liceu das geringonças"

A "tecno-luxúria" encontra-se na sua fase mais avançada no T.C., onde os nossos administradores fetichizaram a tecnologia de tal forma que alguns dos meus colegas descrevem a escola como o "liceu das geringonças".
Por exemplo: foi dito aos professores de ciência e matemática que não podem usar retroprojectores tradicionais para apresentar materiais às suas turmas - apesar de os professores dizerem que, em muitos casos, estas máquinas são superiores aos computadores para transmitir determinados conceitos.
Mas a avaliação dos professores actualmente não é feita pela sua capacidade de explicar a matéria aos alunos: o que interessa é saber se conseguem ter "salas de aula sem papel" - e quantas geringonças usam. Para parafrasear o filme Campo de Sonhos, se uma empresa de informática construir uma maquineta para a sala de aulas, o sistema escolar de Alexandria vai comprá-lo.
O mais recente é o "school pad". Este é um dispositivo portátil que permite ao professor passear-se pela sala de aula e fazer sublinhados no que o projector LCD for mostrando no ecrã. Por outras palavras, serve para poupar aos professores a meia-dúzia de passos necessária a chegar às suas secretárias e clicar no rato.
A administração escolar encomendou 77 "school pads" para o T.C., a um custo de 495 dólares (330 euros) cada um. Isto apesar de uma das professoras ter dito que o dispositivo a fazia lembrar de um brinquedo de infância: "É só uma maneira de gastar dinheiro para pessoas que são preguiçosas demais para escrever no quadro."

O professor ciborgue

Durante algum tempo, julguei que eram só os professores mais velhos como eu, imigrantes no mundo da Internet, que estavam a queixar-se da chamada "iniciativa tecnológica". Mas afinal até os professores mais jovens estão fartos.
"[Os administradores] preferiam ter um ciborgue a dar as aulas em vez de ter-me a mim", disse-me um jovem professor de inglês. "É a tecnologia como um fim em si mesma. O que conta não é ter coisas que funcionem ou ajudem os miúdos a aprender, é ter coisa que façam os administradores parecer dinâmicos, que passem ao público uma impressão de modernidade."
A escola praticamente admite isto no seu site na Internet, onde se pode ler este texto dirigido aos professores: "Imaginem esta manchete: "Escolas públicas de Alexandria reconhecidas pelo seu programa educativo de tecnologia de ponta; Bons resultados dos estudantes correlacionados com a implementação de tecnologias". Que tecnologias é que existem no liceu que podem conduzir a uma manchete como esta?"
Os administradores podem viver de manchetes, mas o objectivo dos professores é que os seus estudantes aprendam. "Os professores não deviam mudar a sua maneira de ensinar para se adaptarem a um engenho tecnológico qualquer", diz Peter Cevenini, director da divisão de ensino básico do Business Solutions Group da Cisco. "Ensinar é uma arte, e grandes professores podem ensinar de formas completamente diferentes. Há demasiadas escolas a tornar-se obcecadas por máquinas; compram engenhos informáticos apenas porque eles existem."

Na aula, a jogar no laptop

Os miúdos não se deixam levar pelas maquinetas. "O meu melhor professor é o professor Nickley", diz Jamal Stone, aluno do 12º ano. "Ele não liga a isso dos computadores. Usa só o quadro - o quadro inteiro. É enérgico, animado, espirituoso e percebe imenso de matemática. Obriga-nos a prestar atenção; não conseguimos distrair-nos nem tentando."
Jamal tem pena de muitos dos "professores sem papel", que estão sempre a tentar fazer os estudantes usar os seus laptops (oferecidos pela escola) na sala de aula: "Os professores julgam que têm os alunos concentrados em trabalho para a aula, quando na verdade estão em jogos de computador ou a surfar na Web", conta. "Quando os nazis dos computadores bloqueiam um jogo, os miúdos descobrem logo outro."
Outra aluna de 12º ano, Katerina Savchyn, confirma que às vezes usa o laptop para fugir ao tédio das aulas - vai para um jogo online chamado Helicopter.
Aliás, os portáteis oferecidos pela escola constituem um problema de várias maneiras. Estudantes queixam-se de perder imenso tempo nas aulas a tentar fazer uploads de programas necessários. Os laptops estão sempre com problemas em ligar-se ao servidor de wi-fi - mesmo depois de, há alguns meses, os "geeks" dos computadores terem ido a todas as salas de aula instalar novas memórias nos servidores. A administração escolar, que se apressou a dar os computadores aos estudantes há três anos, está constantemente a tentar adaptar-se à nova tecnologia.

Carregas no "enviar" e rezas

O que é mais desconcerte é que o excesso de tecnologia está a desanimar alguns professores jovens e talentosos. Um dos melhores na minha escola - um professor que é estimado por estudantes e pelos seus pais - põe as coisas nestes termos: "Há muito de bom nos computadores, mas estamos a ser obrigados a fazer uma quantidade exagerada de actividades neles. Muitas dessas actividades não se adaptam ao meu estilo de ensinar. Temos tantos obstáculos para superar que há dias em que chego à escola e não me sinto entusiasmado. Estas actividades de computadores só servem para nos afastar dos estudantes."
Claro, a grande questão não é se os professores gostam de passar o seu tempo a aprender a usar uma nova maquineta a seguir a outra; o importante é se esta procissão de novas tecnologias está a ajudar os miúdos a aprender. Pelo que vejo, não.
Um professor de matemática disse: "A matemática sai da ponta de um lápis. Não quero a resposta mais rápida; quero que os estudantes sejam capazes de desenvolver a resposta, de descobrir o seu porquê. A administração da escola parece achar que os computadores tornam a matemática fácil - mas a matemática tem de ser um processo complexo, de aprendizagem passo-a-passo."
Estas palavras são confirmadas por um professor de ciências sociais. Mais do que nunca, diz, "os nossos estudantes querem carregar num botão para ter uma resposta imediata de A, B ou C; cada vez menos querem pensar, porque pensar bem demora tempo".
Vejo o mesmo nas minhas aulas. Sobretudo quando é preciso escrever textos. Muitos estudantes enviam-me os trabalhos pela Internet; as margens do documento estão correctas, o tipo de letra é bonito, e a escrita é pior que nunca.
Parece que a regra se tornou: escreves, passas o corrector ortográfico, carregas no "enviar" e rezas.

+Patrick Welsh é professor de inglês no liceu T. C. Williams há mais de trinta anos
*exclusivo PÚBLICO/ Washington Post


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fevereiro 26, 2008

Sphaera Mundi

Pode a ciência cantar...emocionante...

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fevereiro 03, 2008

Bento XVI, "Sapienza": Liberdade de expressão.

Pela reflexão de Bento Domingues e de A.Borges, divulgo alguns textos de reflexão. Este primeiro, provém de Bento Domingues. Em princípio mais dois se seguirão sobre o assunto. Com a devida vénia ao autor, e ao jornal Público.Bom domingo.

segunda-feira, 28 de Janeiro de 2008
Como nasceu a universidade?


O discurso de Bento XVI, lido por M. Marietti, acabou por suscitar um verdadeiro concerto de aplausos

1. O clericalismo e o laicismo são duas formas de fanatismo que se alimentam com o medo da verdade do outro, com o medo de que o outro possa ter razão.

O Papa foi convidado a falar na Universidade de Roma "La Sapienza", na cerimónia de abertura do ano académico. Em nome da defesa da laicidade, alguns professores e alunos protestaram. Bento XVI, face à situação, preferiu anular a visita. O discurso acabou por ser lido por M. Marietti, suscitando nos docentes, investigadores, pessoal administrativo e estudantes um concerto de aplausos. O reitor da universidade, Renato Guarini, no seu discurso de abertura, renovou o convite ao Papa. Segundo ele, uma universidade tem o dever de continuar livre, tolerante e aberta. Houve, depois, uma grande manifestação de desagravo na Praça de S. Pedro. Mas não é isso que tem importância. Decisiva é a questão de fundo: em nome da laicidade, uma universidade italiana - fundada, aliás, por um Papa - será obrigada a recusar o diálogo com uma das correntes mais constantes da tradição europeia? Como observou o matemático judeu Giorgio Israel, "é surpreendente que quem escolheu como lema a célebre frase atribuída a Voltaire - "lutarei até à morte para que tu possas dizer o contrário do que eu penso" - se oponha a que o Papa pronuncie um discurso na Universidade de Roma".

Bento XVI começava o seu discurso, precisamente, com a pergunta: o que é que pode e deve dizer um Papa numa ocasião destas? Foi convidado como bispo de Roma - que tem responsabilidades em relação a toda a Igreja católica - para uma universidade que já não é do Papa. Não esqueceu, porém, que este se foi tornando uma das vozes da razão ética da humanidade.

2. Acolhe a objecção: ao falar como Papa, não estaria a tirar conclusões da fé sem validade para os que a não partilham? Antes de responder a esta questão, levanta outra fundamental: o que é a razão? Como poderá uma norma moral demonstrar que é "razoável"? Serve-se da posição maleável de John Rawls para não deixar à razão "pública" o exclusivo da razoabilidade que também se pode encontrar em doutrinas que derivam de uma tradição responsável e motivada. A sabedoria das grandes tradições religiosas deve, por isso, ser valorizada como uma realidade que não se pode lançar impunemente para o cesto da história das ideias. Como representante de uma comunidade que guarda, em si, um tesouro de conhecimento e de sabedoria ética, fala como representante de uma razão ética. Bento XVI, em relação aos destinatários da sua intervenção, pergunta: o que é a universidade? Qual é a sua missão? Ele pensa que se pode afirmar que a verdadeira e íntima origem da universidade está na sede de conhecimento, própria do homem. Este quer saber o que é tudo aquilo que o rodeia. Quer a verdade. Neste sentido, o seguinte questionamento de Sócrates seria o impulso do qual nasceu a universidade ocidental. Diante de uma defesa da religião mítica e sua devoção, Sócrates contrapõe: "Tu acreditas que entre os deuses exista realmente uma guerra recíproca e terríveis inimizades e combates... Teremos nós, Eutifrone, de afirmar que tudo isto é verdade?"

Nesta pergunta aparentemente pouco devota - mas que, em Sócrates, derivava de uma religiosidade mais profunda e mais pura, ou seja, da busca do Deus verdadeiramente divino - os cristãos dos primeiros séculos reconheceram-se a si mesmos e ao seu caminho. Acolheram a sua fé, não de forma positivista ou como a via de fuga de desejos não realizados, mas como uma diluição da neblina da religião mitológica, deixando espaço à descoberta daquele Deus que é Razão criadora e, ao mesmo tempo, Razão-Amor. Por isso, ao interrogar-se da razão sobre o Deus maior e também sobre a verdadeira natureza e o autêntico sentido do ser humano, era para eles, não uma forma problemática de falta de religiosidade, mas fazia parte da essência do seu modo de serem religiosos. Por conseguinte, eles não tinham necessidade de diluir ou abandonar o questionamento socrático, mas podiam, aliás deviam, acolhê-lo e reconhecer, como parte da sua própria identidade, a árdua busca da razão para alcançar o conhecimento da verdade inteira. Assim podia, aliás devia, no âmbito da fé cristã, no mundo cristão, nascer a universidade.

3.O estilo do discurso de Bento XVI - do qual, hoje, só apresento a introdução - não é fácil para uma leitura de jornal. Ao procurar os fundamentos das relações entre a fé cristã e a razão, no horizonte da busca da verdade, num contexto de relativismo cultural, parece que não quer deixar nada por dizer, embora se note que também ele anda à procura. Veremos quais são os caminhos que propõe para a articulação das ciências, da filosofia e da teologia na universidade. S. Tomás de Aquino, celebrado amanhã na Igreja católica, começou a tornar-se o seu guia.


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janeiro 15, 2008

Arroubos de Filosofia...

Sendo professor dessa "inefável" e para muitos politipragmatoutilitaristas desnecessária disciplina, congratulo-me com a intervenção de Desidério Murcho, às terças feiras no jornal Público. Em entrada estendida, deixo o seu texto para eventuais interessados na relevância ou irrelevância das nossas humanas coisas.

A irrelevância da filosofia

15.01.2008, Desidério Murcho


A filosofia é irrelevante, num certo sentido. No sentido psicológico em que a generalidade das pessoas se está nas tintas para o escrutínio cuidadoso das suas convicções. Mas, nesse sentido psicológico, quase tudo é irrelevante para quase toda a gente: quase ninguém no mundo tem paciência para aprender a dirigir uma orquestra, ou para saber física quântica, ou para conduzir táxis ou para fazer pão.
Os filósofos ocupam-se do estudo cuidadoso das nossas convicções e crenças mais básicas. Tão básicas que, por vezes, não temos sequer consciência de que as temos: apenas agimos aceitando-as como pressupostos óbvios. Eis alguns exemplos: pensamos que o mundo não foi criado há dez minutos, com todos os falsos indícios para nos fazer pensar o contrário; pensamos que as outras pessoas têm uma interioridade como a nossa, não sendo meros autómatos; pensamos que o que acontece no passado é um bom guia para o que acontece no futuro, e que, por isso, a água que ontem nos saciou a sede hoje não vai envenenar-nos.
Os filósofos ocupam-se, em grande parte, do estudo destas convicções profundas. E um dos aspectos que mais nos interessam é a justificação. Sem dúvida que a justificação é irrelevante para a generalidade das pessoas. As pessoas não acreditam em todas aquelas coisas por haver ou deixar de haver boas justificações para elas. Mas, para os filósofos, é irrelevante que para a generalidade das pessoas as justificações sejam irrelevantes. Para o maestro, também é irrelevante que para a maior parte das pessoas saber dirigir uma orquestra seja irrelevante. Não é irrelevante para o maestro.
Pensa-se por vezes que a filosofia serve apenas para pôr uma cereja de erudição e autoridade em cima do bolo das nossas convicções mais queridas. Mas isto é perverter a filosofia. A atitude filosófica por excelência é a atitude socrática de examinar a nossa vida, pois "uma vida não examinada não vale a pena ser vivida", como Platão (427-347 a.C.) escreveu na Apologia, p. 38a. Este trabalho filosófico é irritante, incómodo, irrelevante? Talvez. Mas é isto a filosofia - e não elucubrações que visam a adesão irreflectida do ouvinte, reformulando com palavras caras os preconceitos que nos são mais queridos. Filosofar é destruir preconceitos e não perfumá-los com o bálsamo da moda.
A atitude socrática deu origem à física, à história e à musicologia, entre outras coisas, e ainda está na base destas actividades. A maior parte das pessoas não tinha grande interesse em justificar a convicção de que os objectos caem; nem em justificar a convicção de que a Terra está imóvel. Mas algumas pessoas deram-se a esse trabalho. E hoje compreendemos melhor o mundo por causa dessa atenção à justificação. O que Sócrates queria dizer é que a vida será emocionalmente mais pobre se não dermos atenção à justificação das nossas crenças mais profundas. Essa atenção liberta-nos do nosso paroquialismo emocional. Transforma-nos em cidadãos do universo.

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janeiro 13, 2008

Da confissão "auricular" às "penas do Inferno".

confession.jpg
foto daqui

Da minha antiga práctica religiosa, confesso que pequei um bocado ao confessar-me...principalmente quando o padre confessor queria saber "determinadas" coisas... mas como havia a absolvição final, a coisa compunha-se e vinha de alma lavada até ao primeiro pecadilho.
Bento Domingues, em mais uma das suas muito humanas e simultaneamente eruditas intervenções no jornal Público,
ajuda-nos a refectir sobre a questão.

O embaraço da confissão
Frei Bento Domingues O.P. - 20080113


No Ocidente, a maioria dos padres não manifesta grande pressa em "ouvir confissões"

1.Este é o título dado a um debate que terei de orientar amanhã, no Convento de S. Domingos, no programa das conferências mensais do Instituto São Tomás de Aquino (ISTA). Onde estará, porém, o embaraço, se, ainda não há muitos anos, o Catecismo da Igreja Católica e o Código de Direito Canónico, assim como as instruções de João Paulo II sobre O Sacramento da Penitência, foram tão desembaraçados a dizer o que é e como deve ser a "confissão auricular"?

O mal-estar vem de longe, reforçou-se com o Vaticano II e há quem tema e quem deseje que a confissão desapareça de vez. Entre nós, foi D. António Ferreira Gomes que, nas suas Cartas ao Papa, escreveu o que muitos pensavam e não diziam: "Factos são factos e o facto é que hoje, em grande escala, pequenos e grandes fogem do confessionário, sendo essa a maior causa da "descrença" de muitos que intimamente aceitam Cristo e o Evangelho."

Segundo o historiador J. Delumeau (1), todas as cronologias destinadas aos alunos do ensino secundário deveriam dar um grande relevo à decisão do IV Concílio de Latrão (1215) que tornou a confissão anual obrigatória. Esta norma modificou a vida religiosa e psicológica dos homens e das mulheres do Ocidente e pesou espantosamente nas mentalidades, até à Reforma nos países protestantes e até ao século XX nos que permaneceram católicos.

Como observa o monge beneditino Philippe Rouillard, professor de Teologia dos Sacramentos e da Liturgia, em muitas igrejas, os confessionários já só têm um valor de vestígio, se não foram comprados por antiquários para os transformar noutra coisa. V. Gómez Mier descreveu um desejado Adiós al Confesionario. Sem se poder generalizar, a verdade é que, no Ocidente, a maioria dos padres não manifesta grande pressa em "ouvir confissões", são cada vez menos os fiéis que pedem para "se confessar" e a maior parte dos que participam na missa de domingo avança para a Comunhão sem recorrer a esse ritual.

2.Apesar de todo este mal-estar, o citado Ph. Rouillard observa que, salvo no círculo muito restrito dos especialistas da liturgia, a confissão não provocou muitas investigações. Os historiadores que se poderiam interessar pelo assunto são católicos e não se sentiriam muito à vontade para abordar uma questão que os incomoda. Os confessores nunca poderiam dar qualquer informação por razões de absoluto sigilo (2). No entanto, não estamos completamente às escuras acerca da história da confissão. Além de estudos parciais, da "História" de C. Vogel sobre o pecador e a penitência na Igreja antiga e na Idade Média e da obra muito conhecida de J. Delumeau, um grupo de investigadores reuniu-se, durante 25 anos, para nos oferecer excelentes versões das "Práticas da confissão", desde os Padres do Deserto (IV-V) até ao Vaticano II.

Em face da contestação protestante, o Concílio de Trento (1545-1563) procurou fazer do sacramento da penitência o sustentáculo de toda a vida cristã. Se isto teve um grande êxito em muitos casos, acabou por minimizar a importância da Eucaristia e de alterar o seu verdadeiro sentido. A hostilidade que gerou, a partir do século XVIII, coincide com a afirmação progressiva dos direitos humanos e da autonomia da consciência, na qual ninguém pode mandar.

No século XX, a Congregação dos Sacramentos decidiu em 1910, por decreto, a idade do "uso da razão" - por volta dos 7 anos - para aceder à Primeira Comunhão eucarística, precedida de confissão.

As ameaças com as penas do inferno para quem não confessava os pecados mortais, incluindo, então, as crianças e os adolescentes, foi talvez um dos maiores desastres da pastoral da Igreja em toda a sua história. Não vale a pena perder muito tempo com esse detestável passado inquisitorial.

3.Não posso explicitar nem justificar, de modo adequado, uma perspectiva que entende o caminho cristão como uma conversão permanente, celebrada no Baptismo é retomada em todas as celebrações da Eucaristia.

As orientações na evangelização e na pastoral devem ter em conta a diversidade cultural, a promoção dos direitos humanos e o respeito pela consciência inviolável de cada um. No campo propriamente sacramental, é preciso, antes de mais, respeitar a sua hierarquia. Se a porta é o Baptismo, o mais importante dos sacramentos é a Eucaristia, que é também o grande sacramento da confissão dos pecados, da misericórdia e do perdão de Deus. Esta dimensão, iluminada pela proclamação da palavra do Evangelho, percorre toda a missa. Quando não se ajuda a perceber isto, arruina-se o que se pretende salvar com a "confissão auricular".

Certas práticas da confissão não foram apenas grandes crimes do ponto de vista cristão, foram também uma constante e infame desvalorização da Eucaristia como sacramento do perdão.

A Igreja viveu cerca de 12 séculos sem a norma da confissão auricular e Santo Agostinho nunca se confessou.

(1) L"Aveu et le Pardon: les difficultés de confession, XIII-XVIII siècle, Paris Fayard, 1990, pp. 13-14.
(2) Philippe Rouillard, História da penitência - Das origens aos nossos dias, Paulus, São Paulo, 1999.

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janeiro 05, 2008

Ser reconhecido... sg. A. Borges.Sugiro.

Em tempos de breves futilidades a reflexão de A.Borges, sobre tema clássico, onde a ternura de um gesto suplanta em humanidade a erudição da Filosofia...a ler

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janeiro 03, 2008

Foto-galeria 2007...sugiro.

Selecção Público

Selecção Reuters

Recolhido in: Jornal Público.

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janeiro 02, 2008

"O que é na realidade o Homem?" ... sugiro.

É o ser que decide o que é. É o ser que inventou câmaras de gás, mas ao mesmo tempo é o ser que entrou nelas com passo firme, murmurando uma oração.

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dezembro 29, 2007

Coisas do ano que passa...

Aproveito as sugestões do jornal Público de hoje, que podem ser consultadas na net, acerca de acontecimentos registados em vídeo. Sugiro também a apreciação das frases que se encontram a votação, logo na primeira página da edição online

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dezembro 08, 2007

Vaticano 2035...

a reflexão sabática de A.Borges

vaticano 2035.jpg
Vaticano 2035


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dezembro 04, 2007

Aprenda a bater na...mulher, em poucas lições...

sem comentário...julgue por si

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dezembro 03, 2007

"A fé de que eu gosto, diz Deus, é a esperança" ... sugiro.

...a crónica de Frei Bento Domingues, em tempo de Advento, essa teimosia que o Tempo insiste em vir a ser...

Advento de Deus e nosso advento

Frei Bento Domingues O.P. – 2007/12/02 (in Publico, por subscrição)

O calendário litúrgico lembra todos os anos aos cristãos que entramos no Advento. É uma palavra de futuro que, ao repetir-se todos os anos, parece evocar o eterno retorno do mesmo.

É o tempo que nos devora e não é o tempo que nos consola. Se parece escandaloso ter nascido sem ser consultado, não é com alegria que alguém pode escolher o tempo e o modo de morrer. Nietzsche, no entanto, desafia-nos a dançar nas prisões. Ao aproximar estas imagens contraditórias, evoca as estranhas relações do ser humano com o tempo. Se tivéssemos apenas cadeias, cairíamos no desespero; se não houvesse senão a dança, viveríamos na ilusão. A nossa relação com o tempo vive destas duas evocações: prisão e liberdade, mas a lógica do tempo escapa-nos. Podemos fechar os olhos e criar a ilusão de que o tempo não existe. Logo que os abrimos, o presente está sempre a ir para o passado sem nos poder dizer o futuro. É a nossa condição: viver nesta passagem fugaz e fugidia, onde tudo se inscreve e tudo se apaga.

Para o Eclesiastes, um belo livro do Antigo Testamento, a vida parece feita apenas de enganos: "Ilusão das ilusões - disse Qohélet -, ilusão das ilusões, tudo é ilusão." Mas ficar aí também seria uma ilusão. Consentir na nossa finitude é o começo de sabedoria. Segundo o poema de Qohélet, "para tudo há um momento e um tempo para cada coisa que se deseja debaixo do céu: tempo para nascer e tempo para morrer; tempo para plantar e tempo para arrancar o plantio; tempo para matar e tempo para curar; tempo para destruir e tempo para edificar; tempo para chorar e tempo para rir; tempo para se lamentar e tempo para dançar; tempo para atirar pedras e tempo para as ajuntar; tempo para abraçar e tempo para evitar o abraço; tempo para procurar e tempo para perder; tempo para guardar e tempo para atirar fora; tempo para rasgar e tempo para coser; tempo para calar e tempo para falar; tempo para amar e tempo para odiar; tempo para guerra e tempo para a paz." (Ecl 3, 1-8)

2.Há dois mil e oitocentos anos, o profeta Isaías - evocado, hoje, na primeira leitura da missa - esperava que Jerusalém fosse, finalmente, transformada na cidade da paz para todos os povos: "Converterão as espadas em relhas de arado e as lanças em foices. Não levantará a espada nação contra nação, nem mais se hão-de preparar para a guerra." (Is 2, 1-5)
Dir-se-á que megalomania do desejo não tem limites. Espera contra toda a esperança e recomeça, mesmo depois das maiores desilusões. Em vez da paz, a chamada Terra Santa transformou-se na terra da violência e do sofrimento sem fim, de gastos astronómicos em armamento, que nem diante da bomba atómica recuaram.
Cada tentativa para chegar a um tratado de paz tem acabado numa desilusão. Quando, em 1995, tudo parecia bem encaminhado, Rabin, denunciado como traidor do Estado judaico, foi abatido a tiro por um judeu. Sempre que se aproximam as presidenciais nos EUA, a estratégia vira as suas baterias para as negociações. É o que está a acontecer agora, em Annapolis. Abriram-se novas negociações acordadas pelo presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, e o primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, com o patrocínio de G. W. Bush. Pretendem terminar, no final de 2008, com o reconhecimento comum de dois Estados - Israel e Palestina - a viverem lado a lado em paz e segurança. Como à partida tudo aponta para mais um fracasso, esperemos que Deus escreva direito por linhas tortas.

3.Não invoquemos, no entanto, o nome de Deus em vão, porque não tem culpa nenhuma da loucura dos homens. Espero que o advento do Deus da paz esteja sempre a acontecer. Se assim não fosse, Deus não seria Deus, o excesso permanente do dom. Nós, seres humanos, é que inventamos cada vez mais razões para adiar a reconciliação, mais prontos para a guerra do que para a paz. A omnipotência de Deus é discreta, porque não substitui nem a nossa razão nem a nossa vontade.
Há sempre Deus a mais e Deus a menos. Os fundamentalistas religiosos servem-se do nome de Deus para combater os "infiéis", os heréticos, os ímpios, os que não são da sua religião. Servem-se do nome de Deus para cobrir a sua ignorância e a insegurança das suas crenças. Os actuais militantes do ateísmo têm medo que Deus exista e, por isso, não compreendem que haja crentes que não abandonam o exercício crítico da razão nem a fé. Estes ateus comeram a razão toda. Esquecem que a razão humana tem a particularidade de ser assaltada por questões que ela não pode evitar - são-lhe impostas pela sua própria natureza -, mas às quais não pode responder porque ultrapassam totalmente o seu poder, como insinuava Kant, no prefácio da primeira edição da Crítica da Razão Pura.
Na Eucaristia de hoje, Paulo quer cristãos de olhos abertos. S. Mateus quer que eles sejam vigilantes, para se não perderem do discreto advento de Deus.
"A fé de que eu gosto, diz Deus, é a esperança" (C. Péguy). Eu também.A chamada Terra Santa transformou-se na terra da violência e do sofrimento sem fim

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dezembro 01, 2007

O "Disangelho". A crónica imperdível de A. Borges


Mas já Nietzsche se queixava: "Cristãos? Só houve um, e morreu na cruz." Depois, veio a Igreja e "o Disangelho".

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novembro 24, 2007

Religião e ciência, pela reflexão de A.Borges...sugiro.


Aqui

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novembro 10, 2007

A beleza religiosa no "cais das lágrimas dos portugueses"...

"A religião sem a beleza é inverdadeira. Sem o gratuito - a graça -, é uma desgraça. "

Interessa-me a espiritualidade. Faço muito minha, a sinuosa busca do Infinito. Pela poesia, pela leitura, pela a abertura ao Outro, à sua palavra. Como habitualmente, bebo em dia de sábado, a palavra de A.Borges, na sua magnífica crónica no DN de hoje. Caso queira partilhar...

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novembro 04, 2007

Religioso: "deserto" e " superabundância"...sugiro

anselmo borges.jpg

"Se uns insistem no deserto religioso, outros mostram a superabundância de religiões".

O futuro do cristianismo
Frei Bento Domingues O.P. - 20071104
Se uns insistem no deserto religioso, outros mostram a superabundância de religiões1.Não faltam ensaios acerca do futuro da religião (1). Por natureza, do futuro não se pode saber muito. É sensato continuar com o debate aberto em todos os campos. A retórica da decadência regala-se a dizer que, depois do ateísmo dogmático, que deu cobertura ideológica a sistemas intolerantes, emerge, agora, o ateísmo da indiferença. O nome da nossa cultura fragmentária seria o niilismo, a luz de nada. Viveríamos no eclipse de Deus, na sua ausência e sem notícias Dele. Como se Ele não existisse. A experiência predominante passaria a ser, precisamente, a de já não se fazer nenhuma experiência religiosa, isto é, de não se ser afectado nem, muito menos, transformado por algo que possa evocar Deus. Mas que dizemos, quando dizemos Deus?
Porque não evocar também o fenómeno contrário, o erradamente chamado "regresso do religioso" de mil manifestações? Não é bom confundir o mundo com a sociologia dos nossos contactos e das nossas leituras.
A. Rañada, um físico espanhol, dizia acerca das relações entre ciência e religião: os fundamentalistas religiosos e os ateus militantes têm alguma coisa em comum. Crêem que toda a geografia do mundo cabe num só mapa: o da interpretação intransigente de um livro sagrado ou o dos dados de uma ciência excludente e totalizadora. No entanto, quando olhamos à nossa volta, assalta-nos, de imediato, a complexidade das coisas sempre enredadas num intrincadíssimo emaranhado de conexões causais. E como reduzir a esquemas simples os nossos desejos, temores, esperanças ou recordações? Como poderiam caber num único mapa?

2.A situação é paradoxal. Se uns insistem no deserto religioso do nosso tempo, outros mostram a superabundância de religiões, de espiritualidades, de antigas e novas correntes e movimentos, num mundo cada vez mais global. Quem pensa que as religiões estão a acabar percorra, devagar, o magnífico L"Atlas des Religions (1) e verá que o mais urgente é o diálogo inter-religioso e também entre crentes e não-crentes. Não perdeu actualidade a repetida exigência de Hans Küng: "Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso planeta sem um ethos global, um ethos mundial." Isso está à vista e só os cegos por interesses imediatos não querem ver.
Por outro lado, o diálogo não existe nem para abolir identidades nem para a sua pura afirmação. Num diálogo verdadeiro, todos mudam sem se anularem. É, por isso, necessário que cada um se tome responsável pela sua religião, pelas imagens que faz de Deus e do ser humano.

3.Há dois anos, publiquei aqui um texto intitulado "Deus em Valadares". Era sobre um ambicioso congresso internacional, que tinha superado todas as expectativas, com o tema Deus no século XXI e o futuro do cristianismo, coordenado por Anselmo Borges. Está, agora, à disposição de todos numa bela edição (Campo das Letras). A capa é de José Rodrigues.
Às vezes, o que os títulos anunciam não corresponde ao conteúdo. Os textos desta obra correspondem, exactamente, ao que anunciam. Vêm de Espanha, da Holanda, da Alemanha, do México, do Japão e de Portugal. Nos tempos modernos, a língua portuguesa não está muito habituada a falar de teologia, que, apesar de tudo, por se ter tornado crítica, conseguiu altas cotas de dignidade e de rigor conceptual. Soube dialogar com os sistemas filosóficos, abertamente ateus, que surgiram na história ocidental (Feuerbach, Marx, Nietzsche, Freud...) e, agora, não recusa o encontro com o mundo das diversas ciências.
Os textos do congresso, recolhidos neste livro, não pairam num clima de teologia incontaminada. Também não são um intercâmbio metódico entre ciências e teologias. As diversas expressões da teologia e das ciências respiraram, num espaço cultural multifacetado, a busca do sentido da existência humana, no qual se desenha também o futuro do cristianismo. Este não pode ser procurado num regime de clausura entre experiências humanas, sabedorias, filosofias, éticas e ciências. O cristianismo é incarnação sem confusão. A graça não suprime a natureza. É esse o valor da definição do Concílio de Calcedónia: "Jesus Cristo é um só, mas em duas naturezas." É evidente que esta fórmula é tributária de uma cultura que já não é a do nosso tempo, mas serve para dizer que Cristo está em tudo, mas não é tudo. Deixará, por isso, sempre a liberdade a todas as investigações e a todas as experiências responsáveis.
Anselmo Borges teve ainda a feliz ideia de incorporar, neste livro, o itinerário-testamento do teólogo dominicano E. Schillebeeckx, professor da Universidade de Nimega. Tem sido uma das vozes da Igreja, mais livre, corajosa e responsável, alimentada por um pensamento sempre em mudança, testemunhado, de forma exemplar, neste texto admirável.

(1) Alberto G. Martínez, El futuro de la religión, "Studium", 2005, Fasc 3, 345-385. / (2) "Pays par pays. Les clés de la géopolitique", La Vie, Le Monde, Hors-série, 2007

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outubro 29, 2007

Portugal, retrato social, sugiro.

Retrato social
Rodrigo Leão

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outubro 27, 2007

Para que quero eu olhos ...

Não é dos olhos que se trata. O mistério é o olhar. Um dia terão perguntado a Hegel o que se manifesta e vê num olhar. E ele: "O abismo do mundo."

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outubro 23, 2007

Não me calo nem aceito...


Impressionou-me, escandalizou-me, ou-me tanto que nem sei o que diga. Tanto quanto se fora uma tipa com a zona púbica em exposição intencional, "negligée, como agora se vê, desde a jovem estudante em sala de aula até à esposa-família dedicada...assim, não aceito e verbero todo o fundamentalismo e o falso pudor cultural que empana seres humanos num negritude definitiva...quem está por debaixo desse negro cobrimento, onde a expressão, o olhar a cor o tudo de um ser humano? Que os homens que vos obrigam sejam eternamente condenados a tal empanamento. Não acredito que alguém assim vestido, refiro-me à mulher de negro, não sofra e de acordo com a causa em questão, será sofrimento sobre sofrimento. Maldigo-vos carrascos culturais e fundamentalistas que não permitem a liberdade de um movimento que seja, o de uma pálpebra que se flicta...quero ser politicamente incorrecto!

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23.10.2007


Falar sobre o cancro da mama, a doença que mais mulheres mata nos Estados Unidos e no Médio Oriente, é o objectivo da viagem que a primeira-dama Laura Bush está a fazer, misturando diplomacia e saúde. Hoje estará na Arábia Saudita, ontem esteve nos Emirados Árabes Unidos e, até sexta-feira, ainda há-de ir ao Kuwait e à Jordânia. "Acho muito importante que os habitantes do Médio Oriente saibam que nos EUA nos preocupamos com a saúde das mulheres, porque ainda há muito medo e vergonha aqui, como nós tínhamos há 25 anos", disse Laura Bush. Na Arábia Saudita, 20 por cento dos casos de cancro são da mama. E 70 por cento das doentes são diagnosticadas quando a doença já está muito avançada, quando nos países ocidentais isso só acontece em 30 por cento dos casos. Ontem, no Abu Dhabi, Laura Bush falou com mulheres envoltas em véus negros - sobreviventes de cancro da mama, que contaram as suas histórias pessoais ao lado da primeira-dama.
Nos países árabes, o cancro da mama ainda está associado a um grande estigma social. "As mulheres casadas ficam muito preocupadas com o efeito que a doença terá sobre os seus maridos e famílias, por isso muitas optam por nem fazer mamografias", disse Omniyat Hajri, médico dos Emirados Árabes Unidos habituado a tratar doentes de cancro da mama, citado pela televisão ABC. Laura Bush, cuja avó morreu com cancro da mama e cuja mãe sofreu da doença mas sobreviveu, leva a sua história pessoal como bandeira da viagem - mas que está a ser vista como uma forma de diplomacia suave, em nome do seu marido, que ficou na Casa Branca. Vai encontrar-se com os reis jordanos e sauditas, usando a sua própria imagem para b

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outubro 10, 2007

A vida é feita de pequenos nadas...

…de pequenos nadas

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setembro 23, 2007

No abraço de Cristo...

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Frei Bento Domingues com o seu saber e humanidade honra-nos com a sua reflexão dominical./a>

"Dos muçulmanos, a Igreja tem algo a aprender sobre a oração, o jejum e a esmola; dos hindus, a meditação e a contemplação; dos budistas, o desprendimento dos bens materiais e o respeito pela vida; do confucionismo, a piedade filial e o respeito pelos mais velhos; do taoísmo, a simplicidade e a humildade; do animismo, o respeito da natureza e a gratidão pelas colheitas.

A teologia do pluralismo religioso não emergiu de forma automática

1.Está à vista que, sem o acolhimento da pluralidade, o respeito e a valorização das diferenças culturais e religiosas, não é possível viver em paz. Para não ficarmos, apenas, na repetição de cerimoniais e declarações acerca do diálogo intercultural e inter-religioso, é indispensável aprofundar a própria significação do pluralismo. É esse, aliás, um novo paradigma, o paradigma emergente de algumas práticas teológicas.
Na teologia trinitária do pluralismo religioso, "o Espírito Santo é o abraço e o beijo de Deus ao mundo inteiro". Nessa catolicidade, cabe toda a terra e podem ser acolhidas todas as formas de vida espiritual e religiosa, situadas e vividas dentro dos limites de cada cultura. Quando se consente no espírito do Evangelho de Cristo, rompe-se com a lógica fixista e opressora que tenta as religiões: o dentro está fora, o alto está em baixo, a bênção está com os malditos e o julgamento do mundo acontece a partir dos mais abandonados (1). Por causa disso, M. Gandhi chegou ao ponto de dizer: se todos os livros sagrados da humanidade se perdessem, mas fosse salvo o sermão da Montanha, as Bem-Aventuranças, nada estaria perdido.
A teologia do pluralismo religioso não emergiu de forma automática. Foram sobretudo os missionários - os que reflectiram sobre os erros de certas formas de missionação - que ajudaram as Igrejas a descobrir que, antes de falar e intervir, devem escutar e acolher.
No contexto do Sínodo dos Bispos da Ásia, os da Malásia, Singapura e Brunei, ao interrogarem-se sobre o que a Igreja católica poderia aprender no seu diálogo com as outras religiões, concluíram o seguinte: "Dos muçulmanos, a Igreja tem algo a aprender sobre a oração, o jejum e a esmola; dos hindus, a meditação e a contemplação; dos budistas, o desprendimento dos bens materiais e o respeito pela vida; do confucionismo, a piedade filial e o respeito pelos mais velhos; do taoísmo, a simplicidade e a humildade; do animismo, o respeito da natureza e a gratidão pelas colheitas. A Igreja pode aprender muito com o simbolismo e a riqueza dos seus ritos existentes na variedade da sua veneração. Pode aprender, com as religiões asiáticas, a ser mais aberta, mais receptiva, mais sensível, mais tolerante e aprender a perdoar."

2.Esta atitude de tanta generosidade nem sempre é bem recebida. Há quem diga que, se estes bispos olhassem mais para a mensagem cristã, não precisariam de perder tanto tempo com as outras religiões: quem tem o mais tem o menos e ainda sobra. Estes bispos acabam por minar a urgência das missões e nem sabem para que foram ordenados.
Tal crítica esquece que as missões da Igreja têm uma história. João Paulo II teve o mérito de reconhecer, oficialmente, que ela nem sempre foi gloriosa e ele, por fidelidade ao Evangelho, multiplicou os pedidos de perdão e lançou o espírito dialogante de Assis.
"Pelo diálogo", dizia este Papa, "nós deixamos Deus estar presente à nossa volta; porque quando nos abrimos uns aos outros, no diálogo, abrimo-nos a Deus. [...] Por outro lado, enquanto discípulos de diferentes religiões, deveríamos reunir-nos para promover e defender ideais comuns nas esferas da liberdade religiosa, da solidariedade humana, da educação, da cultura, do domínio social e da ordem cívica."

3.Como diz Michael Amaladoss, apesar de Jesus ter nascido, vivido, ensinado e ter sido morto na Ásia, é muitas vezes apresentado como um ocidental. Não falta quem defenda que a difusão da Igreja, através do império romano, influenciada pela cultura grega e pelo sistema romano, político e jurídico, foi um sinal da providência divina. Não vou discutir, agora, esse ponto de vista. Não se pode esquecer, no entanto, que as expressões ocidentais do cristianismo, nomeadamente as suas definições dogmáticas, constituem dificuldades desnecessárias noutras culturas.
Os indianos acreditam que S. Tomé foi à Índia e foi martirizado em Chennai. Os bispos asiáticos, reunidos num sínodo consagrado à Ásia em 1998, propuseram algumas imagens simbólicas de Jesus que lhes pareciam mais significativas para os asiáticos de hoje.
Pode ser que os ocidentais julguem as imagens apresentadas insuficientes e até redutoras para captarem a significação da pessoa, da vida, da morte e da ressurreição de Cristo. Não é essa a posição dos teólogos asiáticos. Por exemplo, Amaladoss, um indiano jesuíta, professor de Teologia Sistemática e director do lnstituto do Diálogo com as Culturas e as Religiões, em Chennai (Índia), no seu Jesus Asiático (2), seleccionou nove figuras, nove imagens - Jesus, o sábio; o caminho; o guru; o satyagrahi; o avatar; o servidor; o compassivo; o dançarino; o peregrino - que abrem perspectivas muito mais amplas e acolhedoras do que as fórmulas dogmáticas. Elas estão mais perto das narrativas evangélicas e da cultura indiana.
O cristianismo não é incompatível com a filosofia grega, mas seria pouco católico, se apenas pudesse ser pensado e vivido segundo essas categorias. Esta observação vale também para novas expressões da fé na cultura contemporânea.

(1) Revista Concilium 319-2007/1
(2) Michael Amaladoss, The Asian Jesus, ISPCK, Delhi, 2005 (trad. fr.: Jésus Asiatique, Paris, Presses de la Renaissance, 2007

Frei Bento Domingues O.P. (Jornal Público de 23 de Setembro de 2007)

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setembro 22, 2007

Vídeo do dia by Britannica

Vídeo do dia da Enciclopédia Britânica/a>

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setembro 16, 2007

A paz tem alguma piada? ...

"Não existe um caminho para a paz. A paz é o caminho."
(Deepak Chopra, A Paz É o Caminho, Lisboa, Sinais de Fogo, 2007)

Retomo este meu exercício de partilha na blogosfera. E, porque domingo, sendo o "dia do Senhor", mas, não o querendo eu como dia de Senhor nenhum, aqui deixo a intervenção de Bento Domingues, crónica publicada no Jornal Pública, hoje, dia de Senhor nenhum...

O caminho mais curto para a Paz...

Frei Bento Domingues - 20070916

Gandhi não teve seguidores, mas o Dalai Lama reencarnou o seu caminho

1 Já está traduzido em português um livro notável de Deepak Chopra, inspirado em M. Gandhi: "Não existe um caminho para a paz. A paz é o caminho." (1) Sendo a guerra a praga que os seres humanos carregam consigo, o percurso desta obra termina com sete práticas para saber, em cada dia da semana, como viver em paz e ser pacificador. Pode parecer um programa muito básico, mas responde a uma pergunta fundamental do seu mestre: "Poderemos nós ser a mudança que queremos que haja no mundo?" Os sonhos começam a realidade: "Um dia haverá uma guerra e ninguém aparecerá" (C. Sandburg).
O autor deste livro de espiritualidade activa é médico endocrinologista, natural da Índia, radicado nos EUA. Entre as numerosas distinções, foi-lhe atribuído o Prémio Einstein, pelo Albert Einstein Institute College of Medicine em colaboração com o American Journal of Psychotherapy. Em conjunto com Oscar Arias e Betty Williams, laureados com o Prémio Nobel da Paz, fundou a Aliança para Uma Nova Humanidade, uma organização empenhada na justiça social, na liberdade económica, no equilíbrio ecológico e na resolução dos conflitos.
Esta obra integra-se numa espiritualidade que nos chega do Oriente. Como diz J. Masiá, a mensagem do budismo pode ser resumida em duas palavras: pacificar-se e pacificar. Inspira-se numa dupla tradição de vida contemplativa/interiorização e de vida em harmonia com a natureza e com as pessoas. Outra palavra-chave é "sair" de si mesmo por duas vias - pela contemplação e pela práxis solidária. Sair para fora da espiral do engano e da violência; sair da roda do eu superficial atado às desfigurações da realidade; sair para onde aponta a metáfora oriental - "vazio" e "nada" (não confundir com o niilismo) - donde se vêem as pessoas e as coisas, para lá das aparências.
Buda, Jesus, Confúcio e Sócrates são as quatro grandes figuras de pacíficos e pacificadores. Os quatro convidam a sair de si para dentro e para fora. Para dentro, para a meditação; para fora, para a compaixão e a solidariedade. Os quatro convidam a parar e a escutar a voz que, no interior do coração, nos diz a verdade sobre nós próprios e sobre a vida. Os quatro convidam à prática. Antes de perguntar quem disparou a flecha ou quem é o ferido, apressa-te a curá-lo, antes que seja tarde, dizia Buda (2).

2-No momento em que escrevo, ainda não sei como será acolhida a visita, a Portugal, do Prémio Nobel da Paz, XIV Dalai Lama, o símbolo actual da sabedoria no empenhamento pacífico e pacificador do reconhecimento, no interior da China, da autonomia cultural, religiosa e administrativa do Tibete.
Segundo o programa, a segunda visita a Portugal será essencialmente dedicada à apresentação de alguns livros fundamentais do budismo, aconselhados e explicados por Dalai Lama, sobretudo na Faculdade de Medicina Dentária. Para além de outros contactos, é aguardada com expectativa a conferência pública, no Pavilhão Atlântico, na tarde deste domingo, subordinada ao tema O poder do bom coração.
Esta visita foi preparada com a publicação de várias obras de referência do budismo tibetano. Dado que os portugueses foram os primeiros ocidentais a chegar ao Tibete, a Revista Lusófona de Ciência das Religiões, dirigida por Paulo Mendes Pinto e Alfredo Teixeira, teve a feliz ideia de confiar a Paulo Borges (presidente da União Budista Portuguesa) a organização de um dossier dedicado ao estudo da presença do Buda e do budismo na cultura portuguesa. O resultado é notável.
O que me importa sublinhar é a sabedoria exemplar de Dalai Lama na luta pacífica pelo reconhecimento da autonomia do Tibete, embora ele esteja muito longe de conseguir a unanimidade dos tibetanos em torno das suas opções e do seu método. Até se pode dizer, não sem alguma razão, que a sua resistência não violenta acabou por servir os propósitos invasores e dominadores da China: os chineses já não precisam de se mostrar muito agressivos na ocupação do Tibete. O império chinês não tem falta de gente para substituir os tibetanos em todos os domínios.
Os séculos XX e XXI tiveram muitos revolucionários e libertadores. Alguns com aura de heróis, mas a invocação da violência dos oprimidos contra a violência dos opressores - uma fórmula que parece mais que legítima, em determinadas circunstâncias - não consegue saltar para fora do mundo da violência e do comércio das armas que corrompe e desgraça a humanidade dos oprimidos e dos opressores. Não gera uma nova humanidade. Não é uma alternativa.
M. Gandhi não teve muitos seguidores, mas Dalai Lama reencarnou, de forma notável, o seu caminho. Dir-se-á que a via da resistência activa na procura contínua do diálogo é demasiado lenta. E os recursos à violência têm sido rápidos na resolução de conflitos, na obtenção da paz?
O XIV Dalai Lama (Oceano de Sabedoria), que tem assumido a figura de dirigente político, de monge e de místico, só lhe interessa ser um monge e um místico budista ao serviço da compaixão universal (3).
(1) Deepak Chopra, A Paz É o Caminho, Lisboa, Sinais de Fogo, 2007.
(2) Juan Masiá, SJ, El otro Oriente. Más allá del diálogo, Sal Terrae, Santander, 2006.
(3) Mayank Chhaya, A Vida do Dalai Lama. O Homem. O Monge. O Místico. Biografia autorizada, Lisboa, Presença, 2007.

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agosto 17, 2007

Receitas para a Felicidade... sugiro.

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A leitura do Courrier Internacional, edição portuguesa, é sempre fonte de diversidade. Aconselho vivamente.

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agosto 16, 2007

Está morto o "Rei"? E. Presley...

Com a devida vénia ao texto - alerta mail do jornal Público de hoje, de autoria de Mário Lopes - que coloco em entrada estendida, nunca é demais relembrar E.Presley. Igualmente fica o registo musical com o seu famoso e escandaloso jogo de ancas...

Antes dele, não existia nada

Elvis Presley, o homem que, com um movimento de anca, abriu caminho para a libertação da sexualidade e para o fim da segregação racial. Elvis Presley, o provinciano que não soube conviver com o mundo que transformou. Morreu a 16 de Agosto de 1977, há precisamente 30 anos.


Em Graceland, Elvis Presley preparava-se para a digressão que iniciaria no dia seguinte. Passou a noite em claro, como tantas vezes acontecia por essa altura, resultado da dependência dos mais variados medicamentos e retirou-se para o seu quarto, às sete da manhã, para descansar antes do voo que, mais tarde o levaria a Portland. Não chegou a embarcar. Ao final da manhã, era encontrado morto. À tarde, a notícia corria o mundo: "Rei Elvis morto". 16 de Agosto de 1977, há precisamente 30 anos. Elvis had left the building. Permanentemente. Não ressurgiria noutro palco, noutro casino, noutro filme.
Causa da morte? Incerta. Só a saberemos em 2027, quando a sua autópsia passar a ser do domínio público. Culparam-se o excesso de medicamentos, culpou-se um coração fraco, uma vida sedentária e a desilusão com a artificialidade da sua existência naqueles últimos tempos. Charlie Feathers, companheiro dos primórdios do rock"n"roll, seria mais prosaico: "Elvis não morreu das drogas, morreu do pequeno-almoço". Na sua memória, as sandwiches de taxa calórica assassina que compunham a dieta do amigo, que não bebia álcool, que não se drogava com a heroína e a cocaína da praxe em estrela rock"n"roll.
Em 1977, engordado de forma grotesca, enfiado em fatos de um kitsch inenarrável, incapaz dos movimentos felinos de outrora ou de se lembrar das letras das suas canções, Presley continuava a ser um dos mais lucrativos artistas americanos. Os concertos, os curtos concertos que conseguia dar, esgotavam. O público, envelhecido como ele e, também como ele, distante da actualidade pop, acorria em massa para ver o mito. Elvis já não era humano. Era uma imagem, um ícone, uma certa ideia de América - que não era a nova América a que, inadvertidamente, tinha dado impulso decisivo nos anos 50. "Antes de Elvis, não existia nada", hiperbolizou John Lennon - mas estava certo. "Elvis morreu quando foi para o tropa", exagerou o mesmo Lennon - mas havia na afirmação um fundo de verdade.
De Tupelo à Elvislândia
Elvis Aaron Presley. Nascido em Tupelo, entre a pobreza da Grande Depressão, a 8 de Janeiro de 1935. O camionista que, com um movimento de ancas e uma música que reunia no mesmo corpo o country branco e o r&b negro, abriu caminho para a libertação da sexualidade e para o fim da segregação racial. Esse Elvis Presley detestado por conservadores adultos e idolatrado por adolescentes que não queriam e não podiam ser como os pais, foi destacado para o serviço militar em 1958, quatro anos depois de gravar o primeiro single, That"s All Right. A revolução estava lançada e Presley, provavelmente a figura mais importante da cultura popular americana do século XX, não soube como viver nela. Quando o coração parou a 16 de Agosto de 1977, Elvis já estava morto. O mito como grande herói americano, como entertainer supremo de excentricidade e voz imbatíveis, esse estava em construção há muito.
Tão cedo quanto 1956 o mercado foi invadido de produtos de merchandise - de águas-de-colónia a cães de peluche. Em 1971 já se faziam visitas guiadas à casa de Tupelo onde nasceu e, no ano seguinte, erguiam-se placas com a alteração toponímica da estrada fronteira à sua mansão: "Elvis Presley Boulevard".
Este presente em que Graceland é uma espécie de "Elvislândia" que recebe 600 mil visitantes por ano, em que milhares de pessoas vivem profissionalmente da imitação do "Rei", em que se vendem bustos "Elvis" robotizados que entoam as suas canções mais famosas (é só procurar no youtube) e em que até "edições especiais" da sua manteiga de amendoim preferida têm procura, ou seja, este Elvis caricatural que perdura na memória colectiva formara-se há muito. No meio de tudo isto, como descobrir este homem de quem falava Bob Dylan: "Quando ouvi pela primeira vez a voz de Elvis, soube que não iria trabalhar para ninguém e que ninguém iria ser o meu patrão"? Este a que Bruce Springsteen se referia desta forma: "Ele era tão grande quanto o próprio país, tão grande quanto o sonho completo. Nada tomará alguma vez o seu lugar"?
Em 30 de Setembro de 1955, James Dean morria ao volante de um Porsche. Juntamente com Marlon Brando, o "rebelde sem causa" mostrara pela primeira vez o retrato de uma juventude que não era apenas compasso de espera entre a inocência da infância e a seriedade do mundo adulto: abria-se um novo universo, convulsivo e irrequieto, rebeldia angustiada vivida como se não houvesse espaço para mais que o aqui e o agora. Poucos meses depois, a 20 de Novembro de 1955, Elvis Presley assinava contracto com a multinacional RCA. Já era então uma estrela no sul dos Estados Unidos, onde os singles gravados nos míticos Sun Studios - que albergavam ou albergariam Johnny Cash, Jerry Lee Lewis ou Roy Orbison - revelaram em primeira-mão alguém que, quando a RCA lhe assegura exposição nacional e internacional, amplificaria até ao grito ensurdecedor o revelado por James Dean. Elvis ficou-lhe com o corpo e tornou explícita a sexualidade implícita. Elvis não reteve a angústia, mas criou a música que, para horror do mundo adulto, a superou de forma incontrolável. "Como é que um freak como Elvis Presley pode encantar os nossos adolescentes é algo para além da minha compreensão", escrevia um colunista à época, citado num artigo publicado na revista Mojo de Maio de 2006. Obviamente que não percebia. A América que convivia confortavelmente com a segregação racial, com a prosperidade acrítica do pós-guerra, com a pureza virginal dos adolescentes, nunca poderia compreender aquele furacão que a transformaria profundamente.
O branco negro
Nascido em Tupelo mas criado em Memphis, Elvis Presley cresceu entre o blues e o gospel que fervilhavam na Beale Street, o centro da zona negra da cidade. Pela rádio, em casa, apaixonava-se pela country e pela voz de crooners como Dean Martin ou Perry Como. Tão desfavorecido financeiramente quanto os seus vizinhos negros, imune às fronteiras musicais de raça, a visão musical de Presley não incluía catalogações.
Sam Phillips, produtor e proprietário dos Sun Studios, procurava em Elvis um branco que tivesse a voz e o "feeling" de um negro. Conseguiu bem mais que isso.
Quando Elvis fez as suas primeiras gravações rock"n"roll já era expressão conhecida. Existia Bill Haley e o seu Rock Around The Clock, existiam Little Richard e Chuck Berry. O problema era que Bill Haley era demasiado velho e demasiado branco. O problema era que Berry e Richard eram demasiado negros. Elvis Presley transformaria tudo isso. Representou de forma magistral o microcosmos de uma América selvagem e desregrada que a América não queria ver e transformou não só a América, como o resto do mundo.
Estava tudo no ritmo insaciável de That"s All Right e na electricidade contagiante de Hound Dog. Estava tudo nessa inquietante Mistery Train e na sensualidade escaldante de Fever. Estava tudo na voz que passava do terno sussurro à provocação num par de acordes e naquele menear de ancas que levou a televisão americana a censurá-lo da cintura para baixo.
Em 1956, o single Heartbreak Hotel chegava a Inglaterra e, com ele, rumores de que, nos Estados Unidos, vários jovens se tinham suicidado ao som da música - eis o quão alienígena e perigosa parecia a sua música. Quando já era figura mundialmente conhecida, em 1962, o governo mexicano proibiu a exibição dos seus filmes após um motim durante a projecção de "GI Blues" - eis o quão "perigoso" era The King, mesmo depois da tropa.
A verdade, porém, é que Elvis Presley, o homem que deu voz e corpo a uma revolução cultural, o homem que não compreendia porque o atacavam os guardiães da moral e bons costumes - "a minha mãe gosta do que faço", ripostou uma vez; "o pessoal negro anda a fazer isto há anos e ninguém se escandaliza", defendeu-se outra -, nunca deixou de ser o miúdo do Mississipi que idolatrava o gospel, o country e o blues, o miúdo que desejava secretamente seguir os passos de Dean Martin e James Dean (excluindo a parte do Porsche). Não deixou de ser o provinciano que, exceptuando uma breve digressão canadiana, nunca actuou fora dos Estados Unidos em toda a sua carreira, e que se propôs a Nixon, em 1970, para servir o governo americano como agente atento aos perigos da "contracultura hippie" e dos Black Panthers.
As lantejoulas
Em meia década, Elvis Presley transformou o mundo. Passaria o resto da vida a não se reconhecer nele. Os Beatles e os Rolling Stones anunciavam uma nova ordem nos anos 60 e Presley abandonava os palcos para se dedicar em exclusivo a péssimos filmes série-B. O psicadelismo aparecia, a soul sofisticava-se, sucediam-se as mais diversas e arrojadas experiências artísticas e lá o encontrávamos no final dos anos 60 e em grande parte da década seguinte em Las Vegas, actuando para fãs acríticos e aburguesados.
Claro que há nuances. Claro que em 1968 viveu um breve renascimento, em esplendoroso cabedal rockabilly, no famoso 68 Comeback Special em que exibiu a chama de outrora - In The Ghetto e Suspicious Minds, os seus últimos clássicos absolutos, são resultado dele. Tal porém, foram fogachos num percurso de crescente excentricidade e decadência.
Colonel Tom Parker, na realidade Andreas Cornelis Van Kuijk, holandês e imigrante ilegal - eis a razão, sabe-se agora, para sempre se ter oposto a digressões internacionais de Elvis -, dirigiu-o como máquina de lucro fácil sem encontrar grande oposição. Presley, que alguns descrevem no final de vida como um homem amargurado e com tendências paranóicas à Howard Hughes, foi crescendo. Em lucros, em peso, em lantejoulas, em megalomania: durante a década de 70, a sua entrada em palco chegou a ser feita ao som de Assim Falou Zaratustra, de Richard Strauss. Se cantava My Way, não o fazia gloriosamente como Sinatra - havia um subtexto trágico naquele Elvis Presley a cantar aquela canção.
Quando, a 16 de Agosto de 1977, a noiva Ginger Alden o encontra, sem vida, no chão da casa de banho de Graceland, a lenda estava a um passo de se transformar em culto quase religioso: os imitadores, as peregrinações a Graceland, os duetos virtuais com Celine Dion aí estão para o mostrar bem vivo, trinta anos depois. O seu legado, de tão massivo, torna-se quase imperceptível. Está por todo o lado, em qualquer manifestação de música popular urbana tal como a conhecemos. Sabê-lo, hoje, agradaria certamente a Elvis Aaron Presley.
O supracitado artigo da Mojo refere que, meses antes de morrer, numa suite de hotel, escreveu a seguinte nota: I"m glad everyone is gone now/ I will probably not rest tonight/ I have no need for all of this/ Help me Lord.

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Mário Lopes ( In Público)

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julho 28, 2007

Oriente/Ocidente; O eixo do tempo... reflexão de A.Borges


O conforto semanal da reflexão de Anselmo Borges ...valerá a pena sair do facilitismo imediato da "notícia" que infelizmente fascina e se impõe no circo... sugiro que se vá mais em profundidade e se aproveite a "sageza" deste filósofo e teólogo. Santos da casa também podem fazer milagres... bom dia!

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julho 23, 2007

Temos de seguir cantando, "La Poesia es ..."

O que eu ouvi e cantei e emocionei e sonhei com esta canção de Paco Ibañez... arrumando hoje papeis poeirentos - aparentemente - que por aqui teimam em disputar lugar ao pó, surgiram-me do fundo de um longo tempo, letras supostamente paradas das canções do Paco. Para quem conheceu e sonhou e cantou, ocasião de sentir ainda aquela emoção de quereres ingenuamente comprometidos, para quem não estava ainda por cá ou não conhece, aqui fica ...

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julho 22, 2007

Super Star Jesus and women ...

Frei Bento Domingues que me permita esta associação entre a famosa canção nesta versão bem antiga e o seu texto. A "modernidade" feminina de Cristo ainda continua por realizar e, a Instituição Católica bem precisa de "sentir" este magnífico desabafo musical...I love him so...

(...) Jesus fez delas discípulas do Evangelho. Acabaram por demonstrar mais ousadia e responsabilidade do que os homens. Maria representa a mulher discípula, aquela que escuta a palavra e a segue. Marta ainda é o tipo de mulher reduzida à "cozinha". Esta revolução não durou muito, salvo em casos extraordinários. No geral, voltou-se ao tempo anterior a Jesus.

Mulheres fora da cozinha (http://jornal.publico.clix.pt/)

22.07.2007, Frei Bento Domingues O.P.


É a mudança de estatuto que a mulher consegue na comunidade de Jesus


1 As feministas cristãs queixam-se de que as cristologias, e até as obras mais rigorosas sobre o Jesus histórico, continuam a ser elaboradas como se as mulheres não existissem. Ora, se há um ponto no qual as narrativas evangélicas são inovadoras é, precisamente, pelo lugar que nelas é dado, por Jesus, à defesa das mulheres e pelo protagonismo que assumem nos momentos mais decisivos do seu itinerário.
Também a celebração da liturgia deste domingo é comandada por um texto sobre dois tipos de mulher. Não é a primeira vez que elas surgem no Evangelho de Lucas. Uma prostituta entra em cena loucamente apaixonada por Jesus e ficará, para sempre, como símbolo das pessoas que o amor puro transformou até à raiz (Lc 7, 36-50).
Logo a seguir, outras são apresentadas como mulheres libertas - curadas de espíritos malignos e doenças - que acompanhavam o Mestre com os doze apóstolos, por cidades e aldeias: Maria chamada Madalena, da qual haviam saído sete demónios, Joana, mulher de Cuza, o procurador de Herodes, Suzana e várias outras, que os serviam com os seus bens. Estas discípulas aparecem como financiadoras do projecto de Jesus (Lc 8, 2-3). De, facto, seguem-no até ao túmulo e foram elas as surpreendidas pela ressurreição de Cristo. Serão também elas a evangelizar os apóstolos que, entretanto, tinham desertado (Lc 23, 24).
Regressemos, porém, ao Evangelho deste domingo: "Naquele tempo, Jesus entrou em certa povoação e uma mulher chamada Marta recebeu-O em sua casa. Ela tinha uma irmã chamada Maria que, sentada aos pés de Jesus, ouvia a sue palavra. Entretanto, Marta atarefava-se com muito serviço. Interveio então e disse: "Senhor, não Te importas que minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe que venha ajudar-me." O Senhor respondeu-lhe: "Marta, Marta, andas inquieta e preocupada com muitas coisas, quando uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada."" (Lc 10, 38-42).

2
Nunca somos neutros na leitura de um texto. Há, certamente, limites para a sua interpretação, mas esta parte sempre de alguns pressupostos conscientes ou inconscientes. As narrativas evangélicas não escapam a essa condição. Além disso, carregam dois mil anos de leituras. Esta passagem já teve vários usos nas Igrejas cristãs. Serviu, de modo especial, no âmbito dos carismas da vida religiosa, pare exaltar o primado da "vida contemplativa", de mulheres e homens, sobre a "vida activa".
A investigação da verdade e a contemplação da beleza eram sempre mais valorizadas do que as actividades exteriores, consideradas menos nobres, entregues ao que é passageiro em contraposição ao que é eterno.
Se este esquema respondia bem ao primado absoluto de Deus, tornava-se incapaz de interpretar a própria vida de Cristo. Tomás de Aquino, na sua cristologia, pergunta se não seria mais conveniente que Jesus se tivesse dedicado à vida solitária, à vida monacal, do que à intervenção na sociedade. A sua resposta não é simplista. Começa por reconhecer que a vida contemplativa em si mesma, não tendo em conta qualquer outra consideração, é melhor do que a vida activa que se ocupa de actividades corporais. No entanto, a vida activa, segundo a qual alguém, pregando e ensinando, dá aos outros a realidade contemplada, é mais perfeita do que a vida que só contempla, dado que tal género de vida só pode brotar de abundante contemplação. E foi essa que Cristo escolheu para si. É melhor iluminar do que ser apenas um iluminado (ST III q. 40, a.1, ad 2).

3A distinção entre vida activa e contemplativa não deve, no entanto, ser desvalorizada, embora a vida activa possa ser fonte de contemplação. Bem-aventurados os que atingem um estado contemplativo no meio da agitação! A necessidade de cortar com o quotidiano, não só para o ócio e para o desporto, mas também para meditar e saber hierarquizar o que é importante e o que é secundário, é cada vez mais sentida. Quem não compreende isto arranja programas de fim-de-semana e de férias para aumentar o barulho.
Há, no entanto, uma outra leitura para o estranho diálogo de Jesus com Marta a propósito da insensibilidade de Maria para o serviço da casa. Marta tem de fazer tudo e Maria está sentada na conversa e, ainda por cima, é elogiada.
Em geral, não se repara no seguinte: o que está em causa é uma revolução. É a mudança de estatuto que a mulher consegue na comunidade de Jesus. Ele cresceu numa sociedade na qual as mulheres só contavam para dar filhos e trabalhar. Eram uma propriedade do marido, que as podiam repudiar por qualquer motivo e elas não podia pedir o divórcio. Não havia rabinas nem escribas ou doutoras da Lei. No Templo e na sinagoga, estavam à parte.
Jesus fez delas discípulas do Evangelho. Acabaram por demonstrar mais ousadia e responsabilidade do que os homens. Maria representa a mulher discípula, aquela que escuta a palavra e a segue. Marta ainda é o tipo de mulher reduzida à "cozinha". Esta revolução não durou muito, salvo em casos extraordinários. No geral, voltou-se ao tempo anterior a Jesus.

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julho 21, 2007

Ser é Ser em relação ...sugiro.

…A arte de viver bem e ser feliz deriva de e implica relações vivas e sãs com a realidade toda, a começar pelos mais próximos - dados recentes mostram que é essencial para a felicidade a vinculação à família e aos amigos.

Porque hoje é sábado e digo-o como dia aberto à relação, meditando nas reflexões enriquecedoras de A.Borges

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julho 20, 2007

O Beijo, essa maravilha ...

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julho 14, 2007

Nesta acalmia da tarde, conjugo o verbo transcender... com...

...a devida vénia à sempre estimulante crónica de Anselmo Borges no Diário de Notícias.
Pensar é ultrapassar, transcender.

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julho 11, 2007

Are you Mr. Harry Potter?

Ciência e Magia ou ciência da magia ou magia da ciência
Página oficial

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julho 02, 2007

A Esfinge esse ser obsessivo...

… Em reflexão, uma vez mais, com as sábias palavras de A.Borges..."

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junho 23, 2007

O Homem, esse desconhecido... sugiro.

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Então, o enigma é este: provimos da natureza, mas contrapomo-nos a ela, somos simultaneamente da natureza, na natureza e fora dela."

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junho 21, 2007

Nazima Ghulam Nabi... a lágrima.

Nazima.jpg
A lágrima
Nazima, filha de Ghulam Nabi, um cidadão da Caxemira indiana morto no rebentamento de uma granada, chora deitada numa cama do hospital de Srinagar. Foto: Danish Ismail/Reuters

Cama hospital granada pai cidadão Caxemira
Filha dolente em lágrima deitada chora chora
Porquê num hospital deitada
Um rebentamento mata Ghulam Nabi cidadão
Caxemira
Deixando uma filha deitada em cama com lágrima
Vista do lado esquerdo
A cara branca de Nazima filha de Nabi
Uma cama hospital deitada em lágrima
Em almofada verde branco com sinal de azul do lenço
A face explode o sofrimento de
Nazima
Filha de Ghullam Nabi
Nazima tem um brinco na orelha
Como prolongamento da lágrima
Olha o vago o céu o som da granada
Que matou pai Nabi
Quem pode agora dar amor
De pai rebentado por granada em Caxemira
Nazima filha pai lágrima brinco face branca
O cabelo afeiçoa-lhe a dor em negro
Nazima Ghulam Nabi com lágrima

(foto recolhida in jornal "O Público", de 21 de Junho de 2007)

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junho 02, 2007

"O olho com que Deus me vê é o olho com que eu o vejo...

o meu olho e o seu são uma coisa só. Se Deus não existisse, eu não existiria; se eu não existisse, ele não existiria."

(Em tempos agitados de revolta e de injustiça, agradeço a reflexão de Anselmo Borges)

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maio 31, 2007

Absolutamente fabuloso ...

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Interpretar, transformar...

"Não tenho feito mais do que interpretações. Importará doravante, transformar-me"

(Anónimo, ao encontrar um rabisco num papel algures, de um tal mais ou menos ilegível, qualquer coisa de «Marx»

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março 25, 2007

Sou filósofo, logo "humano"...

... principalmente para quem esteja alheado desta "coisa" esquisita, de loucos, ou poetas, ou místicos, ou metafísicos... sugiro esta pequena "pedagogia" de A. Borges... tire cinco minutos ao seu não fazer nenhum dominical e conceda-se a ascensão àquilo que poderá ser o "humano" em si ... não aconselhável à Sraº Ministra da Educação - muito menos ao seu inefável Valter Lemos - quiçá também com vislumbres de "proibição" ao nosso não sei se engenheiro, primeiro ministro, e, também, a esse ser silenciosamente prudente, que habita ao pé dos pasteis de Belém. O Anselmo Borges que perdoe este meu paleio ... vamos lá à sua reflexão... um espanto! ....

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março 18, 2007

... "po(i)", com o sentido de proteger, defender ...

(...) O pai humano é criador - com-criador, juntamente com a mãe (o óvulo feminino só foi descoberto em 1827) - de um ser livre. E isto é misterioso. (...)

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março 01, 2007

Do extraordinário em mim ...matemática ...

« L'essence des mathématiques, c'est la liberté. »
Georg Cantor

(in wikipédia, version francesa)

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fevereiro 13, 2007

A "inspiração" de um filósofo ...

“Caramba!”

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janeiro 28, 2007

Porque raio eu existo? ... IVG em reflexão sg/A. Borges.

Uma vez, uma aluna levantou, num "trabalho", esta pergunta: "Onde estão todos aqueles que poderiam ter sido e não são?" Talvez uma daquelas perguntas inúteis, aparentemente preguiçosas, mas que não deixam de obrigar a pensar.

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janeiro 15, 2007

Ainda acerca da (in)utilidade da Filosofia ...

... ainda na continuação da entrada anterior, não resisti a colocar também, a música de Niel Young...ouçam-na e descubram as palavras...se necessário fôr...

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janeiro 14, 2007

Da "pena" da morte... sugiro.

Acompanhemos a sempre pedagógica reflexão de A.Borges no Diário de noticias e hoje

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janeiro 01, 2007

Do Tempo...

vouet.jpg

No Museu do Prado, em Madrid, há um pequeno quadro da autoria de Simon Vouet, representando O Tempo vencido pela Esperança e pela Beleza, aonde volto sempre. A Beleza agarra o Tempo pelos cabelos. A Esperança ameaça-o e detém-no com uma âncora.

(A. Borges:In Dn de 31 de Dezembro de 2006)

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novembro 29, 2006

Um big brother de esquerda? ... sugiro.

Interessante o artigo de Rui Ramos, no Público de hoje. A ler em entrada estendida.

O Estado moderador
Rui Ramos

Nada há que causa tanto horror a este Governo ou aos seus porta-vozes oficiais e oficiosos como a acusação de "economicismo". Daí o afã com que embrulham todos os cortes de prestações e serviços públicos no papel de fantasia da guerra contra o "desperdício", o "abuso", o "corporativismo" ou outros maus hábitos. Tal como os conservadores fizeram na década de 90, a esquerda moderna procura dar uma dimensão moralista à sua política. Notou-se isso no caso das taxas moderadoras do Serviço Nacional de Saúde. Uma ideia iníqua no tempo de Durão Barroso, tornou-se muito boa com José Sócrates. E tornou-se muito boa, conforme explicou o ministro Correia de Campos, porque o objectivo deixou de ser o de aumentar receitas, para passar a ser pedagógico: tratar-se-ia de iluminar os cidadãos, de os levar a "valorizar" o serviço, fazendo-os mais "exigentes" e "responsáveis".
Aqueles a quem incomoda esta catequese através das taxas deviam olhar para o que se passa nesse laboratório da esquerda moderna que é a Inglaterra de Tony Blair. Na semana passada, Blair pôs os seus funcionários e conselheiros a trabalhar na ideia de "um novo contrato entre o Estado e os cidadãos, estabelecendo o que os indivíduos devem fazer em troca da prestação de serviços de qualidade pelos hospitais, escolas e polícia". Em vez de um "contrato unilateral", baseado na simples prestação de serviços pelo Estado ao cidadão, Blair quer um contrato bilateral, assente em "objectivos explícitos e mutuamente acordados" entre o Estado e o cidadão. O Estado e o utente ou beneficiário tornar-se-iam parceiros num projecto comum, com o objectivo de alterar positivamente os comportamentos dos indivíduos. Por exemplo, uma determinada intervenção cirúrgica dependeria de o paciente se comprometer a mudar os seus hábitos, fazendo dieta ou deixando de fumar. Eis o futuro do sistema moderador: em vez da taxa monetária, o contrato de correcção pessoal.
As reacções foram as mais variadas. Houve quem achasse muito bem o Estado deixar de pagar as consequências de vidas afectadas por vícios e maus hábitos. Houve também quem exigisse que, contra o direito do Estado de racionar os serviços públicos em função do bom comportamento, se reconhecesse o direito dos cidadãos de não pagarem impostos quando se sentissem mal servidos. De facto, por detrás desta ideia está o desespero da esquerda moderna. Nos últimos anos, Blair dispôs de condições que mais nenhum governo da Europa teve para despejar dinheiro nos serviços públicos. Expandiram-se as instalações, aumentou o pessoal, e também as suas remunerações. No fim, houve que reconhecer que nada foi suficiente. Por exemplo, as probabilidades de um cancro da próstata ser fatal são 19 por cento nos EUA e 57 por cento na Inglaterra (segundo James Bartholomew em The Welfare State We"re In). Ao mesmo tempo, as sondagens começaram a revelar que a disponibilidade dos ingleses para pagarem mais impostos diminuiu. Basicamente, a esquerda moderna inglesa esbarrou nos limites do Estado social: uma oferta limitada e nem sempre eficiente, perante uma procura ilimitada e sempre exigente.
Blair anda a reflectir no problema há bastante tempo. Num discurso de 2002, explicou que o Estado social inglês foi concebido para garantir um "mínimo" de bem-estar a uma população que jamais esperara muito dos serviços públicos. Nas décadas seguintes, porém, o modelo foi confrontado com um novo tipo de gente, que passou a exigir cada vez mais dos serviços públicos, à sombra dos quais descurou prudência e esforço pessoal. Blair não quer renunciar ao Estado social. Pelo contrário. Mas para viabilizar o modelo, concluiu que "a relação entre o Estado e os cidadãos não pode consistir simplesmente em o Estado dar e os cidadãos receberem. Tem de incluir direitos e deveres". Mas neste modelo, os deveres dos cidadãos traduzem-se fatalmente em direitos do Estado a exigir este ou aquele comportamento aos indivíduos.
Em 1859, na introdução a On Liberty, J.S. Mill sugeriu que o Estado só tinha o direito de reprimir aquelas acções dos indivíduos que afectassem terceiros: "Sobre a sua própria pessoa, o seu próprio corpo e espírito, o indivíduo é soberano." Hoje, porém, com o Estado social, todas as acções individuais acabam por afectar terceiros, na medida em que possam redundar num encargo para os serviços públicos. E nessa medida, a tentativa de viabilizar o Estado social abre a porta para um novo paternalismo agressivo do poder público. Para prevenir prejuízos, o Estado pode reclamar o direito de controlo ou repressão sobre os comportamentos de risco, a nível da dieta ou da sexualidade. A escolha é óbvia: ou nós moderamos o Estado social ou o Estado social nos modera a nós. Historiador


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novembro 26, 2006

O melhor ou o pior dos mundos? ... sugiro.

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H. Bosch
Devemos ser optimistas ou pessimistas? O mundo tal como se nos apresenta exige o optimismo ou a única atitude razoável é o pessimismo? O optimismo celebra o óptimo, que é o superlativo absoluto simples de bom. O pessimismo deixa-se derrotar pelo péssimo, que é o superlativo absoluto simples de mau.

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novembro 19, 2006

No cemitério nem vivalma ... nada.

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Mas então o que há nos cemitérios, para que a sua profanação seja, em todas as culturas, um crime hediondo? Há a memória. Mas o que sobretudo há é o que nos faz homens: um in-finito ponto de interrogação, que vem ao nosso encontro como pergunta in-finita: o que é ser Homem?; porque é que há algo e não nada? A morte coloca-nos perante o abismo do nada. E o que é que se diz sobre o nada?

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outubro 16, 2006

Eu professor, em consciência minha, estarei em greve!

Já muito se falou e o que não se falou, ou quem não falou por falta de informação, ou por desinteresse, ou...ou... que se informe, pois a informação está por aí...

Eu, consciente da minha dignidade, e fortemente tocado pela a ausência de pedagogia, diálogo e sei lá mais o quê, decido, pela minha consciência - e não por imposição externa - fazer greve ... eu professor, profissional, do 10º escalão, afectado na minha dignidade humana e profissional. Deixo para meditação dos mais exigentes ou audazes, ou... uma das fórmulas do imperativo categórico segundo E. Kant.

"Age de tal modo que possas usar a humanidade, tanto em tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre como um fim ao mesmo tempo e nunca apenas como um meio."

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setembro 12, 2006

Do Nada, os ossos, o ser, a carne e porventura a alma... sugiro

Como do Nada o Ser surge

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julho 21, 2006

Macacos que dançam?... sugiro

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julho 10, 2006

... inter faeces et urinam nascimur...

Onde estou eu?

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abril 28, 2006

Zen "Who's on first"...

"Vou fazer uma pergunta", disse o rei Milinda ao Venerável Nagasena. "Podes responder-me?"
Nagasena disse, "Faça o favor de perguntar."
O rei disse, "Já perguntei."
Nagasena disse, "Eu já respondi."
O rei disse, "O que respondeste?"
Nagasena disse, "O que perguntou?"
O rei disse, "Eu não perguntei nada."
Nagasena disse, "Eu não respondi nada."

(Pequeno guia do Zen - edições 70)

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novembro 25, 2005

Eu tive a honra de ter este Homem como professor.

...feitas as contas, no meu percurso "algumas" pessoas deixaram marca...O Padre Manuel Antunes foi uma delas...

Edgar Morin no congresso evocativo do padre Manuel Antunes
António Marujo


Homenagem a um dos maiores pensadores portugueses
do século XX

O filósofo Edgar Morin é um dos nomes mais importantes que estará em Portugal para participar no congresso internacional Padre Manuel Antunes - Interfaces da Cultura Portuguesa e Europeia, a realizar entre 15 e 17 de Dezembro. A iniciativa, que decorrerá na Fundação Gulbenkian, na Faculdade de Letras e na Sertã, terra natal de Manuel Antunes, pretende evocar a vida e a obra de um dos mais importantes pensadores portugueses do século XX.
Manuel Antunes, que leccionou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FL/UL) entre 1957 e 1983, foi, além de padre jesuíta, um ensaísta e pedagogo que marcou gerações sucessivas de estudantes, num total de cerca de 15 mil alunos (ver caixa).
A par do congresso, os organizadores - entre os quais se contam académicos, estudiosos da obra do padre jesuíta e alguns seus conterrâneos -- irão empreender a publicação da obra completa deste pensador. Serão doze volumes, repartidos por áreas temáticas: filosofia da cultura, educação e sociedade, política, cultura clássica, história da cultura, estética e cultura literária, teologia e espiritualidade.
A edição, que ficará concluída em 2007, incluirá ainda uma biografia ilustrada e um volume de correspondência praticamente todo inédito. Neste, avultam as cartas que Manuel Antunes trocou com personalidades como Jorge de Sena, António Sérgio e Sophia de Mello Breyner.
Os temas dos volumes a publicar reflectem a vastidão e densidade do pensamento de Manuel Antunes. Arnaldo Espírito Santo, professor da FL, recordava ontem, em conferência de imprensa de apresentação do congresso, algumas das áreas abarcadas pela obra do jesuíta: política, estética, crítica literária, religião e espiritualidade, ciência e ética, educação e pedagogia.
No "lugar quase mítico" que é o Anfiteatro 1, da Faculdade de Letras, decorrerão os trabalhos da tarde do primeiro dia do congresso. Era nessa sala que "mais de 400 alunos se apinhavam para ouvir as lições de Cultura Clássica" do padre , recordou Espírito Santo.
Entre os estrangeiros que participam nos trabalhos, incluem-se também os historiadores José António Ferrer Benimelli, espanhol e um dos mais importantes investigadores da história da Maçonaria (também padre jesuíta), Guy Coq, redactor da revista Esprit, e Philippe Boutry, especialista em Antropologia Religiosa e em história do século XIX.
O primeiro volume da obra completa de Manuel Antunes será apresentado a 12 de Dezembro pelo reitor da UL, José Barata Moura, na Gulbenkian. Na próxima terça-feira, no Colégio S. João de Brito, será apresentada a reedição do livro Repensar Portugal, de 1979, que marcou a reflexão política de Portugal no pós-25 de Abril de 1974.

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novembro 12, 2005

Acontecer e agir...

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...morrer é algo que acontece...deixar morrer é algo que se faz...
(In Filosofia 10, c.amorim, m.chorão, m.moreira, areal ed.)

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outubro 25, 2005

Crise das Humanidades e da...Humanidade...sugiro

(...)No meio de tudo isto, está a crise das Humanidades, que tem também outras causas. Não tratarei de aprofundar explicações que, evidentemente, transcendem o doméstico universo português. Por exemplo: a deslegitimação progressiva da palavra escrita (e lida), em benefício de discursos dominados pela imagem, a gradual perda de poder simbólico de saberes com tradição na cultura ocidental (a Filosofia, a Literatura, a História), a hegemonização televisiva e a brutal tabloidização de uma vida pública reduzida à indigência, a afirmação de ciências sociais que às vezes correm à margem daqueles saberes, a integração académica de formações antes entendidas como profissões com auto-aprendizagens "práticas" (o jornalismo, por exemplo), o crescente prestígio de áreas e de carreiras que correspondem a solicitações novas e socialmente prementes (a psicologia, a informática, a publicidade, o marketing, a gestão), a confiança acrítica no carácter "redentor" de certas ciências (como as ciências da educação), tudo por junto levou a uma redistribuição de poderes e de espaços de actuação, obrigando a repensar o lugar, a função e os modelos de formação por que se regem as Humanidades. Exactamente: essas que se cultivavam e cultivam ainda nas chamadas Faculdades de Letras.

A crise das Humanidades
Carlos Reis

In público de 25/10/5

(...)Passa por aqui a crise das Humanidades. Em boa parte ela provém de uma deriva social e cultural terceiro-mundista, que é matriz de muito do que fica dito, deriva que tem sido possível também pela forma como, por inépcia ou preguiça, com ela têm pactuado os poderes constituídos e os seus "sindicatos de influência". Não é civilizado nem culto um país (e um povo) que não estuda nem investiga o grego e a filosofia antiga, a poesia renascentista e a arte maneirista, os poetas oitocentistas e a literatura latina, os livros de viagens e a história da língua, a literatura comparada e a crítica textual, as epopeias e os textos historiográficos. E não é responsável nem adulto um poder político que, tolhido pela gestão do défice e dos fundos comunitários, ignora o que de mais denso e estruturante existe na nossa memória colectiva, objecto de atenção de muitas daquelas disciplinas.

Professor da Universidade de Coimbra

Publicado por morfeu às 07:33 AM | Comentários (3)

setembro 26, 2005

Pensar, discutir...

«Todos tendemos a pensar do seguinte modo:
o que é idêntico à minha opinião, eu aprovo;
o que não é idêntico à minha opinião, eu desaprovo;
uma opinião idêntica à minha: considero-a verdadeira;
uma opinião diferente da minha: considero-a falsa.»

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«Supõe que tu e eu discutimos.
Se tu ganhares e eu perder,
terás tu realmente razão,
e eu não?
E se eu ganhar e tu perderes,
terei eu razão, e tu não?
Teremos ambos, em parte, razão,
Ou estaremos, ambos, completamente errados?

Se tu e eu não podemos alcançar a verdade,
não será ela mais difícil de alcançar
Por outras pessoas?»

Chuang Dzi, (séc. IV a.C)
(…lido em “705” azul, Filosofia 10º ano, texto editora)

Publicado por morfeu às 06:05 PM | Comentários (2)

agosto 23, 2005

Tranquilidade, Amor, Sabedoria...sugiro

...porque numa ausência de alguns dias, aqui deixo a minha sugestão...

Tranquilidade, Amor, Sabedoria

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maio 20, 2005

Quem somos nós?

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Avanço da clonagem terapêutica

Um embrião humano clonado, com três dias, criado no Centro para a Vida, em Newcastle, Inglaterra, pelos cientistas Miodrag Stojkovic e Alison Murdoch. Este é o primeiro embrião humano clonado no Ocidente, revelado no mesmo dia em que uma equipa de investigação da Coreia do Sul anunciou ter clonado 11 pacientes para criar outras tantas culturas de células estaminais embrionárias à sua medida. Foto: EPA/RBM Online (noticia in público online de 20/5/05)

Publicado por morfeu às 04:11 PM

abril 15, 2005

Que Filósofos?...sugiro

Que filósofos

..."Um regime revolucionário deve desembaraçar-se de um certo número de indivíduos que o ameaçam e, para este caso, não vejo outro meio a não ser a morte; é sempre possível sair de uma prisão", escreveu em 1972, tinha 67 anos..."(...)

Publicado por morfeu às 02:35 PM

janeiro 04, 2005

Escolha e destino....sugiro

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Escolha e destino

Eduardo Prado Coelho
Deverei ler este livro? Deverei escrever sobre este livro? O livro de que falo é "A Coragem de Escolher" e o seu autor Fernando Savater. Depois deste, já tivemos a publicação de "Mandamentos para o Século XXI", que de certo modo prolonga, segundo a agenda dos mandamentos, a parte "prática" do livro anterior: escolher a verdade, o prazer, a política, a educação cívica, a humanidade, o contingente. O modelo é o do ensaísmo filosófico, sensível ao prazer da forma, coloquial, ameno, mas ao mesmo tempo com um fundo bibliográfico que passa basicamente por duas vertentes. Por um lado, a cultura humanística: Aristóteles em lugar de honra, Hannah Arendt. Por outro lado, a filosofia anglo-saxónica ou analítica: Jon Elster, Hayek, MacIntyre, Searle, Alan White, etc. E há também Serres ou Nancy, Habermas ou Odo Marquard. E uma inevitável reflexão antropológica, na qual Edgar Morin ou Arnold Gehlen têm papel de relevo.

Publicado por morfeu às 10:32 PM | Comentários (1)

dezembro 02, 2004

Apresentar razões...

O nosso desprezo da argumentação é, a meu ver, um dos aspectos mais inquietantes do nosso quotidiano.
Damos uma opinião e dizem-nos logo: - Isso é muito discutível.
Apresentamos as nossas razões, mas não as discutem, limitando-se a responder: - Como é que pode estar de acordo com fulano, que está ao serviço de beltrano, que mudou de casaca, etc.
Os mais belicosos rugem: - Isso é o que você diz.

Aceitamos, então, que o que dizemos é, de facto, dito por nós e não pelo Espírito Santo, mas que, mesmo assim, desejaríamos que refutassem serenamente as nossas ideias e calmamente as discutissem. Respondem-nos: - Você tem a sua ideia e eu tenho a minha.
Admitimos de bom grado tal disparidade e tentamos aproveitar a ocasião para apresentar motivos compreensíveis que sustentem uma e outra ideia, para que possamos escolher a mais bem fundamentada. O outro indigna-se. É que ele não é dos que estão dispostos a alterar o que pensam por causa de algo trivial como duas ou três razões. Ele é como é e pensa como pensa e sempre foi assim (…) costuma concluir triunfante: - Eu tenho tanto direito como você a pensar como quiser.
E nem vale a pena dizer-lhe que, em questão de opiniões, o que importa não é o óbvio e indiscutível direito de as manter; antes, os poço óbvios e muito discutíveos argumentos que sustentam a sua manutenção.

Fernando Savater, “Apresentar razões”, in El País Semanal de 4-7-99
(selecção proposta por: manual de filosofia 11ª ano ed.Asa)

Publicado por morfeu às 06:53 PM | Comentários (3)

outubro 16, 2004

... e tu só queres agarrar o vento...

qohelet.jpg

http://www.sonhosdelismidis.hpg.ig.com.br/Internacionais/internac-letra-Z/zamfir_you_light_up_my_life.midHá um tempo para tudo e um tempo para todo o propósito debaixo do céu.

Tempo de nascer e tempo de morrer
Tempo de plantar e tempo de arrancar a planta
Tempo de matar e tempo de curar
Tempo de construir e tempo de destruir
Tempo de chorar e tempo de rir
Tempo de gemer e tempo de bailar
Tempo de atirar pedras e tempo de recolher pedras
Tempo de abraçar e tempo de separar
Tempo de buscar e tempo de perder
Tempo de guardar e tempo de jogar fora
Tempo de rasgar e tempo de costurar
Tempo de calar e tempo de falar
Tempo de amar e tempo de odiar
Tempo de guerra e tempo de paz

(Qohelet, 3, 1-8)

Publicado por morfeu às 12:59 AM | Comentários (3)

outubro 04, 2004

Texto excelente quanto discutível...sugiro

...Pode-se comparar a existência de um indivíduo a um rio - pequeno a princípio, estreitamente encerrado entre duas margens, arremetendo, com entusiasmo, primeiro os seixos e depois as cataratas. A pouco e pouco, o rio alarga-se, as suas margens afastam-se, a água corre mais calmamente e, por fim, sem nenhuma mudança brusca, desagua no oceano e perde sem sofrimento a sua existência individual...

B.Russel

Publicado por morfeu às 06:46 PM

Aprender a conversar, subscrevo e sugiro...

Aprender a conversar

Publicado por morfeu às 06:32 PM | Comentários (1)

setembro 30, 2004

Gostei deste texto...

O Interior da Alma

Publicado por morfeu às 11:11 AM

setembro 27, 2004

Gostei deste texto...

Por isso, precisamente, porque de nada serve

Por isso, precisamente, porque de nada serve.

Um pedante, que viu Sólon a chorar a morte de um filho, disse-lhe: "Para que é que choras assim, se isso nada te serve?" E o velho sábio respondeu-lhe: "Por isso, precisamente, porque de nada serve".(...)
Estou convencido de que resolveríamos muitas coisas se, saindo todos para a rua, e pondo a manifesto as nossas mágoas, talvez elas resultassem numa só dor comum, pondo-nos então todos a chorá-la em conjunto e a dar gritos ao céu e a clamar por Deus. Mesmo que não nos visse, ouvir-nos-ia.(...)
Um Miserere, cantado em comum por uma multidão, maltratada pelo destino, vale tanto como uma filosofia. Não basta curar a peste, há que a saber chorar. Sim, tem que se saber chorar! E, talvez seja esta a sabedoria suprema. Para quê? Perguntai a Sólon.


Miguel de Unamuno, Do Sentimento Trágico da Vida

Publicado por morfeu às 02:33 PM | Comentários (2)

setembro 26, 2004

Filosofia simples e directa...

Sócrates e o triplo filtro...

(recebido por e-mail)

HOJE ACORDEI FILOSOFO>
>
>
> Na Grécia Antiga, Sócrates detinha uma alta reputação e era muito
> estimado
> pelo seu elevado conhecimento. Um dia, um conhecido do grande filósofo
> aproximou-se dele e disse:
>
> "Sócrates, sabes o que eu acabei de ouvir acerca de um amigo teu?"
>
> "Espera um minuto", respondeu Sócrates, "Antes que me digas alguma
> coisa,
> gostaria de te fazer um teste. Chama-se o "Teste do Filtro Triplo."
>
> "Filtro Triplo?"
> "Sim", continuou Sócrates, "Antes que me fales do meu amigo talvez
> fosse
> uma boa ideia parar um momento e filtrar aquilo que vais dizer. Por isso
> é
> que eu lhe chamei o Filtro Triplo." E continuou:
> "O primeiro filtro é VERDADE.
> Tens a certeza absoluta de que aquilo que me vais dizer é perfeitamente
> verdadeiro?"
>
> "Não,", disse o homem "o que acontece é que eu ouvi dizer que..."
>
> "Então,", diz Sócrates," não sabes se é verdade. Passemos ao segundo
> filtro,
> que é BONDADE. O que me vais dizer sobre o meu amigo é bom?"
>
> "Não, muito pelo contrário..."
>
> "Então,", continuou Sócrates "Queres dizer-me algo mau sobre ele e
> ainda
> por cima nem sabes se é ou não verdadeiro. Mas, bem, pode ser que ainda
> passes o terceiro filtro. O último filtro é UTILIDADE. O que me vais
> dizer
> sobre o meu amigo será útil para mim?"
>
> "Não, acho que não..."
>
> "Bem," concluiu Sócrates, se o que me dirás não é nem bom, nem útil e
> muito
> menos sabes se é verdadeiro, para quê dizeres-me?"
>

Publicado por morfeu às 09:57 PM | Comentários (1)

junho 02, 2004

Fogo Grego


Fotografia da capa de: Jorge Barros

Na importante cidade de Mileto, na Grécia oriental (que agora é a costa sudoeste da Turquia), viveu no século VI a.C. um grupo de pensadores que se preocupavam em saber se a Terra era estável e porque razão e também com a natureza dos corpos celestes e os seus movimentos. (.)
«Será que podemos compreender se existe uma base racional para a maneira como o mundo funciona?»
(.) Os Milésios não voltaram a utilizar os deuses ou os mitos como explicação. O trovão não era a cólera de Zeus, por exemplo, mas podia ser o vento soprando do interior de uma nuvem. Começaram assim a desenvolver a noção de Physis . natureza - , partindo da premissa de que o mundo possui uma substância ou construção que pode ser aberta à investigação racional.
(.) O poder da demonstração forneceu a estes filósofos-cientistas de Mileto uma confiança que os levou à pretensão de que existe uma qualquer «substância» que é o fundamento do mundo e de tudo o que está nele e a partir da qual, além disso, tudo foi originado. Tales dizia que tudo deriva da água e que aterra assenta na água. Anaxímenes sustentava que o ar rodeia, contém e constitui o mundo. Anaximandro era mais complexo; a substância era «o infinito» ou «o ilimitado», um princípio fundamental que gera propriedades como o quente e o frio, mas que não pode ser localizado materialmente como a água ou o ar.
(.) Em certos aspectos, a mais moderna atitude destes filósofos era a de que eles não temiam avançar teorias que eram contra-intuitivas, que iam contra o senso comum. O grande físico Niels Bohr disse certa vez a um colega: «A sua teoria é sem dúvida louca; a questão é saber se ela é suficientemente louca.

Lido em: .Fogo Grego., Oliver Taplin . Gradiva /RTC (adaptação)

Publicado por morfeu às 09:37 PM | Comentários (1)

junho 01, 2004

ARQUÉ....

In: História do Pensamento, Nova Cultural - pág.24

Publicado por morfeu às 01:54 PM | Comentários (4)

maio 31, 2004

ΓΝΩΘΙ ΣΕΑΎΤΟΝ...

ΓΝΩΘΙ ΣΕΑΎΤΟΝ
Conhece-te a ti mesmo

Os eruditos concordam que, na Grécia primitiva, isto significava «Sabe que és mortal, sabe que não és um Deus», mas o seu significado tem vindo a alterar-se. No século V a.C., Sócrates era considerado, pelo oráculo, o homem mais sensato do mundo: ele teria interpretado provavelmente aquelas palavras como estando próximas da sua máxima «A vida não examinada não merece ser vivida». Friederich Nietzsche, o perturbante percursor das inquietações do século XX, disse: «No início das nossas buscas, o que o oráculo proclama é .Conhece-te a Ti Próprio.. É uma frase difícil, pois .o senhor de Delfos não esclarece nem esconde, oferece signos., como disse Heraclito.»Para Nietzsche, os símbolos apontavam para a libertação do eu.
Na época de Freud, a frase significava em primeiro lugar a procura introspectiva do eu real, a busca das nossas motivações profundas.
No final do século XX, na era «pós-moderna», a frase passou a significar também «sabe de onde vens, uma vez que o passado não pode ser destruído e deve ser conhecido». Tal como Freud disse que a infância deve ser estudada para compreender o adulto, assim devemos nós olhar para a «infância da humanidade», como Marx chamou à Grécia, ao tentar clarificar o presente. Assim, a antiga mensagem grega . a sua matriz original foi quebrada à muito . tem tido diferentes significados em diferentes épocas; e muitas interpretações têm sido «correctas» para diferentes tempos e lugares. É monumental e eterna, ainda que fragmentada e aberta a novas leituras.

Lido em: .Fogo Grego., Oliver Taplin . Gradiva /RTC

Publicado por morfeu às 10:15 PM | Comentários (2)

maio 03, 2004

Amor...

Definição: O amor (do latim amor) é um impulso físico, sentimental ou espiritual, que atira um ser para o outro, em vista a uma fruição ou um dom. É o motor da vida: ele cria-a e dá-lhe o prazer. A atracção sexual é comum ao homem e ao animal. Leva à reprodução das espécies, mas entre os homens pode ser separada dessa função. Corre então o risco de ser pervertida, mas pode ser também transcendida.

Palavras associadas: paixão, erotismo, afeição, amizade, ternura, benevolência, caridade. Antónimos: ódio, indiferença, agressividade.

Citações: «Ama e faz o que quiseres. A medida do amor é amar sem medida» (Santo Agostinho).


«O homem livre é uma necessidade totalmente cheia de amor» (F. Nietzsche).
«O amor está no trabalho, é infatigável» (Milan Kundera).

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Distinguem-se três tipos de amor, susceptíveis de encaixarem uns nos outros:
1 . Eros (erotismo). É o amor carnal, sexual. O desejo físico do outro exprime-se pela paixão amorosa, vivida, muitas vezes, na falta e no sofrimento.

2 . Philia (amizade). O amor carnal evolui para o amor ternura. Não é mais somente um instinto carnal, ou uma concupiscência. Ele dá-se. É alegre, expansivo. É o amor conjugal realizado e aquele que é dado aos seus filhos e reciprocamente. É também a amizade. No entanto, permanece mais ou menos interessado.

3 . Ágape (caridade). É o amor dado sem procura de contrapartida. É bem por excelência. Os crentes encontram a sua fonte em Deus, que é amor.
Há pois oposição entre o amor-eros de concupiscência e de cobiça, e o amor-philia, ou ágape que são amores de benevolência e de amizade. Quer-se bem a alguém, em vez de o possuir. Os dois sentimentos, na maior parte das vezes, justapõem-se.
O amor-eros não é uma virtude. «É uma questão de sentimento e não de vontade . diz Kant . e eu não posso amar porque eu o quero, menos ainda porque eu o devo; daí se conclui que um dever de amar é um contra . senso.» Efectivamente, «o amor não se comanda porque é ele quem comanda».
Mas à medida que se avança na sabedoria e na virtude, desligamo-nos dos desejos egoístas e elevamo-nos nos graus do amor. Primeiro, só se ama a si mesmo, depois o outro e depois os outros. Assim, «a benevolência nasce da concupiscência pois o amor nasce do desejo, do qual não é mais que a sublimação alegre e satisfeita. Este amor é uma virtude; querer o bem do outro é o próprio bem».
É o ideal. «O ideal da santidade», sublinha Kant. Ele guia-nos e ilumina-nos. É uma virtude pois é uma excelência. E, milagre, «o amor que realiza a moral liberta-nos dela». «Ama e faz o que quiseres», dizia Santo Agostinho.
O amor é pois o começo de tudo.

.O livro da sabedoria e das virtudes reencontradas., J. Gitton . J.J. Antier
Notícias Editorial

Publicado por morfeu às 10:18 PM | Comentários (7)

maio 02, 2004

Tolerância...

Definição : Do latim tolerare, suportar. Respeitar as diferenças do outro, e, por isso mesmo, a sua liberdade.

Palavras associadas: indulgência, compreensão, respeito, partilha, fraternidade, caridade, bondade, benevolência, ecumenismo.
Antónimos: intolerância, fanatismo, dogmatismo, sectarismo.

Citações: «A tolerância é a caridade da inteligência» (Jules Lemaître).
«Ela implica que os outros não pensem como nós, sem por isso os odiar». (P.H.Spaak).
«A tolerância é este género de sabedoria que ultrapassa o fanatismo, este terrível amor da verdade» (Alain).
«A tolerância é uma ascese no exercício do poder» (Paul Ricoeur).

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É necessário distinguir três tipos de tolerância:
1 . Em relação a coisas da vida, no interior de um mesmo grupo. Tolerar os pequenos defeitos dos outros, o seu carácter, as suas maneiras de fazer as coisas de modo diferente.
2 . Em relação a estrangeiros: evitar aumentar a ameaça potencial que representam, invasão guerreira ou imigração, legal ou clandestina.
3 . Em relação a convicções: no interior de uma mesma nação, tolerar as diferenças culturais, éticas, políticas, religiosas.

A tolerância não é senão um mínimo, não é pois o ideal, porque não é o amor. Este comportamento situa-se a meio caminho entre a justiça e o amor, e exige o respeito daquele de quem não se gosta. Esta meia virtude, ambígua, implica somente que não se exerça violência sobre o seu próximo, que se o aceite com reserva: «tolerar um estrangeiro». Ou, antes, ignorá-lo. Não há uma intenção de amar na tolerância. De facto, tolera-se o que não se compreende, ou mesmo, ou mesmo o que se reprova. Há conflito entre a liberdade e a verdade. É um estado entre a guerra e a paz, entre o ódio e o amor. Estamos longe da ordem formal de Cristo: «Amai os vossos inimigos.»

Em política, a tolerância é também «uma coexistência sem simpatia onde não está o coração», diz V. Jankélévitch. O liberal suporta o estadista, esperando ambos que, um dia, o outro aderirá à sua causa. No Médio Oriente, os irmãos separados, judeus e árabes, tentam tolerar-se, porque é isso ou a morte.

A tolerância é pois, primeiro, «uma atitude de comodidade destinada a nos poupar o ódio ( que desemboca num conflito e às vezes na guerra). Ela exige um grande esforço de compreensão». Ela é um primeiro passo, um bem menor.

.O livro da sabedoria e das virtudes reencontradas., J. Gitton . J.J. Antier
Notícias Editorial

Publicado por morfeu às 07:07 PM | Comentários (2)

fevereiro 28, 2004

A Filosofia interessa?...te

"TODAS AS VERDADES SÃO PERECÍVEIS...A COMEÇAR SUPOSTAMENTE POR ESTA..." (anónimo)

....Para quem se interesse, aqui vão algumas referências que poderão ser úteis;se alguém quiser contribuir com dicas, textos, etec..será bem-vindo.

Filosofia
Filosofia

"Quando um filósofo completa uma resposta,
ninguém se lembra de qual foi a pergunta. "

(A.Gide)

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Publicado por morfeu às 02:56 PM

fevereiro 26, 2004

ADAM...

Não te dei, ó Adão,


(autor do trabalho: josé emídio - )

...nem rosto, nem um lugar que te seja próprio, nem qualquer dom particular, para que teu rosto, teu lugar e teus dons os desejes,
os conquistes e sejas tu mesmo a possuí-los.
Encerra a natureza outras espécies, em leis por mim estabelecidas.
Mas tu,
que não conheces qualquer limite, só mercê do teu arbítrio, em cujas mãos te coloquei,
te defines a ti próprio.
Coloquei-te no centro do mundo,
para que melhor,
pudesses contemplar o que o mundo contém.
Não te fiz nem celeste nem terrestre, nem mortal nem imortal,
para que tu,
livremente,
tal como um bom pintor ou um hábil escultor,
dês acabamento à forma que te é própria...

Pico della Mirandola - (1463-1494)

...ouvindo"Adagio for strings" Barber...

Publicado por morfeu às 12:54 PM

fevereiro 12, 2004

DEUS MORREU?

Há pouco mais de cem anos, Nietzsche proclamou a morte de Deus. Desde então o mundo não é o mesmo. (...) No entanto à morte de Deus não se seguiria a morte do homem e do sentido último de toda a realidade?

Segundo Gilles Lipovetsky, "Deus morreu, as grandes finalidades extinguem-se, mas toda a gente se está a lixar para isso(...). O vazio do sentido, a derrocada dos ideais não levaram, como seria de esperar, a mais angústia, a mais absurdo, a mais pessimismo" ( A era do Vazio)...
Kolakowski, filósofo polaco agnóstico refere que, desde a proclamação da morte de Deus, nunca mais houve ateus serenos:"Com a segurança da fé desfez -se também a segurança da incredulidade.(...) De há cem anos a esta parte, (...) praticamente nunca mais vimos ateus serenos" (...)

A pergunta essencial consiste em saber se é possível ser homem sem colocar honestamentea questão de Deus. É que ser homem é a abertura ao Infinitop, e, assim, a questão do homem é a questão de Deus precisamente enquanto questão.

In, Janela do (In)visível de A. Borges, lido e adaptado.

Publicado por morfeu às 10:24 PM | Comentários (4)

Kant: o filósofo dos Direitos Humanos

Bicentenário da morte comemora-se hoje

Kant

In Público, 12/02/004:Helena Ferro de Gouveia, Frankfurt
PÚBLICO

Immanuel Kant (1724-1804), nascido no seio de uma família humilde, foi enterrado como um monarca. No dia do seu funeral, a vida em Königsberg, na Prússia oriental, actual Kalininegrado, parou. O caixão foi acompanhado por milhares de pessoas e ecoaram os sinos de todas as igrejas da cidade.

Hoje, decorridos 200 anos sobre a morte do grande filósofo dos direitos humanos, da igualdade perante a lei, da cidadania mundial, da paz universal e acima de tudo do "Sapere Aude", a emancipação da razão, a Alemanha assinala a data com uma série de colóquios universitários, com a exibição na televisão pública do filme "Kant Reloaded" e com uma visita do ministro dos Negócios Estrangeiros, Joschka Fischer, a Kalininegrado. A Universidade de Bona disponibilizou na Internet, em acesso gratuito, o maior banco de dados mundial sobre o filósofo assim como as suas obras completas e cartas pessoais (www.ikp.uni-bonn.de/kant).

Rir é bom para a digestão
Mesmo a tempo do bicentenário surgiram numerosas publicações dedicadas ao autor da "Crítica da Razão Pura" (1781). Três delas, publicadas em Novembro de 2003, são biografias - "Kant" de Manfred Kuehn, "Immanuel Kant" de Steffan Dietzsch e "Kants Welt" de Manfred Geier - que questionam o retrato estereotipado de Kant traçado por Henrich Heine e que se inscreveu nos manuais de filosofia: um homem que obedecia às virtudes prussianas, cuja vida era absolutamente disciplinada, modesta e puritana. "Viveu uma vida de solteirão, mecanicamente ordenada, quase abstracta", escreveu Heine.

Um pensador genial com um quotidiano monótono? As novas obras biográficas mostram um outro filósofo que jogava com gosto às cartas, que apreciava uma boa refeição ou um espectáculo de teatro, que gostava de anedotas - claro que por motivo racional: o riso estimula a digestão - que se interessava pela política mundial. Naturalmente que não foram apenas os aspectos privados de Kant que mereceram a atenção dos autores (todos reconhecidos especialistas no obra do filósofo da Aufklaerung), mas a sua vida intelectual, as suas ideias e como estas foram influenciadas pelo clima da época.

Filósofo da Revolução Francesa
Kant viveu numa época conturbada, marcada por grandes mutações sociais, políticas e religiosas. A "orientação teológica" da Filosofia é posta em causa - Deus vai sendo progressivamente substituído pela ciência, tendência contra a qual Kant vigorosamente lutará - e a soberania intelectual do homem passa, com o Iluminismo, a repousar na ciência, que adquiriu, depois de Isaac Newton, um estatuto de dignidade e credibilidade recusado a outras formas de pensamento.

Na perspectiva política, o fenómeno mais relevante é a configuração do Estado moderno e de novas formas de organização do poder. Os escritos políticos de Kant datam já da maturidade e são fortemente influenciados por dois acontecimentos históricos da altura: a Revolução Francesa (1789) e a Revolução Americana (1776).

Não é em vão que foi classificado por Heine, Marx e Hengels como o filósofo da Revolução Francesa. Há de facto alguma analogia entre ambas as revoluções e o pensamento kantiano: a emancipação do homem face à autoridade e a afirmação da liberdade. De tal forma que o eco de Kant é tão importante na França como na Alemanha.

Para o investigador francês Etienne François, "se Kant é considerado na França como uma referência incontornável, na Alemanha é visto como uma etapa da pensamento filosófico" uma vez que não existem entre os filósofos que verdadeiramente são significativos nenhum que se tenha subtraído a um posicionamento relativamente a Kant.

A filiação de Kant até Juergen Habermas "é assumida e reivindicada". O próprio artigo primeiro da Lei Fundamental alemã - "A dignidade do homem é intocável" - é, ainda de acordo com Etienne François, claramente de inspiração kantiana. O pensamento kantiano surge como um elemento fundador no processo de construção europeia que coloca a dignidade humana, a reflexão e a ética no cerne dos seus objectivos. O projecto de Tratado Constitucional europeu reivindica também no seu preâmbulo o legado do Iluminismo.

Fischer em Kalininegrado
O bicentenário é ocasião para o chefe da diplomacia germânica inaugurar um consulado alemão em Kalininegrado, um enclave russo entre a Lituânia e a Polónia, onde o filósofo do Aufklaerung nasceu, ensinou e morreu. A ex-Königsberg, no mar Báltico, foi a capital dos reis da Prússia, tendo sido conquistada pelo Exército Vermelho durante a II Guerra mundial, e rebaptizada, em 1946, como Kalininegrado, em homenagem ao dirigente soviético Mikhail Kalinine. Nesta cidade não se encontra hoje nem a casa natal do filósofo nem aquela onde ele morreu, mas existe um museu Kant, assim como uma estátua do pensador em frente à Universidade - oferecida pela condessa alemã e grande dama do jornalismo Marion von Doenhoff.

O seu túmulo situa-se numa das extremidades da catedral, parcialmente arrasada pelos bombardeamentos de 1944-45, e nele está inscrito: "Duas coisas preenchem o espírito de uma admiração e de uma veneração crescentes e renovadas, à medida que a reflexão nelas incide: o céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim." DR

Immanuel Kant é considerado o pai da filosofia moderna

Publicado por morfeu às 10:17 AM | Comentários (3)

fevereiro 07, 2004

A Lei moral em mim, e o céu estrelado acima de mim...

Parabéns ao cartaz do expresso de hoje, que apresenta uma capa com o retrato de Immanuel Kant, assim como artigo alusivo, que permitirá aos que não o conhecem, procurarem fixá-lo e saber da sua importância para a Modernidade: "Sapere Aude"...ousa saber, ousa servir-te do teu entendimento, sair da tua menoridade mental, de que só tu és responsável...propostas válidas ainda hoje.
Sugiro a leitura do artigo...

Morfeu

Publicado por morfeu às 10:13 PM | Comentários (4)

fevereiro 05, 2004

Uma folha de mim lança para o Norte...

Uma folha de mim lança para o Norte

Uma folha de mim lança para o Norte,
Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;
Outra folha de mim lança para o Sul,
Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
Outra folha minha atira ao Ocidente,
Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
Que eu sem conhecer adoro;
E a outra, as outras, o resto de mim
Atira ao Oriente,
Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e crente,
Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
Ao Oriente budista, bramânico, xintoísta,
Ao Oriente que é tudo o que nós não temos,
Que é tudo o que nós não somos,
Ao Oriente onde . quem sabe? . Cristo talvez ainda hoje viva,
Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo...
Idem...na continuação das entrada anteriores.....

Publicado por morfeu às 10:42 AM

janeiro 27, 2004

O zaping do pensamento...

Será que é possível tentar uma atitude de alguma contemplação perante a diversidade e qualidade de muitas intervenções da blogosfera:"pare, escute e olhe" ,poderá ser o lema...

A marca mais profunda do homem contemporâneo consiste na fuga diante do pensamento. Dominado pela massa gigantesca da informação, encandeado pelo imperativo da investigação e condenado pelo ritmo da história à acção incessante, não lhe resta nem disponibilidade nem tempo para contemplar, no sentido forte desta palavra. Por isso, nunca o homem conheceu tanto de si mesmo, mas, talvez, nunca o homem se ignorou mais a si mesmo.

Autor: Reimão, Cassiano
Fonte: Público, em 20040126

Publicado por morfeu às 09:22 AM | Comentários (2)

janeiro 26, 2004

Questões Disputadas ...

Questões Disputadas
Por FREI BENTO DOMINGUES, O.P.
Domingo, 25 de Janeiro de 2004

...sugiro a leitura de entrada anterior sobre S.tomás de Aquino

1. Recebi muitas questões acerca de S. Tomás de Aquino - celebrado na Igreja Católica no próximo dia 28 - devido ao texto do domingo passado sobre a nova tradução brasileira e edição bilingue da "Suma Teológica".
Tive, entretanto, de preparar uma conferência subordinada a uma pergunta cheia de armadilhas - "O que é a verdade para S. Tomás de Aquino?" - e encontrei-me com a homilia, muito bem tecida, de D. José Policarpo, patriarca de Lisboa, feita no dia 19 na missa de abertura do ano judicial. Traz uma proposta de cultura da justiça, de cultura da verdade, marcada pelo cultivo da dignidade da pessoa humana, pela cultura do amor, plenitude da justiça. Exige a cultura da liberdade que rima com responsabilidade.
O bispo de Lisboa voltou a afirmar que "a laicidade dos Estados - que rigorosamente significa apenas a não confessionalidade dos Estados - acarretou a laicidade da sociedade e da cultura e esta tem-se mostrado incapaz de afirmar a síntese entre valores transcendentes, próprios da fé e das realidades terrestres, no seio das quais se situa a justiça".
E acrescenta: "Não exigimos uma 'justiça religiosa', como ainda acontece noutros horizontes culturais da humanidade; mas acreditamos que a fé dos crentes, em diálogo sincero com todos, pode contribuir para o burilar contínuo de uma verdadeira cultura da justiça, que deve ser aberta à transcendência do homem e às exigências inultrapassáveis da dignidade humana".
2. Pode e deve. Mas como? Para já, aproveitando bem as ocasiões. O debate sobre a "despenalização do aborto" está de volta acompanhado de uma sondagem de opinião elaborada pela Universidade Católica.
É possível e normal que católicos não tenham todos a mesma posição perante o problema. Mas para que possam dar um contributo que interpele a consciência dos portugueses seria importante que os próprios bispos fizessem desse debate uma "questão disputada" no interior das próprias comunidades católicas. As emoções que a declaração de D. Armindo, bispo do Porto, suscitou em Dezembro do ano passado podem querer dizer alguma coisa.
Os sintomas de grandes viragens culturais e de mudanças na sensibilidade religiosa exigem a coragem de não deixar passar a hora de intervir, sem ir na onda e sem recorrer apenas às respostas congeladas e prontas para todas as situações. A interpretação dos "sinais dos tempos" é a arte de saber compreender o que se está a passar e o que se anuncia.
Nada, porém, se faz automaticamente. O estado da cultura da justiça e da verdade, no seio das comunidades cristãs, também se avalia pela investigação e pelos debates que elas promovem para estarem prontas a dar razão da esperança que as move na sociedade.
O diálogo entre católicos de várias tendências exige o enfrentamento de "questões disputadas". Os cristãos não estão todos no mesmo partido e nenhum partido se pode arvorar em herdeiro e representante da fé cristã. E nunca se ouviu no Movimento Ecuménico das Igrejas o "slogan": "Os cristãos unidos jamais serão vencidos."
3. Quando falo de "questões disputadas" tenho em mente as práticas lúcidas e corajosas de Tomás de Aquino, discípulo Alberto Magno, que o levaram, em 1277, à condenação, por E. Tempier, bispo de Paris, servido por uma comissão de dezasseis teólogos que o ajudaram na operação de barrar o caminho à emancipação da filosofia e às suas infiltrações no tecido teológico. Segundo o medievalista Alain de Libera, a arqueologia das ambiguidades da encíclica "Razão e Fé" de João Paulo II deve ser procurada nesse conflito (1).
Seja como for, fala-se hoje de um "novo paradigma" teológico. Temos dele mais descrições do que práticas efectivas. Verifica-se sobretudo um grande acanhamento diante das posições do cardeal Ratzinger. Em nome da "Igreja de comunhão", evitam-se as "questões disputadas" destinadas a provocar a investigação da verdade presa na injustiça do mundo onde cresce o fosso entre ricos e pobres.
S. Tomás de Aquino, um mendicante, conhecia muito bem e descreveu as múltiplas artes e géneros literários que vestem a Revelação divina ao longo dos tempos e o seu acolhimento na inteligência humana pela graça da fé, privilegiando sempre as formas simbólicas, parabólicas, narrativas e imperativas. Baseou-se no Novo Testamento para justificar o seu recurso à teologia argumentativa indispensável para testemunhar a verdade da fé cristã no novo contexto cultural.
Na exposição da Sagrada Escritura, que muito cultivou, sabia que estavam consagrados quatro sentidos dos textos: o sentido histórico, o sentido moral, o sentido alegórico e o sentido místico (anagógico). Mas Tomás de Aquino destacava sempre o sentido literal para que a maravilhosa teologia simbólica não fosse utilizada para encobrir uma floresta de enganos.
Para quem desejar seguir o percurso fascinante deste dominicano apaixonado da verdade de Deus e da verdade do mundo - que se despediu, aos 49 anos, do interior da sua noite mística, dizendo "depois do que vi, é só palha o que escrevi" - recomendo a obra de maior rigor histórico(2).
(1) Cf. Alain de Libera, "Raison et Foi. Archéologie d'une crise d'Albert le Grand à Jean-Paul II", Paris, Seuil, 2003.
(2) Cf. Jean Pierre Torrel, "Iniciação a Santo Tomás de Aquino. Pessoa e obra", Ed. Loyola, São Paulo 1999.

Publicado por morfeu às 09:29 PM

janeiro 25, 2004

Les leçons de Spinoza

Les leçons de Spinoza

Une définition de Spinoza dit: "Le but de l.Etat est en vérité la liberté." Je me demande où en est Israël d.une part avec l.Etat, et d.autre part avec la liberté»


J.ai lu l.«Ethique» de Spinoza pour la première fois quand j.avais 13 ans. Au collège, nous étudiions naturellement la Bible . qui pour moi est, elle aussi, un ouvrage intégralement philosophique. Mais avec la lecture de Spinoza c.est une nouvelle dimension de la pensée qui s.est ouverte à moi. Aujourd.hui encore, elle continue de me séduire. L.axiome tout simple de Spinoza qui dit: «L.homme pense» est devenu pour moi un leitmotiv existentiel. Mon exemplaire de l.«Ethique» est fatigué, à force d.avoir été lu et relu. Des années durant, je l.ai emporté dans mes voyages, et, dans des chambres d.hôtel ou aux entractes des concerts, je me suis enthousiasmé pour telle ou telle de ses propositions.
L.«Ethique» est la meilleure école de l.intellect, parce que Spinoza enseigne, comme peut-être aucun autre philosophe, la radicale liberté de la pensée. Seul est susceptible de trouver une forme de bonheur l.homme qui pousse la réflexion jusqu.à toutes ses conséquences. Pour moi, cette idée est une sorte d.autopsychanalyse préfreudienne. Spinoza m.aide à me considérer de l.extérieur. Même dans la plus grande souffrance, la vie ainsi devient supportable et le monde, grâce aux démonstrations de l.«Ethique», se laisse ramener à des proportions vivables.
Le grand Voltaire a reproché un jour à Spinoza d.«abuser de la métaphysique». Mais n.est-ce pas précisément l.inconditionnalité du métaphysique qui est aujourd.hui plus importante que jamais? A une époque où, à travers les systèmes politiques, les contraintes sociales, les codes moraux et le politiquement correct, nous exerçons souvent une autocensure involontaire sur nos pensées, la liberté illimitée de la pensée n.est-elle pas devenue la plus grande et la plus précieuse des libertés?
Car enfin, aujourd.hui, à peine est-il encore possible de prendre la liberté de penser. Dans une culture médiatique, ce sont des résultats qu.on attend. Des prises de position précises. La voie permettant de développer des points de vue, les pensées nécessaires pour les trouver, pour examiner et jauger leur validité, voilà un processus qui rencontre de moins en moins de considération dans l.opinion publique. Pourtant, la liberté de penser est toujours aussi la liberté, pour chaque pensée, de se développer de façon autonome, si convenue, provocante ou absurde qu.elle paraisse à première vue. Le monde de la pensée est libre parce qu.il n.a pas à se conformer obligatoirement aux données du réel. Qu.un et un fassent toujours deux, voilà une évidence qui ne vaut pas dans le monde de la pensée véritablement libre. A partir du moment où l.on pense dans un espace sans frontières, au sein duquel les catégories morales elles-mêmes perdent leur consistance, alors seulement on a la possibilité de développer des idées vraiment neuves.
Spinoza ne s.est pas laissé enfermer , dans aucun système politique ou religieux, dans aucune conception morale. Et il a souffert pour son idéal de pensée libre. Il n.est guère de philosophe qui ait été l.objet d.autant d.hostilité. Il s.est fait traiter d.archijuif blasphémateur, il a été chassé de la synagogue et de l.enseignement public. Ses disciples eux-mêmes ne le reconnaissaient comme maître qu.en cachette. Et lorsque le prince-électeur palatin Karl Ludwig offrit au philosophe d.enseigner à l.université de Heidelberg, celui-ci refusa, tout pauvre et solitaire qu.il était: il ne pouvait garantir que ses pensées excluraient tout «trouble de la religion officiellement reconnue». Le penseur préféra la vie modeste et retirée d.une carrière privée.
Spinoza ne s.intéressait pas particulièrement à la musique. Néanmoins, sa logique a influencé mon accès à la musique. Mon père avait fait des études de philosophie et c.est lui qui m.a fait découvrir Spinoza, lui aussi qui me conseillait d.aborder même les partitions de manière philosophique et rationnelle. Et le principe spinoziste de ne pas séparer raison et affectivité est devenu pour moi une approche primordiale de la musique. Dans une pensée comme dans un morceau de musique, je crois qu.on n.entre qu.à condition d.en dégager d.un côté la structure logique et, de l.autre, le contenu affectif.
J.aime me souvenir de la dernière conversation que j.ai eue avec le grand chef que fut Otto Klemperer. Nous parlions de Spinoza et il me dit: «L."Ethique" de Spinoza est le livre le plus important qui ait jamais été écrit.» On sait que Klemperer était juif. Il se convertit au christianisme à 22 ans, persuadé qu.il ne pourrait pas diriger la «Passion selon saint Matthieu» de Bach s.il n.était pas chrétien. Des dizaines d.années plus tard, après la guerre, alors qu.il était déjà âgé, il se reconvertit au judaïsme. Et l.une des raisons qu.il donna, c.était l.«Ethique» de Spinoza. Peut-être la plus importante des philosophies juives.
Les questions concernant l.éthique et la morale juives, comme la question «qu.est-ce qui est juif?», ont longtemps été posées dans la perspective d.une minorité. Grandes théories et manifestes servaient à jeter un pont au-dessus de l.existence bimillénaire d.un peuple minoritaire. Pendant tout ce temps, les Juifs ont été à certains moments intégrés dans la vie sociale et, à d.autres, impitoyablement persécutés, comme sous l.Inquisition espagnole ou sous la dictature d.Adolf Hitler. La particularité de la philosophie de Spinoza, c.est qu.en dépit des persécutions, des outrages et des ostracismes jamais il n.a donné à sa pensée le fait minoritaire comme prémisse. C.est précisément pour cela que cette philosophie est aujourd.hui si moderne, maintenant que le peuple juif a son Etat à lui et n.est donc plus une minorité. L.«Ethique» de Spinoza demeure susceptible de servir de code pour fonder une unité intellectuelle et morale entre Juifs.

Lorsque le peuple juif a obtenu un Etat , en 1948, cette minorité est devenue une nation. Cette transformation, sur bien des plans, a été résolue de façon très organique. Mais, dix-neuf ans plus tard déjà, les Juifs se virent confrontés en Israël à un nouveau défi: la minorité de jadis exerçait soudain son contrôle sur une autre minorité, les Palestiniens. Cette seconde transformation jusqu.à présent n.est pas maîtrisée. Je serais tenté de dire qu.elle n.a même pas vraiment commencé. Aujourd.hui encore, beaucoup de Juifs en Israël ne sont pas encore de véritables patriotes, soucieux du bonheur de tous les habitants d.Israël, ils cultivent au contraire un nationalisme naïf.
Une définition de Spinoza dit: «Le but de l.Etat est en vérité la liberté.» Je me demande où en est Israël d.une part avec l.Etat, et d.autre part avec la liberté. Spinoza parle de l.égalité des hommes: l.opposition entre dominateurs et opprimés lui est étrangère. La démocratie israélienne n.a toujours pas résolu la question d.un Etat où des minorités sont opprimées et où la liberté de tous a valeur d.impératif suprême. Nous vivons jusqu.à présent dans une démocratie à deux classes.
«Le but de l.Etat est en vérité la liberté.» En Israël, la liberté est une valeur qui est volontiers mesurée couramment à deux échelles. D.un côté l.on affirme que nous vivons en démocratie, donc que nous sommes libres d.exprimer notre opinion et de vivre librement. Malheureusement, une partie seulement de la population israélienne peut jouir de cette liberté; l.autre partie s.en trouve catégoriquement exclue. On voit assez vite que les débats politiques constructifs sont rares: Juifs fondamentalistes et Palestiniens fondamentalistes ne s.accordent mutuellement même pas la liberté de leurs idées. Pourtant, au départ d.un Etat libre et démocratique il devrait y avoir la liberté de penser et, en même temps, le devoir d.écouter. Peu importe que les idées exposées soient éventuellement abstruses, qu.elles soient ou non politiquement correctes ou bien extravagantes. C.est seulement dans la liberté et l.honnêteté des pensées que peut se développer un dialogue susceptible d.apporter des solutions rationnelles à la réalité politique. Quand, au sein de mon orchestre, où Palestiniens et Juifs font de la musique ensemble, nous discutons pendant les pauses, la libre expression des idées d.autrui est la condition fondamentale du dialogue, qui est alors parfois passionné et âpre. Mais pour finir nous nous remettons à faire de la musique ensemble. Seul celui qui pense librement et qui . plus important encore . laisse penser librement peut instaurer la liberté. Mais c.est précisément cette vertu qui fait défaut à de nombreux groupes israéliens. La solution du conflit actuel doit commencer dans l.esprit, pour pouvoir exister dans la réalité.

Et c.est pourquoi je suis convaincu que les Juifs, en Israël, avant de pouvoir résoudre le conflit du Proche-Orient, doivent procéder à un sérieux examen de leur positionnement éthique et moral. Cela n.a pas encore été fait, et j.en prendrai pour exemple l.humour juif. L.humour d.une minorité est courageux. Un Juif qui, dans le ghetto de Varsovie, jetait un croûton de pain aux pieds d.un officier de la Gestapo en disant: «C.est bien assez bon pour un non-Juif», ce Juif faisait preuve de courage civique. Si aujourd.hui, à Ramallah, un Juif jette un croûton de pain aux pieds d.un Palestinien en lui disant: «C.est bien assez bon pour un non-Juif», ce n.est pas courageux, c.est grossier et inhumain.
Dans les années 1950, l.esprit de Spinoza était encore chez lui à Jérusalem, la ville était un centre pour les intellectuels juifs. Martin Buber et Max Brod y ont enseigné. Je vivais alors à Tel-Aviv, où nous étions plus pragmatiques: nous construisions le pays, nous avions l.espérance et l.enthousiasme, nous produisions des valeurs matérielles. L.Université hébraïque de Jérusalem fournissait la superstructure intellectuelle. Mais, entre-temps, le judaïsme séculier a émigré hors de Jérusalem, et ce sont les juifs orthodoxes qui déterminent le climat intellectuel. Du même coup, Jérusalem a perdu la tradition intellectuelle de Spinoza. Or c.est justement elle qui est nécessaire pour arriver à un progrès dans le conflit du Proche-Orient. Spinoza, déjà, souffrait de deux phénomènes qui aujourd.hui encore sont latents: d.une part il était, lui le Juif, exclu de la communauté juive; d.autre part il était la victime d.antisémites démagogues.
Récemment, un sondage en Europe, mais aussi en Allemagne, a fait apparaître ce résultat effrayant : une majorité estime que c.est Israël qui constituerait la plus grave menace pour la paix du monde. Or on ne comprend pas ici s.il s.agit d.Israël comme Etat ou comme société composée de Juifs, et il est grave que cela ne soit pas précisé. C.est dire qu.une délimitation essentielle a disparu, celle entre la critique envers l.Etat d.Israël et un antisémitisme intolérable. L.une sert à déguiser l.autre. Certes, il est des critiques tout à fait justifiées à l.encontre du gouvernement israélien, et je les ai moi-même formulées souvent et de façon véhémente. Mais je ne puis tolérer que mes critiques puissent servir d.alibi à des ressentiments antisémites. L.antisémitisme ne saurait se déduire historiquement ni politiquement, ni encore moins philosophiquement. C.est une maladie. Mon ami Edward Said savait cela parfaitement et il adjurait ses frères arabes de le comprendre.
Il est significatif que les idées de Spinoza ont eu une influence fondamentale sur ce qui est considéré aujourd.hui comme philosophie typiquement allemande : l..uvre de Feuerbach, les conceptions wagnériennes du monde et de la musique, et la pensée de Nietzsche. Prenons Wagner. Comment a-t-il pu, connaissant Spinoza, devenir l.antisémite qui a écrit ce pamphlet haineux, « le Judaïsme en musique » ? Un zeste d.antisémitisme entrait assurément dans les idées d.un nationaliste allemand du xixe siècle ; mais pourquoi cette violence chez Wagner ? Il ne pouvait se réclamer là de son père spirituel, lui-même héritier de Spinoza, Feuerbach, auquel il se réfère dans plusieurs de ses écrits, comme le faisait toute la jeune Allemagne. L.antisémitisme de Wagner avait, comme toute haine des Juifs, un motif irrationnel : ses ennemis jurés, tels les Juifs Meyerbeer ou Heine, lui ressemblaient tout simplement trop, et ne l.acceptaient pas. Et c.est là, dans ce désir de faire soi-même partie des élus, que s.opère la fâcheuse séparation entre esprit logique et motifs privés. Encore une fois : l.antisémitisme ne peut pas se déduire philosophiquement. Il demeure une maladie, contre laquelle nous persistons à ne pas suffisamment lutter.
La lecture de l.« Ethique » de Spinoza continue de montrer cela clairement. Elle est aujourd.hui aussi moderne que jamais. D.une part, parce qu.elle peut être, pour le simple lecteur, une incitation à la catharsis : à la pensée logique et libre. D.autre part, parce qu.elle propose des idées décisives pour la coexistence collective : avec l.« Ethique » de Spinoza, Israël pourrait évoluer vers un Etat véritablement démocratique, et toute communauté y trouve les bases pour définir ses valeurs éthiques.

Propos recueillis par Axel Brüggemann et publiés dans « Welt am Sonntag »
(traduit de l.allemand par Bernard Lortholary)

Daniel Barenboim

Publicado por morfeu às 05:22 PM

janeiro 22, 2004

GERAÇÃO MX...


(...ter em conta as entradas anteriores sobre esta temática...)

...Apesar de tudo, o filme tal qual ele é captado pelos seus jovens defensores, não se encontra desprovido de esperança.
"Neo
é a verdadeira inocência....é um homem puro e simples, verdadeiro e sensível...
Trinityé uma mulher que se debate com o seu lado terno e humano, que ela considera ser uma fraqueza, para se poder equiparar aos homens, afinal expressando o esforço da mulher hodierna...
Morpheus,
tem uma fé imensa que nos impede de não acreditarmos nele pura e simplesmente", explica-nos Trinitylovesneo, jovem animadora do site Modrek.com,...epopeia, busca do graal, cosmogonia, rio iniciático...

Os irmãos Wachowski,
autodidactas de espírito aberto, rechearam a sua obra com referências mitológicas, filosóficas e religiosas(...) e mesmo se os intelectuais escarnecem deste grande Bazar onde se entrecruzam platão, Buda, Cristo, Descarte, Shakespear, Schopenauer ou Braudrillard, para muitos, Matrix constitui uma aproximação lúdica e descomplexada do pensamento. "É como se fosse o meu professor de Filosofia via Nintendo"ironiza Stéphane, 32 anos.

No mundo de Matrix, o contacto com o invisível (Deus? o Grande Arquitecto? O Universo?) é permanente."Vejo aí uma espécie de grande Bíblia remisturada" ...
acrescenta Morpheus, jovem internauta ... porque nos mundos impiedosos dominados pela Matrix, já não se coloca a questão do transcendente, da vida após a morte, muito menos do Paraíso. Arma em punho e pontapé fácil , o último dos homens procura reencontrar um pouco de vida...e já agora de amor...

(Ibidem) - continua...

Publicado por morfeu às 01:17 PM

janeiro 21, 2004

GERAÇÃO MATRIX...

O que atrai tanto a juventude no fenómeno Matrix?


Acção, adrenalina garantida: efeitos especiais, combates coreografados como fossem ballet, perseguições dantescas (ver os 14 minutos sobre uma auto-estrada construída para o efeito no deserto da Califórnia...)

Matrix constitui um divertimento fora de vulgar para os consumidores do género. Veja-se a famosa cena em que Neo enfrenta uma centena de clones de Smith, o agente mau da fita de matrix... atente-se na técnica .bullet time., técnica de ralenti que permite parar uma imagem no decorrer da acção...

Acrescentemos igualmente uma estética inspirada nos jogos vídeo, referências constantes ao universo informático e uma banda sonora techno...tudo se orienta para agradar a um público jovem que cresceu entre PC e consolas.

Temática: .Matrix lança um alerta que diz respeito ao nosso futuro. O domínio dos seres humanos pela máquina e programas inteligentes., explica-nos um internauta num dos sítios dedicados ao culto de Matrix ....

matrix

matrix

matrix

.Nós crescemos num mundo em crise. Os valores individuais substituindo os valores colectivos, nós não somos mais uma geração crente nos progressos da ciência...tornámo-nos cínicos e e descrentes. afirma Pierre, 25 anos, engenheiro de telecomunicações(...)passámos de uma geração «vivamos em harmonia com a natureza» para uma geração do « salve-se quem puder»...


(...) a continuar... ( Nouvelobservateur...ibidem)

Publicado por morfeu às 08:13 PM | Comentários (3)

janeiro 20, 2004

ADIAMENTO. F. PESSOA

...Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
...................................................................Só depois de amanhã...

(continua...)

Publicado por morfeu às 01:15 PM | Comentários (3)

janeiro 18, 2004

Geração Matrix...

..."É cool....existe de tudo neste filme...super-cenas de acção, uma história de amor incrível, para além de uma quantidade de ideias filosóficas que fazem reflectir" (...)

O que é a realidade?
O livre arbítrio é uma ilusão?
Poder-se-á pôr fim à alienação? (Zoe, 17 anos...)

(...)Reload, não é um bom filme do ponto de vista cinematográfico: cenários pesados, duração excessiva de alguma cenas, ritmo irregular, com um discurso algo pretencioso. Estamos longe do primeiro filme...( J.Yves, jovem liceal parisiense)

"Os jovens entre os 12-15 anos reconhecem-se no universo Matrix...assim como os seus pais se identificavam e falavam dos Stones!...(...) os meus pais detestam, acham violento e não percebem qual a mensagem...os maiores de 40 anos não têm as referências culturais para apreciar este filme, do mesmo modo que os seus pais não entendiam nada do rock.( Maxime, 17 anos)

Podemos perguntar: O que atrai tanto a juventude no fenómeno Matrix?

( le nouvel Observateur, nº 2015 - junho de 2003)Adaptado...

Publicado por morfeu às 07:11 PM | Comentários (6)

MATRIX ...

...vou começar a fazer algumas referências a aspectos vários da trilogia matrix, começando por algumas sugestões do Nouvel Observateur, que acima aparece, evidenciando um título/proposta que seria interessante analisar...

morfeu

Publicado por morfeu às 02:10 PM | Comentários (1)

"Suma Teológica" - Nova edição

Suma

OPINIÃO
Uma Boa Notícia do Brasil
Por FREI BENTO DOMINGUES, O.P.

1. Já existia uma edição brasileira bilingue de "Suma Teológica" de Tomás de Aquino. Começou a ser publicada em 1944 e estava pronta em 1958. Somava 27 volumes. Foi reimpressa em 1980 e ficou em 11. Mas são volumes enormes em desajeitadas e irritantes dimensões. O incómodo maior resulta, todavia, da falta de qualidade da tradução, assinada por Alexandre Correia. TEXTO

Uma Boa Notícia do Brasil
Por FREI BENTO DOMINGUES, O.P.
Domingo, 18 de Janeiro de 2004

1. Já existia uma edição brasileira bilingue de "Suma Teológica" de Tomás de Aquino. Começou a ser publicada em 1944 e estava pronta em 1958. Somava 27 volumes. Foi reimpressa em 1980 e ficou em 11. Mas são volumes enormes em desajeitadas e irritantes dimensões. O incómodo maior resulta, todavia, da falta de qualidade da tradução, assinada por Alexandre Correia. Dava-me a impressão de que levaria menos tempo a aprender latim do que a entender as opções enganadoras daquela tradução.

A boa notícia é para todo o espaço da lusofonia. Jesuítas e dominicanos abriram o séc. XXI com uma nova e brilhante tradução brasileira, numa edição bilingue, da "Suma Teológica", de Tomás de Aquino, a investigação da verdade, de mão dada com a liberdade.

Esta obra admirável surge agora, em nove volumes de grafia primorosa, nas Edições Loyola de São Paulo. O primeiro saiu em 2001 e teve, em menos de um ano, uma segunda edição. Nos finais de 2003, esta difícil aventura já estava a meio da festa.

Reproduz o texto latino da "Editio Leonina". As introduções e notas, de reconhecido mérito, são traduzidas da versão francesa publicada pelas Editions du Cerf em 1984.

A nova tradução abre com um texto assinado pelos Superiores Gerais da Ordem dos Pregadores e da Companhia de Jesus. Esperam que esta realização de vulto seja um incentivo para uma colaboração lúcida, harmoniosa e criativa nos campos do apostolado, da comunicação, das actividades culturais, científicas, artísticas, filosóficas e teológicas, ao serviço de um constante compromisso social nos caminhos da justiça e da paz.

Não é a restauração do passado medieval ou da Contra-Reforma que move as assinaturas prestigiosas de Timoty Radcliffe, O.P. e de Peter-Hans Kolvenbach, S.J. São as urgências do presente e os desafios do futuro que os impelem a desenhar um grande programa de novas e ousadas colaborações.

2. Na apresentação, Fidel Garcia Rodrigues, das Ed. Loyola, inscreve a nova tradução no propósito de possibilitar o contacto com os grandes clássicos da teologia, da filosofia, das ciências e das artes.

Recorrer a Tomás de Aquino como ao criador de uma sistemática teológica intemporal, pronta a responder às questões do nosso tempo - como se repetiu ora por ingenuidade, ora por astúcia - é um engano e um insulto em forma de homenagem. Este arrojado teólogo é uma figura da Idade Média provocado pela redescoberta do pensamento grego, pela aproximação das teologias do Ocidente e do Oriente, pelo estudo dos grandes nomes das filosofias e teologias muçulmanas e judaicas do seu tempo.

Mas é igualmente miserável que muitas faculdades de teologia se abandonem à frivolidade de esquecer a investigação das obras mais marcantes dos grandes clássicos, entre os quais se conta a "Suma Teológica" de Tomás de Aquino.

Os novos recursos oferecidos pela informática, os estudos e investigações sobre o pensamento, a cultura e a história medievais tornam hoje possíveis um melhor conhecimento e uma melhor apresentação desta obra de referência imprescindível e que sempre o foi para dominicanos e jesuítas, embora através de polémicas interpretações, hoje pouco significativas.

Mas, segundo o editor, o que contribuiu de maneira mais decisiva para viabilizar este empreendimento, apesar do seu alto custo, foi a possibilidade de contar com a colaboração solícita e harmoniosa de uma equipa de valor, qualificada pelo seu conhecimento da doutrina e da linguagem de Tomás de Aquino.

E o editor explicitou outros cuidados ao tentar uma tradução moderna, que se empenha em aliar a fidelidade à clareza e, quanto possível, à elegância. Guardam-se as expressões técnicas do vocabulário do Doutor medieval, buscando traduzi-las de maneira uniforme, através de toda a sua vasta síntese. Tendo sempre em conta o teor e os matizes do original latino, procuraram tirar proveito dos trabalhos e estudos existentes nas diversas línguas.

3. Carlos Josaphat, O.P, responsável pela coordenação geral da obra, pergunta no seu magnífico prefácio: "Seria amarga ironia ou protestação profética aquela conhecida façanha de machado de Assis exibir o coitado do Brás Cubas, identificando-se em seu delírio terminal com o imenso e afivelado calhamaço da 'Suma Teológica?' Pois não é que, por uma espécie de sequestro precoce e duradouro, o mestre dominicano, enaltecido por seu primeiro biógrafo como o mais audaz dos inovadores, acabou sendo transformado, para muita gente, no símbolo mesmo da ortodoxia conservadora, senão intolerante?"

Os dominicanos e jesuítas brasileiros, diante dos intentos dos neoconservadores, aliaram-se na busca de novos paradigmas teológicos inspirados pela atenção aos grandes problemas humanos, ao diálogo ecuménico, inter-religioso e intercultural. Procuram uma nova ordem jurídica, económica e política para o mundo, no prolongamento dos projectos que a jovem América inspirou a Bartolomeu de Las Casas, a Francisco Vitória e a Francisco Suarez que, por sua vez, vinham de leituras novas de Tomás de Aquino.

A "Suma Teológica" segue um minucioso método argumentativo, tentando responder à pergunta: "Como é que é verdade aquilo que na fé confessamos ser verdade?" Mostra que a pior das idolatrias é a de tentar fechar Deus em conceitos humanos.

Publicado por morfeu às 11:01 AM | Comentários (2)

janeiro 17, 2004

HEGEL, DEUS,COMPREENDER

«O que valeria a pena compreender, se Deus fosse incompreensível?» Hegel

Publicado por morfeu às 11:26 AM | Comentários (1)