junho 02, 2009
A Montanha Mágica de T. Mann
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março 26, 2009
FERNANDO PESSOA ENVIARIA SMS?
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outubro 13, 2008
A Vida Eterna ... despedida.

...com um dos mais belos poemas de amor e tudo o mais que possa ser, aqui deixo a sugestão para leitura de mais uma obra extraordinariamente pedagógica de F.Savater.
Despedida
Eis-me aqui junto da tua sepultura,
Hermengarda,
para chorar a carne pobre e pura
que nenhum de nós viu apodrecer
Outros viriam lúcidos e enlutados,
e no entanto eu venho embriagado,
Hermengarda, eu venho embriagado.
E se pela manhã encontrarem a cruz
do teu túmulo derrubada no solo
não foi a noite, Hermengarda,
nem foi o vento.
Fui eu.
Quis amparar a minha embriaguez na tua cruz
e rolei pela terra em que repousas
coberta de margaridas e contudo triste.
Eis-me aqui junto da tua sepultura,
Hermengarda,
para chorar o nosso amor de sempre.
Não é a noite, Hermengarda,
nem é o vento.
Sou eu.
( Ledo Ivo, Valsa fúnebre para Hermengarda.)
Publicado por morfeu às 09:06 PM | Comentários (1) | TrackBack
julho 08, 2007
O sortilégio dos livros
Pediu-me a minha amiga Pink, que escolhesse cinco livros marcantes. Fácil e difícil como poderão compreender. Assim, com a maior espontaneidade possível, ocorre-me o fabuloso "Recordação da casa dos mortos"de Dostoievski, e dele também, essa extraordinária obra "Os irmãos Karamazov".
Ocorre-me também "A casa dos espíritos" de Isabel Allende, ficcionista fascinante com uma sensibilidade transcendente .
Raúl Brandão, com "Húmus"...humildade, humanidade, terra, morte, tudo isto com a qualidade pictórica que só ele transmitia...
Como mentores da minha esquadria formal em termos de escrita - e não só - tenho sempre presente Eça, Aquilino, Camilo, Fernando Pessoa.
E...ainda o pequeno livro que na sua modéstia permitiu a impressão das divagações poéticas deste seres blogosféricos que teimam em poetar "Poesia nos Blogs"...não me conformo com a sua divulgação mínima...a capa paira em teimosa eternidade, no lado direito deste meu blogue.
Para terminar este pequeno desafio, sem qualquer obrigação, passo o "divertimento" para:
Orca
Soledad
Margarida
Valéria
...e não incomodo mais ninguém...
Publicado por morfeu às 09:17 PM | Comentários (3) | TrackBack
maio 27, 2007
E domingo, e a Procissão sg/ João Villaret.
Sendo domingo ... nada melhor para a salvação da alma do que João Villaret "dizendo" a Procissão...
(Clique na imagem para ouvir...)
Publicado por morfeu às 12:32 PM | Comentários (2) | TrackBack
janeiro 12, 2007
Palavras (e)ternamente simples...


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outubro 27, 2006
Humor de primeira água ...
...há anedotas simplesmente fabulosas e de uma oportunidade única. Pergunto-me múltiplas vezes, como é que alguém se lembra de tal criação humorística...
Pologne 1944:
>
>
>Les SS arrivent dans un village et rassemblent la population.
>
>Un jeune pretre parvient à s'enfuir mais il est immédiatement poursuivi par
>un jeune nazi.
>
>Le pretre se retrouve coincé dans une cour, plus d'espoir.
>
>Le jeune soldat vise et s'apprete à tirer quand soudain le ciel devient noir
>et Dieu intervient en criant: arrete malheureux! ne tire
>surtout pas! un jour, ce jeune polonais sera Pape! »
>
>Perplexe, l'allemand répond «oui Seigneur, et moi?»
>
>« Toi, après »
>
~~~~~~~~~~~
Os SS chegam a uma povoação e reunem toda a gente. Um jovem padre consegue escapulir-se mas é imediatamente perseguido por um jovem nazi. Fica entre a espada e a parede, num espaço sem saída. O jovem soldado aponta e prepara-se para disparar, quando, repentinamente, o céu escurece e Deus intervém gritando:"Nem penses em disparar! Futuramente, este jovem polaco será papa.Perplexo, o alemão responde:"Sim, Senhor, e o que me acontecerá a mim?"
"Tu, sê-lo-as a seguir".
Publicado por morfeu às 11:08 PM | Comentários (0)
maio 24, 2006
Jesus! Jesus! Jesus! - Morreu! - ...
Tudo neste sítio escondido está pautado do nascimento à morte. A família é sã, a casa asseada, e a mulher ouvida em todos os contratos. Não há criados, porque ninguém quer servir. (…) Quando uma pessoa está para morrer, a casa enche-se-lhe de gente: vai para lá metade da freguesia conversar e cheirar rapé. Chegado o momento trágico da agonia, uma das velhas, que rodeiam a cama como avantesmas, salta para cima do moribundo, já de olho vidrado, e abraça-se a ele, repetindo: - Jesus! Jesus! Jesus! – para espantar os maus espíritos e obrigá-los a afastarem-se do leito. E logo que diz: - Morreu! – a gritaria dos espectadores é ensurdecedora. Também, desde que a criatura agoniza, não se acende mais o lume nem se bebe mais água, que se despeja dos cântaros, para que a alma não se creste nem se possa banhar nos potes…
(“Ilhas Desconhecidas”, Raul Brandão, Círculo de Leitores)
Publicado por morfeu às 08:00 PM | Comentários (0)
maio 20, 2006
Do culto do Espírito Santo.
A única devoção do povo açoriano, ou pelo menos a mais arreigada, é o Santo Espírito, que tem por fim principal dar de comer aos pobres – culto remoto que vem do fundo dos séculos, desaparecido no continente, mas que, levado pelos colonos, perdura nos Açores.
(…)
Nas ilhas e no Brasil, todos os anos se elege um imperador para fazer a festa, que dura da Páscoa a Pentecostes do ano seguinte. Procura-o em casa a multidão e leva-o coroado e de ceptro até à igreja, onde o clero o recebe sentando-o no trono ao lado do santuário e incensando-o como a um bispo (Brasil). Este imperador dos imperadores tem, porém, uma missão que lhe impõem os pobres: dar de comer a toda a gente nos dias de festa. Às vezes arruína-se para encher os ventres insaciáveis da freguesia que o elegeu. As roscas do Santo Espírito são aos montões – levadas pelas mulheres em tabuleiros; a casa do culto é transformada em açougue. Ao lado dos carros de folhagem, dançam os foliões, de balandraus vermelhos e altas coroas na cabeça. De ilha para ilha a festa varia de pormenores, como varia no sertão. O que não varia é o seu extraordinário carácter popular. Não é o padre que celebra o culto – é o povo que o celebra, o povo grosseiro e rude, que traz para diante do Santo Espírito a Santa Matéria. O padre apenas colabora. Na Idade Média a Igreja tolerou-o e tolerou a Festa dos Loucos e do Burro, que entrava no templo de solidéu na cabeça, acabando a missa por o padre desatar aos zurros, ao que o povo respondia em coro com zurros mais altos. Só pouco a pouco a Igreja substituiu estas farsas, que em certas dioceses duraram séculos, pelo culto da Trindade, e o culto ao Divino pelo de Jesus, Maria, José…
(a continuar...)
("Ilhas Desconhecidas", R.Brandão, Círculo de Leitores)
Publicado por morfeu às 01:24 PM | Comentários (0)
maio 17, 2006
Já não suporto a existência natural...
Também só aqui entrou em mim como uma realidade o que esta palavra quer dizer; o pão. O pão é preciso arrancá-lo à pedra ou morrer no meio do oceano amargo. Tudo isto é certo – tudo isto comove – tudo isto me não basta. Sinto-me encerrado num presídio e a minha vontade é fugir: a vida monótona tem uma grandeza com que não posso arcar. Já não suporto a existência natural. Nem sequer poderia viver como os corvinos ali preso aos vivos e aos mortos, com o Tempo lá no alto a presidir a todos os actos necessários e fatais da vida rudimentar. Inúteis?... Se não fossem cristãos desatavam aos tiros uns aos outros. O problema tremendo não sai diante de mim, nu e cinzelado como o próprio rochedo. Um minuto e a morte. Um minuto sem sabor e a eternidade. Tenho a responder a diferentes perguntas…É melhor que o tempo exista ou que o tempo não exista? Suprimi-lo ou vê-lo correr diante de mim, hora a hora, como uma tragédia que não tem fim? O que vale a pena: - viver pobre e ignorado com a consciência sã ou extrair da vida todos os gozos que ela nos pode dar? Só muito tarde é que se consegue satisfazer, melhor ou pior, a estas perguntas – mas qual de nós não quereria reduzir a vida material, com os seus progressos, para aumentar a vida moral e espiritual e possuir a vida a vida interior desta gente rude? Isto é tão pequeno e tão grande que eu olho, debato-me, e debalde tento explicações.
Aqui não há desgraça – aqui não há fome – aqui não há injustiça. E, no entanto, eu não suporto a ideia de ficar no Corvo, que tem alguma coisa de monástico, de convento erguido no meio do mar. O bem talvez – a vida mais pura talvez – menos sofrimento talvez – mas também eu quero ser deus, embora me dilacere e sofra!...
(Raul Brandão, "Ilhas Desconhecidas", Círculo de Leitores)
Publicado por morfeu às 10:51 PM | Comentários (0)
maio 15, 2006
Lá vão as cores - as tintas - o doirado...

Largamos e vem a tarde, vem a noite, e o cair da noite no mar é um espectáculo trágico. Este movimento que não cessa, das ondas avançando em colunas cerradas, umas atrás das outras, sempre, põe-me diante do que mais temo no mundo – do universo como mistificação e acaso…Lá vão as cores – as tintas – o doirado… Sou aquele fragmento de tábua que as ondas levam sem destino, sempre no mesmo negrume, no mesmo movimento perpétuo e inútil… Não é só a ameaça, a grandeza da noite, do mar, das vozes; é outra coisa pior que se afirma – a tragédia do universo descarnada e posta a nu diante dos meus olhos. Com toda todas as suas complicações e os eu génio, as suas máquinas portentosas, com as suas ideias e a arquitectura que tem erguido e que chega aos céus – o homem, nestes momentos, sente que vale tanto como um cisco para esta coisa imensa e negra, para esta agitação incessante. Isto é pior que implacável, é pior que ameaçador: - não nos conhece.
(As ilhas desconhecidas, Raul Brandão, Círculo de Leitores)
Publicado por morfeu às 09:52 PM | Comentários (15)
maio 06, 2006
Elegia das águas negras para Che Guevara, E. de Andrade

(Eugénio de Andrade)
Publicado por morfeu às 12:05 AM | Comentários (1)
abril 21, 2006
Fernando Pessoa foi à aula de substituição...
…contrariado, porque d’outras coisas impedido, lá se dirigiu para a sala tal na escola tal, imaginando em angústia o que não o esperaria. De seu equipamento apenas da poesia poderia fazer uso. Será que estes artistas me vão gozar?
Apresentou-se, entre timidez e rajada impositiva, pedindo um voluntário para ir escrever algo no quadro negro. Tá queto, que ninguém se oferecia! Compreendia a timidez desta juventude que mal o conhecia e estava para ali contrariada! Em desespero de causa lá apareceu uma voluntária, cuja deslocação foi recheada de gozo perverso…
- Então vamos lá escrever, e toda a gente copia! – encorajou o Pessoa meio desacreditado!
Liberdade
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O Sol doira
Sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
Então quem é que se oferece para dizer esta poesia? Ponho aqui a cadeira à frente e o voluntário sobe para cima e “canta” de alto e com coração! – silêncio absoluto e negativo - . Então ninguém tem coragem de se oferecer? Vá lá, ponho duas cadeiras e dizem dois ao mesmo tempo! Ponho três e dizem em simultâneo! Finalmente lá surgiu um candidato e soletrou razoavelmente a dita “Liberdade”. E, porque de voluntários mais sinal não houve, Pessoa pediu: “Vamos lá a ler todos ao mesmo tempo! Um bocado contrariados, os alunos lá alinharam e acompanharam o autor – este triste – numa mais ou menos desafinada litania, em que por pouco a Liberdade deixava de existir!
- Formidável, disse Pessoa, mas vamos ter que pôr emoção nisto! –
Por exemplo: Digam lá com sentida emoção: “Ai que Prazer…” – aqui é que foi o busílis, porque das poucas tentativas, o “prazer” foi relegado para as calendas…Então ao mesmo tempo: “Ai que Prazer…”
Bem, digamos que em conclusão estas tentativas poéticas não foram tão desastradas quanto se pode vislumbrar. Toda a gente escrevey o poema, leu-o em conjunto e sabe-se lá, terá passado o resto do dia gozando com a frase: “Ai que prazer…”
Escola Tal, em Abril, sendo um professor de filosofia em desespero para substituir o colega de português, num oitavo ano de escolaridade... (Obrigado ó Fernando...)
Publicado por morfeu às 04:27 PM | Comentários (14)
outubro 14, 2005
Harry Potter...
Eu tenho lido os livros de H.Potter...tenho-lhe encontrado uma certa piada e dá para descontrair...não me abespinho com a eventual falta de qualidade literária que sobranceira e ignorantemente alguns dos nossos literatos e críticos e intelectuais atribuem a este sucesso de vendas...atribuem sem ler o que é uma coisa grave...se não lêem que estejam pelo menos calados...

...no entanto uma crítca à autora: é preciso comer um bife para segurar alguns dos livros da série. Por exemplo a "O Ordem da Fénix", andava á volta de quase 700 páginas...ora para um livro que procura essencialmente o lúdico é "tortura", e, provavelmente só gente com o traquejo de ler S.Tomás de Aquino, Kant e Hegel, etc, como é o meu profissional caso, é que se abalança - digo bem, porque ao ter de passar o livro com o seu peso de uma mão para a outra, a coisa balança - a ler estas volumosas obras....deste modo, agradeço àqueles eméritos filósofos o traquejo que me proporcionaram...assim como à minha filha adolecescente que deixa o que não lê para o devoto do pai...amém!
Ps:Afigura-se-me igualmente "misterioso" traduzir halfblood por misterioso quando o título sugere uma mestiçagem...alguém que seja perito em Inglês que me esclareça....
Publicado por morfeu às 07:16 AM | Comentários (3)
julho 09, 2005
Livrinho simplesmente Belo...sugiro

Publicado por morfeu às 08:49 PM
fevereiro 25, 2005
Sentimento de um Ocidental: Cesário Verde
O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba-me;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.
Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, Sampetersburgo, o mundo!
Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga, os mestres carpinteiros.
Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos,
Embrenho-me a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.
E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!
E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinido de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.
Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!
Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.
Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.
Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!
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II
NOITE FECHADA
Toca-se às grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O Aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de "dom"!
E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;
À vista das prisões, da velha Sé, das Cruzes,
Chora-me o coração que se enche e que se abisma.
A espaços, iluminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.
Duas igrejas, num saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela História eu me aventuro e alargo.
Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construções rectas, iguais, crescidas;
Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas,
E os sinos dum tanger monástico e devoto.
Mas, num recinto público e vulgar,
Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras,
Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras,
Um épico doutrora ascende, num pilar!
E eu sonho o Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectrais recolhem os soldados;
Inflama-se um palácio em face de um casebre.
Partem patrulhas de cavalaria
Dos arcos dos quartéis que foram já conventos;
Idade Média! A pé, outras, a passos lentos,
Derramam-se por toda a capital, que esfria.
Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir às montras dos ourives.
E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos magasins, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas delas são comparsas ou coristas.
E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; às mesas de emigrados,
Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.
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III
AO GÁS
E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arrepia os ombros quase nus.
Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.
As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.
Num cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.
E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.
Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!
Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.
E aquela velha, de bandós! Por vezes,
A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.
Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós-de-arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.
Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.
"Dó da miséria!... Compaixão de mim!..."
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me sempre esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!
topo
IV
HORAS MORTAS
O tecto fundo de oxigénio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.
Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.
E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.
Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!
Ó nossos filhos! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.
Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!
Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.
E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.
Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.
E os guardas que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.
E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!
(in:http://faroldasletras.no.sapo.pt/poesia_cesario_verde.htm)
Publicado por morfeu às 06:21 PM | Comentários (1)
dezembro 26, 2004
...a noite do oráculo...P.Auster

(…) Flitcraft é um indivíduo absolutamente convencional – um marido, um pai, um homem de negócios de sucesso, uma pessoa sem a menor razão de queixa. Certa tarde, sai para almoçar e uma viga cai de umas obras no décimo andar de um prédio e por pouco não aterra em cima da sua cabeça. Mais uns centímetros e Flitcraft teria sido esmagado, mas a verdade é que a viga não acerta nele, e, tirando um estilhaço do passeio que, sob o impacto, o atinge no rosto, Flitcraft sai do acidente perfeitamente ileso. Contudo, o facto de ter escapado à morte por um triz provoca nele um choque violento, de tal forma que não consegue deixar de pensar no caso. (…) ele sentia-se como se alguém tivesse tirado a tampa que oculta a vida e o tivesse deixado ver toda a engrenagem…dá-se conta de que o mundo não é o sítio equilibrado e ordenado que pensava que era, dá-se conta de que sempre vira o mundo completamente às avessas, de que nunca compreendera nada de nada. O mundo é governado pelo acaso. O aleatório ronda a presa que nós somos, todos os dias das nossas vidas, e essas vidas podem ser-nos roubadas a qualquer momento – por razão rigorosamente nenhuma. Quando acaba de almoçar, Flitcraft conclui que a submissão a esse poder destrutivo é inescapável, que não tem outra hipótese senão despedaçar a sua vida através de um acto sem sentido, um acto absolutamente arbitrário de autonegação. Combaterá o fogo com o fogo, por assim dizer, e, sem se dar ao trabalho de voltar a casa ou de se despedir da família, sem sequer se dar ao trabalho de retirar algum dinheiro do banco, levanta-se da mesa do restaurante, parte para outra cidade e recomeça a sua vida do zero. (…)
Paul Auster, “A noite do oráculo”, ed. Asa
Publicado por morfeu às 07:18 PM | Comentários (2)
novembro 25, 2004
Não percam esta fabulosa revista...

Interior/Exterior
“Querem ver a casa?”… para os curiosos, é uma pequena frase mágica. Nada de doentio nesta curiosidade que nos impele a saber como vivem os outros. Uma casa conta a história de um indivíduo, duma família, duma sociedade, melhor do que um longo discurso.
É por isso que, desde as primeiras páginas deste número extra, não resistimos ao prazer de vos fazer descobrir – ou redescobrir – um dos projectos fotográficos mais loucos jamais realizados. (…) é obra colectiva de dezasseis fotógrafos, explorando cerca de trinta países diferentes afim de imortalizarem famílias típicas assim como as suas habitações…”Material Worl”, título enigmático dado pelo fotojornalista americano Peter Menzel…tem já dez anos de existência, mas nem uma ruga o atingiu..
(Tradução e adaptação de Morfeu)
Publicado por morfeu às 11:34 AM | Comentários (2)
novembro 09, 2004
As pedras...os amores...sugiro...
De quando Deus faz pessoas à medida dele...
(...)
Amores e pedras
P - Cá de fora vejo-o vaidoso. Como constatação sua de capacidades, talvez.
R - Fazer uma constatação de capacidades não é estar a ser vaidoso, mas realista. A vaidade implica um hipervalorizar coisas nossas. A vaidade implica uma sensação de superioridade sobre os outros, que não se tem direito de ter. Porque depois aparece uma pessoa que faz tudo a poder de lágrimas e ais e o Adelino não é capaz de o fazer. E que lhe dá uma lição de humanidade incrível. A pessoa mais luminosa e inteligente que encontrei na minha vida foi há muitos anos numa consulta no hospital Miguel Bombarda - uma rapariga com uma depressão. Era criada de servir. Uma capacidade de"insight", uma capacidade de inteligência abstracta, de associar tempos da vida dela, espantosa. E reduzida miseravelmente à condição de serva. E ela não tinha consciência disto. Depois teve um cancro. Da mama. Não o tratou a tempo. Já só me aparecia porque eu gostava de conversar com ela. Com o marido, [que tinha] um emprego muito modesto. Com uma cabeleira postiça. Com 42 anos, morreu ela. "Gostava de viver mais uns anos..." Parecia que saía luz daquela mulher. E o Adelino saía dali, mesmo que ela não falasse, com a sensação de que de vez em quando Deus faz pessoas à medida dele.(...)
Publicado por morfeu às 09:57 AM
setembro 30, 2004
Bonjour Paresse...recomendo recensão feita por...
Publicado por morfeu às 11:40 AM
agosto 08, 2004
Yvonne Cloetta com Graham Greene, in Pública...sugiro
Yvonne Cloetta com Graham Greene
Publicado por morfeu às 11:05 AM
agosto 03, 2004
Fantasma da Ópera...sugiro
Publicado por morfeu às 09:41 AM
agosto 02, 2004
Livros...sugiro
Publicado por morfeu às 11:55 PM
julho 08, 2004
Arrábida


Publicado por morfeu às 11:08 PM | Comentários (4)
Retrato de um homem invisível, II, P. Auster
Sempre um homem de hábitos, saía cedo para o trabalho, trabalhava durante todo o dia e depois, quando voltava para casa (nos dias em que não fazia serão), dormia uma breve sesta antes do jantar. Durante a nossa primeira semana na casa nova, quando ainda não estávamos completamente instalados, o meu pai cometeu um curioso tipo de lapso.
Em vez de seguir para a casa nova depois do trabalho, foi directamente para a casa velha como fizera durante anos, parou o carro no caminho da casa, entrou pela porta das traseiras, subiu as escadas, entrou no quarto, deitou-se na cama e adormeceu. Dormiu cerca de uma hora. Desnecessário será dizer que a nova dona da casa ficou um tanto ou quanto surpreendida quando encontrou um desconhecido a dormir na sua cama. (.) A confusão acabou por ser esclarecida e toda a gente se riu a bom rir. Ainda hoje esta história me faz rir. E no entanto, apesar de tudo isso, não posso deixar de vê-la como uma história patética. Uma coisa é um homem meter-se no carro e ir para a sua antiga casa por engano, outra coisa, creio, é esse homem não reparar que alguma coisa mudou dentro dessa casa. Mesmo a mente mais cansada ou distraída possui algures um recanto de pura reacção animal e pode dar ao corpo uma noção do sítio onde se encontra. Uma pessoa terá de estar quase inconsciente para não ver, ou pelo menos para não sentir, que a casa já não era a mesma. «O hábito», como diz uma das personagens de Beckett, «é um grande anestésico». E se a mente é incapaz de reagir aos dados físicos, que fará quando confrontada com os dados emocionais?
Paul Auster
Inventar a Solidão, Asa literatura
(traduzido do inglês . ©1982 . por José Vieira Lima)
Publicado por morfeu às 07:43 PM
julho 07, 2004
Retrato de um homem invisível, P.Auster
Um dia há vida. Um homem, por exemplo, de perfeita saúde, nem sequer velho, nenhuma história de doenças. Tudo está como sempre esteve, como sempre estará. Ele passa de um dia a outro, não se ocupa de outra coisa senão dos seus assuntos, sonha apenas com a vida que tem à sua frente. E então, de súbito, acontece que há morte
Um homem solta um pequeno suspiro, afunda-se na sua cadeira, e é a morte. O carácter súbito desse facto não deixa o menor espaço ao pensamento, não dá à mente a menor hipótese de procurar uma palavra capaz de a confortar. A única coisa com que ficamos é a morte, o irredutível facto da nossa própria mortalidade. A morte depois de uma longa doença, podemos aceitá-la com resignação. Mesmo a morte acidental, podemos imputá-la ao destino. Porém, o facto de um homem morrer sem nenhuma causa evidente, o facto de um homem morrer simplesmente porque é um homem, deixa-nos tão perto da invisível fronteira entre vida e morte que não sabemos de que lado estamos. A vida converte-se em morte e é como se esta morte sempre tivesse sido dona e senhora desta vida. Morte sem aviso. O que é mesmo que dizer: a vida pára. E pode parar a qualquer momento.
(.)
Recebi a notícia da morte do meu pai há três semanas.
(.)
Durante quinze anos vivera sozinho. Obstinadamente, opacamente, como se fosse imune ao mundo. Ele não parecia ser um homem ocupando espaço, mas sim um bloco de espaço impenetrável sob a forma de um homem. O mundo fazia ricochete nele, estilhaçava-se contra ele, por vezes colava-se a ele . mas nunca entrava nele. Durante quinze anos assombrou uma casa enorme, completamente só, e foi nessa casa que morreu.
Paul Auster
Inventar a Solidão, Asa literatura
(traduzido do inglês . ©1982 . por José Vieira Lima)
Publicado por morfeu às 11:17 PM
julho 06, 2004
Karamazov...Crer, não crer...

- Sofre com quê?
- Por não crer.
- Por não crer em Deus?
- Oh, não, não, nem ouso pensar nisso! Mas a vida futura. que mistério! Ninguém sabe nada a esse respeito. (.) A ideia da vida de além-túmulo aflige-me de modo atroz, chega a causar-me pavor.
(.) Veja: fecho os olhos e medito. Se todos crêem, donde vem a crença? Afirma-se que a religião tem como origem o medo inspirado pelos fenómenos da Natureza . quando eu morrer, tudo acaba, e só «a erva crescerá sobre a minha sepultura», conforme a frase de certo escritor. É horrível! Como recuperar a fé? Aliás, só acreditei em criança, maquinalmente, sem reflectir.como convencer-me? Rogo-lhe que me esclareça, padre, porque, se deixo passar esta ocasião, não terei outra, não haverá quem me responda. Como persuadir-me? Através de que provas? Que infeliz eu sou! À minha volta ninguém se preocupa com isto, e sozinha não poderei suportar tamanha aflição.
- Mas essas coisas não se provam; temos é de crer.
- Como? De que maneira?
- Pelo amor. Esforce-se por amar o seu próximo com ardor incessante. À proporção que for progredindo no amor, convencer-se-à da existência de Deus e da imortalidade da alma. (.)
Os Irmãos Karamazov, F.Dostoievsky, Ed. Círculo de Leitores.
(cf:pgs 62/3)
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julho 05, 2004
Karamazov pai...

(.) A propósito, eminente starets, lembro-me de que há três anos prometi
a mim mesmo vir aqui informar-me e descobrir a verdade. (.) Trata-se do seguinte: algures, nos Mensários, relatam que um santo taumaturgo, mártir da fé, depois de ser decapitado ergueu a sua cabeça e, beijando-a ternamente, a segurou nos braços muito tempo. É verdade ou não?
-Não é verdade . respondeu o starets.
(.)
Os Irmãos Karamazov, F.Dostoievsky, Ed. Círculo de Leitores.
Em especial não minta a si mesmo. Quem mente a si mesmo e escuta a própria mentira acaba por não discernir a verdade, e perde o respeito por si e pelos outros. Não respeitando ninguém, deixa de amar. E para se ocupar e distrair, à falta de amor, abandona-se às paixões e aos prazeres grosseiros. Vai até à bestialidade nos vícios, e tudo originado pela mentira contínua. O que mente a si mesmo pode ser o primeiro a ultrajar-se. Às vezes sentimos certo deleite em nos ultrajarmos, não é assim? Um indivíduo sabe que ninguém o ofendeu, mas que ele próprio é que forjou uma ofensa, deturpando o sentido duma palavra, fazendo dum montículo uma montanha. Sabe-o, e no entanto é o primeiro a insultar-se até experimentar com isso grande satisfação; e por aí chega ao verdadeiro ódio.mas não esteja de joelhos, vá sentar-se. Também essa atitude é falsa.
- Bem-aventurado! Consinta que lhe beije a mão.
- Fiodor Pavlovich ergueu-se e pousou os lábios nos dedos descarnados do starets (.eremita, mestre de reconhecida idoneidade e personalidade religiosa.)
- Tem razão, insultar-se dá prazer. Nunca ouvira exprimir isso tão bem! Sim, toda a vida senti prazer com as ofensas, por estética, pois ser ofendido não só causa satisfação como chega a ser belo! Eis o que esqueceu, eminente starets: a beleza! (.) Quanto a mentir, toda a vida o tenho feito, todos os dias e a toda a hora. Na verdade, spu a mentira e pai da mentira.estou a confundir os textos.digamos, filho da mentira. (.) A propósito, eminente starets, lembro-me de que há três anos prometi a mim mesmo vir aqui informar-me e descobrir a verdade. (.) Trata-se do seguinte: algures, nos Mensários, relatam que um santo taumaturgo, mártir da fé, depois de ser decapitado ergueu a sua cabeça e, beijando-a ternamente, a segurou nos braços muito tempo. É verdade ou não?
-Não é verdade . respondeu o starets.
(.)
Os Irmãos Karamazov, F.Dostoievsky, Ed. Círculo de Leitores.
(vd.pgs, 50/1)
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julho 03, 2004
A águia aprisionada...

Durante algum tempo, também tivemos uma águia das estepes, de pequena envergadura. Fora levada para o presídio não sei por quem, ferida e em muito mau estado.
Todos os forçados a foram ver, porque já não podia voar. A sua asa direita pendia, inerte, e tinha uma das patas dilaceradas. Ainda me parece ver o ar furioso como olhou a turba reunida à sua volta. De bico adunco entreaberto, via-se que estava disposta a vender cara a vida. Depois de a termos examinado, afastou-se a manquejar, saltitando só com uma pata e agitando a asa válida, na direcção do extremo mais distante da fortaleza, onde se aninhou contra a paliçada. Passou aí três meses inteiros, sem se mexer do seu canto. Ao princípio os forçados iam vê-la com frequência e atiçavam-lhe o Gorducho. O cão atirava-se à águia com fúria, mas era evidente que receava aproximar-se demasiado, o que divertia muito os reclusos. «Que bicho!», exclamavam, cheios de admiração. «Não deixa levar a melhor sobre ela!» Mas o Gorducho foi vencendo o medo e começou a atormentá-la a valer, mordendo-lhe a asa partida. A águia defendia-se com todas as forças, com o bico e as garras, e, como um rei ferido, apoiada ao seu canto, fitava altivamente, ferozmente, os curiosos. Por fim os forçados cansaram-se do espectáculo, abandonaram-na, esqueceram-na. No entanto, todos os dias se via junto da águia um pedaço de carne fresca e uma gamela de água: alguém se preocupava, apesar de tudo, dela. Durante alguns dias recusou-se a comer, mas depois passou a aceitar a comida, embora nunca das mãos de ninguém ou na presença fosse de quem fosse. Observei-a de longe, mais de uma vez. Julgando-se só, decidia-se a sair do seu canto e a manquejar uma dezena de passos, ao longo da paliçada, e a voltar, como se se tratasse de um passeio higiénico. De me descobria, precipitava-se, a manquejar cada vez mais, para o seu canto e, de cabeça erecta, bico aberto e plumagem eriçada, preparava-se para se defender. As minhas carícias foram inúteis. Nunca consegui domesticá-la: picava, debatia-se, recusava tocar na carne que lhe estendia e não deixava de me fitar com os seus olhos ferozes e penetrantes. Rancorosa e solitária, aguardava a morte, mas continuava a desafiar toda a gente, mantinha-se irreconciliável. Por fim, passados dois longos meses de esquecimento, os forçados lembraram-se da sua existência e o seu interesse revelou-se de uma maneira inesperada: combinaram soltá-la.
- O pobre bicho parece-se connosco! . exclamou um deles.
- Caramba, descobriste isso sozinho! No entanto, ela é um pássaro, enquanto nós.nós somos pessoas!
- A águia, meus filhos, é a rainha das florestas. - começou Skuratov, mas daquela vez ninguém estava de maré para o ouvir.
Uma tarde, quando o tambor rufou a anunciar a partida para o trabalho, apoderaram-se da águia, fecharam-lhe o bico com a mão, pois parecia disposta a debater-se e a picar, e levaram-na para o parapeito da fortaleza. Os doze forçados do pelotão estavam muito interessados em ver para onde iria. Caso singular, rejubilavam como se fossem eles que tivessem sido libertados!
- Oh, a maldita, queremos-lhe bem e ela morde-nos! . exclamou o que a segurava, contemplando quase com amor a feroz ave.
- Larga-a, Mikitka!
- Nem o diabo a conseguiria segurar! Quer a liberdade, a bela liberdadezinha!
Atirou-se a águia do alto do parapeito, para a estepe. O Outono chegava ao fim e o dia estava frio e cinzento. O vento assobiava nua e gemia entre os fetos altos e a erva ressequida. A águia afastou-se a direito, batendo a asa doente, como se tivesse pressa de fugir para o mais longe possível. Os forçados seguiram curiosamente a direcção da sua cabeça, que emergia por cima da erva.
- Já viram aquilo, hem? . murmurou um deles, melancólico.
- Julgavas que retrocederia para te dizer obrigado, não? . troçou outro.
- Sente a liberdade, adivinha o espaço!
- Sim, a liberdade!
- Já não se vê.
- Eh, vocês aí, que esperam? A caminho! . gritaram os soldados, e os forçados dirigiram-se, em silêncio, para o trabalho.
Fedor Dostoievski. .Recordações da casa dos mortos.. Edit. Europa-América
Publicado por morfeu às 10:54 PM | Comentários (4)
julho 02, 2004
Os gansos do presídio foram degolados...

Foto: normazaro
Os nossos gansos tinham-se instalado na fortaleza por acaso. Quem os criara? A quem pertenciam, na realidade? Não sei bem, mas durante algum tempo divertiram os forçados e deram que falar até na cidade. Nascido no presídio, tinham-nos deixado crescer numa das cozinhas. Já adultos, habituaram-se a acompanhar-nos, todos, à corveia. Mal o tambor rufava e os forçados formavam, os nossos gansos corriam para eles, a grasnar e a tufar as penas. Saltavam, uns atrás dos outros, a soleira alta da poterna e iam, açodados, colocar-se à frente da fila, onde aguardavam os preparativos da escolta. Partiam sempre com o contingente maior e, durante a corveia, debicavam nas imediações. Quando os forçados se preparavam para o regresso, juntavam-se-lhes de novo. Espalhara-se por toda a parte a notícia de que os forçados iam para o trabalho acompanhados de gansos, e os transeuntes, vendo o estranho grupo, diziam: «Olhem, os presos e os seus gansos! Como os conseguiram criar?» E outro acrescentava, estendendo-nos uma esmola: «Tomem, para os gansos.» Mas, apesar da sua dedicação, foram todos degolados sem piedade, no fim da Quaresma.
Fedor Dostoievski. .Recordações da casa dos mortos.. Edit. Europa-América
Publicado por morfeu às 11:43 AM
junho 30, 2004
Viva São Pedro!

O meu irmão Z. enviou-me, timoratamente uns contos que tem andado a esconder...tomo a liberdade de lhos roubar...
Aqui vai o primeiro...
VIVA SÃO PEDRO!
Hoje é dia de S. Pedro... e, já agora, também de S. Paulo, embora pareça que deste ninguém se lembra!
Mas o que é que isto tem de especial? Acho que nada, se pensarmos que todos os dias têm um Santo, ao qual podemos dedicar as nossas preces.
Mas, como há Santos que mais santos são do que outros, a verdade são que S. Pedro entra no rol dos que foram privilegiados pela memória popular.
Então, para mim, o S. Pedro supera todos, mesmo o S. António e o S. João, apesar dos festivais de sardinha assada e outras folias que estes últimos nos trazem, sem falar nuns feriaditos, pois claro!
Volto à carga: - para mim o Santo dos Santos é mesmo o S. Pedro e desta não abdico.
Porque me recorda tantas coisas e foi fonte de inspiração para algumas decisões, talvez controversas, mas que não houvera tomado se o santinho não me viesse à cabeça!
Miúdo de escola, do velho Vilar Formoso . o do Povo pois a Estação é outra coisa . era neste dia que todos os anos se fazia uma espécie de tourada, com .touros. especialmente vindos da planície adjacente, de terras de Castela, dos pastos de Ciudad Rodrigo ou coisa semelhante, de ali bem perto com certeza.
Então, nós os miúdos colaborávamos, com a nossa fraca força braçal, no transporte e colocação dos carros de bois que iam servir de delimitação da praça e era uma festa ir buscá-los aos currais e ver os mais graúdos dirigir as operações, de forma superiormente estratégica!
No dia da tourada e de S. Pedro, os mancebos montavam, de noite, os seus cavalos e ala que aí vão eles, transpondo a fronteira e .roubando., pela calada da noite, uns touritos distraídos nos pastos de Castela e que, mais tarde, iam devolver!
Destarte, de manhã já os animais ruminavam, no artesanal curro da praça, que raio de coisa estavam alí a fazer, pois nem lhes cheirava a existência de Manoletes por aquelas bandas!
Mas a festa fazia-se na mesma, com os amadores que às donzelas . naquele tempo havia, julgo eu . mostravam a sua viril coragem, enquanto estrelejavam foguetes e a banda tocava.
Entretanto, a miudagem metia-se debaixo dos palanques, formados por tábuas intervaladas, em ousadas tentativas de assim vislumbrar umas nesgas das pernas das raparigas.
A brincadeira às vezes saía cara, pois, no dia de escola seguinte, era sabido que nos esperavam umas palmatoadas, porque as visadas iam fazer queixinhas ao Sr. Professor, quando não também ao Sr. Abade... o que dava direito primeiro a uma lambada e depois a uma severa confissão, com ameaça de inferno e tudo!
Eu não era dos que mais prevaricava, não senhor, tanto mais que, nesse dia, sentia que tinha um encargo especial, que era o de .vigiar. as andanças do avô Jaime, .el guardita retirau. como ele bonacheirosamente gostava de se intitular.
Esse era o dia por ele escolhido para a bebedeira-mor do ano, ele, coitado, que tinha duas mulheres sempre a controlar todos os seus actos e todos os seus míseros tostões (A mulher e a filha, que Deus lhes perdoe e lhes dê eterno descanso).
Mas, nesse dia, não havia grilhetas que o impedissem de proclamar a sua liberdade e afundar as suas mágoas nos copos das tabernas, recordando-me que, ao tempo, existia uma logo abaixo do adro da Igreja.
Eu ficava apavorado, tentava demovê-lo, arrastá-lo até para casa, mas não havia força que o impedisse de assim comemorar o S. Pedro!
Daí que, com os copitos, revia-se nos tempos de garboso mancebo . e ele era garboso e são e meigo e jovial e melancólico, tudo ao mesmo tempo e especialmente de uma envolvente doçura . e ei-lo a entrar na praça, a tentar sortear o touro, enquanto eu o agarrava desesperadamente o melhor que podia!
Era uma festa, o S. Pedro e um dia de grande responsabilidade para mim, podem acreditar!
E que saudades sinto hoje desse .guardita retirau., que gostava de saber como ia o mundo e as suas guerras e que, por isso, tantos jornais enviei (mesmo muito atrasados), já nos meus tempos de jovem .lisboeta., que tanto prazer me dava quando me pedia, nas férias, um cigarro de .cu aberto.! E eu que já não consigo lembrar-me de que raio de cigarros se tratava!
Pois era assim o S. Pedro, em Vilar Formoso, com a banda a desfilar pelas ruas, com intervalos para molhar a palavra . recordo-me de o fazerem também na casa da tia Olinda, apesar de tão humilde . eu a correr atrás das canas... etc. etc. etc.
Sinto saudades, feitas de uma mistura de momentos felizes com outros que me recordam uma infância vivida um pouco ao Deus dará e por isso pouco alegre.
Muitos outros S. Pedros se seguiram, perdi o rasto aos festejos de Vilar Formoso, nem sei sequer se ainda é dia comemorado.
As touradas serão outras, provavelmente, com bimbalhadas à maneira ....
No entanto, o S. Pedro não deixou de ser motivo inspirador.
Daí que tenha estado na génese de uma .façanha., passe o termo, vivida há precisamente 37 anos em terras da Guiné (Vejam lá como já vai vetusta a minha idade
Z...
Publicado por morfeu às 06:51 PM | Comentários (5)
junho 29, 2004
Da casa dos Mortos, Recordações...
O Cambaio possuía um temperamento muito diferente. Não sei porque o levei para o presídio, um tarde, ao regressar da oficina onde ele nascera.
Sentia prazer em alimentá-lo e criá-lo. O Gorducho tomou-o logo sob a sua protecção e passou a dormir com ele. Com o tempo, consentia, até, que lhe mordiscasse o pêlo e as orelhas e brincava com ele, como o cães grandes costumam brincar com os cachorrinhos. Coisa estranha, o Cambaio quase não crescia em altura, mas somente em comprimento e em largura. Tinha um abundante pêlo cinzento, uma das orelhas pendentes e a outra erecta. Parecia-se com todos os outros cães novos que, alegres por verem o dono, desatam a ganir, a saltar para lhe lamberem a cara, a alardear diante dele todo o seu ardor e entusiasmo: «Desde que a minha alegria não passe despercebida, as conveniências não contam!» Fosse onde fosse que me encontrasse, se chamasse o Cambaio, ele aparecia logo aos saltos, a ganir desalmadamente, e atirava-se a mim, como uma bola a saltar e a ressaltar no caminho. Tomei-me de grande afecto pelo monstrozinho, a quem a sorte parecia ter criado somente para a vida boa e a alegria. Mas um belo dia, por infelicidade sua, despertou a atenção especial do forçado Nieustruiev, que fazia sapatos de mulher com peles por ele curtidas. O nosso homem chamou o Cambaio, apalpou-lhe o pêlo e afagou-o a contrapelo.Sem desconfiar de nada, o Cambaio gania de prazer. Na manhã seguinte desaparecera! Procurei-o por toda a parte, sem o encontrar, e só soube a verdade passados quinze dias. A pele do Cambaio agradara muito a Nieustruiev, que o esfolara para forrar, com ela, uma botinas de veludo encomendadas pela mulher do auditor do conselho de guerra. Mostrou-mas, quando as acabou. O seu interior era uma maravilha. Pobre Cambaio!
Fedor Dostoievski. .Recordações da casa dos mortos.. Edit. Europa-América
Publicado por morfeu às 12:48 AM
junho 28, 2004
Agustina e a Natureza Humana, in Público...sugiro
Publicado por morfeu às 10:08 PM | Comentários (2)
maio 28, 2004
...e viram como os oito mastins esburgavam os ossos de...

Sugiro que se leia a entrada de 25/05, "Assar-lhe até a memória"
Nicolasa chorou um mês seguido antes de se convencer que a sorte dos amores é efémera. Manolo Cabra, garantira o Padre Mestre, andava a monte e planeava fugir para o Brasil.
Este Elias Padre Mestre, primo dos padeiros de Casdemundo, era funcionário menor na secretaria do tribunal de Ourense e aproximadamente o único de todos os Dorribos do município de Pereiro de Aguiar que sabia mais alguma coisa do que ler, escrever e contar, o que lhe valia uma aura inexpugnável de bacharel. A sua ciência formara-se em três anos de seminário, onde aprendera o castelhano da burocracia e a disciplina das putas ao fim-de-semana. Acabava de compor a figura jogando naipes como ninguém. (.)
Pejerto acordou-o a meio do sono com a história do andaluz. O Padeiro Velho pedia conselho.
(.)
O ex-seminarista vestiu-se e desceu à rua. Pejerto, um gigante de modos tímidos, torcia a boina, não atinando com a melhor maneira de relatar aquela estupenda vingança. Por fim experimentou:
«O primo havia de ver como foi.»
«Como foi o quê?»
«O Ruperto. Matou o Cabra.»
(.)
Era então assim: o andaluz, um Manolo Cabra ganhão e músico, metera-se com Nicolasa, e o irmão Ruperto levara tão a mal que lhe tinha feito uma espera, derrubando-o a golpes de foicinha.
«Onde o enterraram vocês?», perguntou Elias.
«Não enterrámos», disse Pejerto com a sua voz escura. «O Padeiro Velho ficou a assá-lo no forno.»
Dagoberto, o do meio, trinchara a cabeça do ganhão e lançara-a na nitreira depois de a esmigalhar à pazada. A ele, o mais novo, haviam-no despachado para o Pereiro a falar com o primo. Fazia-se luz no entendimento do homem dos tribunais: Ruperto Dorribo queria ganhar tempo à justiça ou mesmo impedi-la de se pôr em marcha.
O Padre Mestre devia tantos favores ao Padeiro Velho que não se lembrava de nenhum em particular, mas eram pesos de balança na sua consciência. Teve uma súbita inspiração:
«Vais contar que ele anda fugido. Dizes ao teu irmão Ruperto que é o que consta aqui no Pereiro: o tipo sonha escapar-se para o Brasil, onde tem parentes. Mais logo apareço em Casdemundo. Quando o bicho estiver na mesa.»
Pejerto carregou esta informação com o mesmo desvelo que empregaria em transportar um favo de colmeia. Ruperto e Dagoberto fizeram-no repetir as palavras do primo Elias, depois sentaram-se cada um no seu mocho e viram como os oito mastins esburgavam os restos dos ossos de Manolo Cabra, amante atrevido. Pejerto continuava a pensar que teria sido bonito capar o morto.
À tarde chegou o Padre Mestre, com a gola da jaqueta besuntada de suor e creme para o cabelo e um Farias aceso na boca. Dagoberto foi buscar as taças mais o pichel.
«Quer o primo dizer», disse Ruperto, «que o malvado se safou sem a gente lhe dar umas boas porradas.»
«Não tarda está a escrever de lá, só para se gabar que é esperto», confirmou o Padre Mestre.
Foi exactamente assim que o termo de Pereiro de Aguiar apagou da lembrança Manolo Cabra, fornicador de donzelas, e ágil tocador de concertina. Por altura do Advento, devidamente instruído pelo Padre Mestre, um paisano respondia da cidade da Bahia de Todos os Santos a dar novas do foragido: sob suspeita de ser o receptador de uma quadrilha crioula que começara a operar na Rua Chile e imediações, prejudicando a praça comercial, fora detido, interrogado e intimado com uns croques a exilar-se para as terras do cacau, onde faziam lei os jagunços do coronel Ramos Amado. O seu rasto perdera-se em Auricídia.
Nicolasa, que já secara a torrente das lágrimas, tomou-se de brios e no Entrudo desposou um vizinho afiador que seis semanas depois partia para Portugal, deixando-a grávida de Benito.
Fernando Assis Pacheco, "Trabalhos e Paixões de Benito Prada" - Asa Edições
Publicado por morfeu às 11:18 PM
maio 20, 2004
Oração Popular de Quinta-Feira da Ascensão
Levantei-me de madrugada
Para varrer meu balcão
Apareceu-me Nossa Senhora
Com o cordão d.oiro na mão
Pedi-lhe uma folhinha
Ela me disse que não
Eu lha tornei a pedir
Ela me deu seu cordão
As pontas que cresciam
Chegavam até ao chão
Nossa Senhora mo deu
Em Quinta-Feira de Ascensão
Portugal (Oração popular da Quinta-Feira da Ascensão)In Rosa Do Mundo . 2001 Poemas para o Futuro
Publicado por morfeu às 12:11 AM
maio 10, 2004
Escovei o cabelo 100 vezes antes de me deitar...sugiro
Escovei o cabelo 100 vezes antes de me deitar
Publicado por morfeu às 01:14 PM | Comentários (1)
abril 25, 2004
História Perversa do coração...

Le Lai de Ignaure narra a trágica história da vida e morte de um cavaleiro, Ignaure, e dos seus amores. Ignaure vive no castelo de Riol e apaixona-se por doze senhoras casadas que também aí moravam, com seus maridos. Certo dia, as damas resolvem jogar um jogo e escolhem uma, entre as doze, para fazer de padre a quem as restantes confessarão o nome do seu amante secreto. Uma após outra, pronunciam o nome do seu amado e todas nomeiam Ignaure. Descoberta a identidade do único amante secreto, as damas da corte decidem vingar o seu amor e preparam uma armadilha para Ignaure. Todas concordam em participar no que se adivinha vir a ser uma vingança cruel e sangrenta. Por fim, chega o dia em que Ignaure cai na armadilha e é cercado por doze mulheres em fúria empunhando facas afiadas. Porém, graças ao seu belo porte e inteligência, Ignaure consegue escapar à morte. Primeiro confessa amar de igual modo cada uma das doze damas e depois vê-se obrigado a escolher uma delas. Ignaure escolhe a que fez de padre, a mesma que propôs aquele desfecho para o dilema. Pouco tempo depois, um espião descobre o segredo de Ignaure e conta toda a história aos maridos, que, por seu turno, decidem levar a cavo a sua própria vingança. Um dia surpreendem Ignaure com a dama que escolhera e prendem-no numa cela do castelo. Após deliberarem um pouco, os maridos decidem servir às esposas o coração e o pénis de Ignaure. Ao saberem do trágico destino de Ignaure, as mulheres recusam-se a comer e morrem.
(Sinopse de texto original do sec.XIII, in .História Perversa do Coração., terramar.)
«Disseram os maridos:.Estas rameiras ignóbeis juraram nada comer até se saber se ele deve morrer ou escapar. Dentro de dias tomar-lhe-emos o quinto membro, que tanto prazer lhes deu! Com ele lhes prepararemos uma refeição. Juntar-lhe-emos o coração e encheremos os seus doze pratos. Com astúcia, as faremos comer tal manjar, pois não haverá vingança maior do que esta.. Todos aprovaram o plano: o bom cavaleiro seria castrado.» ( Vv.537-550)
«Quando o coração delas se recompôs, rogaram aos seus maridos que lhes dissessem com toda a certeza, por amor de Deus, se Ignaure estava livre do cárcere. Aquele que o houvera surpreendido em sua casa respondeu: .Senhora minha que haveis sido o padre, vós que fostes sua amante haveis comido o objecto que tanto prazer vos deu, que vos faça bom proveito, pois jamais desejareis outro! Para acabar, vo-lo servimos! Vosso amante matei e destruí. Todas vós haveis comido a iguaria pela qual as mulheres salivam. Satisfez a vós doze, a guloseima que servimos? Assim nos vingámos bem da vossa desonra.. ( Vv.560-575)
Beaujeu, Renaut de: Le Lai de Ignaure, ed. Rita Lejeune, Bx. 1938.
Publicado por morfeu às 06:01 PM | Comentários (1)

