março 23, 2009

Transitório...in manus tuas...

...ao longo destes caminhos com sombra e sol, vou vendo as pequenas coisa que por aí estão...penso e sinto o transito desta vida, ainda com medo, iludo-me pacificamente, querendo estender a mão para algo, dizendo-me que estou e não estou só.
Repito ao longo da minha marcha, "In manus tuas dominus, commendo spiritus meus", intermediando com, "Veni sancte spiritus"...e vou assim enchendo o peito com fés estranhas e teimosas, não sabendo se o meu pé resvalará no próximo passo...
...."sigamos frágeis, despreocupados, ingénuos, absortos, sem qualquer preocupação que não seja, já não descobrir o truque de «ter Deus», mas sentir o bálsamo da sua constante presença dentro do peito"...( eu tento irmão Paulo...)

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janeiro 24, 2009

No clicar dos Poetas...l

...clicar no poeta mensagem de correio agora virtual não temendo desagrado deles que espalham assim almas eles...

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novembro 10, 2008

Lembras-te das duas cabras?

A aldeia das 2500 cabras

O meu avô tinha duas cabras
que o acompanhavam na reformada e conformada
solidão
e mais uma burra que de manhã
seguia leve
à tarde volta coroada na albarda antiga
de gravetos essenciais
à pobreza e ao frio
O meu avô tinha duas cabras
vivas seguiam como estas mil
de milénios descendente
e eu bebia desse leite forte
que as cabras comiam pelos campos
eu comia desses campos dessas planta rudes
espinhosas
que eram irmãs do meu avô e da sua solidão
quando vejo agora estas cabras
por entre elas vejo a figura dele
barba por fazer farnel mínimo
varapau para os lobos que os havia
a burra instável mas diária
O meu avô as cabras e a burra
...eu consigo ver.

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agosto 23, 2008

O Meu Gato Jeoffrey...

O Meu Gato Jeoffrey (por Christopher Smart)

clip_image002.jpg
gato na neve * JResende

Porque eu agora vou falar do meu gato Jeoffrey.
Porque ele é o servidor do Deus Único, servindo-O todos os dias devotamente.
Porque se encontra uma gata beija-a com delicadeza.
Porque quando agarra a presa brinca com ela para lhe dar uma hipótese.
Porque um em cada sete ratos acaba por safar-se com isso.
Porque é o sentinela de Deus vigiando de noite o Adversário.
Porque neutraliza os poderes da escuridão com o seu pêlo eléctrico e os seus olhos luminosos.
Porque na sua oração da manhã adora o sol e o sol adora-o a ele.
Porque o querubim-gato é uma extensão do anjo-tigre.
Porque nada estraga, se estiver bem alimentado, e só se assanha quando é provocado.
Porque ronrona de gratidão quando Deus lhe diz que é um bom gato.
Porque é a maneira das crianças aprenderem a benevolência.
Porque sem ele falta qualquer coisa a uma casa, falta à sua alma uma benção.
Porque Deus ordenou a Moisés que levasse os gatos quando saísse do Egipto com os Filhos de Israel.
Porque é tenaz a lutar pelas suas causas.
Porque é um misto de gravidade e divertimento.
Porque sabe que Deus é o seu Salvador.
Porque não há nada mais encantador do que a sua paz quando descansa.
Porque não há nada mais activo do que a sua vida quando em movimento.
Porque ele pertence aos protegidos de Deus e por isso ser-lhe-á concedida benevolência perpétua – Pobre Joffrey! Pobre Joffrey! O rato mordeu-te o pescoço...
Porque é dócil e há coisas que pode aprender.
Porque fica assim com aquela gravidade que é a soma da paciência com a aprovação.
Porque leva e traz coisas, a melhor maneira de aplicar a paciência.
Porque a uma ordem dispara que nem uma seta.
Porque salta de qualquer lado para o peito do dono.
Porque fez excelente figura no Egipto no sector das transmissões.
Porque é capaz de dançar conforme a música.
Porque sabe nadar se é para salvar a vida.
Porque sabe rastejar.

Porque é odiado pelo hipócrita e pelos miseráveis.
Porque os primeiros temem ser descobertos.
Porque os segundos não aceitam desafios.

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julho 31, 2008

...o que de belo por acaso se encontra...tocante.


Mélina Mercouri Athène ma ville
Colocado por modinelly

...por aqui ao acaso do tempo
dos tempos que dividem o deambular em dia cinzento
sonho o Outro o Além em testemunho de voz
de céu ares cores e coisas várias
por acaso encontro neste viajar fortuito
ah a cidade o tempo os seres e as coisas
a brisa da História fazendo-se música em túnel
de cordas de onde o som brota
a voz
a mulher
o sentir
...por aqui por acaso deixo
como pegada em areia molhada
deixo...

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maio 05, 2008

Parede com ecos de grito e de fúrias...

Para onde dirigir este grito silencioso
Esmagado por um vazio de referência
Para o paradisíaco Alto ou
Para os subterrâneos misteriosos
Metafóricos ambos
Como gritar o silêncio mantendo a reserva
O pudor do privado a dignidade de não maçar
Incomodo-me de facto a mim próprio
Destruo dentro de mim todo o pudor
As palavras saem em constrangimento
Envergonhadas como pedindo desculpa
Pelo seu aparecer
Penso que elas as palavras
Quererão apenas um vislumbre de importância
Depois morrerão inexoravelmente como tudo
Como todos
Já não se grita nestes tempos de forma normal
Espezinham-se vezes sem conta as fúrias de tranças enormes
Aposta-se no sombrio no triste
Ao grito colo um riso em esgar inútil
Enquanto palavras se agitarem nos túneis do pensamento
Aí chegando do labirinto do sentir
Enquanto…
Visitarei a luz possível
Esgrimindo solidão incompetência covardia
Pois é
Esta coisa de gritar é
Desagradável necessária inútil fugaz
Cheia de pequenas pontas que se agitam
Quem aqui chegou possui uma tranquilidade
Divina
Ou uma curiosidade estranha que é a de decifrar
Símbolos que se perderão no ser da eternidade
Ah estes gritos estranhos estas fúrias de tranças
Estas sombras que teimam em ser
Parecendo outra coisa qualquer
Ah esta fúria do grito abafado
Este incómodo esta inquietação
Este forçar o outro a olhar o som
Intragável das entranhas viscerais que se revolvem
Se revoltam expelindo sentires estranhos
…uma parede enorme fabrica o eco adequado

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abril 25, 2008

Data Abril ...

Data Abril em sol luminoso
Escondido que andava simulando receios
Que os há
Por forças claras ou menos
Irrompeu dia de clareza de céu
Em azul imenso
Data Abril de sol luminoso
As palavras que se disseram na obscuridade
Dos dias que ainda nos são próximos
Sofrem a lavagem do canto dos pássaros
Que continuam por aqui insistindo
Como se fossem Sísifo
Rolando a sua voz em melodias por vezes tímidas
Forço-me este dia eu sei
Como se ele não fora de lutas
De esforço de guerras
Aqui está em toda a sua força
Senão nas almas censuradas
Pelo menos no clarão de cor e luz que teima
Numa lembrança que a própria Natureza aprisionou
Em liberdade
…data Abril vinte e cinco em dois mil mais oito

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abril 18, 2008

Também aí está fábrica de poesia...

house-window-stack.jpg

De muito de manhã cedo de ar e luz
Olho para fora de mim pela minha janela
E busco nas coisas simples que pairam por aí
Em tempo e espaço dançarinos
O halo inspirador
Digo poesia do verde de uma sebe e do jasmim
Digo do cinzento do dia e da chuva persistente
De fora de mim vem todo um mundo de poesia
Se me virar entretanto de costas para mim
Fico desse outro lado que sinto e sinto então
Pela janela de mim
O mundo outro que sou eu
Tento olhar-me e sentir-me
Também aí está fábrica de poesia
Muita diversa colorida ou não
Fora dentro fora
Afinal apenas uma janela entreaberta
Por onde vai e vem
Uma qualquer alma alimentada
De anonimato
…instáveis estas janelas de mim

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março 31, 2008

As flores da cerejeira já começaram a abrir

MVC-166F.jpg

Dizes de sorriso aberto
Ah esses lábios em carne viva
Quando dizes as flores da cerejeira
Já começaram a abrir
E abres também os braços
Como se quisesses abraçar o tempo
O momento a brisa ainda fresca
Sorris dos olhos e o seu brilho
Toca-me como punhal de ternura
As flores da cerejeira já começaram a abrir
Se procuro a felicidade em momentos
Eis uma oportunidade
O sorriso amplo da árvore pelas suas vivas flores
O teu sorriso entreaberto nos lábios em carne viva
A luz do teu rosto sorrindo também
Ah esse punhal de ternura que me atinge
Dizes-me que as flores da cerejeira já começaram a abrir
Olha para mim então e força-me a acreditar
Se me disseres em toda a sensualidade
As flores da tua alma meu amor querem abrir
Olha olha já estão a abrir…
E tu nesse teu gesto esvoaçante
Em vestido tecido a transparência
Deixas o sol tornar-te translúcida
E dizes-me adeus nessa litania insistente
De
As flores da cerejeira já estão a abrir…

Publicado por morfeu às 12:27 PM | Comentários (3) | TrackBack

fevereiro 26, 2008

Sphaera Mundi

Pode a ciência cantar...emocionante...

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fevereiro 25, 2008

A coragem de se dizer

...após ausência seria propício dela falar. No entretanto outras coisa acontecem mais fortes. Pelas escolas os nossos jovens sofrem e colhem único conforto na palavra amiga, no gesto, no tudo o que se possa, dos professores...dedico a P. expulso pelos próprios pais de casa, pelo facto de ser sincero...

Pergunto-me onde as palavras
Uma ausência longa branca acetinada
Podiam ser de mim quando a vaga se esmaga na praia
Pode de mim ser esta fuga das palavras
Assim
Tentar dizer o não dizer
Nesta convulsão que a vida é
Por vezes vagas múltiplas se emaranham
Umas mais fortes outras mais suaves aparentemente
Gritou lá em casa
Eu sou assim tenho estes desejos
Em gritos responderam
Eram os seus pais os dois
Sais de casa não podes ser assim com esses estranhos loucos
Saiu uma primeira vez e embora mais tarde voltasse
Nunca mais voltou a partir desse primeiro dia em que partiu
Os gritos voltaram frequentemente
A solidão o esquecimento o insulto
Toda a aldeia sabendo dos seus sentimentos não normalizados
Gritados vejam só pela própria mãe
O meu filho é maricas não o quero cá em casa
E foram dias e dias em escuridão afectiva
Perdido dos sentimentos e do mundo
Duas e três pessoas sabiam do seu segredo de ser diferente
Das edições afectivas originais e normais
Maricas panasca homo gay tudo isso foi gritado
À rosa dos ventos como se fosse pecado
Sendo o pecado da recusa dos próprios pais
Ontem ao chegar voou em gritos um saco com roupa pouca
Saindo da porta principal uma espada flamejante
Apontando o inferno da solidão dor esquecimento
Ele que tivera a coragem de se dizer
Dizer quem era
Era gay era homo e não podia
P. amigo meu caro tens mãos estendidas
Para nós és apenas P. um ser humano

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dezembro 24, 2007

Poema exterior de Natal

Este ano excepcionalmente não surge
A musa propicia
Para um poema de Natal
O exterior vinga-se em luzes
Em cheiros sons e muito
Do que recebo
Diz-me o nome de Jesus-menino
Tenho o tecto o calor
A comida tradicional
Ali está o bacalhau com um
Verde de couve divino`
Couve-penca que nome
Não sei se no paraíso elas as couves cresceram bem
Por aqui o gesto solidário das gentes
Simples do campo
O azeite arregala o olho em fio
Então o poema que não é poema dos bons
Dos doridos dos substanciais
É isto apenas
Aqui estou com gente
Que sorte a minha
E as rabanadas riem-se à socapa
Pensando que se vão escapar
Ficando pelo dourado da sua actuação
Poema então todo ele exterior
Aqui fica um bocado ao calhas
Cantando

Bom Natal

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dezembro 22, 2007

Um ainda não é Natal para quem tenha tempo ...

não são fáceis as palavras para do Natal falar
em nós estão mas não claras
em trambolhão constante do melhor e do pior
do feliz e do infeliz
do roto do pobre do nu do rico
não são fáceis as palavras em tempos de natal
elas estão aí apesar de tudo
em mentes corajosas que teimam
em ver estrelas no horizonte
e querem ser magos reis que se desprendem
e voam de seguida para as seguir
encontrar a estrela o seu rasto
que seja esse o caminho do natal
do nosso ou de quem o quiser
não são fáceis os tempos para as palavras
do natal falarem

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dezembro 19, 2007

La musica e la sua voce entravano dentro il cuore...

Não sei ou quero explicar a minha ausência
Que anda por aí meia perdida
Suplicando o afago do vento banho de chuva
A catarse da tempestade
Meu amigo longínquo que sofres
E que queres a música no teu coração e
No sofrimento persistente cantas com essa voz
Que emigra de ti dentro
Não explicar a minha ausência
Estar por aqui e saber-te em canto solitário
Porque só tu vives verdadeiramente essas
Dores sarcásticas que a existência se consola em
Nos oferecer
Tens a música a voz o canto
E em gesto de escusa
O pouco das minhas palavras
Um abraço

(...a frase-título deste poema existe na apresentação de um dos meus contactos de hotmail e é pertença de um amigo virtual que reside em Itália, e que tem sido atingido por doença grave...)

Publicado por morfeu às 09:47 AM | Comentários (1) | TrackBack

La musica e la sua voce entravano dentro il cuore...

Não sei ou quero explicar a minha ausência
Que anda por aí meia perdida
Suplicando o afago do vento banho de chuva
A catarse da tempestade
Meu amigo longínquo que sofres
E que queres a música no teu coração e
No sofrimento persistente cantas com essa voz
Que emigra de ti dentro
Não explicar a minha ausência
Estar por aqui e saber-te em canto solitário
Porque só tu vives verdadeiramente essas
Dores sarcásticas que a existência se consola em
Nos oferecer
Tens a música a voz o canto
E em gesto de escusa
O pouco das minhas palavras
Um abraço

(...a frase-título deste poema existe na apresentação de um dos meus contactos de hotmail e é pertença de um amigo virtual que reside em Itália, e que tem sido atingido por doença grave...)

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dezembro 05, 2007

Ah esta coisa extraordinária de poder ser feliz...

Ah esta coisa extraordinária de poder ser feliz
Mesmo no seio de uma Tristeza triste
Estar de mal com as coisas e
No levantar da manhã arrastar mágoas anónimas
Estas insinuam-se e
Vou passeá-las pelos trilhos com pedrinhas e valas com água
Que corre
Dos lados as árvores pacientes brisam consolos suaves
Parto com coração partido nostálgico inclassificável
De mal com as coisas como acima dizia
Chego tendo na boca o refresco do vento
E na alma algures verdes de campo sabor de planície
Esta simplicidade das coisas das pessoas poucas
Que encontro em rotina de acariciar os campos
Ajardinando-os com a necessidade de couves nabiças
Um poço com nora velha teima em desaparecer
Comido pelo tempo das silvas empreendedoras
Ah esta coisa extraordinária de afrontar o Tempo
A idade passando do incompreensível
À razoável amizade com as coisas e os seres
O gato atravessou a rua uma velha louca recém viúva
Passeia na rua como se tivesse atingido uma felicidade exclusiva
No café bebem-se bagaços e tabaca-se
Há cheiros há seres há coisas
Ah esta coisa extraordinária de poder ser feliz
Ele há coisas…

Publicado por morfeu às 11:30 AM | Comentários (3) | TrackBack

novembro 29, 2007

Não sabes aquietar a tua alma

Salreu21-04-2005_029_t.jpg
foto daqui

Não sabes como aquietar a tua alma
Mas sabes caminhar ir pelos campos
Envolves-te na brisa afagante do junco
Olhas o resto do arroz outonal
Não sabes como aquietar a tua alma
Mas passo a passo marcas um trilho teu
Mudas da esquerda para a direita
Para ver o voo rasteiro e célere da ave vogando a água lamacenta
Em tons de prata escurecida
Penetras no lodo nele te sentes
E sabes que terás ali um dia pousada indeterminada
Porque se agita o junco porque brisa o vento porque esvoaça a ave
Olhas o longe capela no alto senhora da saúde sorrindo
Se soubesses nomear as coisas ficarias estático perante
A riqueza inúmera que se te apresenta em oferta aos sentidos
Não sabes aquietar a tua alma
Mas aqui ao lado quiçá numa distracção divina
Tens tudo para aprender a fazê-lo
Pelo trilho junto ao esteiro abro os braços
Abro o todo que sou e quero fundir-me
Nesta imensidão do Ser que me abraça
Caso eu queira abandonar-me em alma peregrina
Não sabes aquietar a tua alma
Ela sabe aquietar-te a ti aqui ao lado pertinho sem longes

Publicado por morfeu às 07:50 PM | Comentários (2) | TrackBack

novembro 21, 2007

As folhas brilham em nostalgia de Outono moribundo

IMG_0381.JPG
Subtil o tempo insinua-se
Nos riscos inclinados da água
Chuva em seu momento preciso
Então
Todos os seres se aquietam
Aninham compassivos
Em tremendo êxtase
Deixando-se afagar pela Necessidade
As linhas líquidas percorridas
São o Império do Mundo
Esse momento agora é
O da chuva cair
Qual intempestivo orgasmo
…espreita além outra insinuação
Do tempo
Réstia de azul com manto de nuvem…
As folhas brilham em nostalgia de Outono moribundo

Publicado por morfeu às 11:01 PM | Comentários (1) | TrackBack

novembro 05, 2007

A sua benção sol azulado e limpo

Desde o mês passado que estou encerrado em mim
Sem gota de orvalho poético que seja
Seja o orvalho está por aí ausente
Manhãs acordadas por um sol persistente
E como não muda este teimoso tempo
Não se desloca em mim o necessário
Desencadeia temporal chuva imprevista quanto baste
Duas três tímidas ideias sentimentos enrolados
Em preguiçadeira de praia
Ah este tempo a destempo que não me inspira
De qualquer modo ou de um modo qualquer
Olho
E vejo as folhas da vinha outonais
Uns arbustos que riem primaveril e deslocados
Um ser e estar sem ondas
Por aqui a comodidade o Igual
A continuar assim ainda adiro
Ao Sempiterno
A sua bênção Sol azulado e limpo

Publicado por morfeu às 08:51 AM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 19, 2007

Poéticas notícias...

Estou aqui agora esperando o sol
Preguiçando o resto da noite que se esvai
Num azul indefinido
Também aqui
Mesmo aqui ao lado
A passarada anuncia o alvor
Um novo dia prepara-se
Numa bênção de luz repetida
E aqui leio e encho esta minha madrugada
Com notícias daqui e dali
Lá na China despejam gente
Que são crianças e não têm escola
Alguém se regozija com o assunto
Cá este fala da permanência da pobreza
E da sua indelével nódoa
Eu ouço a manhã
E neste lastro longínquo de humanidades
Preparo-me para as minhas notícias
Que serão anónimas
Sem relevância mundial
Tenho gente à minha espera
Ensaiando ainda inocência e esperança
Aqui ao lado pássaro insistente
Acompanha o nascer do sol
Em piar anónimo
Sem importância aparente
Sem notícia
Afinal quem se interessa por este pássaro que pia?

Publicado por morfeu às 07:32 AM | Comentários (4) | TrackBack

outubro 10, 2007

A vida é feita de pequenos nadas...

…de pequenos nadas

Publicado por morfeu às 11:21 AM | Comentários (2) | TrackBack

outubro 04, 2007

Poema de Outono

Para fazer poesia
Basta parar e olhar
De uma forma sentida
Assim
Nesta manhã de muitas
Que o meu tempo me oferece
Tenho o quadro visto pela minha janela
A morrinha cai lenta outonal
Brilham nas folha das árvores gotinhas
Eu sinto-me amável e em gratidão
Pelo verde pela sebe pelas pontas das casas
E suas telhas devidamente feitas para telhas
O alecrim junto à parede teima em conservar
Um ar florido teimando a existência
Um céu vasto e cinzento onde
Pequenas aves voam alto mínimas apressadas
Há uma quietude imensa e o silêncio
Sentido daqui de mim
É absoluto
No fundo deste cenário
Eucaliptos enormes estão parados expectantes
Eu aqui observo e sinto
Para fazer poesia
Basta parar e olhar
De uma forma sentida
Assim

Publicado por morfeu às 08:54 AM | Comentários (5) | TrackBack

setembro 24, 2007

Marcel Marceau "dizendo o silêncio"

... como dirás agora esse silêncio enorme da eternidade
estarás algures nas coisas fantásticas que existem
sem ninguém saber
conquistando o domínio absoluto do dizer
comungando esse silêncio amado e violado
tantas foram as vezes
o teu gesto o teu dizer regressam
ao humus fértil e silencioso do não dizer
estás por aí rezando pelo nosso silêncio
aplanando o trilho dos nossos dizeres múltiplos
em direcção à planície inominável
olhando o horizonte do interminável
a ti Marcel Marceau eu sinto por aí

Publicado por morfeu às 07:21 PM | Comentários (0) | TrackBack

setembro 01, 2007

De que se faz a poesia...

De que nasce a poesia
De uma claridade geral mas particular para mim
Que invade tímida
Coada pelo cortinado a mais que acompanha a janela
De que nasce a poesia
Desta coisa insignificante porque habitual
De torrar pão de férias acompanhado
Pelo prazer do odor sabor de um café daqueles
E depois há poesia em tudo o mais habitual
Mesmo do aparentemente nada poético
A liturgia do banho e a sua excelência pela existência da
Água
Que lá fora me espera seja
No aspergir enevoado da relva
Das flores e árvores e pássaros que por aí
Ainda andam
No sapal a ausência de milhares de caranguejos
Que existiram em tempos
Depois o sapal ainda no seu brilho aquático
Uma ponte sem nome
Passos e pessoas e coisas com elas
Um trilho artificial sobre o natural
Sítios únicos onde o vento murmura desde eternidades
Para eternidades
Zzzzzzzz nas agulhas finas de árvores que desconheço
Logo o mar o vento a areia única de fina
O traço que se esvai na areia doirada
E por ali ando
Insignificante errante substituível
No insubstituível
Horizonte que se prolonga em horizontes
E é assim que vou para trás e para a frente
Como se a realidade fosse logo ali
Esta a da areia molhada normalmente
Com pegadas normais
Com marcas normais
Com realidade normal
De que se faz a poesia…

Publicado por morfeu às 10:28 PM | Comentários (5) | TrackBack

agosto 09, 2007

A tonga da mironga do kabuletê...

...conhece a história e o significado desta famosa canção? ...

Toquinho e Vinicius de Moraes

Eu caio de bossa eu sou quem eu sou

Eu saio da fossa xingando em nagô

Você que ouve e não fala / Você que olha e não vê

Eu vou lhe dar uma pala / Você vai ter que aprender

A tonga da mironga do cabuletê

A tonga da mironga do cabuletê

A tonga da mironga do cabuletê

Você que lê e não sabe / Você que reza e não crê

Você que entra e não cabe / Você vai ter que viver

Na tonga da mironga do cabuletê

Na tonga da mironga do cabuletê

Na tonga da mironga do cabuletê

Você que fuma e não traga / E que não paga pra ver

Vou lhe rogar uma praga / Eu vou é mandar você

Pra tonga da mironga do cabuletê

Pra tonga da mironga do cabuletê

Pra tonga da mironga do cabuletê


Creio que quase todos conhecem esta famosa canção do Toquinho e Vinicius,
mas curioso mesmo é o significado de algo que, durante muito tempo, se
pensou ser apenas um jogo de palavras sem sentido. Cá vai a história.

Em 1970, Vinicius e Toquinho voltam da Itália e encontram o Brasil em pleno
"milagre económico". A censura em alta, a Bossa Nova em baixa e os
opositores ao regime a pagar, com a liberdade e a vida, a defesa dos seus
ideais.

Nessa altura, Vinicius está casado com a actriz baiana Gesse Gessy, uma das
maiores paixões de sua vida, que o aproximaria do candomblé. Sentindo a
angústia do companheiro, Gesse diverte-o ensinando-lhe asneiras em nagô (um
idioma subsariano trazido pelos escravos), entre eles «tonga da mironga do
cabuletê», que significa – e passo a citar! - "o pêlo do cu da mãe".

O sentimento em relação aos homens do regime inspiram o poeta e Vinicius
compõe a música para apresentá-la no Teatro Castro Alves.

Foi a oportunidade de insultar os militares sem que eles compreendessem a
ofensa.

Ps. recebido por mail...se não estiver correcto alguém que o contradiga...


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julho 26, 2007

O Espírito das casas ...2

…e havia um lugar de alma enorme a alma ou espírito da casa
O lar os deuses que se aqueciam no fogo
Este estava e ardia em altar antigo
Por debaixo a lenha e em cima elevada
Ardia a lareira que útil aquecia um caldeiro suspenso de chaminé bem alta
No Inverno em dias de chuva persistente esta visitava-nos
Dizia que na parte elevada estava o caldeiro grande
Onde aquecia muita água para os muitos espíritos e afazeres
Que por ali transitavam ou estavam
Dois bancos corridos para quatro pessoas dali
Inicialmente se aquecerem em convívio próximo
Rapidamente afastadas pela rudeza rubra do fogo que queimava
À vez vivíamos a lareira cismando em longas noites
Preguiçosamente deixada por imposição de sono e sonhos
Bem fria era a casa na sombra de Invernos antigos
Os deuses lares não nos acompanhavam para o repousar gelado de quartos vários
Só a força da inocência aquecia o nosso adormecer
E era assim muitas vezes
A porta de entrada que dava para a cozinha tinha fecho dos antigos
E por causa também de medos ancestrais
Possuía uma tranca ainda
Ficávamos nós os putos sossegados porque receosos de passos exteriores
De mendigos Zés baratanas e outros que tais que nos assustavam a infância
E juro que um dia vi o homem do saco com o rosto barbudo
Soprando na janela chateado por não meter ninguém lá dentro
E nós abençoávamos a valentia daquela tranca que todas as noites se apresentava para fecho final de manhãs tardes e noites a seguir umas às outras fatais
Se esquecer pudera na lista das coisas inconfortáveis
Na ausência de banhos e sanitas modernos
Das mijadelas que durante a noite enchiam os típicos penicos reconhecendo pelo som específico e se calhar musical quem despejava as necessidades
E muitas noites para coisas mais drásticas e sólidas havia que destrancar a segura porta e apanhar a frieza da noite para nos aliviarmos em local exterior
Era assim e do cimo da cisterna pelas frestas do cabanal território de morcegos e sombras
Sorriamos com frequência ao adeus que o Sol nos fazia
Ao pôr-do-sol
Magnífico naqueles irrepetíveis verões enriquecidos pelos mantos riquíssimos de temerosas auroras boreais
E era assim o espírito daquela casa

Publicado por morfeu às 08:49 PM | Comentários (1) | TrackBack

julho 25, 2007

O Espírito das casas ...

Todos os dias da infância ouvia
No final de noite familiar o eterno
Pedido que nunca ali Seria satisfeito
Seja Deus nos dê uma casinha nossa
Aquela era alugada de longa data
De alguém de mais posse que ali
Tivera ocupação
Casa quadrada com extensão para os dois lados
Um era a casa de fora a nascente
Outra mais baixa de telha vã poente
O estendal todo aberto em arcos de tijolo cru
Onde os morcegos em noites de Verão se acoitavam esvoaçando depois em golpes rápidos de monstrinhos tocando-nos furtivamente e nós apanhávamos alguns de vez em quando estendendo-lhes as asas perversos
Quadrada que era como instalada em moldura ali estava
A casa que não era nossa quase esvoaçando na inclinação
Da pequena colina cujo lombo corria em direcção a misteriosos vales para nós pequenos infantes ornados de morcegos à noite e de trovoadas de Inverno incendiando os fios que ligavam para uma cabine fantasmagórica e fugíamos quando os deuses das tempestade se zangavam e lançavam as labaredas das suas inconstantes e imprevisíveis fúrias fazendo-nos fugir para os campos pedregosos ali ao lado em medo e sem tino ao grito da minha mãe
Alguém se esquecera do mais pequeno que se refugiara debaixo da mesa da sala
E na sua fragilidade inocente insultara a tempestade deixando-se dormir sorrindo
E nas pedras grandes e soltas de calcário choravam nos tempos das chuvas pequenas nascentes que nos maravilhavam a água nascente assim por ali de pedras
Não suspeitando os rios que pelas grutas e algares se formavam e escapuliam
Ali estava a casa que não era nossa
Cheia de todos nós e onde vivíamos numa confusão de pais avós e filharada
Também no sobrado e por onde calhava moravam os pardais e os ratos corriam alegres e sobranceiros para as ratoeira de buracos armadilhados
De manhã despojávamos-nos dos seus cadáveres sem medo atirando-os logo para o baldio ali ao lado
Tempo de na casa ainda se vestirem as crianças
Como já não
Com calções os rapazes de fundilhos fendidos para uma evacução mais fácil
Limpava-se o cú a uma pedra se calhar daquelas que amparavam as nascentes milagrosas
E as mulheres antigas daqueles tempos ausentes de lingerias modernas mijavam de pé com orgulho da sua facilidade e pouca vergonha nenhuma
Eram assim os tempos daquela casa que pairava naquele alto
E eu que pensava que não tinha registado o seu estar e percurso
Cheio de sol e vento e tempestade e grito e fúria e amor possível
Eu que fechara as nascentes milagrosas
Eu que fugira com voto de eternidade para algures
…em noite de Verão brando respiro o espírito da casa pela qual rezávamos todas as noites para ser nossa
E não foi…

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julho 16, 2007

Morna e chuva e Verão...


Há quanto tempo a chuva
Morna de um Verão ausente por aqui
Não lavava em mim a capa
Que trava o som da minha poética
Víscera metafísica adormecida no habitual
Assim
Neste matinal morrinhar
Deixo-me preguiçosamente embalar pelo
Bate bate das goteiras
Importante para mim
Absolutamente efémero
Riscar algumas letras meio tolas
Deixar afinal o sentimento simples de estar
Hoje aqui
Pela manhã
A ouvir a música natural e inesperada
Do bate bate gotejante
Para mim banho de frescura
Acalmia de nervo
Féria para a alma em tempos de sossego
Bate bate minha água
Escorre-me este pó aborrecido
Que teima em colar com manias
De coisa importante
…lá fora uma brisa faz ondular os riscos da chuva

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junho 21, 2007

Nazima Ghulam Nabi... a lágrima.

Nazima.jpg
A lágrima
Nazima, filha de Ghulam Nabi, um cidadão da Caxemira indiana morto no rebentamento de uma granada, chora deitada numa cama do hospital de Srinagar. Foto: Danish Ismail/Reuters

Cama hospital granada pai cidadão Caxemira
Filha dolente em lágrima deitada chora chora
Porquê num hospital deitada
Um rebentamento mata Ghulam Nabi cidadão
Caxemira
Deixando uma filha deitada em cama com lágrima
Vista do lado esquerdo
A cara branca de Nazima filha de Nabi
Uma cama hospital deitada em lágrima
Em almofada verde branco com sinal de azul do lenço
A face explode o sofrimento de
Nazima
Filha de Ghullam Nabi
Nazima tem um brinco na orelha
Como prolongamento da lágrima
Olha o vago o céu o som da granada
Que matou pai Nabi
Quem pode agora dar amor
De pai rebentado por granada em Caxemira
Nazima filha pai lágrima brinco face branca
O cabelo afeiçoa-lhe a dor em negro
Nazima Ghulam Nabi com lágrima

(foto recolhida in jornal "O Público", de 21 de Junho de 2007)

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maio 29, 2007

... lançando a vista para essa névoa triste

fog.jpg

Pela janela imensa
Prescrutei o cinzento de uma névoa
Que por tempo longo se mantinha
Emaranhada perdida algures
Estaria a minha alma
Ou
O que eu dela supunha
Perdi-a nesse longo vagar vogar do Tempo
A janela que aberta me alimentava de luz e de ar
Operou-se em liberdade
Fez-se companheira de fuga
A minha alma furtava-se
Dias noites trovoadas neblinas
Declinaram em largos passares
A respiração outrora fluida e recíproca
Adormecera em novelo ansioso
E as coisas e momentos passavam
Zombando das coisas nenhumas que em mim teimavam em existir
Lançando a vista para essa névoa triste
Pela janela de mim
Quis abraçar em saudade
Essa alma que teimava em ausência
…hoje ao de leve
Consegui dizer-lhe
Olá
Bom dia

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abril 25, 2007

Hoje vinte e cinco apenas goteja

80rain.jpg

Pelo tempo pela época
Urgia que fosse o sol a brilhar
Em dourado oficial
Porém hoje neste vinte e cinco
Fazem presença nuvens cerradas
Faria sentido que delas caíssem bátegas violentas
Não é esse o fado deste dia
Nem sol nem chuva forte
Por desígnio por pudor por ilusão
Ou ausências várias
Goteja
Goteja apenas
Dos beirais caiem fios inseguros
De uma chuva indecisa

Publicado por morfeu às 12:51 PM | Comentários (7) | TrackBack

abril 09, 2007

New York I believe I can fly ...

(...fará sentido ao clicar na imagem, ouvir este belissimo Gospel, em amabilidade de leitura deste meu texto sobre...)

Poesia Tempo Lugar
Em louco desejo de ascensão
Este actual umbigo espírito do Mundo
Aqui
Outrora colinas desaparecidas
Em compra sabida a índios ingénuos
Ah
Este local de ambição raiva vida morte amor ganância perdição
E tudo o mais
Formando elevações novas
Em busca de uma alma por aí esvoaçando
Por morte e enterro de outra ancestral
A comprada vendida
Big Aple
Babel do presente estátua de braço erguida
Com torcha grito de uma qualquer interminável indefinida
Esquisita Liberdade
NOVA IORQUE
Os meus olhos ouvidos viram
Em tremor e temor fascínio ausência
Formigueiros moventes em túneis racionais avenues and streets
Pathos impossível
No cada um perseguindo a sua solidão
Money wall street
A cidade vive com agitadas entranhas
Grita manda ordena
Com razão e vísceras
O vento entra furioso
Uptown downtown
East and Hudson rivers
Ó Babilonia de tempo e gente em desvairo
Respirei a cidade penetrou-me parcialmente a alma
Esta entreabrindo porta de saída
Tu aí
New York
Eu por aqui
Carne matéria Tempo
Pó de efémera cinza
Digo
I believe I can fly
Aleluia>

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março 30, 2007

...ausência ...

...deixo-me ir em gozosa ausência para longes pessoais...
desligo do habitual travo o monótono esvaio-me no tempo diferente
medindo este ficarei nessa contemplação nesse não estar por aqui
em coicidência com rituais antigos de ramos de quaresma depois páscoa
nesta regressarei...
em ânsia de retiro um abraço

Publicado por morfeu às 10:07 PM | Comentários (4) | TrackBack

março 28, 2007

Palavras numa tasca nascidas perante um ovo estrelado

Ah esta sensação de importância nenhuma
Esta importância de sensação nenhuma
Estar nesta tasca de espécie
Prego no prato
Saboreando de voracidade ancestral
O amarelo vermelho de um ovo
Batatas amavelmente bem fritas às rodelas
Molhar o pão bom pão
Por uma vidraça olhar
Num adorno de túlipas interiores
Olhar
Outros seres sem importância nenhuma
Ou de sensação importante nenhuma
Como como comida boa e quotidiana
Momentos de felicidade primitiva
Anestesia intemporal em fusão psicadélica
Com o Ser
Que ama/alimenta/devora
Ah esta importância de não ter importância nenhuma
Fora assim o meu devorar em tudo o que se me depara
Comida bebida fodida
Sorriso imperceptível em lábios dúbios
Ah esta importância de não ser
Ou coisas mil ser sem importância nenhuma

Publicado por morfeu às 02:45 PM | Comentários (5) | TrackBack

Palavras numa tasca nascidas perante um ovo estrelado

Ah esta sensação de importância nenhuma
Esta importância de sensação nenhuma
Estar nesta tasca de espécie
Prego no prato
Saboreando de voracidade ancestral
O amarelo vermelho de um ovo
Batatas amavelmente bem fritas às rodelas
Molhar o pão bom pão
Por uma vidraça olhar
Num adorno de túlipas interiores
Olhar
Outros seres sem importância nenhuma
Ou de sensação importante nenhuma
Como como comida boa e quotidiana
Momentos de felicidade primitiva
Anestesia intemporal em fusão psicadélica
Com o Ser
Que ama/alimenta/devora
Ah esta importância de não ter importância nenhuma
Fora assim o meu devorar em tudo o que se me depara
Comida bebida fodida
Sorriso imperceptível em lábios dúbios
Ah esta importância de não ser
Ou coisas mil ser sem importância nenhuma

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março 25, 2007

...ah este fluir diário da emoção

No fluir diário das emoções
Há aquela esta outra
Que mais revela ou esconde
Espécie de fecundidade pessoal onde
Até a erva daninha surge oportuna
E neste deslizar
De um emotivo Tempo
Espero e desespero em balanço
Em mim
No outro
Na humanidade
…ah este fluir diário das emoções

Publicado por morfeu às 11:28 PM | Comentários (0) | TrackBack

março 21, 2007

... danço com as palavras do meu poetar ...

... em dia de poesia, quero fazer dançar os títulos do meu poetar ... clico na imagem e deixo-me ir nesse langor... faça-me companhia...

O escorregar da Noite...
Do testemunho gritado em silêncio...
A chuva caindo...
Abro-te a porta do Templo e do Tempo...
O Grito...
Nos interstícios soltam-se fios de sonho
Algures numa jazz-city…
Da poeira de uma pálpebra...
Gretado corpo de inspiração...
O Tempo arauto do desconhecido em versão pouco light
Oh louca dançarina do Tempo...
A minha tristeza não é bem triste...
Não sei muito bem se quero continuar por aqui…
A emoção do seja lá o que isso for...
Quisera eu meu coração amar
Dez vezes telefonaram...
Teus sonhos diferentes e a minha primeira vez...
Do queixume em oração
Chove simplesmente...
Espumante
O herói que se julgara
Numa qualquer manta de ambição metafísica
Tentativa de festejar o Natal em Dezembro de 2006
Poema de pássaro em leito de azevinho...
Eu e o meu tempo, Eu e o Tempo
Pele, peles...
Para a minha filha entrando amanhã na sua Idade Secundária
Filha do afastamento
Aqui ao lado reside um cão em situação de luto abandonado
Impossível matriz para uma declaração de amor
Amanhã uma nuvem de poetas voará...

Publicado por morfeu às 01:27 PM | Comentários (3) | TrackBack

março 19, 2007

Esse ser discreto meu pai ...

Hoje dia nenhum mas de dezanove
Do pai cognominado em Março
Assim contrafeito pela determinação
Fui buscar em exercício afectivo
Algumas pequenas coisas
Suspensas num qualquer sótão da minha existência
Quando no final ele partiu
Esse dia esse pai
Alguém amável e certeiramente disse
Que passara por este vida um ser discreto
Assim fora e não só
Nos Invernos fundos da aldeia da minha infância
Naquela distribuição de filhos e filhas
Mãe pai e avós
Misturávamos de quando em vez os nossos dormires
Infante eu dormia no calor aparentemente seco
Do corpo do meu pai
Recordo
Sobre os pés
Um eterno sobretudo puído e antigo
Que nos aquecia os pés
Numa prateleira vagamente de adorno
Mas útil
Havia um pequeno e daqueles rádios
De válvulas
À noite não tarde
Deitados pela exigência de horários
De circunstâncias e poupanças
Lembro-me
Desse afecto simples que resultava
Sorte a minha
De ouvir em conjunto
Misturando sonhos e noite
Relatos antigos de futebol e hóquei
Dos quais nunca sabia o resultado
Mas o meu pai sabia
Porque pelo interesse pela coisa
Tinha a amabilidade de o registar na ausência do seu sono
E sonhando-o
Oferecia-mo pela manhã
Muitas coisas poucas e magras me lembram
Dessa discrição que foi o meu pai
Duas ou três me bastam
Para apagar outras chatices
Que levo tempo para esquecer
Não sou de dias
Nem de dia especial
Mas aqui fica
Em suspensão discreta
Este desabafo
Com saudade do sobretudo da noite
Dos relatos desportivos
Afinal
Do meu pai
Esse ser discreto aparentemente

Publicado por morfeu às 12:41 PM | Comentários (2) | TrackBack

março 11, 2007

Vibrando o ar morno...

_MG_0051.JPG

Pluralidade de trilhos
Desenha-se a montanha
De companhia ar céu pedras agua
(um pastor talvez além…)
Vislumbrei todos os percursos
Inventei-os suplicante
Fiz da Razão guia
Da emoção também
Teima o movimento em ser engano
Pois o caminho por aqui
Era por ali
Numa voracidade de tempo e desejo
Que posso eu dizer em tarde primaveril
Em que chilrros de pássaros
Agarram o meu coração
Prestes a soltar-se
E a querer ele ser
Nuvem rápida
Comunga o meu murmúrio
Com esse outro livre
Inconsciente
Vibrando o ar morno

Publicado por morfeu às 05:50 PM | Comentários (1) | TrackBack

fevereiro 25, 2007

...esses monstros assentimentais...

Em ausência estou afinal por aí
sentindo o quotidiano das dores
delas fazendo o ramo da alegria
Esperava o caminho com horizontes
mas estes desfocaram
Procuro no escuro afastado das nuvens negras
farrapos de luz
manta de trapos
alma colhida pela brutalidade
das decisões de um Poder insano
A eles esses monstros assentimentais
digo
ainda não estou morto...

Publicado por morfeu às 09:59 AM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 25, 2007

Pel, peles ...

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Vêm–me vontades súbitas
Em tempo mesmo deste frio
E
Perante os sabores do mundo
Meus dissabores
Arrancar estas peles que me cobrem
Ficar em estado de absoluta nudez
Começar assim a ser um Eu numa
Renovada busca
Ter pouco nada quase
Descobrir o essencial
De mim em mim para mim
Pouco
Largar amarras
Olhar insistentemente em volta
E esquecer-me deste corpo e deste alma
Perturbada
Para encher a preocupação
Com o outro os outros
Estar nu saco de pano embrulhando
Um quase nada de muda
Uns panos com paus erguido
Para abrigo
Estar nu no frio no céu das estrelas
Beber vendo o luar com um azul profundo adivinhando-se
Ah essa pobreza ascética utópica
Esse invólucro de existência de simplicidade
Comunhão com o absoluto
Estou farto destas peles
Deste verniz de obrigações
De precisar disto e daquilo e daqueloutro
De tal espaço tal geografia
Vogar por ai nas correntes de momentos
Ter ar e mar e rir
Da carícia retemperadora de um amável vento
Ah andar por ai vendo cheirando amando
Nessa paixão inominável de tudo ser
Fundir-me-ei finalmente eu sei
Para sem disso noticia ter
Alcançar a paz de nudez coberta

Ah estas peles estas roupas este Ser

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janeiro 18, 2007

Eu e o meu tempo, Eu e o Tempo.

Lx1006 060.jpg

Duas vezes me ergui uma
Cedo na madrugada
Ainda li coisas sérias mas que nada diziam ao sonho
Depois o pouco sono ainda
Deixou-se invadir por sonhos estranhos
Que estão em mim embora os negue
Segunda vez me ergui em horário estabelecido
Em movimento de meia volta para o ninho o refúgio
Coisas simples habituais
As noticias mailas desgraças muitas
A névoa da manhã esparsa preguiçosa ao ir-se
Cheiros vários dos campos envolventes
Eu e o meu tempo
Eu o Tempo
Há coisas oficiais a fazer
Mas eu quero ir ver o mar…

Publicado por morfeu às 09:48 AM | Comentários (2) | TrackBack

janeiro 10, 2007

Poema de pássaro em leito de azevinho...

E quando pensavas que pelo peso da noite e da idade
Eros também envelhecia
Tens a prenda de cetim envolta
De um abrir de manhã especial
Em ti solta-se exige-se a liberdade
Do desejo que flutuou solitário nos sonhos
E de ti para o amor ao lado adormecido
Venceu-se esse passo langoroso do movimento para o Outro
Matinal bem cedo trocastes a tua pele
Pelo toque sentido da seda de outra pele
Também ela prenhe da noite do sonho e do sono
O demais que se passou restará no silencio
Duma qualquer estória a dois
Inesperada a alvorada surgiu no canto dos pássaros
Amando esquecidamente pelos azevinhos de pequenas bolas vermelhas
Orlados
E foi o nascer do sol e do dia…

Publicado por morfeu às 12:50 PM | Comentários (1) | TrackBack

dezembro 23, 2006

Tentativa de festejar o Natal em Dezembro de 2006

Sei eu lá o que dizer sobre o Natal…
Pergunto-me e não tenho resposta imediata
Onde foi que o aprendi…
Direi logo que isto de natal não é coisa de escola mas de sentir…
Então onde estava eu a aprender a sentir o Natal?
O frio não era novidade nesses tempos que se afastam à velocidade da luz
As casas pelo menos aquela ali no topo de meia encosta que fazia lembrar o
Lombo de uma égua – Lomba d’égua chamava-se o sítio – eram geladas
E inventa-se a solução de botijas várias de garrafas que se abriam durante a noite
E escaldavam os pés
Mas sentir o Natal que raio de coisa foi sol de pouca dura
Já me confessei a mim e a outros que o meu fascínio pelo acontecimento
Teria mais a ver com meia dúzia de rebuçados e um par de meias brancas brancas
Em repetição anual
Uma coisa recordo apesar de tudo e de todas as voltas e desaires e
Aires posteriormente afectivos
Assim
Éramos muitos lá na velha casa conseguíamos receber família que se deslocava de Lisboa
Enfrentávamos os únicos primos que tínhamos sorteávamos o banco junto à lareira
Ouvíamos o silêncio da noite natalícia silêncio afinal habitual por ali
Havia a missa do galo que era onde acarinhávamos a fé na altura existente
E preparávamos a hipótese de surpreender o pai natal dos pobres perdido
Pelos cantos escuros e frios da casa distribuindo invenções de presentes
Uma ilusão barata acolitada pelo religioso e nada mau com alguma sopa e bacalhau à mistura
Persistindo num envolvimento de filhos e filhós até à prova dos nove que era
A descoberta para os putos mais novos de algumas novidades poucas
Era assim o natal lá por casa diria que pobre mas honrado como se dizia e fazia e sentia na altura
Mas era
E eu que me perdi pelos outros Natais todos assintomáticos e delambidos a nada
Eu que era para esquecer aquela treta toda afinal
Que era para não escrever nem uma letra sequer voilá
Que palro para aqui
Em volúpia de vingança ou cagança qualquer de letrista poeta em função
Tá bem tomem lá toma lá eu
Amanhã é Natal
Feliz
Apesar de tudo

Publicado por morfeu às 07:45 PM | Comentários (9) | TrackBack

dezembro 13, 2006

Numa qualquer manta de ambição metafísica

Levanto-me e tenho a manhã
A agua quente também
O frio natural e imediato não o sinto
Está silencioso lá fora
Esta é a bênção que recolho de mais um dia
Quando olho e vejo o verde das ervas em geada embelecidas
Duas três árvores com seus frutos pendurados de peso
Laranja limões úteis
IMG_0202.JPG
A névoa matinal a geada a ligeira brisa
Um sol tímido apontando o sentido do horizonte
Em nascente de doirada luz
Olho e reolho admirante o viçoso e elegante azevinho
IMG_0197.JPG
Que me enobrece aquele canto que por ali permanece
E os pássaros comuns que enaltecem o surgir contínuo
Dos dias e do tempo
E as pedras carros ruas cheiros tudo isso
As nuvens altas de um cinzento indefinido que tudo cobrem
Numa qualquer manta de ambição metafísica
Esta é a minha bênção a minha oração de uma
Manhã mais e simples…

Publicado por morfeu às 08:52 PM | Comentários (4)

dezembro 04, 2006

O herói que se julgara.

Solitudine...
Julgara-se um herói
Com medo mas com coragem
Visto que afrontara aquele e não se deixara soçobrar
Não esquecia uma juventude escondida no meio do pinhal do internato
Protegido aparentemente couraçado crente...
Tudo desaparecera na entrada da vida adulta segurança convicções e por último deixara de abrigar Deus
Muitos anos depois
A rajada violenta da solidão
Sentimento de apenas ser um si próprio
Rodeado por alguns fantasmas pouco familiares
De Noite espreitava a escuridão do lugar
Na ânsia de uma luz que fosse
De um ente acordado de algum movimento...um cão ladrara
Os eucaliptos enormes sombrios assobiavam sarcásticos
Fazendo-o ainda mais ridículo na sua solitude
Dentro de si uma voz semi – amordaçada
Gritava
Por uma mão por um toque
Que tivesse o poder da crença
Por sinal amoroso que fizesse regressar a presença desse consolo inefável que preenchia
O infinito...

Publicado por morfeu às 08:56 AM | Comentários (2)

novembro 18, 2006

Filha do afastamento ...

Acordei assim neste cobertor de chuva
Que invade o lá fora
Assim com sentimentos inesperados
Vieram na água dos dias
E acordei assim sentindo a lembrança
Dessa minha filha do afastamento
Foi essa a frase o som o cheiro de um outrora
Assim
Filha minha do esquecimento
Estava reservada em suspensão emotiva
Ocasião propícia para chorar um bocado
Esses dias de raiva de choro de agitação
Filha minha do esquecimento
Que afinal não esqueci
Mas está sempre em presença com nós
E foi quando nasceste vi-te surgir
Em dia de chuva de um Dezembro repousando já no leito do tempo
Quero que saibas que o meu colo esteve aí
Sempre disponível
Nos dias e noites dessa ligação oficial
Enquanto existiu
O teu acordar o teu sono e a tua tosse
E outras coisas mais
Tiveram em mim o ouvinte atento
E quando respiravas mal
Nessas húmidas noites de um tempo ido
Deitava-te sobre o meu peito já magoado por outros
E tu placidamente sossegavas e dormias
O meu coração batia filha do esquecimento
Quando nessa época trágica em que peguei em mim
E numa trouxa qualquer
E desarvorei para nenhures porque continuava por aí
Em ti
Quando nesse tempo ia e vinha em fins-de-semana
Estabelecidos
E juntos acompanhávamos o balanço de comboios anónimos
E tu corrias pequena encaracolada e loura
Pelo corredor
E eu chamava-te por não queria que nada de mal
Te acontecesse
Os dias trágicos haviam de aparecer
Desagradáveis agudos e horríveis
Esmagando a alegria e o crescimento regular
De ti filha do esquecimento
A partir de um lado qualquer da tua existência
Ausentámo-nos os dois por razões e sentimentos estranhos
Mas eu continuo a lembrar a tua tosse e as fraldas e o pó de talco
E as vezes que no meu peito dormias
Sei-te agora senhora em liberdade tua feita de tanto constrangimento
Estás agora num teatro só teu onde poderás representar
A tua experiência vivida
E reservar-me um papel um personagem
Nesse teu palco extenso
Mesmo que seja pequeno
Eu quero estar por lá
Acordei assim neste cobertor de chuva
Acordei assim
Minha filha do esquecimento
Um beijo

Publicado por morfeu às 09:38 AM | Comentários (9)

novembro 05, 2006

Espumante

Dionysos_and_Ariadne.jpg

Tenho que agradecer num largo abraço
A este amigo que estende a sua vida como
Criador de substância líquida
Faz espumante
E sendo assim neste brilho anónimo
Permite-me de quando em vez
Entrar noutra realidade
Quando convivo abertamente
Jorram espuma e alegria
Breves e apaixonadas
A simplicidade das coisas simples
Salta como a rolha fosse
Canta-se sorrindo rindo-se
Dizendo coisas que estão por ali
E tudo isto porque alguém se lembrou
De ao ver a cor do barro
Da terra
Plantar em esforço ancestral
A vinha onde Dionisos passeia os dias
Lavando-nos com as sua lágrima
Tenho que agradecer num largo abraço

Publicado por morfeu às 03:35 AM | Comentários (5)

outubro 08, 2006

Miranda ...

Recém chegado de Miranda, desse magnífico encontro promovido por este enorme amigo , que na blogosfera conhecemos por "Orca", ainda emocionado e cansado pela enorme e grande festa de amizade que foi a apresentação do seu livro "Havia Trigo", quero apenas deixar esta notícia. Problemas técnicos de última hora, obrigaram-me a utilizar computador emprestado. Então e para já, um grande abraço ao "Orca" ... cá voltarei com fotos e alguma música.

Publicado por morfeu às 06:49 PM | Comentários (1)

setembro 21, 2006

Chove, simplesmente...

Em nós que o sono em sonho
Ata e desata
Manifesta-se a actuação da Noite
Mais uma
Do Estio permanece a recordação
O bafo e o engano de Eternidade
Pelo sol oferecido
O tempo muda as coisas mudam
Palavras poucas para dizer
Do som que a chuva faz
Caindo na terra
Dos fios de humidade pendurados no ar
…quando semi-adormecido apaguei o sonho da Noite
Ouvi lá fora essa coisa natural
Cantando canções tristes mas necessárias
Amanhecendo a manhã
Afeiçoando-lhe novo cenário
Lá fora a chuva cai
… dentro de mim também ela chove …

Publicado por morfeu às 07:38 AM | Comentários (2)

setembro 13, 2006

Do queixume em oração.

IMG_0363.JPG

No despertar das coisas
No despertar de mim
Irrompe incomensurável
Absurdo
Queixume
Que não pode expandir-se
Ser eco
Fica em si próprio
Qual Universo em expansão
Todos os movimentos
Todo o sentir da enorme Noite
Ficaram latentes
A voracidade do Monstro
Qual Hipócrita diabólico
Reserva-se
Para outras lautas refeições
É único
Pois alimenta-se a si próprio
Vivendo da sua própria e terrível energia
No despertar das coisas
No despertar de mim
Chora em solidão
O queixume
O não dito
O maldito
Esse monstro gordo
Que povoa o seu próprio abismo
Em mim
Por aqui
O queixume que não pode revelar-se

Publicado por morfeu às 05:07 PM | Comentários (2)

agosto 23, 2006

Teus sonhos diferentes e a minha primeira vez ...

adolescente.jpg

A minha primeira vez
Não foi a primeira vez
Porque
Foi uma primeira vez
Só com os meus sonhos
Naquela adolescência
Despida de realidade
Apenas deixava os sonhos viajar
Única e moral autorização do espírito do tempo
Tu
Que eras também jovem
Mas nem sequer em mim pensavas
Eras o conteúdo concreto
Mas inútil
Da minha hipnose onírica
A tempos tantos
Esqueci já todos os pormenores
Que não interessam
Para a primeira
E minha vez
Gravei apenas
Que
Tu que não me conhecias
Que eras pertença de alguém importante
Na solidão daquele lugar
De século passado já
Tu que sonhavas com sonhos diferentes
Teus longínquos dos meus
Tu
Por ausência de alternativas validamente sensuais
Povoavas o ermo das minhas noites
Então sonhei eu
A minha primeira vez
Apenas e só
Que adolescente e fresca
Como eu te imaginava
Em ausência concreta
Tu
Por um qualquer fado ou destino do deus Hipnos
Vogavas nua quase
E eu
Nessas ímpares e inclassificáveis penumbras
Que teimam em decorar o ser jovem
Tu
Correste o teu corpo inacessível
Pela impossibilidade do meu
Toda nua toda minha
E deslumbrado
Mesmo em sonho
Apenas fixei o gesto
Particular preliminar mas único e meu
De te acariciar o interior da coxa
Que senti em seda nunca sentida
Por aí ficando o meu tocar
Em êxtase virgem
Mas criador de orgasmo
Apenas feito desse sentir
Imaginado nebuloso
Em que não te possuindo integral
Se cumpriu de forma e sensação indelével
A minha primeira vez
Parcelar limitada sedosa
Dessa tua inesquecível
Coxa possuída de um fervor erótico
Meu
Primeiro
Vez
E na ausência tua
Esta foi a minha irrepetível e desgarrada
Primeira mas primeira vez
(relembrarei eternamente essa tua coxa interior como se de um epitáfio quisesse deixar em registo … relembro enquanto a eternidade do eterno se sustente …)

Publicado por morfeu às 10:16 PM | Comentários (4)

agosto 19, 2006

Da escuridão da Luz de Ariadne da Aranha... a Teia...

Teia.jpg
Foto de Pedro Piedade

Vivia imersa na noite absoluta
Vítima de um qualquer fado
De um qualquer deus caprichoso
Cobria-me a solidão do invisível
Por insubordinação
Por um Caos libertino e marginal
Ofereci-me um
“Faça-se Luz”
E
A luz fez-se teia
Fez-se transparência
Sustentada pela arte
Certa e incerta
De Ariadne
Da aranha…
Para quebrar a modorra da existência
Esta fez-se acompanhar de uma simples
Bela plantinha
Silvestre de genealogia
Escuridão
Deus qualquer
Luz impertinente
Transparência
Arte Ariadne Aranha
Meu amor meu ser planta silvestre
Para que te possa adivinhar continuamente
Não conhecer
Teci-te de branco e núbil véu
Não para te ver
Apenas para vislumbrar-te…
… eis as palavras gravadas em ausência
Numa simples
Genealógica silvestre
Planta … eis…

Publicado por morfeu às 03:13 PM | Comentários (4)

julho 30, 2006

Da Poesia Nos Blogues, para o Andanças...


Acerca do encontro para apresentação do livro "A Poesia nos Blogues", deixo apenas os "dizeres" do nosso grande timoneiro...

... amanhã toca para o Andanças. Assim sendo, uma boa semana para todos os que por aqui passarem e pode ser que consiga uma reportagem decente dos dançaricos...Abraço!

Publicado por morfeu às 11:30 PM | Comentários (3)

julho 27, 2006

Dez vezes telefonaram ...

Dez vezes telefonaram
Dez vezes não ouviram voz
Do outro lado
Silêncio humano pelo explodir das bombas
Substituído
Vezes dez forçaram a sua voz
Sua e de milhares que representavam
E no éter apenas o sarcasmo
O rasto violento de pássaros enfurecidos
Enviando monstruosamente
As suas garras em mísseis sem misericórdia
No alto um Iavé Hipotético
Embrulha-se no escuro das nuvens envergonhado
Do povo escolhido
Ele que dez vezes ouviu
Ele que vezes dez não respondeu
Ele que se entreteve a olhar
Distraída e aborrecidamente o Éden inicial
Refúgio de quem
Ao poder criativo dos inícios
Opta pela sombra de árvores escurecidas
Por um saber que não ouve
Que não responde
Nem uma nem dez nem nenhuma
Dez vezes telefonaram
Vezes dez não foram ouvidos
Que dez vezes descansem em paz…
(… o meu coração bate enfurecido…)

Publicado por morfeu às 08:41 PM | Comentários (5)

julho 18, 2006

Originalidade e criatividade na blogosfera: a vez dos poetas!

Compreendam-me a imodéstia, mas a poesia - ainda que de "ilustres" desconhecidos - vai estar de parabéns. Por iniciativa entusiástica deste nosso grande amigo e excelente poeta
, tomou forma de livro, o encontro havido há alguns meses na Quinta da Ribeirinha, onde cada participante "disse" dois textos poéticos. A obra que daí resultou espera receber as boas-vindas de todos os que amam a poesia. Eu tive a honra de também registar três textos meus, que algures por aqui esvoaçaram...

poesianosblogsM.jpg

Que se passa com esta nuvem de poetas
Seres desvairados e de difícil entendimento
Loucos dotados de palavras sentidas
Condenados a empurrar as pedras do impossível
Aparecem desaparecem alguns teimam
Neste lançar para o vento
As estranhas e sedutoras bizarrias
Que forram tempestuosamente a sua pele
Aprisionando o seu ser amarrotado
Por necessidade de clareza
Água pura e cristalina que deslize
Pela quebrada da existência
Apontando um caminho
Na multiplicidade devoradora de sentidos…
Nuvem de poetas insustentável
Que insistem em aparecer
Que choram e riem em asilo de loucura aberta
Sonhando com casas amplas de liberdade
Desenhando paredes que não se querem
Letras que o tempo apaga
Possíveis esgares de eternidade
Para quê este desvairado agitar de seres doridos
E utopicamente em perdição…
Pobres poetas opacos ou translúcidos
Possíveis mensageiros de um Deus bizarro e distraído…
Poetas…viajantes das nuvens passageiros do vento
Esperando chuva benfazeja para desconfortavelmente se diluírem…
…que se passa com esta nuvem de poetas?...


Publicado por morfeu às 06:33 PM | Comentários (16)

julho 15, 2006

Ai! Quisera eu...


Quisera eu meu coração amar
Dizer-lhe da ausência
Da violência do ódio
Capa caiada que cobre
O amor
Quisera eu meu coração agarrar
Torturá-lo com carícias febris
Ensaiar ritmos díspares
Neste afogueante ensaio que é a vida…
(Um dia farei desaparecer
Como de mansinho
Essa palavra envergonhadamente sentida
Que acima coloquei
E expressei por quisera…)
Lutas diversas e absurdas
Parasitam em músculo afinal para outras coisas servir
Vezes quantas no ruído próprio de noite pessoal
Desejei arrancá-lo
Para em silêncio perturbar-me com outros desejos
Lá ficou irredutível
Compassando como lhe apetece
O meu desatino
Os trilhos irregulares
Da paixão do amor e do ódio e outros…
Ai! Quisera eu…

Publicado por morfeu às 04:40 PM | Comentários (20)

julho 02, 2006

A emoção do seja lá o que isso for...

Perdi o espírito
Seja lá o que isso for
Perdi a alma
Seja lá o que ela for
Perdi a aura
O horóscopo
O pensamento que andava por aí
Mantenho o emprego
Seja lá o que isso for
Vislumbro a reforma
Seja lá o que isso for
Perdi o direito à preguiça
Seja lá
Mudar de rumo
De tarefa
De profissão
De mim mesmo
Ou seja lá o que isso for
Perdi ganhei
Um curso de contabilidade
Por correspondência existencial
Ou
Seja

O
Que
Isso

Publicado por morfeu às 10:57 PM | Comentários (2)

maio 08, 2006

Não sei muito bem se quero continuar por aqui…

Não
Não quero nada de ti
Materialmente
Alma corpo substância outra
Fico-me por esta ansiedade
Este abismo de eu aqui e
Tu
Mesmo em frente
Mais real em sonho
Que na realidade real
Isto assim é um suplício
Uma condenação perversa
Sem sentido
Duas cabeças a pensar
Coisas desiguais
Desaguando em sentimentos
Que não se entendem
Eu não deveria estar por aqui
A pensar e sentir desta forma
A tua aura espelho alma corpo
Aparecem e esfumam-se
Na medida das minhas horas
Já não tenho idade para isto
Tudo já devia ter sido
Em tempo de adolescência
Mas não
Por qualquer desígnio inefável
Apareces desenhada
Anónima e compósita
Feita do múltiplo
Nos meus sonhos
E quando acordo
Não sei muito bem se quero continuar por aqui…

Publicado por morfeu às 12:39 PM | Comentários (21)

abril 22, 2006

A minha tristeza não é bem triste...

Estou decididamente triste
E porque não sei sentir o que sinto
Ou porque possuído de imensa
De vastíssima planície
Onde pecados mortais se agitam em feno verde
Ondulam….
A minha tristeza não é bem triste
Não é uma tristeza normal oficial
Instala-se por qualquer motivo
Porque sim
Porque se mistura com coisas mesquinhas
Com invidias
Com olhares e leituras de soslaio
E
Porque quando é mesmo triste
Quer gritar mesmo
Porra estou mesmo só
Olho por aí algures
E vejo multidões
Que falam
Que comentam
Que parece sentirem amores e paixões
Dizendo que o amor ainda é possível
Difícil safado enganador
Dizendo a uns quantos eleitos de palavras e de vidas
Sim senhor como consegues ver bem nesta vida
Coisas afinal simples e quotidianas
E como consegues revesti-las dos adornos
De decorações próprios de ancestrais arroubos amorosos
Porra estou mesmo triste
Porque não consigo sentir nada disto
Ou sinto exactamente ao lado
Onde deixo repousar o olhar
De que não gosto
Porque não sorri abertamente
Porque quer e não quer
Porque afinal está tão só
Que a própria tristeza desiste
E fica
Ela
Cada vez mais triste…

Publicado por morfeu às 11:55 PM | Comentários (4)

abril 08, 2006

Poema com telemóvel...

...ligeiramente soerguido
na relva de um jardim acidental
tenho
acompanhando uma incipiente felicidade
no peito pousado
o telemóvel...
aguardo esboçando um sorriso
a surpresa
a vibração
da tua mensagem...

Publicado por morfeu às 04:28 PM | Comentários (0)

Poema com telemóvel...

...ligeiramente soerguido
na relva de um jardim acidental
tenho
acompanhando uma incipiente felicidade
no peito pousado
o telemóvel...
aguardo esboçando um sorriso
a surpresa
a vibração
da tua mensagem...

Publicado por morfeu às 04:28 PM | Comentários (0)

abril 01, 2006

Oh louca dançarina do Tempo...

028-funambule.jpg
Funanbule

Vem longuíssima Esperança
Mater luminosa
Envolvendo as nossas sombras
Paciente guardiã de sonhos
Todos os sonhados e principiados
Vem horizonte diverso
De arquitecturas múltiplas e inestimáveis
Pesa-me propositadamente
No umbral da minha fronte
Fonte de desígnio verdadeiro
Aponta-me
O aqui efémero e finito
Prolongado num além
Como se fora deserto
Rasgando uma linha que é
Sem começo ou fim
Infinita voracidade do real
Vem
Balança-me na tua incerteza
Oh louca dançarina do Tempo
Sustenta o meu passo
Como se fora
A corda onde um sonâmbulo
Desenha as suas
Inconscientes
Proezas

Publicado por morfeu às 11:47 PM | Comentários (20)

março 08, 2006

...mancha luz de Eros...

Alfred%20Gockel%2C%20Passion%27s%20Embrace.jpg
Entrelaçar

...quando será que no horizonte indefinido a mancha luz de Eros se desenhará...
em escorço grafítico ele se apresenta em figura duas num entrelaçar habitual e heterodoxo...
bramindo silêncios de corpos unidos num êxtase único
singulares personagens transportados na Infinitude...
não me perguntes significado por quê para quê
se apenas resta este esboço intuitivo dizendo qualquer coisa que nem sequer me preocupa interpretar saber...

Publicado por morfeu às 11:05 PM | Comentários (5)

março 03, 2006

Amanhã uma nuvem de poetas voará...

Que se passa com esta nuvem de poetas...dedicado ao amigo Orca que organizou este encontro de blogopoétas...

Que se passa com esta nuvem de poetas
Seres desvairados e de difícil entendimento
Loucos dotados de palavras sentidas
Condenados a empurrar as pedras do impossível
Aparecem desaparecem alguns teimam
Neste lançar para o vento
As estranhas e sedutoras bizarrias
Que forram tempestuosamente a sua pele
Aprisionando o seu ser amarrotado
Por necessidade de clareza
Água pura e cristalina que deslize
Pela quebrada da existência
Apontando um caminho
Na multiplicidade devoradora de sentidos…
Nuvem de poetas insustentável
Que insistem em aparecer
Que choram e riem em asilo de loucura aberta
Sonhando com casas amplas de liberdade
Desenhando paredes que não se querem
Letras que o tempo apaga
Possíveis esgares de eternidade
Para quê este desvairado agitar de seres doridos
E utopicamente em perdição…
Pobres poetas opacos ou translúcidos
Possíveis mensageiros de um Deus bizarro e distraído…
Poetas…viajantes das nuvens passageiros do vento
Esperando chuva benfazeja para desconfortavelmente se diluírem…
…que se passa com esta nuvem de poetas?...

Publicado por morfeu às 09:13 PM | Comentários (5)

dezembro 31, 2005

O Tempo arauto do desconhecido em versão pouco light...

Em dias últimos de ano nenhum (não existe tempo...)
Quero de olhos entreabertos (que nos resta senão o abrir múltiplo...)
Impregnar o Tempo de Palavras…(com o vento que não com o tempo...vão-se)

Ele está aí indefinível (já o disse)
Em multiplicidade de faces enigmáticas(continua o mistério disfarçado de enigmas)
Cujos segredos podem improvavelmente (brincadeira provável)
Ser revelados (mmm...duvido...)

Em turbilhão autónomo (onde a lógica agitada e inteligente?)
Agitam-se as vísceras mentais (também terão cheiro?)
Em parto convulsivo jorram os rios (partem os rios...)
Com palavras flutuantes (situação digna esta a das palavras)
Tocando-se aleatoriamente
Em ligações esboçadas (muito bem!)

E o Tempo permanece em pedestal volúvel (ah doce volubilidade da poesia amante...)
Inebriando o verbo (precisa de vez em quando)
Abrindo-lhe trilhos em paisagem vária ( esta sôfrega e generosa paisagem esta louca natural..)
Sendo os seus passos ora sombrios
Ora iluminados já esquecidos pela noite insidiosa (lanço mão do punhal e da violência)
Que estende o seu peso qual lacaia da eternidade ( isto de lacaia da eternidade é chato...)

Queremos trilhar o Tempo mas o nosso arado (algures na Ilíada o que forjava o seu próprio...)
É apenas uma forma nebulosa (não deixa de o ser)
Que se esvai nesse roçar esgotado ( oh este cansaço espúrio e manhoso)
Sendo os caminhos abertos ( mais uma vez a generosidade da abertura e dos caminhos)
Cicatrizados de imediato ( doce ferida essa que é o amor cicatrizante)
Pela mão milagrosa doutros instantes…( instantes antes antes)

Deixei estas palavras surgir
Forçado pela sua impetuosidade (pela sua inconveniência)
Em dias últimos de ano nenhum ( isto sou eu a poetar)
Obedecendo a ordens atemporais ( doce desvario o da ilusão...)
Oh o Tempo…esse arauto útil do Desconhecido…( não posso comentar esta frase porque demasiado bonita..
.)

BOM ANO!

Morfeu


Publicado por morfeu às 10:02 PM | Comentários (1)

dezembro 17, 2005

Mistura de um Alvarinho honesto e de um Bushmill ventanoso...ooopss!

Saber que sou eu
E nesse consentimento
Abarcar os outros
Seres eu (s)
À minha volta Moonlight.jpg
sente-se
Uma auréola (só) indefinida…
Perdido numa imitação
Do nada paradoxal
Metafísico etílico
Adjectivo incomensurável
Palavroso
Horror do Indizível
Pavor da solidão
Porque ilegível
…ninguém por aqui passando
Em seu senso bom
Terá a capacidade de parar
Para em poço de Jacob
Sorrir…
,,, Dar-se por loucura sequiosa…
…Ó Samaritana…
Jesus
Compreenderia esta incompreensível desfaçatez
Este embaraço malvado
Espontâneo
Lasso
Mal asada voltearia
Ou loucura breve
Controlada
Contraditória estranheza
Ninguém fique boquiaberto
Ou louco
Por nada compreender
Descanse em sua consciência
Que a culpa não será sua
Vá sorrateiramente
Descansar
Num qualquer vão submisso
Insoletrával
Vendo a lua cheia de tempo e de estrelas
Insultando em palavras instantâneas
Em oração inoportuna gritante
Todos os incómodos transitivos
Pretensiosas aspirações
De um Infinito
Sem qualquer interesse….

(...e se fosses dar uma volta meu???)..........

Publicado por morfeu às 07:09 PM | Comentários (2)

dezembro 08, 2005

Gretado corpo de inspiração...

As lágrimas deixaram de fluir
Os sentimentos com voz de prisão paralisados
Ausência de parto criativo
E
Por obrigação contraditória
Algumas palavras fugitivas
Arriscando um respirar breve

Se o excesso pode apavorar
A secura torna-se intraduzível
Gretando impiedosamente
O corpo da inspiração

Nas horas doces e honestas
Não fluiem as lágrimas
Palavras mansas formais
Terríveis e opostos tempos
De violências sentimentais
São eco apenas
De sentimentos com voz de prisão paralisados

Pequenos interstícios timidamente abertos
Soltam a brisa de uma libertação…

Publicado por morfeu às 10:23 AM | Comentários (0)

novembro 22, 2005

Da poeira de uma pálpebra...

O Universo
Num gesto de imprevista
Humildade
Desviou o seu curso
- de ampla e indefinida vaidade –
E
Moveu uma poeira mínima da sua pálpebra
Esta singularidade Eu
Surgiu…

Sentindo-se ora desenfastiado
Retomou o seu passo fatal
Para
Em partos distraídos assistir
Outros seres singulares
- sempre resultado da sua inefável pálpebra –…

Eu o outro todos
Vítimas de uma pálpebra incomodada
E
Talvez por consideração
Do aborrecimento de um bocejo…

Publicado por morfeu às 06:14 PM | Comentários (5)

novembro 20, 2005

Emoção da semana...

...esqueçam o post anterior porque a emoção mais "emocionada" da semana, foi estar presente no lançamento do livro do amigo "Orca" do Sete mares, sobejamente conhecido e apreciado pelos vadios e amantes da poesia e por alguns que não sabem se o são ainda ou já. Não nos conheciamos, e quando cheguei à Biblioteca M. de Cascais, vi bastante povo...de maneira que tive de adivinhar. Sorte a minha porque encontro um casal de professores que conhecia mas que já não via há algum tempo. Assim soube que um deles, o Rui era da mesma geração do Jorge, e lá conseguiu descobrir-mo para lhe dar um abraço rápido que as ocupações eram muitas. De lá trago o livroOrca.jpg
que recomendo vivamente a todos os que ainda sonham poesia...com um abraço renovado ao Jorge, aqui fica a emoção da semana...foi uma bela sessão!
Orca-001.jpg


Publicado por morfeu às 05:22 PM | Comentários (7)

novembro 03, 2005

Jazz, jazz, jazz

Ouça o jazz jazz enquanto lê

Sonhei hoje eu
Que estava num cabaré qualquer
Algures numa jazz-city
(podia ser em New Orleans)
E me esgotava em música e bourbon
Numas inalcançáveis pernas dançantes
Soltando por grito solidários
Halleluia! Halleluia! Halleluia!
Amén!
O som quente do clarinete
Entra-me em simultâneo
Pelo álcool das veias
Fazendo pulsar
O swing
Dizendo obsessivamente
Jazz jazz jazz
Ah! Esse quente das lonjuras
Da raiva acumulada de negreiros
Navios que transportavam
A história do sofrimento
Útil para colorir em negro
Dias outonais
Amaciados de negro álcool
Revelador da poesia
Minha
De todos
Negra como
Os Halleluias que o jazz jazz
Grita…
Swing, swing, baby
De longas e inalcançáveis pernas…
Pam pam pam ( faz por aí o baixo devaneando alcoólico e absurdo
E o clarinete…bri Bari bari bariri ri ri…swing swing…

Publicado por morfeu às 08:26 PM | Comentários (4)

outubro 13, 2005

Há em rostos traços...

Há em rostos traços
Que deixam aparentemente
Transparecer
O que lhes vai na alma
Se esta existe
Então revela-se
Injusta e graciosa
Em sorriso aberto
Comissura breve
Pálpebras amêndoadas
Sombreando o excesso de luz
E o brotar disso
Que a alma diz
…se existe

Publicado por morfeu às 07:39 AM | Comentários (1)

outubro 03, 2005

Estou diante de ampla vidraça...

Estou diante de ampla vidraça

(num vulgar café sobranceiro ao largo maior da vila)

Pequena mesa útil e redonda

Onde a bebida espera

Por intermitentes goles…

 

Quando olho para além

Desta translúcida vidraça

Deixo este lado de cá de mim

E passo para o outro lado

Algures

Com pessoas e casas e realidade

Que é eu se retorno

Outro se me alheio

 

Será em opinião muito subjectiva

Uma das experiências mais tremendas

Esta

De estar aqui

Apoiado nesta mesa amparo

E ousar ver

O alem por esta simples vidraça

Que honesta e útil

Me segura e divide

O olhar…

Publicado por morfeu às 11:44 PM | Comentários (3)

setembro 17, 2005

A essa fome sem remédio...

...a que se chama poesia.
(inspirado na poesia de A.Gedeão...e
amigo paulo)

Publicado por morfeu às 08:33 PM | Comentários (0)

agosto 27, 2005

Busto...

artegrega.jpg
Busto feminino,séc.II a.C

Em suspensão de eternidade
Nas esquilhas de gesso aguçadas
Apresentas
Esboço de prisão…
(uma qualquer alma por aí transita)
Ainda aí
Nessa oca interioridade
Fazes pulsar o repouso da Ideia
Em Graça sublime fixas
A ausência de um corpo que houve
Numa sensualidade estilizada
Diriges o olhar de uma nostalgia estática
Para um quotidiano que desliza entrançado
O Tempo e seus servidores
Quiseram-te pó apenas
Tu resististe…
Teimas em contemplar indefinida
Os contornos de uma qualquer Alma
Que insiste em esvoaçar intemporal e abandonada
Por aí…

Publicado por morfeu às 02:08 PM | Comentários (0)

agosto 12, 2005

Nos interstícios soltam-se fios de sonho

wall.jpg
wall

Dói-me esta alma de uma ausência que é poesia
Olho em esforço o lugar dos sentimentos
Perdido nesse afã
Furioso toco este buraco do sentir
Paredes espessas e devotas
Que aprisionam os seres quando estes adormecem
Nos interstícios soltam-se fios de sonho
Esboçando a necessidade acorrentada
Que vai cobrindo a parede da vida
Com observações vegetais
Dói-me esta alma que soletra impossíveis
Sabendo-os existentes
Mas
Prisioneiros de coisas sérias
De princípios de virtudes
Cobrindo a dor como se fora um móvel lacado….

Publicado por morfeu às 06:13 PM | Comentários (1)

julho 07, 2005

NÃ0...

...ouço o silêncio das almas trespassadas
em tempos imprevistos
na inocência de um dia anónimo
todos os monstros por procuração
saíram dos seus covis legais e encobertos
para negarem a simplicidade vital
de quem não os conhece
...o sangue explodiu por simpatia
com bombas covardes letais...
Calo as minhas letras
na impotência da minha singularidade
choro as lágrimas de todos
em compaixão
em raiva
eu digo
Não...

Publicado por morfeu às 09:53 PM | Comentários (5)

maio 14, 2005

O Grito...

munch-scream.jpg

Depois de ti Edvard ninguém
Mesmo ninguém pode voltar a Gritar...
Pela loucura das tuas cores esmagaste
Totalmente os gritos posteriores Pariste
Definitivamente pelo Grito Todos
Mas todos os Ais profundos e enormes
Que se alojam na alma do Ser...
Puseste lá o gesto e o feitio exactos
A abertura milimétrica de uma boca dolorosamente contorcida
Desfiguraste o rosto perdido alongaste o crânio cadavérico beijando a Morte
Como se a Dor fosse resultado de duas mãos enormes a esmagar...
Não contente ainda distorceste angustiaste
O caminho longilíneo e ondulante irmão de um fiorde
De águas irreais à superfície cheirando a loucura
Duas figuras mais puseste um barco meio perdido e
O esboço de uma Povoação ainda
Assim num abraço constrangente de paisagem calaste
Calaste para sempre todo o Grito
Esgotaste em absoluto a essência
Da Dor
Espelhaste e esvaziaste a nossa Alma...
No Grito foste Deus...

Publicado por morfeu às 07:07 PM | Comentários (1)

maio 12, 2005

Queria dizer-te...

Queria dizer-te da minha solidão
Como uma água que corresse sorrindo
Olhar para ti e como oferta
Abrir este meu coração inquieto…
Sim sou ser solitário
Em ânsia e grito o digo
Mas grito que flúi simplesmente
Coisa que passa
Tem o seu tempo…
Queria dizer-te da minha solidão
Como uma água que corresse sorrindo…

Publicado por morfeu às 05:52 PM | Comentários (6)

maio 06, 2005

Abro-te a porta do Templo e do Tempo...

Vou sufocar-te com nós e laços de poesia
Mais incenso em poalha de indefinido
Abro-te a porta do Templo e do Tempo
O portal imenso e principal
O da Necessidade

Vou envolver-te sofregamente nos meus braços
Sem um Destino assegurado
Apenas um desígnio ou fado incompletos
Oh minha musa
Fonte palpitante de gotas irisadas
Mater do desejo ilimitado
Exorciza-me em ritual purificador
Estende sobre mim a Eternidade …

Publicado por morfeu às 08:32 PM | Comentários (2)

maio 04, 2005

Último colo de uma morte quotidiana...

ApUstatesarmymossuldeadchild.jpg

Descrição:A morte no quotidiano
Um soldado americano socorre uma criança que acabou por morrer num duplo atentado suicida com carros armadilhados em Mossul, no Iraque. O ataque, perpetrado numa zona muito populosa da cidade, matou outros três iraquianos e um soldado britânico. (Foto: Michael Yon/AP/Exército dos EUA)

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Ex-risonho infante
Pequeno caule apenas erguido em brisa acariciado
Corpo ora desanimado em matéria inerte
Num absurdo de existência ceifada.
Não nos povoas já com o teu sorriso de criança
Repousas em trânsito
Para o silêncio do Nada
Em braços outros
Afectivos por acidente.
Estranho e desvairado mundo este
Com mãos que pegam em armas
As mesmas sendo em estranheza
Carícia última
Num ser apenas esboçado
Ah criança finda
Voa qual flor para o seio algures possível
De uma mãe efectiva e sorridente…

Publicado por morfeu às 06:15 PM | Comentários (3)

abril 27, 2005

Impossível matriz para uma declaração de amor

Não sei se possa prometer
Que um dia
Forte e brilhante
Ainda
Poderei descobrir essas palavras
Exactas rigorosas e honestas
Para espelhar o meu ser de mim
Na secção sentimental

Sei que é difícil fazê-lo
Porque disso o meu receio faz eco
E não estou certo desse desaguar
De sentimentos complicados
Que eu frequentemente jogo
Nos caixotes de uma existência habitual

Eu dir-te-ei que por aqui estou
Num trânsito constante
Mesmo que pareça andar em viagens aparentemente estranhas…
Que posso de momento murmurar ao teu ouvido?
Que sou e estou desta e daquela maneira
Ora forte ora fraco
Ou em suspensão apenas…
Mas
Estou…
Mesmo que por vezes sofra dessa cortina
Que me encobre em penumbra silenciosa
E te coloca em ansiosa assistência
Numa plateia só tua…

Eu ainda hei-de encontrar essa palavra certa e rigorosa
Que torne desnecessário existirem quaisquer espelhos por aqui…
Com sofrimento alegria amor e todas essas coisas que pensas que serão demais para ti.
Um beijo

Publicado por morfeu às 10:42 PM | Comentários (6)

abril 25, 2005

Ser e não ser Liberdade

25abril.jpg

Nesse tempo enorme e esmagador
Severo e canibal para os próprios filhos
Soprou a revolta furiosa
Farta de sua marginalidade
De não ser
Querendo ser

Pelos interstícios desse mesmo monstruoso Tempo
Os gemidos da inicial utopia
Infiltram-se
Propagam-se
Gerando a matriz cada vez mais prenha
De infinitas possibilidades

Acompanhando essa por convenção
Linha recta do incontornável Tempo
Teimou em prosseguir
Obcecando num horizonte invisível
Perseguindo as suas virtualidade
E
Algures num contornar viajante
Descobre-se em seres que falam
Inicialmente caóticos
Mais tardiamente produtores de sons e palavras
Muitas e dispares
Vagueiam pelo mundo algures colocado
Gemendo de indefinição
Sendo e não sendo
Em anestesia activa de sonho indecifrável
Ansiando eternamente por uma paragem
Que lhe desse um nome um fim um motivo
Que lhe apaziguasse as entranhas

Em Abril paraste mas não te deténs
Do ser e do não ser
Do real e do onírico
Do meu e do outro
Te fizeste

Infinita Liberdade
Tens por essência não ser pertença de nada ou ninguém
Queres inconsciente ser algo que não se vê
Que a poesia apenas toca
Que a vida mal pressente
Em ânsia
Em agonia gloriosa
Apontando um fim interminável

...passando em Abril
Para onde caminhas
Inefável LIBERDADE...

Publicado por morfeu às 01:15 PM | Comentários (4)

abril 21, 2005

Oh esta minha esteira que se alonga por mim nas noites diversas e cálidas…

esteira.jpg
Descrição: Na Polinésia, a cestaria ou o trabalho com a casca interior de árvores e folhas, substituem o tecido (vd entrada anterior).Na fotografia, uma mulher com uma esteira que serve para se cobrir durante a noite.(O.c.1ºvl.pg.281)

No chão terra mater
Encosto em quietação nocturna
O meu corpo
Ora cansado
Ora outras coisas de ânsia habitual

Esta minha esteira em feitio de mim feita
Sempre permanece
Cobrindo-me
Nas noites diversas e cálidas…

De manhã agradeço-lhe
E faço-a em afago íntimo
Namorar com o vento fresco e matinal

Oh esta minha esteira que se alonga por mim nas noites diversas e cálidas…

Publicado por morfeu às 01:01 PM | Comentários (1)

abril 20, 2005

...este meu simples penteado de folhas e flores...

cabelofolhas1.jpg

…assim
Com as minhas mãos simplesmente
Entreteço em arte
A delicadeza macia de folhas e flores
Em verde e branco
Qual noiva embriagada
Pela ilusão do desconhecido…

…creio mesmo
Em meu perfil de virgem admirada
Que Deus não é Deus
Mas sim mestre de uma arte aberta
Em tecer cabelos…

Com as minhas finas mãos
enlaço flores e folhas em branco e verde
Pele-superfície da profundidade dos meus sonhos…

Publicado por morfeu às 09:51 PM | Comentários (3)

abril 14, 2005

Envolto nesta sonoridade meditativa...

...ao ilustre visitante sugiro, caso para isso disposto, que ouça em ambiente propício, se deixe envolver por alguns momentos neste ambiente... e, por amabilidade, leia o poema...
05 Faixa 5.wma

Neste esmaecer de um dia mais
Que em amabilidade tolerante
Se me dispôs tal e qual
Quero
No abrir de uma mais ainda tolerante Noite
No seu veludo com pedras brilhantes
Deixar-me num ambiente propício
Meu
Possuir por esta inefável apesar de humana sonoridade

Assim
Abro o meu coração
E construo um orar inédito
Sem as minhas palavras
Apenas com o vento deste som magnífico
E
Deixo-me ir vogando na Beleza
Desta experiência sempre irrepetível

Em amizade gostarei de partilhar…

Publicado por morfeu às 10:21 PM | Comentários (7)

A chuva caindo...

raining.jpg

Já paraste para ouvir a chuva cair
Em gotejo gordo e redondo
Dizendo “estou aqui, estou aqui”…

Em experiência meditativa
Ergo-me por detrás da vidraça
E olho e vejo e sinto
Mais do que isso: Ouço

O som macio afaga-me os sentimentos
De fora para dentro lava-me
E leva-me as agitações necessárias

Semicerro o olhar
E já não somos dois: a chuva e eu
Ingresso no ser líquido
Deixando-me ser
Água e rio e corrente e mar…

Já experimentaste erguer-te ante a vidraça
Para sentires o falar da chuva?

Publicado por morfeu às 09:44 AM | Comentários (3)

abril 11, 2005

Simplesmente manhã e poema.

melro.jpg

A erva simples e verde está agora aparada
A sebe indigna-se por alguma incúria
A sardinheira ainda recupera do frio Inverno
…manhã esta abençoada de Sol e Vida
Onde os sons são simples e habituais…
Ali atrás em existência calma
Os melros galanteiam o brotar das flores
Salientam o negro das penas com o amarelo do bico
Envaidecendo a ameixoeira vaidosa
Numa ausência absoluta de Tempo
Assim
Hoje
Da semana princípio
Vejo as coisas efectivamente serem
Convidando-me em abraço matinal
Para o simples existir.
O meu obrigado.

Publicado por morfeu às 09:58 AM | Comentários (8)

março 20, 2005

Agito o meu ramo de oliveira...

pombaramo.bmp

Um ramo de oliveira quero eu agitar
Em domingo de Ramos chamado
Lançá-lo num gesto largo e alto
Fixá-lo em voo de pomba em Liberdade

Que seja este gesto parente
De toda a oração universal
Mil gestos sejam assim solidários

As oliveiras oferecem seus préstimos
Deixam as suas folhas brilhar
Alargam as suas copas em desprendimento
Riem num optimismo primaveril

…sejam nossos rebentos e ramos
Uma fonte
Que adoce a insalubridade e despudor dos Tempos…

…com ramo de oliveira aspergi este dia…

Publicado por morfeu às 06:46 PM | Comentários (1)

março 03, 2005

Até quando amigo...

Até quando amigo
Levantaremos nossos copos em libação?
Quando será o tempo impeditivo
Que cortará nossos gestos belos e insensatos?

Até lá esqueceremos toda a provação
Saboreando o momento único e absoluto
Em que as nossas almas são matéria corporal
E
Dedicamos odes à eternidade…

Venha essa dor prenhe de sofrimento
Lembrar a nossa absurda condição

…até quando amigo…

Conversaremos com empenho
A amizade pairando na quietude de uma atmosfera singular
Nos olharemos com doçura e brilho
Fazendo os nossos sentimentos
Sair
E
Serem verdadeiramente nossos…

Será que lembraremos mais tarde
Esses momentos solidários?
Recordando sons e odores
O leque olfactivo da uva transformada
Que nos acaricia a língua em corrente suave
Propiciando uma escada caótica para a divindade…

Pergunto eu até quando?
Imagino que até
Nos lembrarmos….

Publicado por morfeu às 06:38 PM | Comentários (2)

fevereiro 23, 2005

Esta enorme secura...

deserto.jpg


A fonte fechara-se
Escorrendo as suas lágrimas
Para o seu profundo interior

...loucas à superfície agitavam-se sombras
porque perdido fora o local
que as apaziguava em murmúrios húmidos...

A última vez que aqui viera
já era um distante longe
...uma Inexistência
a frescura serena que pusera em algumas palavras...

...louco julgara que a criação seria eterna
e os deuses acompanhariam com um sorriso complacente
os esboços argilosos dos seus fantasmas...louco...

... e os dias longos de um Invernos impostor
impunham uma tortura que se cravava espinhosa no corpo da alma...

Poderia ter-se deixado ir
Acompanhando ou levado por essa secura absoluta
Poderia ter abandonado de vez os prados e poemas
Poderia ter fixado um horizonte único e definitivo
E nunca mais volver para trás ...

...ora em dia finalmente humedecido pela bênção da chuva ausente
reparou no monte de barro que inerte e abandonado por ali esperava mergulhou timorato as mãos nessa matéria divina
e tirando alguns pedaços
pronunciou-os e deu-lhes letras e palavras por companhia

...ainda que exangue a fonte voltara a derramar algumas lágrimas
Numa breve superfície...

Publicado por morfeu às 12:51 PM | Comentários (1)

fevereiro 14, 2005

O Beijo!

klimt-kiss.jpg

O beijo...esse uso da boca
Esse desvario dos lábios
Com sensores neurónios
Presos à infindável genética da eternidade…

Aqui o que se quer
O que se deseja plasmar
É esse arrojo erótico
Esse êxtase invulgar
Indefinível
Indecifrável

…perde-se o alento nessa comunhão desvairada
Mergulhamos de alma e coração
Nessa liturgia imensa
Sentindo sei lá o que diga…

Único
Particular
logicamente inclassificável
O beijo…
Essa improvável
criação...
… pânica música que
Me acompanha…

Eu o outro
O beijo…….

Publicado por morfeu às 02:52 PM | Comentários (6)

fevereiro 01, 2005

Poemas moídos em moínhos três...

Moinhodevento.jpg
Foto de M.Gonçalves

...ir num fim de tarde imprevisto
subir uma colina predestinada para
as carícias do vento
e
olhando e ouvindo
ajudar na sinfonia única
dos búzios suspensos
dançando o ritmo das velas
vaidosas de vestuário e movimento...
A minha infância está aí
quando
inconsciente fazia companhia
ao zunir do vento
zelava pela brancura útil

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foto-349.jpg
Foto de Pedro Piedade

Moinho erguido na paisagem...

Merecerá o viver muito mais que isto?
...esta nobreza útil bela simples
anonimamente erguida
amando o vento que a possui
sempre que por aqui passa?
...as florinhas doces crianças coloridas
fazem-lhe discreta companhia
namorando com o verde
apaixonando as pedras indiferentes...
Lá mais ao fundo a serra envolvente
e o céu que insiste em vestir de azul
testemunham...
Moinho esbelto que nasces na paisagem
fica por aí...
Sei que nos dizes:
"aflorai com o olhar a minha solidão
ouvi em sessão marcada o zunir das velas ausentes...
os vossos passos sejam ligeiros
suficientemente calmos mas efémeros...
desfrutai...
Um dia talvez já não esteja por aqui..."

--------------------------------------------------------------
foto-345.jpg
Foto de Pedro Piedade

Neste farol-moinho irei talvez um dia descansar
Já marquei passagem vital para nele lançar uma amarra...
Assim poderei olhar coisas simples e evidentes e belas por isso mesmo...
Subirei os simpáticos e elegantes degraus um a um em cada um pararei...
...vou olhar e construir um horizonte progressivo que a cada movimento se transforma...
...
Farei sinais com os braços estendidos para outros faróis-moinhos...
As velas accionalas-ei com adeuses circulares sentirei o redemoinho eólico refrescando em carmim a face...
...E como irá chover dentro escutarei os martelinhos caóticos das gotas que sinfoniam para mim...
Eu que estarei apenas embrulhado numa qualquer espécie de alma despojada...
Eu que não precisarei de muito mais para descansar neste moinho neste farol...
Acompanhado de céu e mar e vento e ar sorrirei dizendo adeus a outros moinhos.....

Publicado por morfeu às 11:25 PM

janeiro 31, 2005

Do testemunho gritado em silêncio...

Dum silêncio ignoto
Se inicia o ritual da noite
Trâmites vários
Preliminares subentendidos
Dizer amor de forma convicta
Alheia ou assim assim…

O silêncio passeia na obscuridade
Anotando gestos passos
Escaramuças dos corpos
Que alheios à verdade visível
Se mostram obscenos

O silêncio ri
Da bocarra escancara de noite uma mais
Das possibilidade infinitas
Dos casos e dos casais
Dos gritos iniciados que ficam exangues
Em gargantas desfalecidas e impossíveis para mais

Do silêncio faço a amplitude
Do meu ser
Tolo abstracto e mais alguma coisa
Que
O silêncio filtra
Censurando a já clausura de sentimentos
Inúteis
Terríveis
Amordaçados

Do silêncio
Da sua utilidade
Do seu encobrir a vida
De a amaciar
De ser o arauto astuto e fiel
Do absoluto e eterno…silêncio

Publicado por morfeu às 11:36 PM | Comentários (2)

janeiro 29, 2005

O escorregar da Noite...

Carecem os fins de tarde de peso sólido
O dia encaminha-se para a inevitável noite
Esta soergue-se ainda remelosa
Ao sinal de um sol em render de guarda
Este auscultando da lua a disponibilidade
De mudança de quarto.

Lentas preparam-se as sombras
Que pelo negrume deixam tocas e abrigos
Ensaiando caretas assombrosas
Para mais tarde exibir no Carnaval dos sonhos
Estes ainda em embrião embrulhados
Bocejam as imagens tardias de noites passadas
E gritam já originalidades inconcebíveis
Esvoaçando como morcegos
Em cavernas encenadas de comédia
E com tragédias em entreactos.

E por aqui estamos virados para esta rotina
Os corpos ansiando pela luz fugidia
Bocejando medos e quimeras

Aproveitamos para ensaiar promessas e actos amorosos
Que se colam nas paredes escurecidas
E se vão incrustar nas memórias
Preparando o futuro das lembranças enternecidas

Deus boceja a noite abre-se os corpos encolhem-se
A alma duvida da sua existência
E esta daquela
Abrimos as portas das profundidades insondáveis
Entramos no destino
Arranhamos angústias
Sorrimos sem saber
Escarnecemos em desespero de causa
Do Nada.

Amanhã é domingo…

Publicado por morfeu às 06:41 PM | Comentários (4)

janeiro 22, 2005

Gaivota solitária...

foto-230-cinzento.jpg
Foto de Pedro Piedade

...encontrei-me em dia de Inverno perante
paisagem lacunar translúcida com luz branqueando divina
numa terra de seres de índole humana esculpidos a sal.
O olhar abriu-se em curiosidade larga pousante
aqui e ali tacteando até parar...
Pequeno ser ínfimo ao olhar descuidado mas
revelando-se progressivamente saliente na sua existência
momentaneamente solitária em prece extática
comungando largamente com o absoluto da paisagem
branca enevoada de sal com brilhos de efemeridade
que uma simples imagem capta inutilmente...

Publicado por morfeu às 08:23 PM | Comentários (8)

janeiro 21, 2005

Dei por mim a olhar de sobressalto...

Até agora para os vivos dirijo o meu olhar
Como se nada mais houvera a fazer
Tudo sol e terra e verde
Enfeitando anos contínuos
Impecáveis no seu desenrolar silencioso e bom

Dei por mim a olhar de sobressalto
Um paisagem que estava ali
Esperando
Como se não quisesse ser percebida

Neste momento, as sombras de um Outono múltiplo
Começaram a cobrir a serenidade estabelecida
Desalojando o seu leito constante

Das paredes chegam humidades intranquilas
Humedecendo a periferia da alma
Que refeita da surpresa que não era
Se vai ajeitando para essa viagem
Nela inscrita…

Dei por mim a olhar de sobressalto…

Afaguei os adornos da vida
E olhei para onde ainda o olhar me não levara
Caminho desconhecido mas inevitável
Com indicação útil e inequívoca…
Um M em néon festivo marca
O princípio visível dessa nova odisseia…

Publicado por morfeu às 09:55 PM

janeiro 12, 2005

Aqui ao lado reside um cão em situação de luto abandonado

Aqui ao lado reside um cão em situação de luto
Abandonado.
O dono útil e de todos os dias morreu no sábado passado.
Diariamente passavam os dois à minha porta
Nos seus passeios de companheiros solitários
O cão ligeiramente à frente
O dono calmamente atrás.

Hoje em casualidade
Enquanto a chuva morrinhava
Passei resguardado pelo guarda-chuva
Diante da casa enlutada
Lá estava ele sobre o muro
Nos seus equilíbrios habituais
Vi que os seus olhos ao fitarem-me
Me disseram da tristeza
Da sua estupefacção canina
Em não sentir movimento algum
Na casa agora sem vivalma
A estas horas estará porventura
A aguardar que o dono surja
Do seu sono eternamente prolongado
E em sombra fugaz
Lhe continue a indicar o horário
Dos passeios habituais
Até que um dia também a sua esperança
Feita de sons e cheiros e de algum carinho
Se aborreça e se dilua também em ausência definitiva

Aqui ao lado reside um cão em situação de luto
Abandonado.

Publicado por morfeu às 09:52 PM | Comentários (5)

janeiro 07, 2005

“Até já pois em música e abraços ignoraremos a mortalidade”….

Etrusco-001.jpg

Ah como são graciosos os momentos
Passados nas sombras incógnitas do Hades
Delas brinca jocoso e mais
De flautas puras o som…
Afeiçoadas pela graça da adolescência
Que ignora com sobranceria a morte
Essa injuriosa afronta

Juro Triclínio que mesmo moribundo
Conservarei teu legado em intenção
E não deixarei as Carpas invadirem
Dementes o invólucro da minha caducidade
Juro.
Estarei precavido e qual Pã absoluto
Criarei musicalidades tais
Que tornarei louca essa farsa
Essa demente ceifeira que
Em fatalidade assistida pela presença
Dos deuses
Corta caoticamente essa maravilha
Que a vida teima em ser…juro!

Brisas sonoras e esvoaçantes
Sairão de um sopro improvisado
Fingindo viçosa vida
Trocando os atalhos da morte…

Para ti Triclínio a minha elegia
Expressa em epitáfio exuberante
Assim:
“Até já
Pois em música e abraços
Ignoraremos a mortalidade”….

Publicado por morfeu às 01:54 PM

janeiro 06, 2005

...e tu só queres agarrar o vento...

Vento.jpg
Foto de Pedro Piedade:É possível fotografar o vento?

Ah o Vento…Tu és daqueles que querem agarrar o Vento…
Ele é nas suas manifestações
Sopro dos Deuses nos seus humores vários
Em tragédia ele se exprime
Em violência ele subjuga
Em brisa ele afaga

Aqui nesta interrogação possível e dita
Embrulhado em Azul
Apenas se quis amável e enamorado…
Esqueceu a sua impetuosidade e
Aflorou docemente
Estes simples e insignificantes caules adornados
- mas refulgindo o oiro solar –

Deles se apossou…

Dessa possessão vemos o curvar
Como se de uma dança se tratasse…

É o vento que traz a sua música
Arrastando o seu existir eterno
Descansando momentaneamente
Dos desmando dos Deuses aborrecidos
Deixando-se encantar e cantando enamorado
Num dia natural e magnífico…

É possível captar o vento?...

…e tu só queres agarrar o vento…

Publicado por morfeu às 12:43 AM | Comentários (3)

dezembro 30, 2004

Tempo, arauto útil do Desconhecido...

Em dias últimos de ano nenhum
Quero de olhos entreabertos
Impregnar o Tempo de Palavras…

Ele está aí indefinível
Em multiplicidade de faces enigmáticas
Cujos segredos podem improvavelmente
Ser revelados.

Em turbilhão autónomo
Agitam-se as vísceras mentais
Em parto convulsivo: jorram os rios
Com palavras flutuantes
Tocando-se aleatoriamente
Em ligações esboçadas.

E o Tempo permanece em pedestal volúvel
Inebriando o verbo
Abrindo-lhe trilhos em paisagem vária
Sendo os seus passos ora sombrios
Ora iluminados já esquecidos pela noite insidiosa
Que estende o seu peso qual lacaia da eternidade.

Queremos trilhar o Tempo mas o nosso arado
É apenas uma forma nebulosa
Que se esvai nesse roçar esgotado
Sendo os caminhos abertos
Cicatrizados de imediato
Pela mão milagrosa doutros instantes…

Deixei estas palavras surgir
Forçado pela sua impetuosidade
Em dias últimos de ano nenhum
Obedecendo a ordens atemporais
Oh o Tempo…esse arauto útil do Desconhecido…

Publicado por morfeu às 10:09 AM | Comentários (10)

dezembro 21, 2004

…um gato esventrado jazia anónimo na via habitual…

broken-mirror.jpg
Salve dia a dia útil e corriqueiro!
Avé brancura enigmática da inutilidade!

…um gato esventrado jazia anónimo na via habitual…

…olhei-me e senti que
A minha existência e a própria morte
Recolhiam o espelho estilhaçado
Que por ali se partira…

E no entanto
Continuo mais ou menos indiferente
A uma muito real possibilidade
De as coisas serem assim…

Chego agora a minha casa
Sinto o seu cheiro sagrado
O lume vital
Preenche em luz e sombra
As minhas hesitações…para ele olho e cismo.

Publicado por morfeu às 09:27 PM | Comentários (3)

dezembro 19, 2004

Um poema de Natal

Não sei porque ares
Épocas ou ais que tais
Me sinto falho sobre o Natal escrever…
Fogem-me as palavras
A alma esconde-se
Cai-me um sofrimento alegre em cima…
Raios…
Talvez porque o pai natal
Quando pequeno eu era
Só me trazia um par de meias
Todos os anos mais ou menos repetidas…
…e uns rebuçados de meio tostão quase…
Eu já lhe perdoei a forretice
Que não existia…
Apenas os autores da proeza
Que meus pais eram
Tinham uma prole
Um bando
Uma multidão de filharada
…apenas nove!
Então
Como não hei-de escrever sobre o Natal?...
Mas devo ser justo e dizer isto:
…ainda gosto de meias e de rebuçados de meio tostão quase...

Publicado por morfeu às 07:28 PM | Comentários (2)

dezembro 16, 2004

Aqui nestas tábuas aparentes...

janelas com flores.jpg
Foto de Pedro Piedade

Aqui nestas tábuas aparentes
Ripadas de azul e branco usado
-Patine de tempos transcursos -
Desejaria Eu
Estar ora em cima
-Janela -
Ora em baixo
Olhando de formas diferentes.

Assim percorria o narcótico Tempo…

Um dia enfastiado pela beleza calma dos habituais momentos
Coloquei
Em distracção vivamente afectiva
Um vaso
De humildade floril
Talvez sardinheiras…

…posteriormente morei na janela
Inferior
Para que ainda
Escondido pela a amabilidade das frestas
Pudesse contemplando
Namorar o odor simples
Daquela naturalidade…

Aqui nestas tábuas aparentes
Que desejaria eu afinal?...

Publicado por morfeu às 07:09 PM | Comentários (2)

dezembro 08, 2004

Faça-se Luz...

foto-366.jpg
Foto de Pedro Piedade

Quando abruptamente orientaste o olhar
Para a surpresa de um horizonte qualquer
Não esperavas captar uma das múltiplas e divinas manifestações…
Faça-se Luz…
Em todo o seu magnífico e incomensurável esplendor
Forrou-se o firmamento dos adornos necessários
As nuvens úteis e algodosas
Serviram de barca
Aconchegaram o fantástico
Suportaram esse bramido luminoso
Faça-se luz…
O mundo e a humanidade desvelaram-se
Mas
Deus encobriu-se…

…e a luz fez-se…

Publicado por morfeu às 11:42 PM | Comentários (4)

dezembro 05, 2004

Anjos da América...

angels.jpg

Num grão de noite
Da noite luz do Universo
Vi seres humanos em sonho com Anjos…
Era na América…
Em terra sonhada
Em terra de liberdade apregoada
Continuam
Não obstante
A sonharem-se sonhos…
A paz desceu sobre o sofrimento
Não esquecido
E os personagens desse sonhado sonho
Olharam-nos directamente
Olhos brilhantes para húmidos olhos de almas sentidas
E contaram a historia do seu anjo
E da fonte que outrora jorrou em Jerusalém
Agora neste grão de noite da noite luz do universo
Senti que a escuridão pode não ser tão completa
Tão absoluta tal
Que encubra o desejo
Dos meus sonhos
Destes sonhos minúsculos
Que se sonham nestas noites grão
De noite luz…
O meu abraço Anjos da América
Anjos do Mundo
Anjos …

Publicado por morfeu às 01:15 AM | Comentários (4)

dezembro 01, 2004

Que se passa com esta nuvem de poetas...

...dedico aM.Branco que passou por aqui dizendo adeus...


Que se passa com esta nuvem de poetas
Seres desvairados e de difícil entendimento
Loucos dotados de palavras sentidas
Condenados a empurrar as pedras do impossível

Aparecem desaparecem alguns teimam
Neste lançar para o vento
As estranhas e sedutoras bizarrias
Que forram tempestuosamente a sua pele
Aprisionando o seu ser amarrotado
Por necessidade de clareza
Água pura e cristalina que deslize
Pela quebrada da existência
Apontando um caminho
Na multiplicidade devoradora de sentidos…

Nuvem de poetas insustentável
Que insistem em aparecer
Que choram e riem em asilo de loucura aberta
Sonhando com casas amplas de liberdade
Desenhando paredes que não se querem
Letras que o tempo apaga
Possíveis esgares de eternidade

Para quê este desvairado agitar de seres doridos
E utopicamente em perdição…

Pobres poetas opacos ou translúcidos
Possíveis mensageiros de um Deus bizarro e distraído…

Poetas…viajantes das nuvens passageiros do vento
Esperando chuva benfazeja para desconfortavelmente se diluírem…

…que se passa com esta nuvem de poetas?...

Publicado por morfeu às 12:09 PM | Comentários (2)

novembro 30, 2004

Dias há de secura bruta e inútil...

Dias há em que
Chovendo lá fora em naturalidade
Existe secura feia e bruta
Numa anónima e sem qualquer importância alma…

E se tudo isto estiver
Envolvido num fado triste qualquer
Nem amores ou paixões,
Entusiasmo ou coisa outra
Podem
Levantar esse véu de inutilidade

Dias há em que as lágrimas do poeta
Correm secas
Por se terem afastado da fonte…

Mas…embora a secura se tenha instalado
Um oásis perdido coloca-se no horizonte do desagrado
Ele é pobre de sombra e de verdura mas é o único de serviço…

Dias há em que o fluxo do vento
Que agita a chuva
Não basta para refrescar uma alma
Anónima e sem importância qualquer…

Dias há ó miragem de Deus… dias há…

Publicado por morfeu às 12:09 PM | Comentários (2)

novembro 23, 2004

Todas as absolutas manhãs...

morning.jpg

Todas as absolutas manhãs
Serão obrigatoriamente
Cumprimentadas
Por um sorriso aberto…
Superficial ou em profundidade
Será
O meu segredo
Diário e habitual…
Que o exterior
Não se queixe
Portanto…
O resto
Será apenas
Assunto
Do meu tutano anímico…

(...a ideia é acompanhar com "morning has broken" de Cat Stevens)

Publicado por morfeu às 12:16 PM | Comentários (3)

novembro 14, 2004

Húmus erguido de um amargo ilusório

foto-361.jpg
Foto de Pedro Piedade

Não terá a humilde e verde azeitona
O direito de ser bafejada pelo quente da poesia?
Porque infante e diminuto, o fruto seu
Não se apresenta com traje de ribalta?
Pois…
Eu vejo qualquer coisa de extraordinário
Nesta aparente simplicidade…
Posso imaginar a aura da paz
No crescer hesitante das suas folhas
Posso adornar um futuro
Em ramo de oliveira
Erguendo simbolicamente a loucura de uma qualquer utopia…
Posso, ao acariciar com a vista este ambiente tranquilo
Abandonar a existência neste exemplo de flor de terra,
Húmus erguido de um amargo ilusório…

...dedico ao meu recém conhecido amigo na blogosfera,Silas de seu nome e de geografia brasileira...aquele abraço...

Publicado por morfeu às 02:49 PM | Comentários (5)

novembro 12, 2004

Como algas flutuando sobre um rio...o elogio do vinho.

vinha.jpg
Foto de Pedro Piedade


Uvas
Rubras
Brancas
Verdes
Sangue da terra e suor
Cachos de uvas
Tantas vezes
Outro nome para a dor

Frágeis
Expostas
Ridentes
Ao rés do chão
Nas latadas
Rubras
Brancas
Maceradas de geadas e calor
Uvas franjadas de verde
Parras verdes cuja cor
Se mancha de ouro e cansaço
Por Setembro e por amor

Uvas despidas de frio
Engavinhadas na vida
Néctar da nossa mesa
Por lágrimas
E alegrias

Árduos cachos de labor
Sangue da terra lavrada
Seiva da terra exangue
E suor
Tanto suor...

Jorge Castro

Um amigo meu, homem superior, considera que a eternidade é uma manhã e dez mil anos, um abrir e fechar de olhos. O sol e a chuva são as janelas da sua casa. Os oito pontos cardeais as suas avenidas. Caminha sem destino. Inútil se torna procurar as suas pegadas. A sua casa tem o céu por tecto e a terra por leito. O seu único pensamento é o vinho. Nada mais, aquém ou além, o preocupa.
O seu modo de viver chegou aos ouvidos de dois respeitáveis filantropos: o primeiro, um jovem nobre; o outro, um famoso letrado. Foram visitá-lo e com olhos furiosos e ranger de dentes, agitando as mangas das suas vestes reprovaram vivamente a sua conduta. Falaram-lhe dos ritos e das leis, do método e do equilíbrio. E as suas palavras zumbiam como um exército de abelhas. Entretanto o seu interlocutor encheu um copo e bebeu-o de um trago. Depois sentou-se no solo, com as pedras cruzadas, encheu de novo o copo, afastou a barba e recomeçou a beber até que, a cabeça inclinada sobre o peito, caiu num estado de ditosa inconsciência, apenas interrompido por relâmpagos de semilucidez. Os seus ouvidos não teriam escutado a voz do trovão, os seus olhos não teriam reparado numa montanha. Cessaram frio e calor, alegria e tristeza. Abandonou os seus pensamentos. Inclinado sobre o mundo contemplava o tumulto dos seres e da natureza, como algas flutuando sobre um rio…

Lieu Ling ( séc. III )

in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro(Tradução de Jorge Sousa Braga)

Publicado por morfeu às 03:09 PM | Comentários (7)

novembro 09, 2004

Ave!

foto-314.jpg
Foto de Pedro Piedade

Ave! Dia assim brilhando
Num esplendor abençoado
Luz enorme reveladora
Vaidade de Deus
Nas suas particularidades…

Dia brilhante e abençoado
Eu te saúdo
Ave!

Publicado por morfeu às 10:52 AM | Comentários (6)

outubro 28, 2004

Caminhar...

path.jpg

(...)É através dos pés que se estabelece um contacto imediato e directo com as coisas: quando caminhamos, vemos o ínfimo, somos sensíveis às coisas pequeninas. Posso ver o escaravelho que empurra convictamente a sua bolinha de excremento, torno-me familiar deste tufo de erva, afloro a casca das árvores, apanho e guardo pequenas pedras , amo o silêncio dos sons da floresta, sinto a presença insignificante dum cogumelo , bebo nas fontes rumorejantes, invejo o voo das aves, e, o mover das nuvens, a presença do céu, inebriam-me definitivamente...
...vou-me abandonando na tentação da paisagem, oriento-me pelo alcançar duma qualquer longínqua colina que ao longe parece balancear na reverberação do ar e da luz excessiva: é a minha colina, é o horizonte que escolhi para amar. Aproximo-me lentamente, saboreando o sopro da respiração , canto , assobio, sonho caminhando...
Não esquecer o terra a terra do caminhar, o húmus, a humildade do pisar sem afastamento orgulhoso, sentindo de uma forma purificadora que o importante na vida é o caminhar e não chegar algures: "caminhante não há caminho, faz-se o caminho ao andar....
( A.machado )

...relembrando escritos antigos...

Publicado por morfeu às 05:34 PM | Comentários (4)

Em luz baça e divina um ser efémero...

foto-230-cinzento.jpg
Foto de Pedro Piedade

...encontrei-me em dia brumoso perante
paisagem lacunar translúcida com luz branqueando divina
numa terra de seres de índole humana esculpidos a sal.
O olhar abriu-se em curiosidade larga pousante
aqui e ali tacteando até parar...
Pequeno ser ínfimo ao olhar descuidado
revelando-se progressivamente saliente na sua existência
momentaneamente solitária em prece extática
comungando largamente com o absoluto da paisagem
branca enevoada de sal com brilhos de efemeridade
que uma simples imagem capta inutilmente...

Publicado por morfeu às 10:43 AM | Comentários (2)

outubro 27, 2004

Ainda a experiência do Vento de Outono...


dthomas.jpg
Dylan Thomas
View image

...tendo tido a possibilidade de trocar impressões sobre a tradução deste poema magnífico de Dylan Thomas e respectiva tradução em portugês por Fernando Guimarães, com a Pink Lady do Shrine of Hypnos
Shrine of hypnos
surgiu a ideia de pôr em comparação o original e a versão portuguesa.A Pink ofereceu os seus conhcimentos anglófonos e fez-me chegar o original...um obrigado para ela...
Morfeu

Publicado por morfeu às 05:45 PM | Comentários (2)

outubro 26, 2004

Dedico a duas visitas recentes...

Há flores de Zait no jardim
Corto e junto flores para ti
Faço-te uma grinalda
E quando ficares ébrio e te deitares com esse sono
Sou eu quem te lava os pés para lhes tirar o pó.

(Poemas de Amor do Antigo Egipto)
- trd.de Hélder Moura Pereira –

-------------------------------------------------------------------
Porque de Amor as palavras
Ficaram algures por dizer
Alongo a minha nostalgia
Afectiva
Numa ponte larga
De história…ao Egipto …
Aí encontrei
As flores, o gesto
De uma grinalda simples e sensível
A comoção do vinho…
…o despojamento de uma paixão
Incomensurável…

Os teus pés
Para as pétalas de rosa
Em água perfumada
Estende…

Assim abri
Uma larga e fulgurante
Ponte
Entre tempos díspares

…aparentemente…

Publicado por morfeu às 12:38 AM | Comentários (3)

outubro 23, 2004

O Vôo da Poesia...

falling_leaves.jpg
Espalho poesia
Como quem julga
Poder agitar
A magia dos afectos
Disperso poemas
Na esperança
De ao caírem
Em florida e mansa grinalda
Se ofertarem…

Amizade amigos
Amados amantes…

…disperso poemas
…espalho poesia…

Publicado por morfeu às 11:40 PM | Comentários (7)

outubro 20, 2004

Amoras verdes a caminho de maduras...

foto-362.jpg
Foto de Pedro Piedade

Caíste neste carreiro, amigo meu
Com pressa de citadino
À partida…

Nesta natureza não habitual
Para ti estranha e bárbara
Foste surpreendido por
Fruto desconhecido…

Que bolinhas estas
Quase todas verdes
Duas pretas diferentes?

…ladeando o trilho
Semearam as bermas esquecidas
Renques de silvas espinhosas
Ocupando lugar abandonado…

“Sim, somos desta forma em mudança
Agora verdes, mas já prenunciando a maturidade”…

Amoras que esperam calor suficiente
Para cumprirem os seus fados:
…secarem por esquecimento
Ou alheamento das aves
…serem saboreadas por alguém
Que da infância recordou a canção:
“Oh minha amora madura, oh minha
Mora madura
Ai diz-me quem te amadurou
Ai diz-me quem te amadurou
Foi o sol foi a geada, foi o sol
Foi a geada,
Ai foi o calor,
Que ela apanhou”…

...saciado voltaste às tuas habituais ocupações
E no longe do caminho deixaste
Em solidão adiada
Amoras verdes a caminho de maduras…

Publicado por morfeu às 10:10 PM | Comentários (5)

outubro 19, 2004

A recta infinita dos loucos.

Sonhemos uma recta infinita…
De um lado, loucos…
De outro quem senão eles?

Publicado por morfeu às 09:27 AM

outubro 16, 2004

Liturgia das Horas...

Louvado seja Deus na natureza,
Mãe gloriosa e bela da Beleza,
E com todas as suas criaturas:
Pelo irmão, senhor Sol, o mais bondoso
E glorioso irmão pelas alturas,
O verdadeiro, o belo, que alumia
Criando a pura glória – a luz do dia!

Louvado seja pelas irmãs Estrelas.
Pela irmã Lua que derrama o luar,
Belas, claras irmãs silenciosas
E luminosas, e suspensas no ar.

Louvado seja pela irmã Nuvem que há-de
Dar-nos a fina chuva que consola;
Pelo seu azul e pela Tempestade;
Plo irmão Vento, que rebrama e rola.

Louvado seja pela preciosa,
Bondosa água, irmã útil e bela,
Que brota humilde, é casta e se oferece
A todo o que apetece o gosto dela.

Louvado seja pela maravilha
Que rebrilha no lume, o irmão ardente,
Tão forte, que amanhece a norte escura,
E tão amável, que alumia a gente.

Louvado seja pelos que passaram
Os tormentos do mundo dolorosos,
E, contentes, sorrindo, perdoaram;
Pela alegria dos que trabalharam,
Pela morte serena dos bondosos.

Louvado seja Deus na mãe querida,
A Natureza, que fez bela e forte:
Louvado seja pela irmã Vida,
Louvado seja pela irmã Morte.

Francisco de Assis – (1181/2 – 1226)
( Segundo a Liturgia das Horas)

In rosa do mundo – 2001 poema para o futuro

Publicado por morfeu às 09:46 PM | Comentários (3)

outubro 14, 2004

Quando só...

...porque quando só
levanto a cabeça
subtilmente ausente
e
faço companhia
a mim próprio...
...
a atmosfera noturna
buscando cetim
basta-se
lavando-se
com a chuva das lágrimas...
noite benfazeja
diz-me ainda que sonolenta...
até logo...

Publicado por morfeu às 01:12 AM | Comentários (3)

outubro 13, 2004

Onde estão os meus chocolates...

euphoria-truffles-335p.jpg
Perguntas-me...
Onde Os Chocolates?
Amor...
Posso ser sincero?
Foram todos à vida...
Comi-os...
...
São suficientes as minhas palavras?
Temos algo mais como proposição?
Devo esmiuçar os meus estados de cabeça?
...
...o Deus Baco viajando
passeando de tarde
à beira de uma janela simples...
Queres validade
Queres Verdade?
Ou Almas em lamentação?

Publicado por morfeu às 10:33 PM

outubro 09, 2004

Confort...

confort.jpg

Onde o Fundo...
Onde a decidida Âncora...

Como desamarrar as cordas do Tempo...

Este conteúdo vazio
Exorcizá-lo como...

Diletante bagageiro
Do prazer do Vago...

Flutuo em atmosfera
Raramente feita...

Qual o Horizonte
Ao qual me dirija...

Lá estará Alguém...

...abraça-me doce indefinição...

Publicado por morfeu às 11:51 PM | Comentários (1)

setembro 30, 2004

Proa repousando em denso azul...

foto-353.jpg
Foto de Pedro Piedade

...proa airosa ousando namorar o azul denso escuro do mar
deixas em espelho a tua alma esborratada mas impressiva
afirmas metade de ti...porque o que para trás está não interessa?...

...sento-me e contemplo como dádiva a tua paz colorida...

Publicado por morfeu às 11:14 PM | Comentários (6)

Vinum, vita, veritas, hibris...

foto-343.jpg

Foto de Pedro Piedade

Este aparente abandono de seres e coisas
Esta comunhão com a matéria
- em ritual de passagem na solidez -
Comove-me...Vinho vida hibris verdade...

...afeiçoei este montículo de lava
mexi-lhe com afecto para
assentar o peso arredondado e subtil
de um Vaso...

Aqui neste receptáculo de mão humana
escultura de necessidade simples
choraram as uvas saudades ...
de campos extensos em sol e vida
a sombra de uma folhagem...

...também choraram pela alegria futura
que em caridade ofertarão
a bocas sedentas diversas humanas...

...então a alma que sorvia o sol vento ar paisagem
transmigra em fatalidade...
reconhecendo subitamente a sua irmã outra...
...alma humana carente de vinum vita veritas hibris...

Publicado por morfeu às 01:18 PM | Comentários (2)

Moinho erguido na paisagem...

foto-349.jpg
Moinho, perto de Angra do Heroismo, Terceira, Açores. Foto de Pedro Piedade


Merecerá o viver muito mais que isto?
...esta nobreza útil bela simples
anonimamente erguida
amando o vento que a possui
sempre que por aqui passa?

...as florinhas doces crianças coloridas
fazem-lhe discreta companhia
namorando com o verde
apaixonando as pedras indiferentes...

Lá mais ao fundo a serra envolvente
e o céu que insiste em vestir de azul
testemunham...

Moinho esbelto que nasces na paisagem
fica por aí...
Sei que nos dizes:
"aflorai com o olhar a minha solidão
ouvi em sessão marcado o zunir das velas ausentes...
os vossos passos sejam ligeiros
suficientemente calmos mas efémeros...
disfrutai...
Um dia talvez já não esteja por aqui"...

Publicado por morfeu às 10:33 AM | Comentários (2)

agosto 18, 2004

Lambril...

lambril.jpg

O lambril guiava a tua serena mão
Em sobressalto de vista
Dava-te a exata segurança
Para
Atingires essa Profundidade do teu Desejo
Em azuis e amarelos colorido

...o lambril servia a tua serena mão...

Publicado por morfeu às 01:27 AM

agosto 17, 2004

Alda Lara, Testamento...

alda.jpg
Alda Lara


Testamento

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...

(poemas)

Publicado por morfeu às 05:35 PM | Comentários (1)

julho 27, 2004

Folhas atraídas pela gravidade do Tempo...

folhas.jpg
Foto de Pedro Piedade

Folhas atraídas
pela gravidade do Tempo...

De si próprias milagre
num hino á diversidade...

Natureza laborando
Com a temeridade da sua Beleza...

Explêndido tecido polícromo...

Com estas folhas apenas,
Recebo a benção carinhosa
Do Verão
Em fatal lua de mel
Com o húmus negro
Da terra desejante...

Olho,cheiro,beijo esta delicadeza mansa
Em fim de tarde...
Deito-me e simulo em simpatia
A minha propria eternidade...

Publicado por morfeu às 12:27 AM | Comentários (2)

julho 12, 2004

Simples poema para os mortos não habituais...

...(E a voz perfeita de Francisco Fanhais, conhecido por "padre Fanhais" antes do 25 de Abril, autor de várias canções de "intervenção", encheu a igreja com a "Canção da Cidade Nova": "Ao longe, longe, o sol já vem, eu já alcanço Jerusalém." E muitas das centenas de pessoas presentes acompanharam-no, no canto, comovidas: "Não tem distâncias esta cidade, senão o medo que nos invade.")

A morte quer-se enlevada em poesia
emoção e cantigas .
Todos de olhos bem abertos
Para desafiar o Tempo
Que parou em transformação.

Da sombra habitual do quotidiano,
Onde em Humildade habita,
O Poema levanta-se luminoso:
.Ao menos na morte faça-se Poesia
revelando almas e seres,
manifestantes da Alegria, da vida amantes..

.aos mortos constantes que se nos adiantam
honremos a coragem de nos acarinharem o caminho
que iremos percorrer.

Publicado por morfeu às 02:47 PM | Comentários (2)

Florinhas, virgens anónimas e desejantes...


Foto de Pedro Piedade

Pequenas flores,
Anónimas virgens desejantes
Do templo da Natureza sinais
Do trabalho titânico e delicado do Criador.

Abertas em louvor e dádiva do Ser
Ofereceis a vossa pele exterior
Para outros seres de filigrana
Primos do lado da fauna
Descansarem, restaurarem seus ventres delicados.

Estes
Ainda irão mover as mensagens aí depositadas
Levá-las para outro lugar
Onde
Se espraiam em segredos lentamente revelados.

Vós, florinhas
Virgens anónimas e desejantes.

.o meu sorriso será hoje mais aberto.

Publicado por morfeu às 02:09 PM | Comentários (1)

julho 11, 2004

Carta aos amigos mortos

Missa de Requiem,Frei Bento Domingues

Eis que morreste - agora já não bate
O vosso coração cujo bater
Dava ritmo e esperança ao meu viver

Agora estais perdidos para mim
- O olhar não atravessa esta distância -
Nem irei procurar-vos pois não sou
Orpheu tendo escolhido para mim
Estar presente aqui onde estou viva.

Eu vos desejo a paz nesse caminho
Fora do mundo que respiro e vejo.
Porém aqui eu escolhi viver
Nada me resta senão olhar de frente
Neste país de dor e incerteza.

Aqui escolhi permanecer
Onde a visão é dura e mais difícil
Aqui me resta apenas fazer frente
Ao rosto sujo de ódio e de injustiça

A lucidez me serve para ver
A cidade a cair muro por muro
E as faces a morrerem uma a uma
E a morte que me corta ela me ensina
Que o sinal do homem não é uma coluna.

E eu vos peço por este amor cortado
Que vos lembreis de mim lá onde o amor
Já não pode morrer nem ser quebrado.

Que o vosso coração que já não bate
O tempo denso de sangue e de saudade
Mas vive a perfeição da claridade
Se compadeça de mim e de meu pranto
Se compadeça de mim e de meu canto

S.M.B.A

Publicado por morfeu às 08:33 AM | Comentários (1)

julho 10, 2004

Para Sophia, a não perder (in Mil folhas)

Para Sophia

Publicado por morfeu às 12:37 PM

julho 01, 2004

"Toi et Moi"

Publicado por morfeu às 01:11 PM

junho 29, 2004

Apenas Gotas...

Foto de Pedro Piedade

Beleza fria, em dual afecto cromático,
Oposição ao calor dos dias estivais.

Não surges passiva.
Povoas a tua existência de gotas ambulantes,
Riachos mínimos em busca de uma foz,
De uma sede inesgotável.

De ti transpira a sugestão difícil,
Para a poesia aparecer, nessa respiração ondulante,
Oportunamente gélida.

Gotas num jarro,
Efeméride simples, em duas cores insinuantes.
Do azul recolho o Infinito,
Do Vermelho desejo e paixão.

Os meus olhos bebem tranquilamente desta dádiva,
Conhecem um repousar tranquilo neste gotejar da imaginação.

Gotas,
Num jarro,
Bênção em manhã estival e lenta.

Publicado por morfeu às 11:17 AM | Comentários (4)

junho 08, 2004

Um estiolar da vida, fatídico...

Insinua-se progressiva e inexoravelmente em mim
Um estiolar da vida, fatídico...

Uma vida irmanada a um dia,
Com ritmo algures estabelecido...

Vir do ventre duma noite invulgar,
Em sol madrugada emergir,
Beber uma tarde ansiosa,
Num crepúsculo dissolver-se...

A noite desenhou-se,
Anunciando o resto do caminho breve,
Num vislumbre de um seio e ventre cósmicos...

...cumpriu a sua vital missão,
Esta flôr, em fatídico e progressivo estiolar...

Publicado por morfeu às 11:11 PM

maio 29, 2004

Por aqui passam os meus mundos, em troca inevitável


Foto de Pedro Piedade


Estás aí em Tempo interrogativo,
Pórtico de alma desconhecida.
Olhar aberto em azul de foco negro, cósmico.

É um misterioso estar que nunca deslocaremos.
Lemos apenas uma sorte de .conhece-te., pelo conhecimento do meu olhar.

Dizes espelho.
A imagem que reflecte, diz-nos:
Aqui começa o meu mundo e o teu conhece fronteira.
Trocamos com os nossos olhares, cores, suavidades, afectos,
Fazemos raiar em tempestade súbita o mal, o ódio, e o mais.

Agora prefiro apenas, a mansidão tranquila desse teu colorido momentâneo.
Doce e gracioso espelho.porta mágica de uma alma única e inesgotável..

Publicado por morfeu às 02:29 AM | Comentários (3)

maio 18, 2004

Vigiando a luz da tarde descendente...


Foto de Morfeu

...com algum despudor, exibo-me às nuvens,
espreitando as telhas, rente,
afirmando a determinação de,
me substituir, em tarde- luz descendente,
à vaidade diária de um convencido sol,
que, contrariado oferece progressivamente, o lugar,
à noite sedutora, que se aproxima...

...veladamente substituo a claridade habitual, pelo véu,
misterioso, da penumbra,´
pelo manto definivamente negro da noite sensual...

...(a poesia que um candeeiro óbvio e simples e útil tem de aturar...)...

Publicado por morfeu às 10:13 PM | Comentários (2)

maio 16, 2004

Melancolia...


Foto de Pedro Piedade

Obceca-me este candeeiro.
Não oferece luz, talvez esmagado pela ameaça,
Branco acinzentada das Nuvens aparentemente distraídas.

Porque me colocaram aqui, se não cumpro a minha função?

Resigno-me neste estar sentinela,
Do tempo que passa, sarcástico e amoral,
Penetrando a minha aparente resistência,
Com penas melancólicas que cumpro fatalmente, sem brilho.

Maldita melancolia que te apossaste de mim,
Assim testemunha de não sei bem o quê,
Mas que de forma humilhante, húmida, contínua,
Me embrulha neste estar, sempre coberto em terrível e inominável Solidão.
.e a luz que não aparece.a minha.

Publicado por morfeu às 04:52 PM | Comentários (4)

maio 15, 2004

Sol e Janelas sg/M.G...

Foto de M.Gonçalves...visitem-no

Abençoados reflexos,aparentemente secundários...
Sois peregrinos de outros planos,para,
em missão,
afeiçoar em poalha luminosa,essa,
arquitectura branca, em que o azul respira,ora,
de forma magra e pictórica, pelas janelas, duas,
(em reserva uma...)

De cima sentinela espraiada observa, quem,
Em baixo, recusa o rastejo e desafia com donaire,
esse azul e branco disfarçe...dum Infinito, do Ser, de um
Deus viajante...

Publicado por morfeu às 04:36 PM

maio 14, 2004

Olhos...


Foto de Pedro Piedade

Espelha-se a alma nesta miríade perscrutadora,
Portas de luz, gelosia da sombra e da escuridão.
Interrogam o Infinito mesmo sabendo que o não alcançam.
Anjos da curiosidade,
Chamemos-lhes apenas olhos.

Publicado por morfeu às 12:12 AM | Comentários (2)

maio 10, 2004

Papoila enganosa e sensual...

Foto de Pedro Piedade

Lembrando . me campo florido, maré extensa.
Ressaltando do verde usual, afoita, afirma-se
Papoila.

Luxuriosa planta, vestida de vermelho sensual,
Pintada a sangue, lolita floral
De manifesto encanto.

No centro esboça-se encantadora penugem,
Apenas revelada, cruz de sentidos em rota de gozo e sofrimento.

Flor ardente e enganosa, de ardis subentendidos,
Anjo vegetal que atrais olhos tantos,
Cor vaporosa de essenciais assessórios.

No centro repousa um buraco negro,
Roleta de vida e de morte.

Eros e thanatos desenham os seus planos.

Publicado por morfeu às 08:29 PM | Comentários (2)

O poeta beija tudo, graças a Deus...

Pensamento para hoje

"Eu chorava por não ter sapatos até que um dia encontrei um homem que não tinha pés. "
(Autor desconhecido)

Lido Aqui

O poeta beija tudo, graças a Deus... E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade... E diz assim: "É preciso saber olhar..."

E pode ser, em qualquer idade, ingénuo como as crianças, entusiasta como os adolescentes e profundo como os homens feitos...

E levanta uma pedra escura e áspera para mostrar uma flor que está por detrás... E perde tempo (ganha tempo...) a namorar uma ovelha... E comove-se com cousas de nada: um pássaro que canta, uma mulher bonita que passou, uma menina que lhe sorriu, um pai que olhou desvanecido para o filho pequenino, um bocadinho de Sol depois de um dia chuvoso...

E acha que tudo é importante... E pega no braço dos homens que estavam tristes e vai passear com eles para o jardim...

E reparou que os homens estavam tristes...

E escreveu uns versos que começam desta maneira: "O segredo é amar..."
(Sebastião da Gama)

Publicado por morfeu às 08:05 PM | Comentários (1)

maio 06, 2004

Labrador...

Foto de Pedro Piedade
Descrição:
Nina, a cadela labrador do Nuno.

Alterando uma letra teremos Lavrador.
Assim, posso reconhecer, neste ser magnífico,
Capacidade de lavrar os campos da amizade,
Da confiança, ser um cultivador da presença.

Nobre animal, de espécie dita doméstica,
Afianças, pelo teu rosto uma dedicação,
Para lá dos limites, sorvendo pelo convite de rosada língua,
O ambiente dos humanos que te rodeiam,
Reconhecendo-lhes pelo olfacto, o direito,
Á tua presença.

Acompanharás com fidelidade que se quer recíproca,
O humano ser e, se preciso,
Farás como um outro teu companheiro,
Em tempos idos,

Restarás a seu lado,
Mesmo que te exijam a eternidade.

Publicado por morfeu às 01:06 PM | Comentários (6)

abril 29, 2004

Um Inferno por mim ardeu...preces


Autor:Manuel Gonçalves


PRECES

Um Inferno por mim ardeu,
Alimentando-se de seiva boa e virgem.
Paguei os meus pecados, inocente.

Assim, e agora, posso esgrimir a minha raiva,
Multiplicando gestos que são braços,
Apontados ao alto em sincera revolta.

Deuses que passeais ociosos,
Desfrutando desse azul conscientemente purificado,
Respondei-me:

Porquê o gesto desabrido,
Qual o sentido de fenómeno inútil,
Porque fatalidade acendestes,
A faúlha que se derramou sobranceira,
Semeando dores vegetais que desafiam as humanas?

Neste contrastante poder de céus e terra,
Honradamente,
Mas com denodo,
Teço as minhas preces,
Simples,
Elaboradas,
Terríveis,
Orgulhosamente solitárias.

Publicado por morfeu às 08:19 PM

abril 28, 2004

Em busca do sublime de coisas simples encontrei um velho telhado.


Foto de Pedro Piedade

Em busca do sublime de coisas simples encontrei um velho telhado.
Cada telha sua história, cada cor sua odisseia.

Chilreando o ar, um pardal ausente aflora tímido, a segurança de um chão.

As telhas de argila inicial, floriram em exercício temporal.
Afagaram o vento, suportaram a catarse da chuva em violência, -
Fronteira entre a privacidade toca do humano bicho -
Limitam conscientemente o acesso ao além, ao transporte para o Infinito.

Em dias luminosos deixam-se seduzir pelas ondas vibrantes do sol, que,
Em talhe de artista decide paletar a sua superfície, outrora uniforme, dando-lhe
Caras diferentes, esmerando em variedade, ali pondo rasgo ou orifício necessário
Além aceitando o original.

Em dias primaveris, na soalheira sucessora, em Outono calmo, em velhice invernosa,
Não consigo abandonar a imagem desta placa irregular, por nostalgia de simplicidade,
Por paixão de airosa companhia.

Telhado velho dá-me a tua bênção prática e temporal,
Mantém a tua sombra,
Reza pelo meu estar.

Publicado por morfeu às 06:02 PM | Comentários (3)

abril 25, 2004

Com um dois e um cinco, vinte e cinco.


Com um dois e um cinco, vinte e cinco.

Consequência do Tempo, da Estação, brota,
Da pauta do calendário em Primavera,
Abril.

Factores amantes, ligam-se em paixão, e temos:
Abril 25, vinte e cinco de Abril.

Desta paixão nascida, será o fruto novo, apetecido.
Quem senão a Liberdade poderia iluminar este noivado?

2 e 5 e Abril, .Vinte e cinco de Abril., cravo de vermelho aberto,
Sempre!

Publicado por morfeu às 12:44 AM | Comentários (3)

abril 05, 2004

Dos Amores do Redentor...Samaritana

Dos amores do redentor
não reza a história sagrada
mas diz uma lenda encantada
que o bom Jesus sofru de amor.

Sofreu consigo e calou
sua paixão divinal
assim como qualquer mortal
um dia de amor palpitou.

Samaritana, plebeia de Sicar
Alguém espreitando te viu Jesus beijar
De tarde quando foste encontrá-lo só
Morto de sede junto à fonte de Jacob.

E tu risonha acolheste
o beijo que te encantou
Serena, empalideceste
e Jesus Cristo corou
Corou por ver quanta luz
irradiava da tua fronte
Quando disseste ó bom Jesus
que bem eu fiz, Senhor, em vir à fonte.

Samaritana...

Letra e música: Eduardo Bettencourt (fado de Coimbra)

PS.-Esta semana, de 3ª a 6ª feira passa no Canal História- às 18 e 24 horas- "O Caminho De Jesus", uma perspectiva histórica e arqueológica...Sugiro...

Publicado por morfeu às 10:57 PM | Comentários (1)

março 22, 2004

Sem Poesia não há Humanidade...

Sem Poesia não há Humanidade. É ela a mais profunda e a mais etérea manifestação da nossa alma. A intuição poética ou orfaica antecede, como fonte original, o conhecimento euclidiano ou científico. E nos dá o sentido mais perfeito e harmónico da vida. Aperfeiçoando o ser humano, afasta-o do antropóide e aproxima-o dos antropos. Que a mocidade actual, obcecada pela bola e pelo cinema, reduzida quase a uma fotografia peculiar e uma espécie de máquina de fazer pontapés, despreza o seu aperfeiçoamento moral; e, com o seu fato de macaco, prefere regressar à Selva a regressar ao Paraíso. E assim, igualando-se aos bichos, mente ao seu destino, que é ser o coração e a consciência do Universo: o sagrado coração e o santo espírito. Eis o destino do homem, desde que se tornou consciente. E tornou-se consciente, porque tal acontecimento estava contido nas possibilidades da Natureza. Sim, a nossa consciência é a própria Natureza numa autocontemplação maravilhosa. Ou é o próprio Criador numa visão da sua obra, através do homem. E, vendo-a, desejou corrigi-la, transfigurando-se em Redentor.

Teixeira de Pascoaes, in "A Saudade e o Saudosismo"

( Recolhido de http://citador.pt/ )

Publicado por morfeu às 12:09 PM | Comentários (1)

março 17, 2004

Sentinelas angustiadas...


Pedro Piedade

Numa emergência,
colocámo-nos aqui,
as três,
em íntima e profunda relação.
Para,
Guardar...

Assim a postura é altiva, mas,
a vestimenta afigura-se-nos,
uma verdadeira angústia.

Temos braços múltiplos ou ramos?
Estamos vigilantes ou amedrontados?
Guardamos o alto ou baixo?

Três gritos em uníssono,
aqui,
são lançados,
como sinal de vigilância
do
INFINITO...

Publicado por morfeu às 12:01 AM | Comentários (4)

março 08, 2004

SIMPLES, BELO, ODOROSO PÃO...


foto de Pedro Piedade

Difícil amassar poesia...

Conheço hoje,
Com sabor a forno e nostalgia de lenha
Mais um momento feliz,
Na minha anónima existência...

Olhando para esta dádiva,
Para esta odorosa oferta,
Quero apenas
Ser
Agora...


Desistir da poesia se necessário,
E,
Ficar em contemplação...

Do pão eis o milagre...

Publicado por morfeu às 08:30 PM

fevereiro 28, 2004

BLOGO, LOGO, NÃO EXISTO...

...Quem por estranhos caminhos, desemboca,
nesta estranheza que não se sabe real ou virtual(à MESMA REAL), deve,
ter a consciência total de que,
bloga, logo não,
Existe...
Assim,poderá, dormir,
descansado,
esperando,isso sim,
o total,
Esquecimento...
Blogo logo não existo...Ámen

Publicado por morfeu às 07:43 PM | Comentários (3)

INTERPELANDO A CITAÇÃO DO DIA

"A sabedoria da vida é sempre mais profunda e mais vasta do que a sabedoria dos homens"
Gorky, Máximo

...na ausência inapelável de Deus,
a sabedoria única,
a existir ( não sabendo de ciência certa d'outras inteligências)
será a do Homem...
Gorki que me perdoe,
embora eu o perceba (ou não)
mas,
falar em sabedoria da vida, só,
pela mediação do homem, isso,
pode,
acontecer...
Digo,
em dia de óptimo convencimento:
A sabedoria a não ser divina, só,
mas mesmo só,
resulta deste ser que,
se,
é,
da,
Humana espécie, é,
por isso,
Homo...

Publicado por morfeu às 07:35 PM

SOLITUDINE

Solitudine...

.julgara-se um herói: com medo, mas com coragem, visto que afrontara aquele e não se deixara soçobrar.

Não esquecia uma juventude escondida no meio do pinhal do internato. Protegido, aparentemente couraçado, crente...
Tudo desaparecera na entrada da vida adulta: segurança, convicções e por último, deixara de abrigar Deus.
Muitos anos depois, a rajada violenta da solidão: sentimento de apenas ser um si próprio, rodeado por alguns fantasmas pouco familiares. De Noite, espreitava a escuridão do lugar, na ânsia de uma luz que fosse, de um ente acordado, de algum movimento...um cão ladrara, os eucaliptos enormes, sombrios assobiavam sarcásticos, fazendo-o ainda mais ridículo na sua solitude...

....dentro de si uma voz semi amordaçada gritava por uma mão,
por um toque que tivesse o poder da crença,
por sinal amoroso que fizesse regressar a presença desse
Consolo inefável que preenchia o infinito...

Publicado por morfeu às 04:32 PM

fevereiro 27, 2004

Do rui belo para ele...

GRANDEZA DO HOMEM

Somos a grande ilha do silêncio de deus
Chovam as estações soprem os ventos
jamais hão-de passar das margens
Caia mesmo uma bota cardada
no grande reduto de deus e não conseguirá
desvanecer a primitiva pegada
É esta a grande humildade a pequena
e pobre grandeza do homem

Rui Belo (in antologia da poesia portuguesa - Moraes Ed.)

Publicado por morfeu às 11:07 PM

TERNURA E MÁGOA DAS PEQUENAS COISAS SINGULARES...

Ò MINHA SINGULAR AVE DE DEUS!!!
ESCOLHESTE ESTE DIA LUMINOSO,
TATEANDO O CHÃO FRIO DE PEDRA.

...DO AZUL TURQUEZA QUERES,
FAZER IDEALMENTE O TEU ESPELHO, MAGNÍFICO,MAS,
NUMA HUMILDE ARROGÂNCIA, ENCOLHESTE-TE , INDIFERENTE,
ALHEIA À VAIDADE DE TUDO O MAIS E FICAS,
CONTIGO,
SÓ,
NUMA PEQUENEZ DE SER BILHANTEMENTE INÚTIL...

...
PASSEIA AVEZINHA,PASSEIA,
NESTAS BEIRAS DO ILIMITADO...
O RIO ESTÁ LÁ PARA,
APENAS DIZER-TE:
CAMINHA AO LONGO DE MIM,
EU ACOMPANHO-TE. E TU ,
ME DIRÁS:
LUZENTE E ONDULANTE SERPENTE,
AFINAL NÃO ESTAMOS SÓS...

foto pedro visitem-no!

Publicado por morfeu às 10:00 PM | Comentários (2)

fevereiro 26, 2004

Ave desconhecida e magnífica


Foto de: Pedro Piedade
... magnífica pequena e insignificante,
contrastando de azul e nuvens, vens,
Ave desconhecida, acariciar,
como só tu sabes,
O Ar...
Do teu ser anónimo,
quiseste dar a conhecer-te, e, então,
vogaste, dançaste, fluiste...

Da minha mente arrancaste, facilmente,
a profundidade dos meus sonhos, e,
Eu contigo, subi, balancei,
voei afinal...
Nas tuas asas olhei horizontes impossíveis, acarinhando,
amplamente todos os seres,
visíveis,
invisíveis, porque,
na tua profunda e aparente insignificancia, és,
a representação de um deus vadio,
melhor,
És, voando, o próprio Deus, sabendo-se perdido...

Publicado por morfeu às 02:52 PM | Comentários (5)

ADAM...

Não te dei, ó Adão,


(autor do trabalho: josé emídio - )

...nem rosto, nem um lugar que te seja próprio, nem qualquer dom particular, para que teu rosto, teu lugar e teus dons os desejes,
os conquistes e sejas tu mesmo a possuí-los.
Encerra a natureza outras espécies, em leis por mim estabelecidas.
Mas tu,
que não conheces qualquer limite, só mercê do teu arbítrio, em cujas mãos te coloquei,
te defines a ti próprio.
Coloquei-te no centro do mundo,
para que melhor,
pudesses contemplar o que o mundo contém.
Não te fiz nem celeste nem terrestre, nem mortal nem imortal,
para que tu,
livremente,
tal como um bom pintor ou um hábil escultor,
dês acabamento à forma que te é própria...

Pico della Mirandola - (1463-1494)

...ouvindo"Adagio for strings" Barber...

Publicado por morfeu às 12:54 PM

fevereiro 25, 2004

21 gramas de ...em 4ª de Cinzas


William Blake, "tufão da vida e dos amantes"

Perpassar pelos cantos da vida e da morte,
Somando um caos aparente de diversidade...
Ter a ambígua sensação de não estar e pertencer a este lugar...

...onde está a barca da travessia, pois,
o óbulo já está - por precaução- colocado,
bem no centro da língua...a boca apenas entreaberta.

Estamos aqui e já não estamos daqui a bocadinho...
Eis em que consiste a simples Felicidade: Estar!

Depois, é o que for,
4ª feira, dia de cinzas,
com 21 gramas,
uma conversa com Deus,
dia de felicidade pontual,
de pó, o dia...

"...lembra-te que és pó..."

No entretanto, também,
pertencemos,
ao brilho das estrelas, que,
nos legaram,
o seu rasto de poeira de luminosidade escondida...

Vinte e um gramas,
perdi? ganhei?...

Publicado por morfeu às 05:57 PM | Comentários (2)

fevereiro 24, 2004

Epitáfios em dia de Entrudo...

Epitáfio
De um Cão

Aos ladrões eu ladrava,calava-me aos amantes,
E assim servia dono e dona, em duas frentes.

De um cozinheiro

Como o mundo em geral anda sempre às avessas!
Aqui um cozinheiro seu descanso encontrou,
Que em vida muitos e bons pratos cozinhou.
Comem-no agora os vermes - cru e sem travessas!

MARTIN OPITZ ( 1597 -1639)
in O Cardo e a Rosa - Poesia do Barroco Alemão
(Trd. de João Barrento) ...poemário 2004 Assírio e Alvim

Publicado por morfeu às 03:46 PM | Comentários (1)

fevereiro 18, 2004

QUEM ME OFERECE UMA CEREJEIRA...


A CEREJEIRA EM FLOR

O camponês afeiçoou-se a uma cerejeira desde que sua mulher faleceu. Todas as manhãs a visitava, afagando o seu tronco. No mês em que o camponês esteve de cama, com bronquite, também a cerejeira adoeceu. Depois levantou-se e voltou a acariciá-la e a falar-lhe e, rapidamente, a cerejeira de mil folhas enfeitou seus ramos.
Um dia, no mercado, ao comprar uma foice, o camponês sentiu um irresistível desejo de regressar aos seus campos. Parecia-lhe que a cerejeira precisava de si. Encontrou-a toda florida, sorrindo para ele.

Sentou-se, então, sob a árvore, com as costas apoiadas no tronco e, de improviso, sobre o corpo do camponês, choveram todas as pétalas da cerejeira em flor.

TONINO GUERRA (1920)
Histórias para uma noite de calmaria
( in Poemário, Assírio e Alvim- Tr. De Mário R.de Oliveira)

Publicado por morfeu às 08:08 PM | Comentários (2)

fevereiro 14, 2004

A oração de Fernando Pessoa...


"Velho Cais"

Foto de: Pedro Piedade
A oração de F.Pessoa

.Senhor, (...)
Dá-me alma para te servir e alma para te amar.
Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra,
Ouvidos para te ouvir no vento e no mar,
E mãos para trabalhar em teu nome.

Torna-me puro como a água e alto como o céu.
Que não haja lama nas estradas dos pensamentos,
Nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos.

Faz com que eu saiba amar os outros como irmãos, e,
Servir-te como a um pai.
(...)
Minha vida seja digna da tua presença.
Meu corpo seja digno da terra, tua cama.
Minha alma possa aparecer diante de ti,
Como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol,
Para que eu te possa adorar em mim;
E, torna-me puro como a Lua,
Para que eu te possa rezar em mim;
E torna-me claro como o dia para que,
Eu te possa ver sempre em mim e rezar-te,
E adorar-te.

Senhor, protege-me e ampara-me.
Dá-me que eu me sinta teu.

Senhor, livra-me de mim..

Esta era a belíssima oração de Fernando Pessoa, num texto que deve ser de 1912...
(In .Janela Invisível., de A. Borges . adaptação...)

Publicado por morfeu às 10:56 AM

fevereiro 10, 2004

E.Munch, "A essência do Grito"...

E.MUNCH: O GRITO ESSENCIAL


Depois de ti Edvard, ninguém,
Mesmo ninguém pode, voltar a Gritar...

Pela loucura das tuas cores esmagaste,
Totalmente os gritos posteriores, Pariste
Definitivamente pelo Grito, Todos
Mas todos os Ais profundos e enormes,
Que se alojam na alma do Ser...

Puseste lá o gesto e o feitio exactos,
A abertura milimétrica de uma boca dolorosamente contorcida,
Desfiguraste o rosto perdido, alongaste o crânio cadavérico, beijando a Morte,
Como se a Dor fosse resultado de duas mãos enormes a esmagar...

Não contente ainda, distorceste, angustiaste,
O caminho longilíneo e ondulante, irmão de um fiorde,
De águas irreais à superfície, cheirando a loucura.
Duas figuras mais, puseste um barco meio perdido e
O esboço de uma Povoação ainda.

Assim, num abraço constrangente de paisagem, calaste,
Calaste para sempre todo o Grito,
Esgotaste em absoluto a essência
Da Dor,
Espelhaste e esvaziaste a nossa Alma...

No Grito foste Deus...

Ps.Coincidiu ouvir em simultâneo a "Avé Maria" de Otello de G.Verdi, Cena 4...

Publicado por morfeu às 04:39 PM | Comentários (1)

fevereiro 09, 2004

EDVARD MUNCH


O grito,
o grito verde, adstringente,

e as raparigas na ponte,
evitando a repetição das cores

e o fascínio da água.

Eu que não sei,
que posso aprender?

José Alberto Oliveira (1952)
por alguns dias

Publicado por morfeu às 10:39 PM | Comentários (1)

fevereiro 06, 2004

VEM NOITE ANTIQUÍSSSIMA...final


huble,via Reuters


VEM NOITE ANTIQUÍSSSIMA...final

Sugiro acompanhar a leitura integral deste poema com a audição de:
"Richard Wagner, Meistersinger - abertura e coral introdutório"...principalmente os últimos 4 minutos...

(continuação)

Vem sobre os mares,
Sobre os mares maiores,
Sobre os mares sem horizontes precisos,
Vem e passa a mão pelo dorso da fera,
E acalma-o misteriosamente,
Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!

Vem cuidadosa,
Vem, maternal,
Pé ante pé enfermeira antiquíssima, que te sentaste
À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,
E que viste nascer Jeová e Júpiter,
E sorriste porque tudo te é falso e inútil.

Vem noite silenciosa e extática,
Vem envolver no teu manto branco
O meu coração...
Serenamente como uma brisa na tarde leve,
Tranquilamente como um gesto materno afagando,
Com as estrelas luzindo nas tuas mãos
E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.

Todos os sons soam de outra maneira
Quando tu vens.
Quando tu entras baixam todas as vozes,
Ninguém te vê entrar.
Ninguém sabe quando entraste,
Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
Que tudo perde as arestas e as cores,
E que no alto céu ainda claramente azul
Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem,

A lua começa a ser real.

Alvaro de Campos

Publicado por morfeu às 01:41 PM | Comentários (1)

fevereiro 04, 2004

VEM SOLENÍSSIMA...VEM DOLOROSA

Vem soleníssima,
Soleníssima e cheia
De uma oculta vontade de soluçar,
Talvez porque a alma é grande e a vida pequena,
E todos os gestos não saem do nosso corpo,
E só alcançamos onde o nosso braço chega,
E só vemos até onde chega o nosso olhar.

Vem, dolorosa,
Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
Turris-Ebúrnea das Tristezas dos Desprezados,
Mão fresca sobre a testa em febre dos Humildes,
Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.
Vem, lá do fundo
Do horizonte lívido,
Vem e arranca-me
Do solo de angústia e de inutilidade
Onde vicejo.
Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina,
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.

Idem...

Publicado por morfeu às 09:05 PM

Nossa Senhora das coisas impossíveis...

VEM NOITE ANTIQUÍSSIMA...
(continuação)

Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas,
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...

Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos,
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.

Álvaro de Campos

Publicado por morfeu às 09:11 AM

fevereiro 03, 2004

VEM, NOITE ANTIQUÍSSIMA E IDÊNTICA...

Vem noite antiquíssima e idêntica,
Noite rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde escuro ao longe,
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
Na distância subitamente impossível de percorrer
.

(...) Álvaro de Campos...
(continua)....

Publicado por morfeu às 08:01 PM | Comentários (1)

fevereiro 02, 2004

NOME ESCONDIDO

Nome escondido

O verdadeiro Nome não é aquele que doura os pórticos, ilustra
os actos;nem o que o povo resmoneia de enfado;

O Verdadeiro Nome tão-pouco é lido no Palácio, nem nos jardins
ou nas grutas, mas vive escondido pelas águas sob a abóbada do
aqueduto onde eu me dessedento.

Somente na muito grande sequidão, quando o Inverno crepita
sem fluxo, quando os mananciais, baixos ao extremo, se esconcham
nos seus gelos,

Quando o vazio está no coração do subterrâneo e no subterrâneo
do coração, - onde o próprio sangue já não gira, - sob abóbada
então acessível pode recolher-se o Nome.

Mas derretam as águas duras, explua a vida, vem a torrente
devastadora primeiro que o Conhcimento!

VICTOR SEGALEN (1878-1919)
Mesa de amigos
( versão por Pedro Silveira )

Publicado por morfeu às 11:41 AM

INVERNO

É noite, inverno desfeito. Entreabres
um pouco as cortinas. Vibra
a selva dos teus cabelos, a alegria
dilata-te imprevista os olhos negros;
porque o que viste - era uma imagem
do fim do mundo - te conforta
o íntimo coração, já quente e pago.

Um homem aventura-se num lago
de gelo, sob uma lâmpada evasiva.

UMBERTO SABA(1883-1957)
Mesa de amigos
(versão por Pedro da Silveira
)

Publicado por morfeu às 11:18 AM

janeiro 30, 2004

GAIVOTA SOLITÁRIA


foto de Pedro Piedade

...encontrei-me em dia de Inverno perante,
paisagem lacunar, translúcida, com luz branqueando, divina,
numa terra de seres de índole humana, esculpidos a sal.
O olhar abriu-se em curiosidade larga, pousante,
aqui e ali tacteando, até parar...
Pequeno ser ínfimo ao olhar descuidado, mas,
revelando.se progressivamente, saliente na sua existência,
momentaneamente solitária em prece extática,
comungando largamente com o absoluto da paisagem,
branca, enevoada de sal, com brilhos de efemeridade,
que uma simples imagem capta inutilmente...

Publicado por morfeu às 07:45 PM

janeiro 29, 2004

CERTA VOZ NA NOITE, RUIVAMENTE...

...DEDICADA AO NOSSO INCONTORNÁVEL XUPACABRAS...
(...caso passes por aqui, proponho-te que arranjes uma foto adequada a este magnífico soneto...)

CERTA VOZ NA NOITE, RUIVAMENTE...

Esquivo sortilégio o dessa voz, opiada
Em sons cor de amaranto, às noites de incerteza,
Que eu lembro não sei d'Onde - a voz de uma Princesa
Bailando meia nua entre clarões de Espada.

Leonina, ela arremessa a carne arroxeada;
E bêbada de Si, arfante de Beleza,
Acera os seios nus, descobre o sexo...Reza
O espasmo que a estrebucha em Alma copulada...

Entanto nunca a vi mesmo em visão.Somente
A sua voz a fulcra ao meu lembrar-me.Assim
Não lhe desejo a carne - a carne inexistente...

É só de voz-em-cio a bailadeira astral -
E nessa voz-Estátua, ah nessa voz-total,
É que eu sonho esvair-me em vícios de marfim...

Lisboa 1914 - janeiro 31.

MÁRIO DE SÁ - CARNEIRO (1890-1916)
Poemas completos

Publicado por morfeu às 10:13 AM

janeiro 28, 2004

O Vento...


O vento nos pinheiros
Sussurra noite e dia
Nas orelhas do cavalo de pedra
No templo da montanha
Onde ninguém reza.

ISHIKAWA TAKUBOKU (1886-1912)
In poemário A/Alvim - trd.J.A.Oliveira

Publicado por morfeu às 12:02 AM | Comentários (1)

janeiro 24, 2004

Tronco de verdes ramos despojado...

Tronco de verdes ramos despojado,
que outrora foste um abrigo sombrio
e agora estás sob o janeiro frio
tanto mais seco quanto mais molhado,
ditoso és tu, que nesse pobre estado
és mais feliz que eu neste em que porfio;
infeliz eu, que triste desconfio
de poder ser, como tu, inda invejado.
Essa pompa que o frio debilita
por aquela estação florida espera
que aviva flores, troncos ressuscita.
Cumpre o ano seu giro, e lisonjeira
a primavera a todos vos visita;
só meu amor nunca tem primavera.

EUGÉNIO GERARDO LOBO (1679-1750)
in antologia da Poesia Espanhola das Origens ao Século XIX

Publicado por morfeu às 06:37 PM

YAQUIS - Canção


Pequeno veado entre as flores,
paras debaixo da grande flor da árvore grande,
esfregas os cornos,
curvando e volteando-os, esfregas, esfregas os cornos.

E ao longe, na Terra Florida, debaixo do Amanhecer,
paras debaixo de outra grande flor de outra árvore grande,
esfregas os cornos.
Pequeno veado entre flores,
paras debaixo da grande flor da árvore grande,
curvando e volteando-os, esfregas, esfregas os cornos.

Poemas Ameríndeos
(poemas mudados para português po H.Helder...in poemário A/alvim, 2004)

Publicado por morfeu às 03:00 PM

janeiro 22, 2004

DACTILOGRAFIA. A. Campos

Dactilografia

Traço sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Firmo o projecto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tic-tac estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjecção esta regularidade!
Que sono este ser assim!

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.

Outrora.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tic-tac estalado das máquinas de escrever.

Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.

Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na outra...

Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
Ergue a voz o tic-tac estalado das máquinas de escrever.

Álvaro de Campos

Publicado por morfeu às 11:05 PM

janeiro 20, 2004

ADIAMENTO...F. Pessoa(cont..)

(...)
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Por hoje, qual é o espectáculo, que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

F.Pessoa, in "Clássicos", Antologia poética, Ed.Público

Publicado por morfeu às 10:33 PM | Comentários (3)

...nesta tarde de uma luz numinosa, agradeço...

...nesta tarde de uma luz numinosa, agradeço...
agradeço poder estar aqui, saboreando alguns breves momentos...
ver da minha janela os ramos nus mas sinceros porque vestidos de inverno, de um pessegueiro desgrenhado...
neles contemplar silenciosamente três ínfimos pequenos seres pardais,
que me ensinam o prazer do estar, o extase da vida, não se sabendo contemplados,
teimando em mostrar-me quão gloriosa é a vida à minha frente desenhada...

(...ouço Peter Gabriel em "Don't give up")

PETER GABRIEL LYRICS
"Dont Give Up" (So)

in this proud land we grew up strong
we were wanted all along
I was taught to fight, taught to win
I never thought I could fail

no fight left or so it seems
I am a man whose dreams have all deserted
I've changed my face, I've changed my name
but no one wants you when you lose

don't give up
'cos you have friends
don't give up
you're not beaten yet
don't give up
I know you can make it good

though I saw it all around
never thought I could be affected
thought that we'd be the last to go
it is so strange the way things turn

drove the night toward my home
the place that I was born, on the lakeside
as daylight broke, I saw the earth
the trees had burned down to the ground

don't give up
you still have us
don't give up
we don't need much of anything
don't give up
'cause somewhere there's a place
where we belong

rest your head
you worry too much
it's going to be alright
when times get rough
you can fall back on us
don't give up
please don't give up

'got to walk out of here
I can't take anymore
going to stand on that bridge
keep my eyes down below
whatever may come
and whatever may go
that river's flowing
that river's flowing

moved on to another town
tried hard to settle down
for every job, so many men
so many men no-one needs

don't give up
'cause you have friends
don't give up
you're not the only one
don't give up
no reason to be ashamed
don't give up
you still have us
don't give up now
we're proud of who you are
don't give up
you know it's never been easy
don't give up
'cause I believe there's the a place
there's a place where we belong

Publicado por morfeu às 01:52 PM | Comentários (8)

ADIAMENTO. F. PESSOA

...Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
...................................................................Só depois de amanhã...

(continua...)

Publicado por morfeu às 01:15 PM | Comentários (3)

janeiro 17, 2004

AS VOZES...

A infância vem
pé ante pé
sobe as escada
e bate à porta

- Quem é?
- É a mãe morta
- São coisas passadas
- Não é ninguém

Tantas vozes fora de nós!
E se somos nós quem está lá fora
e bate à porta? E se nos fomos embora?
E se ficámos sós?

Manuel António Pina (1943)
Nenhuma palavra e nenhuma lembrança

Publicado por morfeu às 09:53 AM

Aqui na orla da praia,....

Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.

A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.

Por isso na orla morena da praia calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.

Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.

Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.

Fernando Pessoa

Publicado por morfeu às 12:28 AM | Comentários (2)

janeiro 13, 2004

COLAPSO

Tudo está
eternamente
escrito
(Spinosa)

Tudo está
eternamente
em Quito
(Uma Rosa)


Mário Cesariny (1923)
Manual de prestidigitação

Publicado por morfeu às 09:17 AM | Comentários (3)

janeiro 12, 2004

NESTA ÚLTIMA TARDE EM QUE RESPIRO...

Nesta última tarde em que respiro
a justa luz que nasce das palavras
e no largo horizonte se dissipa
quantos segredos únicos, precisos
e que altiva promessa fica ardendo
na ausência interminável do teu rosto.

Pois não posso dizer sequer que te amei nunca
senão em cada gesto e pensamento
de dentro destes vagos vãos poemas;
e já todos me ensinam em linguagem simples
que somos mera fábula, obscuramente
inventada na rima de um qualquer
cantor sem voz batendo no teclado;
desta falta de tempo, sorte, e jeito,
se faz noutro futuro o nosso encontro.
E como, em noite parda, esse escritor demente
descobre no papel as formas do seu fim,
sem desistir de ti, ainda que as águas cubram
de escamas a mansa pele,
ao meu delgado corpo de ar sonoro
ato em nova aliança o antigo canto.

ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE (1944)

Uma fábula - in poemário A/Alvim, 2004

Publicado por morfeu às 08:12 PM

HOJE LEMBRO-ME DE TI ZECA AFONSO

FUI À BEIRA DO MAR

Fui à beira do mar
Ver o que lá havia
Ouvi uma voz cantar
Que ao longe me dizia

Ó cantador alegre
Que é da tua alegria
Tens tanto para andar
E a noite está tão fria

Desde então a lavrar
No meu peito a Alegria
Ouço alguém a bradar
Aproveita que é dia

Sentei-me a descansar
Enquanto amanhecia
Entre o céu e o mar
Uma proa rompia

Desde então a bater
No meu peito em segredo
Sinto uma voz dizer
Teima, teima sem medo

Ó cantador alegre....


Continuas por cá, Zeca...

morfeu

Publicado por morfeu às 12:12 PM | Comentários (5)

janeiro 11, 2004

Tai Fu Ku

NUMA AZÁFAMA CONSTANTE


Os negócios não os deixam descansar
De noite fazem contas de dia galopam
A sua vida é uma azáfama constante
Desconhecem que sobre as suas casas o céu azul

Tai Ku Fu (c. 1198)
in Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro
(Tra. de Jorge de Sousa Braga)

Publicado por morfeu às 09:20 PM | Comentários (3)

janeiro 10, 2004

POEMA DE AMOR DO ANTIGO EGIPTO

Há flores de Zait no jardim.
Corto e junto flores para ti,
Faço-te uma grinalda,
E quando ficares ébrio
E te deitares com esse sono,
Sou eu quem te lava os pés para lhes tirar o pó.

Poema de Amor do Antigo Egipto
(tra. de Helder Moura Pinheiro)

Publicado por morfeu às 12:50 AM | Comentários (6)